sábado, 31 de janeiro de 2026

São João Bosco, fundador dos salesianos, Pai e Mestre da Juventude

 

A 31 de janeiro, celebrou-se a memória litúrgica de São João Bosco, o fundador da Congregação Salesiana (os salesianos), também conhecido como patrono e mestre da juventude e que escreveu, pouco antes da sua morte: “Um só é o meu desejo: que sejam felizes no tempo e na eternidade.”
João Melchior Bosco Occhiena nasceu, a 16 de agosto de 1815, na aldeia del Becchi, perto de Morialdo em Castelnuovo, no Norte da Itália, numa família humilde. Quando tinha dois anos, o pai morreu e a mãe, a serva de Deus Margarida Occhiena, analfabeta e pobre, foi responsável pela educação dos filhos.
Aos nove anos, João Bosco viu, num sonho, uma multidão de meninos que brigavam e blasfemavam. Tentou silenciá-los com os punhos. Então, apareceu Jesus Cristo e disse-lhe que devia ganhar os meninos com a mansidão e a caridade e que sua professora seria a Virgem Maria. A Mãe de Deus vaticinou: “A seu tempo compreenderá tudo.” Inicialmente, não conseguiu entender o sonho, mas foi-o esclarecendo, de diferentes maneiras, com o tempo.
João Bosco teve de estudar e trabalhar, ao mesmo tempo. Com o desejo de ser sacerdote, ingressou no seminário de Chieri e conheceu São José Cafasso, que lhe mostrou as prisões e os bairros onde havia jovens necessitados. Foi ordenado sacerdote em 1841.
Iniciou o oratório salesiano, no qual, em todos os domingos, se reunia com centenas de meninos. No começo, a obra não tinha lugar fixo, até que conseguiram estabelecer-se no bairro periférico de Valdocco. Depois de uma enfermidade que quase lhe custou a vida, prometeu trabalhar, até ao final, por Deus, através dos jovens. Assim, dedicou-se, inteiramente, a consolidar e a estender a sua obra. Deu alojamento a meninos abandonados, ofereceu oficinas de aprendizagem e, apesar de ser um sacerdote pobre, edificou uma igreja em honra de São Francisco de Sales.
Em 1859, fundou os salesianos, tomando como modelo São Francisco de Sales, padroeiros dos jornalistas e dos comunicadores Mais tarde, fundou as filhas de Maria Auxiliadora e os cooperadores salesianos. Além disso, construiu a basílica de Nossa Senhora Auxiliadora, em Turim, e a basílica do Sagrado Coração, em Roma, somente com doações.
A sua presença na cidade italiana de Génova está ligada a muitas histórias e a alguns milagres, por exemplo, o que foi relatado pelo sacerdote salesiano padre Mauricio Verlezza.
O padre Verlezza, responsável pela Obra de Dom Bosco em Sampierdarena (Génova), de onde saíram as primeiras expedições missionárias para a Argentina, contou que o santo sacerdote celebrou uma Missa em 1872, na qual participaram muitos benfeitores. No final da celebração e logo depois de escutar a sua catequese, todos passaram pela sacristia da catedral de ‘San Siro’, para receberem a bênção do fundador dos salesianos, que tinha o costume de entregar a cada pessoa uma medalhinha de Nossa Senhora Auxiliadora. “As medalhinhas que estavam numa pequena bolsa eram muito poucas e o milagre foi que todos puderam recebê-la, apesar de, realmente, haver pouquíssimas na bolsa que o secretário entregou a Dom Bosco”.
Em seguida, contou o sacerdote, “São João Bosco olhava os seus sonhos missionários num mapa do Mundo que estava no quarto onde descansava durante a sua permanência em Sampierdarena”. “O meu único desejo é que sejam felizes no tempo e na eternidade”, deixou escrito aos jovens Dom Bosco, que morreu no dia 31 de janeiro de 1888, depois de ter vivido aquela frase que disse ao seu aluno são Domingos Sávio: “Nesta casa fazemos consistir a santidade em estar sempre muito alegres.”
Foi beatificado, em 1929, e canonizado, em 1934.

