A
vaga de protestos no Irão, que eclodiu a 28 de dezembro de 2025, devido ao
colapso do rial e ao brutal aumento do custo de vida, levou o regime de Teerão
a recear entre seis mil e 30 mil mortos. Porém, aumentou a repressão sobre os
manifestantes, que acusa de terroristas ou de estarem ao serviço de países
estrangeiros, nomeadamente, os Estados
Unidos da América (EUA) e Israel. Entretanto, a 26 de janeiro de 2026, o Canal
13 de Israel, fez constar que os EUA estavam a finalizar a constituição de
forças navais, aéreas e terrestres para uma possível campanha contra o Irão.
Efetivamente, segundo altos funcionários norte-americanos as forças estariam mobilizadas em pontos estratégicos do Médio Oriente e da bacia do Mediterrâneo até ao dia 31, como parte dos preparativos para ataques que podem durar “várias semanas”. Todavia, como diziam os ditos responsáveis, ainda não tinha sido tomada uma decisão final sobre a investida.
Efetivamente, segundo altos funcionários norte-americanos as forças estariam mobilizadas em pontos estratégicos do Médio Oriente e da bacia do Mediterrâneo até ao dia 31, como parte dos preparativos para ataques que podem durar “várias semanas”. Todavia, como diziam os ditos responsáveis, ainda não tinha sido tomada uma decisão final sobre a investida.
De
acordo com o Canal 13 de Israel, o porta-aviões USS Abraham Lincoln está
no eixo do poder naval norte-americano. Com milhares de soldados a bordo, estão
mobilizados cerca de 90 caças, incluindo caças F-35 e 10 helicópteros
“Blackhawk”, perto do Mar da Arábia. A par do porta-aviões, há
contratorpedeiros e submarinos equipados com mísseis de cruzeiro “Tomahawk”.
Simultaneamente, para aumentar o poder aéreo, foram transferidos caças F-15 norte-americanos
para várias bases da região, incluindo a Jordânia. Além disso, três
contratorpedeiros foram implantados perto da costa espanhola e um submarino
está no Sul da Grécia. Essas forças
podem chegar, rapidamente, ao alcance operacional contra o Irão, se necessário.
As
defesas aéreas dos EUA foram reforçadas por navios de guerra que transportam o
sistema de defesa antimísseis balísticos Aegis e os sistemas TODD (THAAD).
Eyal
Zamir, chefe do Estado-Maior General do Exército israelita, encontrou-se, a 24
de janeiro, em Telavive, com Brad Cooper, comandante do quartel-general do
Comando Central dos EUA (CENTCOM), encontro em que estiveram presentes o chefe
da inteligência militar israelita Shlomi Binder, o líder da Direção de
Operações Isaac Cohen e outros oficiais da defesa israelitas. De acordo com o Canal
13 de Israel, o objetivo era coordenar as operações na antecâmara de um
possível ataque em solo iraniano.
Durante
as conversações, como reporta a estação televisiva israelita, foi dito aos
responsáveis de Israel que Donald Trump ainda não tinha tomado uma decisão
final sobre a realização de um ataque, mas que, até ao final da semana, os EUA
tinham concluído a preparação das ferramentas e os arranjos necessários para
uma operação de contingência. Os oficiais das forças israelitas descreveram
esta semana em campo como uma “semana chave”.
Altos
funcionários israelitas também apresentaram, na reunião, o posicionamento do
país sobre o possível ataque ao Irão. Segundo o Canal 13 de Israel, as
autoridades israelitas disseram que, num primeiro golpe, os alvos militares
deveriam ser incluídos ao lado dos alvos do governo. As instituições
governamentais devem ser visadas, como defendeu o lado israelita, com vista a
encorajar o povo iraniano a derrubar o regime dos aiatolas. Porém, os militares
de Israel consideram que as aeronaves americanas também devem ter como alvo o
arranjo de mísseis terra Terra do Irão, que representa uma ameaça direta contra
Israel.
A
28 de janeiro, o
presidente dos EUA afirmou que “uma enorme armada” se dirigia para o Irão e
avisou Teerão de que deve negociar, no meio de ameaças de um possível ataque
militar norte-americano ao país. “Está a mover-se rapidamente, com grande
poder, entusiasmo e propósito”, escreveu Donald Trump, na plataforma Truth
Social, sem dar pormenores sobre a missão, mas vincando: “Esperemos que o
Irão venha, rapidamente, ‘para a mesa’ e negocie um acordo justo e equitativo,
sem armas nucleares, que seja bom para todas as partes.”
