sábado, 24 de janeiro de 2026

No Batismo do Senhor, ficamos a saber quem é Jesus de Nazaré

 

A festa do Batismo de Jesus, que assinala o termo da quadra natalícia e o início do tempo Comum no Ano Litúrgico – neste caso, o Ano A, em que se lê, ao domingo, predominantemente, o Evangelho de Mateus –, evoca o momento em que Jesus, ungido pelo Espírito Santo e apresentado como “o Filho muito Amado” de Deus, abraçou a missão que o Pai Lhe confiou: recriar o Mundo, segundo o coração de Deus, fazer nascer um Homem Novo. E propõe a todos os batizados em Cristo, que tirem desse facto as consequências que se impõem.

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O trecho de Isaías 42,1-4.6-7 anuncia o misterioso “Servo”, eleito por Deus e enviado a instaurar o Mundo de justiça e de paz sem fim. Investido do Espírito de Deus, concretizará a missão com humildade e simplicidade, sem recurso ao poder, à imposição, à prepotência.
O texto tem duas partes que partem do mesmo lugar e terminam da mesma forma: a eleição do “Servo” e a sua missão. Enquanto a primeira desenvolve mais a dimensão do chamamento, a segunda define melhor a missão.
Na primeira parte (vv 1-4), afirma-se que o “Servo” é um “eleito” (“behir”) de Deus, alguém que Deus Se dignou “escolher” (“bahar”) entre muitos, com vista a uma função ou missão especial. É o contexto da eleição, isto é, o contexto em que Deus, por sua iniciativa soberana e deliberada, destaca alguém, de entre muitos, para o seu serviço.
A ordenação do “Servo” realiza-se através do dom do Espírito (“ruah”), que dará ao eleito o alento de Javé, a capacidade para levar a cabo a missão: é o Espírito que Deus derrama sobre os chefes carismáticos de Israel. Animado pelo Espírito, o “Servo” levará “a justiça (“mishpat”) às nações”. É uma missão de âmbito universal, que consistirá na implementação das decisões justas dos tribunais, base de ordem social consonante com o desígnio de Deus. A instauração da “nova ordem” não se dará com o recurso à força, à violência, a gestos espetaculares, mas resultará de intervenção caraterizada pela bondade, pela mansidão, pela simplicidade, que são os sinais que identificam o estilo de Deus. Neste sentido, o “Servo” agirá com humildade, sem nada impor e sem desanimar, ante as dificuldades.
A segunda parte (vv. 6-7) confirma que o “Servo” foi escolhido por Deus para instaurar “a justiça” (a palavra “tzedeq” refere-se a ordenamento social reto, de acordo com as indicações de Deus). O “Servo”, atuando no exercício da missão que Deus lhe confiou, será uma luz que brilha no meio das nações; e todas as vítimas da injustiça, da exploração ou da violência conhecerão uma nova esperança, pois o “Servo” abrirá os olhos aos cegos, tirará do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas. A sua missão é, pois, de libertação e de salvação.
A figura misteriosa e enigmática do “Servo” apresenta evidentes pontos de contacto com a figura de Jesus. Aliás, os primeiros cristãos – ante a dificuldade de explicar como é que o Messias tinha sido condenado pelos homens e pregado na cruz – utilizaram os cânticos do “Servo” para justificar o sofrimento e o aparente fracasso humano de Jesus: Ele é o “eleito de Deus”, que recebeu a plenitude do Espírito, que veio ao encontro dos homens com a missão de trazer a justiça e a paz definitivas, que sofreu e morreu para ser fiel à missão que o Pai Lhe confiou.