***

Em 26 de janeiro de 1854, com cerca de 39 anos, São João Bosco deu, pela primeira vez, o nome de “salesianos” – em homenagem a São Francisco de Sales – a um pequeno grupo de jovens desejosos de seguirem os seus passos.
“Na tarde de 26 de janeiro de 1854, começou ‘oficialmente’ a aventura carismática salesiana”, refere a Agenzia Info Salesiana (ANS), órgão de comunicação jornalística da Sociedade de Francisco de Sales, explicitando: “Naquela data, Dom Bosco deu, pela primeira vez, o nome de ‘salesianos’ a um pequeno grupo de jovens desejosos de seguirem os seus passos. O que aconteceu na noite de 26 de janeiro foi escrito por Miguel Rua, num caderno que hoje se encontra no Museu Casa Dom Bosco.”
O padre Miguel Rua, que era amigo de Dom Bosco e se tornou reitor-mor da Congregação Salesiana, entre 1888 e 1910, sendo o primeiro sucessor do fundador, escreveu num caderno: “Na tarde de 26 de janeiro de 1854, reunimo-nos no escritório do senhor Dom Bosco.”
Naquele dia, Dom Bosco chamou os seus colaboradores mais próximos ao segundo andar da casa, porque queria conversar com eles sobre algo. Esses quatro jovens eram: Miguel Rua, Juan Cagliero, Giuseppe Rocchietti e Giacomo Artiglia. “Foi-nos proposto fazermos, com a ajuda do Senhor e de são Francisco de Sales, uma prova de exercício prático da caridade para com o próximo, para fazermos, depois, uma promessa e, depois, se possível e conveniente, fazer um voto ao Senhor”, contou o padre Miguel Rua, vincando: “Desde aquela noite, foi dado o nome de salesianos a quem se propôs e se proporá tal exercício.”
Quando são João Bosco era diácono, 13 anos antes, já tinha escolhido são Francisco de Sales como modelo a seguir.
São Francisco de Sales, doutor da Igreja Universal, é conhecido como “o santo da amabilidade”. Como bispo, defendeu a Igreja Católica, com coragem e com amabilidade, numa época difícil e violenta de reformas, como a de João Calvino.
Ao longo do tempo, inspirou muitas obras e comunidades, como a Pia Sociedade de São Francisco de Sales, fundada pelo próprio Dom Bosco.
Em 1861, na cidade italiana de Mornese, Maria Domingas Mazzarello convida a amiga Petronilla para organizarem uma oficina de costura para meninas. Em 1863, a oficina começa a acolher meninas órfãs. O seu trabalho é supervisionado pelo padre Domingos Pestarino, que se havia associado aos Salesianos. Com o auxílio de Pestarino, Bosco propôs às jovens que se organizassem em congregação religiosa, com o nome de Filhas de Maria Auxiliadora e, a 5 de agosto de 1872, as primeiras salesianas emitiram os seus votos. Maria Mazzarello foi a primeira superiora da congregação.
De início, a proposta da Sociedade de São Francisco de Sales incluía, padres, irmãos e leigos externos, mas tal forma de organização não foi aprovada pela Igreja católica, que queria apenas padres e irmãos, como nas demais congregações. Sendo assim, Dom Bosco propôs a associação leiga dos Salesianos Cooperadores, que foi aprovada, em 1876, pelo papa Pio IX. O objetivo era o mesmo da Sociedade de São Francisco de Sales, a saber: o trabalho educativo e catequista junto dos meninos e dos jovens. Em sua forma de associação, tornou-se uma sociedade mista, com homens e mulheres leigos.