Como
dissemos, Washington deslocou para a região o USS Abraham Lincoln e vários destroyers
de mísseis guiados, que podem ser utilizados para lançar ataques a partir do
mar. Contudo, ainda não é claro o que Donald Trump decidirá sobre o uso da
força, embora tenha estabelecido duas linhas vermelhas: a morte de
manifestantes pacíficos e a possível execução em massa de detidos.
As
autoridades iranianas lançaram uma repressão sangrenta sobre as manifestações,
de acordo com organizações sem fins lucrativos e com outras fontes dentro do
Irão.
No
dia 25, a Agência de Notícias dos Ativistas dos Direitos Humanos, com sede nos
EUA, afirmou que, pelo menos, 6221 pessoas foram mortas, incluindo 5858
manifestantes, 214 membros das forças governamentais, 103 crianças e 49 civis
que não estavam a manifestar-se. E mais de 42300 pessoas foram presas.
O
número de mortos continua impossível de verificar, e os meios de comunicação
social estatais do Irão são a única fonte de notícias, já que Teerão cortou o
acesso à Internet, há três semanas. Assim, o governo iraniano calculou o
número de mortos em 3117, afirmando que 2427 eram civis e membros das forças de
segurança, e classificou os restantes como “terroristas”.
No
passado, as autoridades iranianas subestimaram ou não comunicaram as mortes
causadas pela agitação. Embora os protestos tenham sido interrompidos, durante
semanas após, a repressão, as informações que chegam lentamente do Irão, pelas
antenas parabólicas Starlink, estão a chegar aos ativistas e aos meios de
comunicação social que tentam contabilizar as vítimas. E o número de mortos,
que excede o de qualquer outra ronda de protestos ou de agitação, no Irão, em
décadas, faz lembrar o caos que rodeou a Revolução Islâmica de 1979.
O
Irão terá limitado a capacidade dos jornalistas locais para relatarem o
rescaldo dos protestos. Em vez disso, transmitiu, repetidamente, na televisão
estatal, afirmações que se referem aos manifestantes como “desordeiros”
motivados pelos EUA e por Israel, sem apresentar provas que sustentem essa
alegação.
O
desafio de obter informações do Irão persiste, devido ao facto de as
autoridades terem cortado o acesso à Internet, em 8 de janeiro, mesmo
quando as tensões aumentam entre os EUA e o Irão, à medida que um grupo de
porta-aviões americano se aproxima do Médio Oriente, força que o presidente dos
EUA comparou a uma “armada”, em comentários a jornalistas.
O
novo número de vítimas surge numa altura em que as tensões permanecem elevadas,
devido ao facto de Donald Trump ter estabelecido as referidas duas linhas
vermelhas, face aos protestos. Porém, o procurador-geral do Irão e outras
pessoas apelidaram alguns dos detidos de “mohareb”, isto é, inimigos de Deus,
acusação passível de pena de morte. Foi utilizada, com outras, para efetuar
execuções em massa, em 1988, tendo liquidado, pelo menos, cinco mil pessoas.
Desta
vez, os Iranianos ficaram zangados e ansiosos, ao verem imagens de
manifestantes mortos a tiros, e estão preocupados com o que poderá acontecer a
seguir, à medida que a economia do país se afunda cada vez mais. “Sinto que a
minha geração não conseguiu dar uma melhor lição aos mais novos. O resultado de
décadas de ensino dos meus colegas e meu levou à morte de milhares de pessoas
e, talvez, a mais feridos e prisioneiros”, disse Mohammad Heidari, 59 anos,
professor do ensino secundário em Teerão.
***
Entretanto,
no dia 25, pouco depois de Donald Trump ter anunciado que os EUA estavam a
deslocar navios de guerra para a região, para o caso de querer agir, as
autoridades iranianas fixaram um cartaz, numa praça central de Teerão, a avisar
os EUA contra uma intervenção.
O cartaz na Praça Enghelab (Revolução) retrata um porta-aviões com caças danificados e a explodir no convés. Corpos e uma piscina de sangue cobrem o convés, com rastos de sangue, que se assemelham às riscas da bandeira americana, a correr atrás da frota. O grafismo é acompanhado por um slogan que diz: “Se semeares o vento, colherás o redemoinho.”
O cartaz na Praça Enghelab (Revolução) retrata um porta-aviões com caças danificados e a explodir no convés. Corpos e uma piscina de sangue cobrem o convés, com rastos de sangue, que se assemelham às riscas da bandeira americana, a correr atrás da frota. O grafismo é acompanhado por um slogan que diz: “Se semeares o vento, colherás o redemoinho.”
A
Praça Enghelab é, normalmente, utilizada para reuniões organizadas pelo Estado,
alterando as autoridades o seu mural, em função das ocasiões nacionais.
