A
festa do Batismo de Jesus, que assinala o termo da quadra natalícia e o início
do tempo Comum no Ano Litúrgico – neste caso, o Ano A, em que se lê, ao
domingo, predominantemente, o Evangelho de Mateus –, evoca o momento em que
Jesus, ungido pelo Espírito Santo e apresentado como “o Filho muito Amado” de
Deus, abraçou a missão que o Pai Lhe confiou: recriar o Mundo, segundo o
coração de Deus, fazer nascer um Homem Novo. E propõe a todos os batizados em
Cristo, que tirem desse facto as consequências que se impõem.
***
O
trecho de Isaías 42,1-4.6-7 anuncia o misterioso “Servo”, eleito por
Deus e enviado a instaurar o Mundo de justiça e de paz sem fim. Investido do
Espírito de Deus, concretizará a missão com humildade e simplicidade, sem recurso
ao poder, à imposição, à prepotência.
O
texto tem duas partes que partem do mesmo lugar e terminam da mesma forma: a
eleição do “Servo” e a sua missão. Enquanto a primeira desenvolve mais a
dimensão do chamamento, a segunda define melhor a missão.
Na
primeira parte (vv 1-4), afirma-se que o “Servo” é um “eleito” (“behir”)
de Deus, alguém que Deus Se dignou “escolher” (“bahar”) entre muitos, com vista
a uma função ou missão especial. É o contexto da eleição, isto é, o contexto em
que Deus, por sua iniciativa soberana e deliberada, destaca alguém, de entre
muitos, para o seu serviço.
A
ordenação do “Servo” realiza-se através do dom do Espírito (“ruah”), que dará
ao eleito o alento de Javé, a capacidade para levar a cabo a missão: é o
Espírito que Deus derrama sobre os chefes carismáticos de Israel. Animado pelo
Espírito, o “Servo” levará “a justiça (“mishpat”) às nações”. É uma missão de
âmbito universal, que consistirá na implementação das decisões justas dos
tribunais, base de ordem social consonante com o desígnio de Deus. A
instauração da “nova ordem” não se dará com o recurso à força, à violência, a
gestos espetaculares, mas resultará de intervenção caraterizada pela bondade,
pela mansidão, pela simplicidade, que são os sinais que identificam o estilo de
Deus. Neste sentido, o “Servo” agirá com humildade, sem nada impor e sem
desanimar, ante as dificuldades.
A
segunda parte (vv. 6-7) confirma que o “Servo” foi escolhido por Deus
para instaurar “a justiça” (a palavra “tzedeq” refere-se a ordenamento social
reto, de acordo com as indicações de Deus). O “Servo”, atuando no exercício da
missão que Deus lhe confiou, será uma luz que brilha no meio das nações; e todas
as vítimas da injustiça, da exploração ou da violência conhecerão uma nova
esperança, pois o “Servo” abrirá os olhos aos cegos, tirará do cárcere os
prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas. A sua missão é, pois, de
libertação e de salvação.
A
figura misteriosa e enigmática do “Servo” apresenta evidentes pontos de
contacto com a figura de Jesus. Aliás, os primeiros cristãos – ante a
dificuldade de explicar como é que o Messias tinha sido condenado pelos homens
e pregado na cruz – utilizaram os cânticos do “Servo” para justificar o
sofrimento e o aparente fracasso humano de Jesus: Ele é o “eleito de Deus”, que
recebeu a plenitude do Espírito, que veio ao encontro dos homens com a missão
de trazer a justiça e a paz definitivas, que sofreu e morreu para ser fiel à
missão que o Pai Lhe confiou.
***
No Evangelho
(Mt 3,13-17), concretiza-se a promessa profética do trecho de Isaías em
referência: Jesus é o Filho-Servo enviado pelo Pai, sobre quem repousa o
Espírito e cuja missão é realizar a libertação dos homens. Obedecendo ao Pai,
tornou-Se pessoa, identificou-Se com as fragilidades dos homens, caminhou ao
lado deles, para os levar à Vida em plenitude.
