sábado, 31 de janeiro de 2026

Evocação do padre António Freire, teólogo, filósofo e humanista

 

 

O caderno “Fisgas” do jornal Público, de 31 de janeiro, preenche a secção “Elogio do vinho”, a cargo de Pedro Garcias, jornalista e produtor de vinho no Douro, com um texto sob o título “A Mesinha de S. Sebastião e o jesuíta que não ‘negava fogo’”, em que evoca o pregador e convidado especial da festa transmontana em referência, o jesuíta António Freire, de quem diz ser “uma celebridade mundial” em Filologia, em Literatura Grega e em Literatura Latina.
O jornalista relata o caso de o jesuíta ansianense ter ficado sozinho sentado à mesa, ainda por levantar, que fora lauta para todos os convivas, e “deu uma palestra inesquecível” a todos os circunstantes. “Explicou o significado da festa e proferiu, a seguir, um rasgado panegírico ao animal que os barrosões ‘tratam quase como um ser humano’: O cevado, o suíno, o porco, esse bicho tão sujo que até as unhas nos dá”, escreveu Pedro Garcias.
Conheci o padre Freire, em Moimenta da Beira, em cuja Escola Secundária, proferiu duas palestras, para alunos e professores, encantando pela profundidade e pela vastidão de conhecimento revelado e pelo sentido de humor com que salpicava o discurso.
Devo referir que foi pelas suas “Gramática Latina” e “Gramática Grega” que estudei as línguas latina e grega, cujas edições mais recentes ia adquirindo, nos tempos de docência.
Recordo-me de, em 1987, ter visitado a Editorial Franciscana, em Braga, para acertar a coedição do livro póstumo “Família, Energia Vital”, do cónego José Cardoso de Almeida, e o frade que me atendeu, no escritório da tipografia, desafiou-me: “Ainda não tem a 4.ª edição da “Gramática Latina”, de António Freire!” Respondi que “sim”, pois tinha comprado a última edição conhecida. Porém, o frade retorquiu: “Essa é terceira, que a quarta edição ainda não está em distribuição. Ó Fulano [não me recordo do nome do chefe da tipografia], veste o casaco a um dos exemplares prontos e dá a 4.ª edição da “Gramática Latina” a este senhor!” E assim fiquei com um livro grátis de um autor de renome e que já conhecia.    

