O
caderno “Fisgas” do jornal Público, de 31 de janeiro, preenche a secção “Elogio
do vinho”, a cargo de Pedro Garcias, jornalista e produtor de vinho no Douro,
com um texto sob o título “A Mesinha de S. Sebastião e o jesuíta que não ‘negava
fogo’”, em que evoca o pregador e convidado especial da festa transmontana em referência,
o jesuíta António Freire, de quem diz ser “uma celebridade mundial” em Filologia,
em Literatura Grega e em Literatura Latina.
O jornalista relata o caso de o jesuíta ansianense ter ficado sozinho sentado à mesa, ainda por levantar, que fora lauta para todos os convivas, e “deu uma palestra inesquecível” a todos os circunstantes. “Explicou o significado da festa e proferiu, a seguir, um rasgado panegírico ao animal que os barrosões ‘tratam quase como um ser humano’: O cevado, o suíno, o porco, esse bicho tão sujo que até as unhas nos dá”, escreveu Pedro Garcias.
O jornalista relata o caso de o jesuíta ansianense ter ficado sozinho sentado à mesa, ainda por levantar, que fora lauta para todos os convivas, e “deu uma palestra inesquecível” a todos os circunstantes. “Explicou o significado da festa e proferiu, a seguir, um rasgado panegírico ao animal que os barrosões ‘tratam quase como um ser humano’: O cevado, o suíno, o porco, esse bicho tão sujo que até as unhas nos dá”, escreveu Pedro Garcias.
Conheci
o padre Freire, em Moimenta da Beira, em cuja Escola Secundária, proferiu duas palestras,
para alunos e professores, encantando pela profundidade e pela vastidão de
conhecimento revelado e pelo sentido de humor com que salpicava o discurso.
Devo
referir que foi pelas suas “Gramática Latina” e “Gramática Grega” que estudei
as línguas latina e grega, cujas edições mais recentes ia adquirindo, nos
tempos de docência.
Recordo-me
de, em 1987, ter visitado a Editorial Franciscana, em Braga, para acertar a coedição
do livro póstumo “Família, Energia Vital”, do cónego José Cardoso de Almeida, e
o frade que me atendeu, no escritório da tipografia, desafiou-me: “Ainda não
tem a 4.ª edição da “Gramática Latina”, de António Freire!” Respondi que “sim”,
pois tinha comprado a última edição conhecida. Porém, o frade retorquiu: “Essa
é terceira, que a quarta edição ainda não está em distribuição. Ó Fulano [não
me recordo do nome do chefe da tipografia], veste o casaco a um dos exemplares
prontos e dá a 4.ª edição da “Gramática Latina” a este senhor!” E assim fiquei
com um livro grátis de um autor de renome e que já conhecia.
***
A
18 de novembro de 2019, por ocasião do centenário do nascimento de António Freire,
Acílio Estanqueiro Rocha, seu conterrâneo, publicou, no Diário do Minho, uma
extensa peça jornalística intitulada “Centenário do Padre António Jorge Freire Júnior
de Lisboinha”, sobre a vida e obra do padre jesuíta conhecido pelo título abreviado
de padre Freire.
O padre Freire nasceu em Lisboinha, freguesia de Pousaflores, concelho de Ansião, distrito de Leiria e diocese de Coimbra, e faleceu em Braga, a 18 de fevereiro de 1997, aos 77 anos.
O padre Freire nasceu em Lisboinha, freguesia de Pousaflores, concelho de Ansião, distrito de Leiria e diocese de Coimbra, e faleceu em Braga, a 18 de fevereiro de 1997, aos 77 anos.
Segundo
a pena do jornalista, foi “mestre de sucessivas gerações de estudantes na
Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa [UCP], para
os quais as lições inigualáveis deste jesuíta de craveira excecional
permanecerão inolvidáveis – tal a sabedoria e empatia que irradiava –, teve uma
carreira fulgurante no campo das Humanidades, mormente, nos Estudos Clássicos
(Grego e Latim) – domínios em que era uma das figuras mais proeminentes, tanto
a nível nacional como internacional”.