***

Diz-se que são João Bosco era um santo alegre e que, mesmo quando tinha muitos problemas, demonstrava ainda mais alegria. Tudo era resultado da sua plena confiança na Providência Divina e em Nossa Senhora Auxiliadora. Do muito que Dom Bosco disse e escreveu, ressaltam sete máximas do santo, que podem ajudar a alcançar a felicidade.
1. “Alegria, Estudo, Piedade. Este é o grande programa. Se o seguirdes, podereis viver felizes e fazer muito bem às vossas almas.”
2. “Se quereis que a vossa vida seja sempre alegre e tranquila, procurai viver sempre na graça.”
3. “Quereis estar sempre satisfeitos e risonhos? É a obediência a que vos leva a essa alegria.”
4. “Com a comunhão frequente tornar-vos-eis muito queridos por Deus e pelos homens, e Maria Santíssima vos concederá a graça de receberdes os Santos Sacramentos no fim da vida.”
5. “Ser bom não consiste em não cometer falhas, mas na vontade de se corrigir.”
6. “Para trabalhardes com sucesso, tende caridade no coração e paciência na execução”.
7. “Faz o que podes, Deus fará o que não podemos fazer. Confia sempre em Jesus Sacramentado e em Nossa Senhora Auxiliadora e verás o que são milagres”.

***

Nas “Memórias Biográficas”, coleção de 19 volumes sobre a vida de Dom Bosco, conta-se a história de Carlos, adolescente de 15 anos que participava no oratório de São Francisco de Sales, onde Dom Bosco jogava com os meninos e lhes dava educação humana e cristã.
Certo dia, Carlos adoeceu e o médico, ao vê-lo tão mal, aconselhou a família a procurar um padre para o confessar. O menino pediu que chamassem Dom Bosco, mas, quando foram procurar o santo, descobriram que estava fora da cidade e chamaram o pároco. Porém, Carlos insistia em ver Dom Bosco, até que, dia e meio depois, morreu. Quando Dom Bosco voltou, soube do acontecido com o seu amigo e foi vê-lo. Ao chegar aonde ele morava, encontrou um homem que trabalhava lá e lhe disse que tinha chegado tarde demais, porque o menino estava morto, há meio dia.
Dom Bosco sorriu, dizendo que, na verdade, estava a dormir e que queria ver o menino, no pranto dos familiares. Foi levado ao local em que estava a ser velado o cadáver, envolto num lençol costurado e com um véu a cobrir-lhe o rosto.
O santo pediu para ficar sozinho, fez profunda oração, deu a bênção e chamou, por duas vezes, o jovem, com uma voz de comando: “Carlos, Carlos, levanta-te!” O morto começou a mexer-se e Dom Bosco imediatamente desamarrou o lençol com as mãos e descobriu-lhe o rosto.
Carlos acordou como se tivesse saído de um sonho e perguntou por que estava naquele estado. Depois, olhando para Dom Bosco, reconheceu-o e encheu-se de alegria. Disse ao santo que estava à espera dele. O padre encorajou-o a contar-lhe tudo o que quisesse.
O menino explicou-lhe que, na sua última confissão, não havia dito nada sobre um pecado que havia cometido semanas antes. Depois, contou-lhe que havia tido um sonho terrível no qual se encontrava à beira de enorme fornalha, de onde tentava escapar de muitos demónios e, quando eles estavam prestes a agarrá-lo, apareceu uma senhora, que se colocou entre ele e os malignos, dizendo-lhes que esperassem, porque ele ainda não havia sido julgado. Então, ouviu a voz de Dom Bosco e acordou.
Carlos, arrependido, confessou-se com Dom Bosco e, quando o padre o absolvia, a mãe e toda a família entraram. O jovem olhou para a mãe e disse: “Dom Bosco salvou-me do inferno!” 
Carlos permaneceu lúcido, durante quase duas horas, movia-se e falava, mas o corpo continuava frio, e pediu a Dom Bosco que aconselhasse os rapazes a serem sinceros na confissão.
Finalmente, Dom Bosco perguntou-lhe: “Agora estás na graça de Deus: tens o céu aberto. Queres ir para cima ou ficar aqui connosco?” Carlos respondeu: “Quero ir para o céu.” E Dom Bosco disse-lhe: “Então, ver-nos-emos, de novo, no paraíso.” 
Carlos pôs a cabeça sobre o travesseiro, fechou os olhos e adormeceu na paz do Senhor.
É interessante o que Dom Bosco disse, pois o santo dos jovens vivia convencido de que iria para o céu. As suas últimas palavras, antes de morrer foram: “Amai-vos como irmãos... Fazei o bem a todos, e o mal a ninguém... Dizei aos meus meninos que os espero, a todos no Paraíso.”