O
Evangelho leva-nos ao vale do rio Jordão, nas franjas do deserto de Judá, que a
tradição identifica com o atual Qasr El Yahud, na margem oriental do rio, a
cerca de 10 quilómetros do Mar Morto, local de passagem dos peregrinos vindos
da Galileia para Jerusalém.
O
Jordão é o rio mais emblemático de Israel. Atravessa-o de alto a baixo, desde o
sopé do monte Hermon até ao mar Morto, no percurso de cerca de 300 quilómetros
(104, em linha reta). As suas águas são fonte de vida. Foi através desse rio
que os Hebreus, guiados por Josué (após a morte de Moisés) entraram na Terra
Prometida. No tempo do profeta Eliseu, o general sírio Naamã viu-se curado da
lepra, ao mergulhar nas águas do Jordão. E, alguns séculos mais tarde, no final
do ano 27 ou no princípio do ano 28 d.C., apareceu nas margens do Jordão um
profeta original e independente, com mensagem nova e deveras interpelante. A
mensagem de João Batista, centrada na urgência da conversão (na ótica do
Batista, a intervenção definitiva de Deus na História para destruir o mal
estava iminente), incluía o rito de purificação pela água.
O
judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água, sempre ligados a contextos
de purificação ou de mudança de vida, incluindo a integração dos prosélitos
(pagãos que aderiam ao judaísmo) na comunidade do Povo de Deus. A imersão na
água sugeria a rutura com a vida passada e o ressurgir para a vida nova, o novo
nascimento, o novo começo. No atinente ao Batismo proposto por João, estamos frente
a um rito de iniciação à comunidade messiânica: quem aceitava o batismo,
renunciava ao pecado, convertia-se a uma vida nova e passava a integrar a
comunidade que esperava o Messias.
Jesus,
que vivia em Nazaré, na Galileia, ouviu falar de João e da sua pregação.
Procurou-o nas margens do Jordão, escutou o seu apelo à conversão e quis
receber o batismo.
A
narração mateana apresenta dois quadros. No primeiro (vv. 14-15), temos o
diálogo entre João e Jesus; no segundo (vv 16-17), a manifestação de
Jesus, o “Filho muito amado” de Deus.
O
diálogo entre João e Jesus é exclusivo de Mateus. João, ao ver Jesus entre os batizandos,
fica confuso. Pelas suas expetativas, o enviado de Deus viria julgar o povo e
“batizar no Espírito Santo e no fogo”. Porém, Jesus apresenta-se misturado com
o povo pecador, disposto a mergulhar no rio e a receber um batismo de
conversão. João expressa a sua perplexidade dizendo: “Eu é que preciso de ser
batizado por Ti, e Tu vens ter comigo?” A resposta de Jesus soa bem estranha:
“Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça.” No evangelho de
Mateus, a justiça é o plano de Deus, o seu desígnio salvador em favor dos
homens. Jesus pretende obedecer ao Pai e cumprir o desígnio de salvação que
Deus tem para os homens.
O
batismo de Jesus no Jordão insere-se no cumprimento do plano salvador de Deus,
pois, ao entrar na água com todos os que pediam o batismo de João – um batismo
de penitência e de perdão dos pecados –, Jesus, pela dinâmica da encarnação,
solidariza-se com o homem limitado e pecador, coloca-se ao lado dos homens para
os ajudar a sair dessa situação, disposto a percorrer com os homens a via que
leva à vida plena. Esse é o programa que Jesus, em obediência ao Pai, irá
cumprir; e começa a cumpri-lo no dia em que é batizado no Jordão.
Na
segunda parte, temos uma catequese sobre a identidade de Jesus, identidade que
se manifesta nos acontecimentos que se registaram após Jesus ter saído da água.
O quadro apresenta três elementos simbólicos significativos: os céus abertos, o
Espírito a descer em forma de pomba sobre Jesus e a voz do céu.