Já
na Escola Primária, se revelou especialmente dotado, pelo que o professor instou
para que prosseguisse os estudos, tal como a mãe desejava. Porém, a falta de
meios e a inexistência de escolas oficiais na região eram obstáculo
intransponível. Foi o primo, João Mendes Lopes, quem tratou dos procedimentos
necessários, tendo António Freire realizado os estudos liceais em Guimarães e em
Macieira de Cambra. Ingressou no Noviciado da Companhia de Jesus, em
Alpendurada, aos 17 anos de idade, em 1937. Poucos meses depois, transferiu-se
para o mosteiro da Costa (hoje pousada), em Guimarães. Foi dispensado do
ano de estudos de Ciências que precedia, em Braga, o curso trienal de
Filosofia, para ficar, durante dois anos, em Guimarães, a ensinar Latim e Grego
aos noviços. Após quatro anos de noviciado e a conclusão do curso de
Filosofia (1942-1945), cumpriu dois anos de magistério, como professor de Latim
e de Grego dos noviços, em Guimarães, no Juniorado, para iniciar, depois, os
estudos de Teologia, em 1947, primeiro, em Oxford (entre 1947 e 1949) e, depois,
em Granada (1949-1951). Recebeu a ordenação presbiteral, a 15 de Julho de
1950, em Granada. Passou por Salamanca (1951-1952), regressou a Portugal e
retomou a docência, lecionando disciplinas, no âmbito da Língua e Cultura Grega
e Latina, na Faculdade de Filosofia de Braga, tendo sido, entre 1961 e 1964,
professor de Literatura Grega e Latina no Centro de Estudos Humanísticos anexo
à Universidade do Porto.
Concluída
a “Terceira Provação”, em Salamanca, em 1951-1952, regressou a Portugal, lecionou,
durante três anos, em Macieira de Cambra. E, emitidos ali os últimos votos, a 2 de fevereiro de
1955, volta ao Juniorado, mas em Soutelo, Vila Verde.
Em
1967, foi convidado para a então Pontifícia Faculdade de Filosofia de Braga
para lecionar no curso Filosófico-Humanístico e, posteriormente, também no de
Humanidades, apresentando, nesse ano, a sua tese de doutoramento, de cariz
filosófico-filológico, publicada em 1969, sob o título “O Conceito de Moira na
Tragédia Grega”.
Na
tese de doutoramento, obteve a classificação de 19 valores, sendo já vulto de
renome internacional em Filologia e em Literatura Grega e em Literatura Latina.
As disciplinas prediletas eram História da Filosofia Antiga, Filologia e
Literatura Latina e Grega, Cultura Clássica e Filologia Portuguesa. Nunca interrompeu
a docência, nem nos dois anos sabáticos que passou na Alemanha, onde deu, por
vezes, cinco aulas, por dia, num colégio alemão. Foi convidado para lecionar na
Universidade de Lisboa e na de Saarbrücken, na Alemanha, mas recusou, por não
ter substituto na Faculdade de Filosofia, onde lecionou desde 1967.
Era
versado poliglota, outra marca do seu génio humanístico. Além de ter ensinado, em
quase toda a vida, as línguas grega e latina, proferia discursos preparados ou improvisados
nessas línguas. E, a par disso, especializou-se em Línguas Modernas, cuja
aprendizagem aperfeiçoou com a estadia de dois anos, na Inglaterra e na
Espanha, dois anos, na Alemanha, cinco anos, na Grécia, e várias estadias na
França e na Itália. Ainda jovem, ensinou alemão a iniciados, enquanto seguia
aulas mais adiantadas; na Inglaterra, após dois meses de estudo do Hebraico, o
professor confiou-lhe metade da turma; em Granada, ensinou Inglês aos
companheiros de Teologia, e, em Salamanca, ensinou Inglês aos estudantes
jesuítas.
Empreendeu
viagens de estudo por toda a Europa, pelos países escandinavos, pela Rússia e pelos
demais países da então Cortina de Ferro, pelo Egito e por Israel, pelos Estados
Unidos da América (EUA), pelo Brasil, pelo México e pelo Canadá. De quase todas
as viagens resultaram livros, artigos e entrevistas em revistas e jornais.
Participou em vários congressos internacionais, uns sobre “Latim Vivo” e outros
sobre “Estudos Neolatinos”. No congresso de Bucareste (1970), foi ovacionado e
denominado de “Cícero Redivivus”; e foi muito apreciado no Colóquio
Internacional em São Paulo (Brasil), sobre “Metafísica cristã e ateísmo atual”
(1981).
Deixou
de lecionar, em 1992, passando a orientar mestrados, a publicar obras e a
deslocar-se a escolas secundárias, a convite de antigos alunos seus, para
incutir nos jovens o gosto pelo Português e pelas suas fontes greco-latinas. E,
em 1994, aplicou-se um projeto antigo – elaboração do Dicionário Moderno
Português-Latim –, mas a morte impediu-o de o concluir.
