sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Igualdade da Carta das Nações Unidas só foi parcialmente cumprida

 

Um novo relatório examina o acesso das mulheres a cargos de poder na Organização das Nações Unidas (ONU) e no sistema multilateral, desde 1945. Trata-se da 4.ª edição do Relatório Mulheres no Multilateralismo (WIM26), da GWL Voices, que apresenta, pela primeira vez, o histórico completo das candidaturas ao cargo de secretário-geral da ONU, desde 1945. Candidataram-se 48 homens e oito mulheres. Porém, nenhuma mulher eleita, em oito décadas.
A GWL Voices é uma organização de mulheres líderes de todas as regiões e origens, comprometidas com a construção de um sistema internacional, com igualdade de género, que responda, eficazmente, aos atuais desafios do desenvolvimento sustentável, da paz, da segurança e dos direitos humanos. Cofundada por Susana Malcorra e Irina Bokova, é presidida por Susana Malcorra, ex-ministra dos Negócios Estrangeiros da Argentina e ex-candidata à ONU.
Atualmente, as mulheres lideram 46% das organizações multilaterais analisadas, mas permanecem muito abaixo da paridade nos órgãos diretivos e nas representações permanentes da ONU, onde figuram apenas 23%.
Desde 1947, ocorreram 20 Assembleias Gerais da ONU, sem que uma mulher ocupasse o cargo de representante permanente, e 72 países nunca propuseram uma mulher para essa posição. Ora, em momento crítico para o futuro do multilateralismo, marcado pelo 80.º aniversário das Nações Unidas (ONU80) e pela próxima eleição do secretário-geral, o novo relatório da GWL Voices – apresentado a 29 de janeiro, na Real Academia de Belas Artes de San Fernando, em Madrid – fornece evidências históricas, sem precedentes, sobre quem teve acesso (ou não teve) aos mais altos cargos de poder, no sistema internacional.
O relatório WIM26 revela que, ao longo de 80 anos, 48 ​​homens e só oito mulheres foram candidatos oficiais, e que nenhuma mulher foi eleita. Nas primeiras seis décadas de existência da organização, nenhuma mulher sequer foi, formalmente, considerada para o cargo. E tais descobertas inserem-se numa análise mais ampla da representação de género no sistema multilateral. Com base em dados atualizados até 2025, o relatório examina 62 organizações internacionais, em quatro níveis principais: liderança executiva, alta administração, órgãos diretivos e representações permanentes junto da ONU.
As mulheres lideram, atualmente, 46% das organizações analisadas, mas há um padrão consistente: a presença feminina diminui, significativamente, nos espaços onde o poder de decisão está concentrado. Nos órgãos diretivos, as mulheres ocupam, em média, apenas 29% das cadeiras, e entre os representantes permanentes junto da ONU, em Nova Iorque, figuram apenas 23%. O relatório documenta ainda que 72 países nunca nomearam uma mulher como representante permanente junto da ONU e que, desde 1947, 20 Assembleias Gerais foram realizadas sem a participação de uma única mulher nesse cargo.
Segundo o relatório, tais disparidades não se devem à falta de mulheres qualificadas, mas a padrões estruturais de exclusão e a processos de seleção que não avaliaram o mérito em termos equitativos. “Este não é um debate entre género e mérito”, afirma Susana Malcorra, explicitando: “A questão é se o mérito foi definido e reconhecido de forma justa. Mulheres altamente qualificadas existem há décadas; o que tem faltado é um processo que as reconheça sem preconceitos.” 
Porém, a análise mostra que a mudança é possível, pois, onde houve progresso rumo à paridade, foi resultado de decisões deliberadas: metas claras, mensuração sistemática e mecanismos de responsabilização. “O progresso em alguns níveis do sistema multilateral não aconteceu por inércia. Foi resultado de decisões políticas concretas”, observa Malcorra.
As conclusões do WIM26 foram apresentadas, como dissemos, em Madrid, no âmbito do Diálogo GWL Voices 2026, “Mulheres Liderando a ONU do Século XXI”, inaugurado pelo Rei Felipe VI de Espanha. A sessão foi aberta com o discurso da presidente da Eslovénia, Natasa Pirc Musar. A apresentação foi feita por Nudhara Yusuf, copresidente da Coligação para a ONU de que Precisamos (C4UN), num encontro que reuniu líderes internacionais, em contexto de crescente questionamento da legitimidade e da eficácia do multilateralismo. Entre as participantes, contam-se Michelle Bachelet, Rebeca Grynspan, María Fernanda Espinosa, Noeleen Heyzer e Sigrid Kaag, juntamente com as cofundadoras do GWL Voices – Susana Malcorra, Helen Clark e Irina Bokova – antigas candidatas a secretária-geral da ONU.
Num cenário global de tensões geopolíticas e de crescente desconfiança nas instituições internacionais, o WIM26 argumenta que a legitimidade futura do multilateralismo dependerá da sua capacidade de refletir, verdadeiramente, a diversidade humana, a começar pelos seus mais altos escalões de liderança. E a questão não é se há mulheres qualificadas para ocupar esses cargos, mas o que continua a impedir o seu acesso.