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No Evangelho (Mt 3,13-17), concretiza-se a promessa profética do trecho de Isaías em referência: Jesus é o Filho-Servo enviado pelo Pai, sobre quem repousa o Espírito e cuja missão é realizar a libertação dos homens. Obedecendo ao Pai, tornou-Se pessoa, identificou-Se com as fragilidades dos homens, caminhou ao lado deles, para os levar à Vida em plenitude.
O Evangelho leva-nos ao vale do rio Jordão, nas franjas do deserto de Judá, que a tradição identifica com o atual Qasr El Yahud, na margem oriental do rio, a cerca de 10 quilómetros do Mar Morto, local de passagem dos peregrinos vindos da Galileia para Jerusalém.
O Jordão é o rio mais emblemático de Israel. Atravessa-o de alto a baixo, desde o sopé do monte Hermon até ao mar Morto, no percurso de cerca de 300 quilómetros (104, em linha reta). As suas águas são fonte de vida. Foi através desse rio que os Hebreus, guiados por Josué (após a morte de Moisés) entraram na Terra Prometida. No tempo do profeta Eliseu, o general sírio Naamã viu-se curado da lepra, ao mergulhar nas águas do Jordão. E, alguns séculos mais tarde, no final do ano 27 ou no princípio do ano 28 d.C., apareceu nas margens do Jordão um profeta original e independente, com mensagem nova e deveras interpelante. A mensagem de João Batista, centrada na urgência da conversão (na ótica do Batista, a intervenção definitiva de Deus na História para destruir o mal estava iminente), incluía o rito de purificação pela água.
O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água, sempre ligados a contextos de purificação ou de mudança de vida, incluindo a integração dos prosélitos (pagãos que aderiam ao judaísmo) na comunidade do Povo de Deus. A imersão na água sugeria a rutura com a vida passada e o ressurgir para a vida nova, o novo nascimento, o novo começo. No atinente ao Batismo proposto por João, estamos frente a um rito de iniciação à comunidade messiânica: quem aceitava o batismo, renunciava ao pecado, convertia-se a uma vida nova e passava a integrar a comunidade que esperava o Messias.
Jesus, que vivia em Nazaré, na Galileia, ouviu falar de João e da sua pregação. Procurou-o nas margens do Jordão, escutou o seu apelo à conversão e quis receber o batismo.
A narração mateana apresenta dois quadros. No primeiro (vv. 14-15), temos o diálogo entre João e Jesus; no segundo (vv 16-17), a manifestação de Jesus, o “Filho muito amado” de Deus.
O diálogo entre João e Jesus é exclusivo de Mateus. João, ao ver Jesus entre os batizandos, fica confuso. Pelas suas expetativas, o enviado de Deus viria julgar o povo e “batizar no Espírito Santo e no fogo”. Porém, Jesus apresenta-se misturado com o povo pecador, disposto a mergulhar no rio e a receber um batismo de conversão. João expressa a sua perplexidade dizendo: “Eu é que preciso de ser batizado por Ti, e Tu vens ter comigo?” A resposta de Jesus soa bem estranha: “Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça.” No evangelho de Mateus, a justiça é o plano de Deus, o seu desígnio salvador em favor dos homens. Jesus pretende obedecer ao Pai e cumprir o desígnio de salvação que Deus tem para os homens.
O batismo de Jesus no Jordão insere-se no cumprimento do plano salvador de Deus, pois, ao entrar na água com todos os que pediam o batismo de João – um batismo de penitência e de perdão dos pecados –, Jesus, pela dinâmica da encarnação, solidariza-se com o homem limitado e pecador, coloca-se ao lado dos homens para os ajudar a sair dessa situação, disposto a percorrer com os homens a via que leva à vida plena. Esse é o programa que Jesus, em obediência ao Pai, irá cumprir; e começa a cumpri-lo no dia em que é batizado no Jordão.
Na segunda parte, temos uma catequese sobre a identidade de Jesus, identidade que se manifesta nos acontecimentos que se registaram após Jesus ter saído da água. O quadro apresenta três elementos simbólicos significativos: os céus abertos, o Espírito a descer em forma de pomba sobre Jesus e a voz do céu.
A “abertura do céu” é uma imagem que se inspira-se em Is 63,19, passagem em que o profeta pede a Deus que “abra os céus” e desça ao encontro do seu Povo, refazendo a relação que o pecado do Povo interrompeu. O envio de Jesus ao Mundo mostra a resposta favorável de Deus. A presença de Jesus na História relança a comunhão entre Deus e a Humanidade pecadora.
O Espírito que desce, em forma de pomba sobre Jesus é o sopro de vida de Deus que cria, que renova, que transforma, que cura os seres vivos. Leva-nos ao Espírito de Deus que, na criação, “pairava sobre a superfície das águas” (Gn 1,2). Ungido com a força do Espírito, Jesus partirá ao encontro dos homens, para fazer nascer a nova Humanidade.
Por fim, temos a voz vinda do céu. Os rabis usavam a “voz do céu” como forma de expressar a opinião de Deus acerca de pessoa ou de acontecimento. No batismo de Jesus, a voz declara que Jesus é o Filho de Deus; e fá-lo com uma fórmula tomada do cântico do “Servo de Javé”, acima referido. A “voz do céu” dirige-se a nós. Garante-nos que Jesus é o eleito de Deus, o Filho no qual o Pai “pôs toda a sua complacência”, Aquele que Deus enviou ao encontro dos homens para recriar a Humanidade e para lhe oferecer a salvação. Da ação de Jesus, o Filho amado de Deus, nascerá a nova Humanidade. Porém, deve pôr-se em evidência a missão de Jesus, como a do Servo de Javé, não se desenrolará no triunfalismo, mas na obediência total ao Pai; não se cumprirá com poder e prepotência, mas na suavidade, na simplicidade, na humildade, no respeito pelos homens (“não gritará, nem levantará a voz; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega” – Is 42,2-3).
Assim, Jesus, batizado no Espírito, ungido com a força de Deus, capacitado para cumprir o projeto do Pai, partirá ao encontro do Mundo para a missão de construir o reino de Deus.
Afinal, o Batismo de Jesus no Jordão constitui a inauguração da vida pública de Jesus materializada no caminho para Jerusalém para receber o Batismo da Cruz, no qual todos somos redimidos: “Hoje mesmo, estarás comigo no paraíso!” E a certeza de que é mesmo assim (que Jesus foi glorificado na Cruz e nós redimidos) é nos dada pela Ressurreição.