António
Freire faleceu na comunidade dos padres Jesuítas, em Braga, a 18 de fevereiro
de 1997, aos 77 anos de idade, deixando valiosa bibliografia.
***
Acílio
Rocha, recordou a entrevista que lhe fez, em fevereiro de 1971, para o jornal “Voz
das Cinco Vilas”, donde extraiu o seguinte parágrafo: “A minha viagem do
último verão foi a mais longa e variada que empreendi, até hoje: um mês e dois
dias, quase a andar, de comboio e sozinho. Depois de transpor a Espanha, a França,
a Bélgica e a Alemanha, subi à Suécia e regressei a Paris; dali atravessei a
Suíça, a Itália, e enterrei-me nos países da Cortina de Ferro, a Jugoslávia, a Bulgária,
a Roménia, a Hungria… Estive no Norte da Grécia, em Salónica, e no famoso Monte
Atos, onde não é permitida a entrada a mulher nem a fêmea alguma (…).”
Era, segundo Acílio Rocha, “pessoa afável e generosa, um comunicador nato de tal ressalto que os alunos ansiavam pelas suas aulas, a que não faltavam e, como diziam em alta voz, não se cansavam, o mesmo ocorrendo com quem almejava ouvi-lo nas homilias”. Isso, posso-o testemunhar, por mim e pelos meus alunos da Escola Secundária de Moimenta da Beira de então, pois, comentávamos a posteriori as suas palestras, bem como alguns dos seus escritos. E lembro-me de António Rebelo, professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde leciona desde 1988, e investigador do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da mesma Universidade, numa das palestras que proferiu na dita Escola Secundária, ter chamado a António Freire “um mestre”.
Era, segundo Acílio Rocha, “pessoa afável e generosa, um comunicador nato de tal ressalto que os alunos ansiavam pelas suas aulas, a que não faltavam e, como diziam em alta voz, não se cansavam, o mesmo ocorrendo com quem almejava ouvi-lo nas homilias”. Isso, posso-o testemunhar, por mim e pelos meus alunos da Escola Secundária de Moimenta da Beira de então, pois, comentávamos a posteriori as suas palestras, bem como alguns dos seus escritos. E lembro-me de António Rebelo, professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde leciona desde 1988, e investigador do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da mesma Universidade, numa das palestras que proferiu na dita Escola Secundária, ter chamado a António Freire “um mestre”.
Publicou
mais de meia centena de livros e quase cem artigos, em revistas nacionais e
estrangeiras, como a Brotéria – Revista Portuguesa de Filosofia, a Lumen,
a Euphrosyne, a Humanitas, Les Études Classiques, na Bélgica,
a Revista da Faculdade de Letras de Bucareste, na Roménia, a Latinitas,
em Roma, a Vita Latina, na França, e o Orbis Latinus, na Argentina.
Vale
a pena fazer breve referência a algumas das suas obras, pela profundidade de conhecimento
revelada e pelo conteúdo inovador de alguns temas.
Em
“O Conceito de Moira na Tragédia Grega” (1969), que pretende responder à
questão: “Fatalista, a tragédia grega?”, o autor responde com um “não”
categórico e convicto, contra uma plêiade de contraditores, recorrendo a argumentos
firmados em abundante documentação, numa linguagem rigorosa e em estilo
primoroso, que prendem o leitor à leitura da obra. Elucida a origem da tragédia
grega, a paternidade literária do “Prometeu Agrilhoado”, de Ésquilo, a
peculiaridade do coro grego, o objetivo de Sófocles na composição do Édipo em
Colono, os suicídios de Antígona e de Ájax, etc.
“O
Pensamento de Platão” (1967) é, segundo Acílio Rocha, um dos mais
importantes estudos publicados, em Portugal, sobre o pensamento do Mestre da
Academia de Atenas. Nele, são analisadas as dimensões do pensamento do grande
filósofo grego, desde o problema gnosiológico à conceção platónica do amor, às
ideias estéticas de Platão, à conceção do Estado e à doutrina social, às ideias
pedagógicas do Filósofo dos Diálogos.