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A este respeito, a Euronews, publicou, a 30 de janeiro, um artigo de Christina Thykjaer, sob o título “80 anos sem uma mulher à frente da ONU: ‘Não é por falta de escolha, é por falta de vontade’”, em que nos dá conta de declarações de Susana Malcorra, em entrevista à Euronews, a qual, em vésperas de nova eleição para secretário-geral da ONU, enfatiza que “nunca houve uma mulher à frente das Nações Unidas” e reflete sobre o género, sobre o poder e sobre a liderança no sistema multilateral.
Com efeito, nas suas palavras, fica evidente que “oito décadas após a fundação das Nações Unidas, o teto de vidro permanece intacto no mais alto cargo do sistema multilateral: o secretário-geral nunca foi uma mulher”. 
Em 2016, quando Susana Malcorra se candidatou ao cargo de secretária-geral da ONU, o contexto parecia favorável. A organização estava a celebrar o 70.º aniversário e, pela primeira vez, sete dos 13 candidatos (a maioria) eram mulheres, “um acontecimento sem precedentes”. E a antiga  ministra dos Negócios Estrangeiros da Argentina recorda que havia “convicção muito forte de que era altura de uma mulher”, dado que “a oferta feminina era vasta, diversificada e com antecedentes muito sólidos”. Porém, nenhuma foi escolhida.
Além da sua desilusão pessoal, Susana Malcorra sublinha a tristeza que sentiu, ao aperceber-se de que “nenhuma mulher era considerada suficientemente qualificada” para o cargo e ao verificar que “há espaços que continuam a ser muito restritivos”. Assim, concluiu que “a questão não é saber se há opções”, mas “se há vontade de dar essa oportunidade”. 
Com a nova eleição no horizonte, Susana Malcorra julga que as perspetivas são promissoras, pelo menos no papel. “Este ano, vamos ter uma lista de candidatos interessante. Não será por falta de mulheres qualificadas, se isso não se concretizar”, atira.
Efetivamente, por rotação geográfica não escrita, a América Latina e as Caraíbas deverão ter papel preponderante nas próximas eleições para secretário-geral, mas a decisão cabe ao Conselho de Segurança e, em especial, aos seus cinco membros permanentes: a China, a França, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos da América (EUA). E voltamos à questão essencial, que “não é saber se existem opções”, mas “se existe vontade de dar essa oportunidade”. 
A Carta das Nações Unidas oferece a chave: “Fala de ‘nós, os povos’. Não os homens. E os povos são homens e mulheres, e as mulheres estão em maioria”, discorre a antiga candidata, sustentando que, além do simbolismo, que reputa importante, em contexto de crise de confiança no sistema, “uma mulher à frente da ONU pode trazer uma forma diferente de liderança”, pois “as mulheres tendem a abrir portas, a construir pontes, a ouvir mais”. E isso pode ser valioso em maré de tensão.
É certo que nenhum secretário-geral, homem ou mulher, pode resolver tudo sozinho, mas, na ótica da entrevistada, “a chave é construir equipas fortes e chegar a um consenso com os governos”, sendo importante o modo como isso se faz.
A cofundadora do GWL Voices rejeita a ideia de que a falta de uma mulher à frente da ONU se deva à falta de experiência ou de liderança. Antes, considera que o problema reside em critérios implícitos que raramente são reconhecidos abertamente. “Uma avaliação diferente nunca será admitida, mas os preconceitos existem”, observa, explicando: “As mulheres são julgadas como demasiado duras ou [como] demasiado suaves, demasiado fortes ou demasiado suaves. Esse tipo de avaliação não se aplica normalmente aos homens da mesma forma.” 
Também questiona o argumento do mérito: “Partimos do princípio de que, durante 80 anos, quem liderou o secretariado-geral teve mérito. Não há razão para pensar que uma mulher com mérito e experiência não o possa fazer agora.” 
Se a ONU voltar a escolher um homem, a mensagem não será neutra. E Susana Malcorra entende que, falando-se de mudança, de reforma e de refundação, seria um sinal não positivo, uma vez que “os símbolos são importantes”. Porém, evita o maniqueísmo, não dizendo que a eleição de um homem seria um fracasso, mas sustenta que “seria uma oportunidade perdida”. 
Questionada sobre se se candidatará, respondeu que teve a sua oportunidade, em 2016, e que, havendo um tempo para tudo, o seu “já passou”. Agora, o seu trabalho é garantir que não faltam mulheres, quando chega a altura de decidir, através de iniciativas, como a GWL Voices, fundada com outras antigas candidatas a secretária-geral da ONU, cujo papel “é mostrar o caminho”. E alerta as mulheres que trabalham na diplomacia internacional e que aspiram aos mais altos cargos: “Nada disto é fácil. Os espaços de poder não se abrem sozinhos. É preciso ter convicção, determinação e sermos nós próprias. Os valores são importantes. E não devemos ceder nessa determinação.” 
O relatório conclui que a igualdade da Carta das Nações Unidas só foi parcialmente cumprida: apesar dos progressos em muitas áreas de liderança, as mulheres continuam sub-representadas nos espaços onde o poder está concentrado. A maior prova disto é o cargo de secretário-geral da ONU. Desde 1945, nunca foi ocupado por uma mulher e o registo de nomeações reflete exclusão sustentada: das mais de 40 candidaturas, em 80 anos, apenas oito foram de mulheres. Durante as primeiras seis décadas da organização não foram oficialmente consideradas candidaturas de mulheres. O primeiro marco só aconteceu em 2006, quando Vaira Vīķe-Freiberga, presidente da Letónia, foi a mulher candidata, num processo dominado por homens. Dez anos depois, em 2016, deu-se a grande viragem: com um processo mais transparente, houve 13 nomeações e sete delas eram mulheres, a maior presença de sempre de mulheres, nesta corrida. Contudo, o lugar foi para António Guterres.
A investigação foca também o principal estrangulamento do sistema: o Conselho de Segurança. Embora a Assembleia Geral eleja o secretário-geral, só o pode fazer por recomendação do Conselho, onde os cinco membros permanentes mantêm o direito de veto, uma barreira que condiciona qualquer candidatura, por maior apoio internacional que tenha.
Além do cargo de secretário-geral, os dados revelam progressos, mas desiguais. Nas 62 organizações multilaterais analisadas, 46% são, atualmente, chefiadas por uma mulher, um número que se aproxima da paridade e que aumentou, face aos 42% registados em 2023. Porém, os progressos surgiram a par de inércia persistente: 21 organizações nunca tiveram uma mulher à frente e outras 20 só elegeram uma mulher em toda a sua História.
No coração político e operacional do sistema, o Secretariado da ONU oferece uma imagem mais tangível da mudança. Em 14 entidades-chave examinadas, a percentagem histórica de mulheres líderes é de 26%, mas o número atual é de 50%, sendo, atualmente, sete instituições são dirigidas por mulheres. Todavia, três destas entidades nunca foram dirigidas por uma mulher, o que confirma que a paridade não progride ao mesmo ritmo, em todas as áreas.
Onde a estagnação é mais evidente é na representação do Estado, especialmente, na diplomacia mais visível. Em 2025, as mulheres representam 23% dos representantes permanentes da ONU, em Nova Iorque. A proporção melhora noutras sedes (34%, em Genebra, e 31%, em Viena), mas está longe de uma representação equilibrada. O relatório acrescenta outro facto revelador: 72 países nunca enviaram uma mulher como representante permanente a Nova Iorque e 63 só enviaram uma mulher uma vez.
O fosso agrava-se nos órgãos de decisão. Nos 32 órgãos de governo inquiridos, as mulheres representam, em média, 29% dos seus membros. No grupo de instituições que a GWL Voices monitoriza numa base comparável desde 2023, o número mal se move e permanece em torno de 28-30%, um indicador de que a mudança é mais lenta, precisamente, nos espaços onde os governos decidem as prioridades, supervisionam e nomeiam a liderança.
Enfim, o relatório apresenta um padrão: o sistema multilateral mostrou que a paridade pode ser abordada, quando priorizada e medida, mas a resistência persiste nos níveis mais altos do poder político. E a GWL Voices, conclui: “Os princípios de igualdade proclamados pela ONU permanecerão incompletos, enquanto os seus mais altos cargos não refletirem essa diversidade.”