A
“abertura do céu” é uma imagem que se inspira-se em Is 63,19, passagem
em que o profeta pede a Deus que “abra os céus” e desça ao encontro do seu
Povo, refazendo a relação que o pecado do Povo interrompeu. O envio de Jesus ao
Mundo mostra a resposta favorável de Deus. A presença de Jesus na História
relança a comunhão entre Deus e a Humanidade pecadora.
O
Espírito que desce, em forma de pomba sobre Jesus é o sopro de vida de Deus que
cria, que renova, que transforma, que cura os seres vivos. Leva-nos ao Espírito
de Deus que, na criação, “pairava sobre a superfície das águas” (Gn 1,2).
Ungido com a força do Espírito, Jesus partirá ao encontro dos homens, para
fazer nascer a nova Humanidade.
Por
fim, temos a voz vinda do céu. Os rabis usavam a “voz do céu” como forma de
expressar a opinião de Deus acerca de pessoa ou de acontecimento. No batismo de
Jesus, a voz declara que Jesus é o Filho de Deus; e fá-lo com uma fórmula
tomada do cântico do “Servo de Javé”, acima referido. A “voz do céu” dirige-se
a nós. Garante-nos que Jesus é o eleito de Deus, o Filho no qual o Pai “pôs
toda a sua complacência”, Aquele que Deus enviou ao encontro dos homens para
recriar a Humanidade e para lhe oferecer a salvação. Da ação de Jesus, o Filho
amado de Deus, nascerá a nova Humanidade. Porém, deve pôr-se em evidência a
missão de Jesus, como a do Servo de Javé, não se desenrolará no triunfalismo,
mas na obediência total ao Pai; não se cumprirá com poder e prepotência, mas na
suavidade, na simplicidade, na humildade, no respeito pelos homens (“não
gritará, nem levantará a voz; não quebrará a cana fendida, nem apagará a
torcida que ainda fumega” – Is 42,2-3).
Assim,
Jesus, batizado no Espírito, ungido com a força de Deus, capacitado para
cumprir o projeto do Pai, partirá ao encontro do Mundo para a missão de
construir o reino de Deus.
Afinal,
o Batismo de Jesus no Jordão constitui a inauguração da vida pública de Jesus materializada
no caminho para Jerusalém para receber o Batismo da Cruz, no qual todos somos
redimidos: “Hoje mesmo, estarás comigo no paraíso!” E a certeza de que é mesmo
assim (que Jesus foi glorificado na Cruz e nós redimidos) é nos dada pela
Ressurreição.
***
Pedro (At
10,34-38) reafirma que Jesus é o Filho amado que o Pai enviou para
concretizar o desígnio de salvação em favor dos homens. Por isso, Ele “passou
pelo Mundo fazendo o bem” e libertando todos os que eram oprimidos. É este o
testemunho que os discípulos dão, para que a salvação que Deus oferece chegue a
todos os povos da Terra.
No
seu discurso, em casa de Cornélio, Pedro reconhece que a salvação oferecida por
Deus e trazida por Cristo é universal e se destina a todas as pessoas, sem qualquer
distinção. Israel foi o primeiro recetor privilegiado da Palavra de Deus, mas
Cristo veio trazer a “boa nova da paz” (salvação) a todos os homens. Ao partir
ao encontro do Pai, Jesus ressuscitado enviou os discípulos ao Mundo e mandou
que levassem a todos os homens esta Boa Nova da salvação. Os discípulos,
testemunhas de Jesus, devem cumprir o mandato e fazer chegar a salvação a todos
os homens e mulheres, sem distinção de raça, de cor ou de estatuto social.
Após
definir os contornos universais da ação salvadora de Deus, Pedro apresenta uma
espécie de resumo da fé primitiva, que expõe em ato a missão fundamental dos
discípulos: anunciar Jesus e testemunhar a salvação que deve chegar a todos os
homens.