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Pedro (At 10,34-38) reafirma que Jesus é o Filho amado que o Pai enviou para concretizar o desígnio de salvação em favor dos homens. Por isso, Ele “passou pelo Mundo fazendo o bem” e libertando todos os que eram oprimidos. É este o testemunho que os discípulos dão, para que a salvação que Deus oferece chegue a todos os povos da Terra.
No seu discurso, em casa de Cornélio, Pedro reconhece que a salvação oferecida por Deus e trazida por Cristo é universal e se destina a todas as pessoas, sem qualquer distinção. Israel foi o primeiro recetor privilegiado da Palavra de Deus, mas Cristo veio trazer a “boa nova da paz” (salvação) a todos os homens. Ao partir ao encontro do Pai, Jesus ressuscitado enviou os discípulos ao Mundo e mandou que levassem a todos os homens esta Boa Nova da salvação. Os discípulos, testemunhas de Jesus, devem cumprir o mandato e fazer chegar a salvação a todos os homens e mulheres, sem distinção de raça, de cor ou de estatuto social.
Após definir os contornos universais da ação salvadora de Deus, Pedro apresenta uma espécie de resumo da fé primitiva, que expõe em ato a missão fundamental dos discípulos: anunciar Jesus e testemunhar a salvação que deve chegar a todos os homens.
O trecho em apreço é apenas a parte inicial do “kérigma” primitivo, que resume a atividade de Jesus que, após ter sido ungido com a força Espírito Santo no Jordão, “passou pelo Mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele”. Porém, o anúncio de Pedro prossegue, depois, com a catequese sobre a morte, sobre a ressurreição e sobre a dimensão salvífica da vida de Jesus.
Cornélio e a sua família acolheram o “kérigma” cristão proclamado por Pedro, abraçaram a fé, receberam o Espírito, foram batizados e passaram a integrar a comunidade de Jesus.

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Vejamos o que Leão XIV nos disse, a 11 de janeiro, sobre esta festa.

“A festa do Batismo de Jesus dá início ao Tempo Comum, período do ano litúrgico que nos convida-nos a seguir juntos o Senhor, escutando a sua Palavra e imitando os seus gestos de amor para com o próximo. É assim que confirmamos e renovamos o nosso Batismo, ou seja, o Sacramento que nos torna cristãos, libertando-nos do pecado e transformando-nos em filhos de Deus, pelo poder do seu Espírito de vida.
“O Evangelho conta como nasce este sinal eficaz da graça. Quando Jesus é batizado por João no rio Jordão, vê “o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele”. Ao mesmo tempo, dos céus abertos, ouve-se a voz do Pai que diz: “Este é o meu Filho muito amado.” Então, toda a Trindade Se torna presente na História: tal como o Filho desce nas águas do Jordão, assim o Espírito Santo desce sobre Ele e, através d’Ele, é-nos dado como força de salvação.
“Deus não observa o mundo de longe, sem tocar a nossa vida, os nossos males e as nossas expectativas! Ele vem para o meio de nós com a sabedoria do seu Verbo feito carne, envolvendo-nos num surpreendente projeto de amor por toda a Humanidade.
“É por isso que João Batista, admirado, pergunta a Jesus: ‘Tu vens a mim?’ Na sua santidade, o Senhor faz-Se batizar como todos os pecadores, para revelar a infinita misericórdia de Deus. Na verdade, o Filho Unigénito, no qual somos irmãos e irmãs, vem para servir e não para dominar, para salvar e não para condenar. Ele é o Cristo redentor: toma sobre Si o que é nosso, incluindo o pecado, e dá-nos o que é seu, ou seja, a graça de uma vida nova e eterna.
“O sacramento do Batismo realiza este acontecimento em todos os tempos e lugares, introduzindo cada um de nós na Igreja, que é o povo de Deus, formado por homens e mulheres de todas as nações e culturas, regenerados pelo seu Espírito. Por isso devemos recordar o grande dom recebido, comprometendo-nos a testemunhá-lo com alegria e coerência. […] O primeiro dos Sacramentos é um sinal sagrado, que nos acompanha para sempre. Nas horas sombrias, o Batismo é luz; nos conflitos da vida, é reconciliação; na hora da morte, é a porta do céu.
“Oremos à Virgem Maria, pedindo-Lhe que sustente diariamente a nossa fé e a missão da Igreja.”

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É, pois, justo e salutar que entoemos o cântico do salmista:

“O Senhor abençoará o seu povo na paz.”

Tributai ao Senhor, filhos de Deus, / tributai ao Senhor glória e poder. / Tributai ao Senhor a glória do seu nome, adorai o Senhor com ornamentos sagrados.

“A voz do Senhor ressoa sobre as nuvens, / o Senhor está sobre a vastidão das águas. / A voz do Senhor é poderosa, / a voz do Senhor é majestosa.

“A majestade de Deus faz ecoar o seu trovão / e no seu templo todos clamam: Glória! Sobre as águas do dilúvio senta-Se o Senhor, / o Senhor senta-Se como rei eterno.”

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E que aclamemos o Evangelho:

“Aleluia. Aleluia. Abriram-se os céus e ouviu-se a voz do Pai: Este é o meu Filho muito amado: escutai-O!”

2026.01.23 – Louro de Carvalho

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