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A 18 de novembro de 2019, por ocasião do centenário do nascimento de António Freire, Acílio Estanqueiro Rocha, seu conterrâneo, publicou, no Diário do Minho, uma extensa peça jornalística intitulada “Centenário do Padre António Jorge Freire Júnior de Lisboinha”, sobre a vida e obra do padre jesuíta conhecido pelo título abreviado de padre Freire.
O padre Freire nasceu em Lisboinha, freguesia de Pousaflores, concelho de Ansião, distrito de Leiria e diocese de Coimbra, e faleceu em Braga, a 18 de fevereiro de 1997, aos 77 anos.
Segundo a pena do jornalista, foi “mestre de sucessivas gerações de estudantes na Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa [UCP], para os quais as lições inigualáveis deste jesuíta de craveira excecional permanecerão inolvidáveis – tal a sabedoria e empatia que irradiava –, teve uma carreira fulgurante no campo das Humanidades, mormente, nos Estudos Clássicos (Grego e Latim) – domínios em que era uma das figuras mais proeminentes, tanto a nível nacional como internacional”.
Já na Escola Primária, se revelou especialmente dotado, pelo que o professor instou para que prosseguisse os estudos, tal como a mãe desejava. Porém, a falta de meios e a inexistência de escolas oficiais na região eram obstáculo intransponível. Foi o primo, João Mendes Lopes, quem tratou dos procedimentos necessários, tendo António Freire realizado os estudos liceais em Guimarães e em Macieira de Cambra. Ingressou no Noviciado da Companhia de Jesus, em Alpendurada, aos 17 anos de idade, em 1937. Poucos meses depois, transferiu-se para o mosteiro da Costa (hoje pousada), em Guimarães. Foi dispensado do ano de estudos de Ciências que precedia, em Braga, o curso trienal de Filosofia, para ficar, durante dois anos, em Guimarães, a ensinar Latim e Grego aos noviços. Após quatro anos de noviciado e a conclusão do curso de Filosofia (1942-1945), cumpriu dois anos de magistério, como professor de Latim e de Grego dos noviços, em Guimarães, no Juniorado, para iniciar, depois, os estudos de Teologia, em 1947, primeiro, em Oxford (entre 1947 e 1949) e, depois, em Granada (1949-1951).  Recebeu a ordenação presbiteral, a 15 de Julho de 1950, em Granada. Passou por Salamanca (1951-1952), regressou a Portugal e retomou a docência, lecionando disciplinas, no âmbito da Língua e Cultura Grega e Latina, na Faculdade de Filosofia de Braga, tendo sido, entre 1961 e 1964, professor de Literatura Grega e Latina no Centro de Estudos Humanísticos anexo à Universidade do Porto.
Concluída a “Terceira Provação”, em Salamanca, em 1951-1952, regressou a Portugal, lecionou, durante três anos, em Macieira de Cambra. E, emitidos  ali os últimos votos, a 2 de fevereiro de 1955, volta ao Juniorado, mas em Soutelo, Vila Verde.
Em 1967, foi convidado para a então Pontifícia Faculdade de Filosofia de Braga para lecionar no curso Filosófico-Humanístico e, posteriormente, também no de Humanidades, apresentando, nesse ano, a sua tese de doutoramento, de cariz filosófico-filológico, publicada em 1969, sob o título “O Conceito de Moira na Tragédia Grega”. 
Na tese de doutoramento, obteve a classificação de 19 valores, sendo já vulto de renome internacional em Filologia e em Literatura Grega e em Literatura Latina. As disciplinas prediletas eram História da Filosofia Antiga, Filologia e Literatura Latina e Grega, Cultura Clássica e Filologia Portuguesa. Nunca interrompeu a docência, nem nos dois anos sabáticos que passou na Alemanha, onde deu, por vezes, cinco aulas, por dia, num colégio alemão. Foi convidado para lecionar na Universidade de Lisboa e na de Saarbrücken, na Alemanha, mas recusou, por não ter substituto na Faculdade de Filosofia, onde lecionou desde 1967.
Era versado poliglota, outra marca do seu génio humanístico. Além de ter ensinado, em quase toda a vida, as línguas grega e latina, proferia discursos preparados ou improvisados nessas línguas. E, a par disso, especializou-se em Línguas Modernas, cuja aprendizagem aperfeiçoou com a estadia de dois anos, na Inglaterra e na Espanha, dois anos, na Alemanha, cinco anos, na Grécia, e várias estadias na França e na Itália. Ainda jovem, ensinou alemão a iniciados, enquanto seguia aulas mais adiantadas; na Inglaterra, após dois meses de estudo do Hebraico, o professor confiou-lhe metade da turma; em Granada, ensinou Inglês aos companheiros de Teologia, e, em Salamanca, ensinou Inglês aos estudantes jesuítas.
Empreendeu viagens de estudo por toda a Europa, pelos países escandinavos, pela Rússia e pelos demais países da então Cortina de Ferro, pelo Egito e por Israel, pelos Estados Unidos da América (EUA), pelo Brasil, pelo México e pelo Canadá. De quase todas as viagens resultaram livros, artigos e entrevistas em revistas e jornais. Participou em vários congressos internacionais, uns sobre “Latim Vivo” e outros sobre “Estudos Neolatinos”. No congresso de Bucareste (1970), foi ovacionado e denominado de “Cícero Redivivus”; e foi muito apreciado no Colóquio Internacional em São Paulo (Brasil), sobre “Metafísica cristã e ateísmo atual” (1981).
Deixou de lecionar, em 1992, passando a orientar mestrados, a publicar obras e a deslocar-se a escolas secundárias, a convite de antigos alunos seus, para incutir nos jovens o gosto pelo Português e pelas suas fontes greco-latinas. E, em 1994, aplicou-se um projeto antigo – elaboração do Dicionário Moderno Português-Latim –, mas a morte impediu-o de o concluir.
António Freire faleceu na comunidade dos padres Jesuítas, em Braga, a 18 de fevereiro de 1997, aos 77 anos de idade, deixando valiosa bibliografia.