O
trecho em apreço é apenas a parte inicial do “kérigma” primitivo, que resume a
atividade de Jesus que, após ter sido ungido com a força Espírito Santo no Jordão,
“passou pelo Mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo
demónio, porque Deus estava com Ele”. Porém, o anúncio de Pedro prossegue,
depois, com a catequese sobre a morte, sobre a ressurreição e sobre a dimensão
salvífica da vida de Jesus.
Cornélio
e a sua família acolheram o “kérigma” cristão proclamado por Pedro, abraçaram a
fé, receberam o Espírito, foram batizados e passaram a integrar a comunidade de
Jesus.
***
Vejamos
o que Leão XIV nos disse, a 11 de janeiro, sobre esta festa.
“A
festa do Batismo de Jesus dá início ao Tempo Comum, período do ano litúrgico que
nos convida-nos a seguir juntos o Senhor, escutando a sua Palavra e imitando os
seus gestos de amor para com o próximo. É assim que confirmamos e renovamos o
nosso Batismo, ou seja, o Sacramento que nos torna cristãos, libertando-nos do
pecado e transformando-nos em filhos de Deus, pelo poder do seu Espírito de
vida.
“O
Evangelho conta como nasce este sinal eficaz da graça. Quando Jesus é batizado
por João no rio Jordão, vê “o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir
sobre Ele”. Ao mesmo tempo, dos céus abertos, ouve-se a voz do Pai que diz: “Este
é o meu Filho muito amado.” Então, toda a Trindade Se torna presente na História:
tal como o Filho desce nas águas do Jordão, assim o Espírito Santo desce sobre
Ele e, através d’Ele, é-nos dado como força de salvação.
“Deus
não observa o mundo de longe, sem tocar a nossa vida, os nossos males e as
nossas expectativas! Ele vem para o meio de nós com a sabedoria do seu Verbo
feito carne, envolvendo-nos num surpreendente projeto de amor por toda a Humanidade.
“É
por isso que João Batista, admirado, pergunta a Jesus: ‘Tu vens a mim?’ Na sua
santidade, o Senhor faz-Se batizar como todos os pecadores, para revelar a
infinita misericórdia de Deus. Na verdade, o Filho Unigénito, no qual somos
irmãos e irmãs, vem para servir e não para dominar, para salvar e não para
condenar. Ele é o Cristo redentor: toma sobre Si o que é nosso, incluindo o
pecado, e dá-nos o que é seu, ou seja, a graça de uma vida nova e eterna.
“O
sacramento do Batismo realiza este acontecimento em todos os tempos e lugares,
introduzindo cada um de nós na Igreja, que é o povo de Deus, formado por homens
e mulheres de todas as nações e culturas, regenerados pelo seu Espírito. Por
isso devemos recordar o grande dom recebido, comprometendo-nos a testemunhá-lo
com alegria e coerência. […] O primeiro dos Sacramentos é um sinal sagrado, que
nos acompanha para sempre. Nas horas sombrias, o Batismo é luz; nos conflitos
da vida, é reconciliação; na hora da morte, é a porta do céu.
“Oremos
à Virgem Maria, pedindo-Lhe que sustente diariamente a nossa fé e a missão da
Igreja.”
***
É,
pois, justo e salutar que entoemos o cântico do salmista:
“O
Senhor abençoará o seu povo na paz.”
Tributai
ao Senhor, filhos de Deus, / tributai ao Senhor glória e poder. / Tributai ao
Senhor a glória do seu nome, adorai o Senhor com ornamentos sagrados.
“A
voz do Senhor ressoa sobre as nuvens, / o Senhor está sobre a vastidão das
águas. / A voz do Senhor é poderosa, / a voz do Senhor é majestosa.
“A
majestade de Deus faz ecoar o seu trovão / e no seu templo todos clamam:
Glória! Sobre as águas do dilúvio senta-Se o Senhor, / o Senhor senta-Se como
rei eterno.”
***
E
que aclamemos o Evangelho:
“Aleluia.
Aleluia. Abriram-se os céus e ouviu-se a voz do Pai: Este é o meu Filho muito
amado: escutai-O!”
2026.01.23 – Louro de Carvalho
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