***

Dom Bosco morreu, como foi referido, a 31 de janeiro de 1888. Milhares de pessoas participaram no seu funeral. Logo depois, houve uma demanda popular pela sua canonização. A arquidiocese de Turim investigou e foram chamadas testemunhas para se determinar se Bosco era digno de ser declarado santo. Os salesianos, as filhas e os cooperadores deram testemunhos de apoio. Porém, muitos lembraram-se das controvérsias de Bosco, na década de 1870, com o arcebispo Dom Lourenço Gastaldi, que sucedeu ao arcebispo Dom Riccardi di Netro (falecido em 1870), e com outros da hierarquia da Igreja que o consideravam um canhão solto e um “negociante de rodas”.
Falecido Dom Gastaldi (25 de março de 1883), sucedeu-lhe na sede de Turim Dom Caetano Alimonda. E, no ano seguinte, Dom Bosco obteve o decreto de extensão dos privilégios concedidos pela Santa Sé aos Redentoristas, inclusive, o da isenção da jurisdição episcopal (18 de junho de 1884). A questão com Dom Lourenço Gastaldi tinha a ver com a sua excessiva intervenção nos assuntos da congregação dos Salesianos.
No processo de canonização, ouviram-se testemunhos de como recorreu a Gastaldi para ordenar alguns dos seus homens e sobre a falta de preparação académica e de decoro eclesiástico. Desenhos políticos a partir da década de 1860 mostraram-no a sacudir dinheiro dos bolsos de velhinhas ou a ir para a América com o mesmo objetivo. Esses desenhos não foram esquecidos. Os opositores de Bosco, incluindo alguns cardeais, estavam em posição de bloquear a sua canonização. Por volta de 1925, muitos salesianos temiam que tivessem sucesso.
O papa Pio XI conhecia-o e impulsionou a sua causa. Beatificou Bosco, a 2 de junho de 1929, e canonizou-o no domingo de Páscoa (1 de abril) de 1934, atribuindo-lhe o título de “Pai e Mestre da Juventude”.
Dom Bosco era conhecido, popularmente, como o santo padroeiro dos ilusionistas, pelo que, a 30 de janeiro de 2002, Silvio Mantelli solicitou ao papa São João Paulo II que o declarasse, formalmente, o patrono dos mágicos de palco. Mágicos católicos que praticam a magia do evangelho veneram Bosco, oferecendo espetáculos de mágica gratuitos para crianças carentes no dia da festa.
O trabalho de Dom Bosco foi continuado pelo seu primeiro aluno, colaborador e companheiro, Miguel Rua, que foi nomeado reitor-mor da Sociedade Salesiana pelo papa Leão XIII, em 1888.
Dom Bosco foi tema da cinebiografia “Don Bosco,” de 1935, dirigida por Goffredo Alessandrini, tendo sido interpretado pelo ator Gian Paolo Rosmino, e foi tema de um filme italiano de 2004, São João Bosco: Missão ao Amor” e também do filme de 1988, Don Bosco”, interpretado por Bem Gazzara.

2026.01.31 – Louro de Carvalho


Sem comentários:

Enviar um comentário