“Humanismo
Integral” (1993) aborda um conjunto de questões afins aos vários humanismos,
desde a paidéia helénica, a Manuel Álvares e à repercussão da sua “Gramática
Latina”, a Pedro da Fonseca, humanista e filósofo, ao legado homérico em Camilo
Castelo Branco, bem como às obras de Aquilino Ribeiro, de Orlando Albuquerque e
de Fernando Pessoa. Para António Freire, o conteúdo do termo “humanismo” não se
esvaziou, antes se projeta numa semiótica que inquire os humanismos pagão e
cristão, sobressaindo o sentido do verso terenciano: “Homo sum, humani nil a me
alienum puto” (“sou um homem e nada do que é humano me é estranho”).
Em
“Teísmo Helénico e Ateísmo Atual” (1983), ressalta uma panorâmica dos ateísmos
antigo e atual, aprofundando da filosofia helénica (pré-socráticos, sofistas,
Sócrates, Platão, Aristóteles e Plotino), centrada nos valores teísticos,
culminando numa reflexão sobre a atualidade.
Em
“Lendo Miguel Torga” (1990), António Freire entusiasma-se pela figura do
escritor transmontano e conimbricense, incutindo à leitura das obras daquele
que tem por “um dos expoentes do português atual”, pela robustez e clareza de
estilo, pela pujança de imaginação, pela vernaculidade e pela criatividade poética, só comparado com Vieira
e com Camilo, e que fazem de Torga um poeta criador, mesmo quando escreve em prosa.
“Florbela
Espanca, poetisa do amor” (1994) – apresentado como 2.ª edição de “O destino em
Florbela Espanca” (1977) – é um acurado e palpitante estudo sobre a poetisa, refletindo
sobre a sua vida e obra.
E
muitos outros livros António Freire publicou, como “Humanismo Clássico” (1986),
“Estudos de Literatura Grega” (1987), “O Teatro Grego” (1985), “Lições de
Língua e Literatura Latinas” (1962), “Grécia Antiga e Grécia Moderna” (1965), “Israel
Antigo e Moderno” (1967), etc. Enfim, cerca de seis dezenas, incluindo obras
decorrentes da sua atividade pastoral, mormente, entre os jovens, de leitura
aliciante.
Protagonizou
uma série de programas televisivos na RTP, sobre “Questões da
Língua Portuguesa”, um pouco na linha das “Charlas Linguísticas” do Dr.
Raul Machado dos anos 60, instrutivos e elucidativos, que António Freire, como
autor, incluiu na sua obra Lições de Filologia e Língua Portuguesa (1983). Porém,
nesta, ao “Antelóquio”, segue-se uma parte teorética sobre a nossa língua
materna e outra sobre Helenismos Portugueses, sendo a mais extensa a relativa
às “Questões da Língua Portuguesa”.
Falta
considerar as publicações específicas, como a “Gramática Grega (1947), cuja 7.ª
edição é de 1985; a “Gramática Latina” (1956), cuja última edição é de 1987; a “Seleta
Grega” (1947) e Seleta Latina (1963, que chegou aos três volumes); e a Seleta
Latina Suplementar (1963). Todas, com preciosas introduções e anotações. Além
disso, publicou vários livros de exercícios e de aplicação de conhecimentos no atinente
às línguas clássicas.
***
António
Freire, cujas obras adquiri, na sua maior parte, e cuja consulta assídua me é
útil, é um exemplo do menino que não nasceu em berço de ouro, com todo o conforto
que este Mundo pode oferecer às crianças e aos adolescentes, incluindo pais com
cursos superiores e livros e revistas à disposição. Todavia, soube tirar o máximo
rendimento dos seus talentos, sendo exímio em todas as atividades a que se
aplicava – e tão diversificadas elas eram. Aplicou-se ao estudo (Línguas, Literaturas,
Culturas, Filosofia, etc.), com interrupções para ensinar; fez carreira na docência;
publicou livros e artigos; palestrou; viajou; falou a jovens, a professores;
foi um padre dedicado à pastoral; apreciou vultos clássicos e contemporâneos; e,
em tudo, foi brilhante. Contudo, não podemos olvidar atenção de que foi
rodeado, na descoberta do seu talento incomum, desde logo, da parte do professor
do ensino primário, da mãe e do primo e, obviamente, dos jesuítas, que
dificilmente deixam perder talentos.
Por tudo, honra ao homem e a todos aqueles que o souberam projetar na esfera do conhecimento e a partir dela! Como diria alguém, “só tenho pena de não saber metade do que ele sabia.”
Por tudo, honra ao homem e a todos aqueles que o souberam projetar na esfera do conhecimento e a partir dela! Como diria alguém, “só tenho pena de não saber metade do que ele sabia.”
2026.01.31
– Louro de Carvalho
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