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Há, muitos setores de desigualdade para as mulheres, desde o salário, as condições de trabalho, a entrada na política e a ocupação de cargos cimeiros nas empresas até à saúde.  
As mulheres perdem cerca de 75 milhões de anos de vida saudável, por ano, o que equivale a uma semana de vida saudável por mulher, anualmente.
Mulheres e raparigas representam 49% da população mundial e, embora vivam mais do que os homens, passam mais 25% da vida com saúde precária ou com deficiência. A saúde das mulheres recebe apenas 6% do investimento privado total em saúde, e as empresas exclusivamente focadas na saúde das mulheres atraem menos de 1%, segundo o novo relatório do Fórum Económico Mundial (WEF) e da Boston Consulting Group (BCG). “A igualdade de género progrediu, mas a diferença entre resultados de saúde de homens e mulheres continua substancial”, escreveram Trish Stroman, da BCG, e Shyam Bishen, do WEF, no relatório.
Na tecnologia de saúde, a diferença é maior: as empresas focadas na saúde das mulheres captaram apenas 2% dos 41,2 mil milhões de dólares de financiamento de capital de risco em tecnologia de saúde em 2023. Rastreios adequados e melhores cuidados para mulheres nos EUA, considerando quatro condições (menopausa, osteoporose, doença de Alzheimer e doenças cardiovasculares), podiam libertar mais de 100 mil milhões de dólares em valor de mercado. A questão não é só de défice de saúde pública, mas também de ineficiência de mercado em escala histórica.
Muitas doenças afetam as mulheres de forma única, diferente e desproporcionada.

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Estamos muito aquém da igualdade de género, no quadro da igualdade de oportunidades.

2026.01.30 – Louro de Carvalho


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