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Acílio Rocha, recordou a entrevista que lhe fez, em fevereiro de 1971, para o jornal “Voz das Cinco Vilas”, donde extraiu o seguinte parágrafo: “A minha viagem do último verão foi a mais longa e variada que empreendi, até hoje: um mês e dois dias, quase a andar, de comboio e sozinho. Depois de transpor a Espanha, a França, a Bélgica e a Alemanha, subi à Suécia e regressei a Paris; dali atravessei a Suíça, a Itália, e enterrei-me nos países da Cortina de Ferro, a Jugoslávia, a Bulgária, a Roménia, a Hungria… Estive no Norte da Grécia, em Salónica, e no famoso Monte Atos, onde não é permitida a entrada a mulher nem a fêmea alguma (…).”
Era, segundo Acílio Rocha, “pessoa afável e generosa, um comunicador nato de tal ressalto que os alunos ansiavam pelas suas aulas, a que não faltavam e, como diziam em alta voz, não se cansavam, o mesmo ocorrendo com quem almejava ouvi-lo nas homilias”. Isso, posso-o testemunhar, por mim e pelos meus alunos da Escola Secundária de Moimenta da Beira de então, pois, comentávamos a posteriori as suas palestras, bem como alguns dos seus escritos. E lembro-me de António Rebelo, professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde leciona desde 1988, e investigador do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da mesma Universidade, numa das palestras que proferiu na dita Escola Secundária, ter chamado a António Freire “um mestre”.
Publicou mais de meia centena de livros e quase cem artigos, em revistas nacionais e estrangeiras, como a Brotéria – Revista Portuguesa de Filosofia, a Lumen, a Euphrosyne, a Humanitas, Les Études Classiques, na Bélgica, a Revista da Faculdade de Letras de Bucareste, na Roménia, a Latinitas, em Roma, a Vita Latina, na França, e o Orbis Latinus, na Argentina.
Vale a pena fazer breve referência a algumas das suas obras, pela profundidade de conhecimento revelada e pelo conteúdo inovador de alguns temas.  
Em “O Conceito de Moira na Tragédia Grega” (1969), que pretende responder à questão: “Fatalista, a tragédia grega?”, o autor responde com um “não” categórico e convicto, contra uma plêiade de contraditores, recorrendo a argumentos firmados em abundante documentação, numa linguagem rigorosa e em estilo primoroso, que prendem o leitor à leitura da obra. Elucida a origem da tragédia grega, a paternidade literária do “Prometeu Agrilhoado”, de Ésquilo, a peculiaridade do coro grego, o objetivo de Sófocles na composição do Édipo em Colono, os suicídios de Antígona e de Ájax, etc.
“O Pensamento de Platão” (1967) é, segundo Acílio Rocha, um dos mais importantes estudos publicados, em Portugal, sobre o pensamento do Mestre da Academia de Atenas. Nele, são analisadas as dimensões do pensamento do grande filósofo grego, desde o problema gnosiológico à conceção platónica do amor, às ideias estéticas de Platão, à conceção do Estado e à doutrina social, às ideias pedagógicas do Filósofo dos Diálogos.
“Humanismo Integral” (1993) aborda um conjunto de questões afins aos vários humanismos, desde a paidéia helénica, a Manuel Álvares e à repercussão da sua “Gramática Latina”, a Pedro da Fonseca, humanista e filósofo, ao legado homérico em Camilo Castelo Branco, bem como às obras de Aquilino Ribeiro, de Orlando Albuquerque e de Fernando Pessoa. Para António Freire, o conteúdo do termo “humanismo” não se esvaziou, antes se projeta numa semiótica que inquire os humanismos pagão e cristão, sobressaindo o sentido do verso terenciano: “Homo sum, humani nil a me alienum puto” (“sou um homem e nada do que é humano me é estranho”).
Em “Teísmo Helénico e Ateísmo Atual” (1983), ressalta uma panorâmica dos ateísmos antigo e atual, aprofundando da filosofia helénica (pré-socráticos, sofistas, Sócrates, Platão, Aristóteles e Plotino), centrada nos valores teísticos, culminando numa reflexão sobre a atualidade.
Em “Lendo Miguel Torga” (1990), António Freire entusiasma-se pela figura do escritor transmontano e conimbricense, incutindo à leitura das obras daquele que tem por “um dos expoentes do português atual”, pela robustez e clareza de estilo, pela pujança de imaginação, pela vernaculidade e pela  criatividade poética, só comparado com Vieira e com Camilo, e que fazem de Torga um poeta criador, mesmo quando escreve em prosa.
“Florbela Espanca, poetisa do amor” (1994) – apresentado como 2.ª edição de “O destino em Florbela Espanca” (1977) – é um acurado e palpitante estudo sobre a poetisa, refletindo sobre a sua vida e obra.
E muitos outros livros António Freire publicou, como “Humanismo Clássico” (1986), “Estudos de Literatura Grega” (1987), “O Teatro Grego” (1985), “Lições de Língua e Literatura Latinas” (1962), “Grécia Antiga e Grécia Moderna” (1965), “Israel Antigo e Moderno” (1967), etc. Enfim, cerca de seis dezenas, incluindo obras decorrentes da sua atividade pastoral, mormente, entre os jovens, de leitura aliciante.
Protagonizou uma série de programas televisivos na RTP, sobre “Questões da Língua Portuguesa”, um pouco na linha das “Charlas Linguísticas” do Dr. Raul Machado dos anos 60, instrutivos e elucidativos, que António Freire, como autor, incluiu na sua obra Lições de Filologia e Língua Portuguesa (1983). Porém, nesta, ao “Antelóquio”, segue-se uma parte teorética sobre a nossa língua materna e outra sobre Helenismos Portugueses, sendo a mais extensa a relativa às “Questões da Língua Portuguesa”. 
Falta considerar as publicações específicas, como a “Gramática Grega (1947), cuja 7.ª edição é de 1985; a “Gramática Latina” (1956), cuja última edição é de 1987; a “Seleta Grega” (1947) e Seleta Latina (1963, que chegou aos três volumes); e a Seleta Latina Suplementar (1963). Todas, com preciosas introduções e anotações. Além disso, publicou vários livros de exercícios e de aplicação de conhecimentos no atinente às línguas clássicas.

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António Freire, cujas obras adquiri, na sua maior parte, e cuja consulta assídua me é útil, é um exemplo do menino que não nasceu em berço de ouro, com todo o conforto que este Mundo pode oferecer às crianças e aos adolescentes, incluindo pais com cursos superiores e livros e revistas à disposição. Todavia, soube tirar o máximo rendimento dos seus talentos, sendo exímio em todas as atividades a que se aplicava – e tão diversificadas elas eram. Aplicou-se ao estudo (Línguas, Literaturas, Culturas, Filosofia, etc.), com interrupções para ensinar; fez carreira na docência; publicou livros e artigos; palestrou; viajou; falou a jovens, a professores; foi um padre dedicado à pastoral; apreciou vultos clássicos e contemporâneos; e, em tudo, foi brilhante. Contudo, não podemos olvidar atenção de que foi rodeado, na descoberta do seu talento incomum, desde logo, da parte do professor do ensino primário, da mãe e do primo e, obviamente, dos jesuítas, que dificilmente deixam perder talentos.  
Por tudo, honra ao homem e a todos aqueles que o souberam projetar na esfera do conhecimento e a partir dela! Como diria alguém, “só tenho pena de não saber metade do que ele sabia.”

2026.01.31 – Louro de Carvalho

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