Já
na semana anterior Donald Trump disse, a bordo do Air Force One, que os EUA estavam
“a observar o Irão” e que estavam a deslocar os navios em direção ao país. “Temos
uma frota enorme a ir nessa direção e talvez não tenhamos de a usar, veremos”, declarou
no dia 22.
O
inquilino da Casa Branca (naquele momento, inquilino do Air Force One) esclareceu
que qualquer ação militar faria com que os ataques anteriores dos EUA, lançados
contra as instalações nucleares iranianas, em junho, “parecessem uma
ninharia”.
No
dia 24, o comandante da Guarda Revolucionária paramilitar do Irão, poderosa força
na teocracia do país, advertiu os EUA e Israel para “evitarem qualquer
erro de cálculo” e que a força está “mais pronta do que nunca, com o dedo no
gatilho”.
Também
o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão emitiu um aviso contra os EUA, a
ameaça mais direta de sempre, vincando que a República Islâmica irá “ripostar
com tudo o que temos, se formos alvo de um novo ataque”. “Ao contrário da
contenção que o Irão demonstrou em junho de 2025, as nossas poderosas forças
armadas não hesitam em ripostar com tudo o que temos, se voltarmos a ser
atacados”, escreveu Abbas Araghchi, num artigo de opinião publicado pelo The
Wall Street Journal, referindo-se ao conflito de 12 dias com Israel, em
junho: “Não se trata de uma ameaça, mas de uma realidade que sinto que devo
transmitir explicitamente, porque, como diplomata e veterano, abomino a guerra.”
O
líder da Casa Branca também mencionou as várias rondas de conversações que os
funcionários norte-americanos tiveram com o Irão sobre o seu programa nuclear,
antes de Israel lançar um conflito de 12 dias contra a República Islâmica, em
junho, que viu aviões de guerra dos EUA bombardearem instalações nucleares
iranianas. E ameaçou, explicitamente, o Irão com uma ação militar que faria com
que os anteriores ataques dos EUA contra as suas instalações de enriquecimento
de urânio “parecessem amendoins”. “Deviam ter feito um acordo, antes de os
atingirmos”, acrescentou.
***
Em
Portugal, como referiu, a 30 de janeiro, o jornalista Vítor Matos, no Expresso
online, a 30 de janeiro, em artigo intitulado “Governo autorizou escalas de F-35 nas Lajes,
mas desconhece se o objetivo é atacar o Irão”, enquanto os EUA reforçam o
dispositivo no Médio Oriente para um eventual ataque ao Irão, foi registada a
passagem de vários caças F-35 pela Base das Lajes, com destino ao Médio
Oriente. O governo autorizou tais escalas, ao abrigo dos acordos com os EUA,
mas diz não conhecer a missão específica dos aviões de combate.
Tal postura governamental é, no mínimo, estranha, para não dizer hipócrita ou tímida. Na verdade, a Base das Lajes na Ilha Terceira, nos Açores, tem sido usada como ponto de passagem para os caças invisíveis F-35, em trânsito para o Médio Oriente, onde os EUA estão a concentrar significativa força militar para executarem um potencial ataque ao Irão.
Tal postura governamental é, no mínimo, estranha, para não dizer hipócrita ou tímida. Na verdade, a Base das Lajes na Ilha Terceira, nos Açores, tem sido usada como ponto de passagem para os caças invisíveis F-35, em trânsito para o Médio Oriente, onde os EUA estão a concentrar significativa força militar para executarem um potencial ataque ao Irão.
O
Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) confirma a passagem autorizada das
aeronaves, mas sem informação sobre o objetivo da escala: “Os voos com
destinos diversificados, entre os quais o Médio Oriente, foram autorizados no
quadro do acordo com aquele parceiro da NATO [Organização do Tratado do
Atlântico Norte], e não ao abrigo de qualquer operação militar específica.”
As imagens
de aviões de combate de 5.ª geração a descolar das Lajes foram registadas
por “André Spotter” e partilhadas, na rede social X, por uma conta
especializada em Defesa, OSINTtechnical, provenientes de Porto Rico e da
Virgínia, com destino ao Médio Oriente.
A
publicação especializada em defesa “The War Zone” noticia as mesmas escalas nas
Lajes, com destino desconhecido – embora o governo admita que há destinos para
o Médio Oriente – e refere a possibilidade de as aeronaves que viajam a partir
de Porto Rico serem as que intervieram na captura do presidente
venezuelano, Nicolás Maduro. Fontes militares chegaram a admitir, nessa
ocasião, que, na captura do chefe do Estado venezuelano, algumas aeronaves
norte-americanas que terão realizado voos de apoio a essa missão passaram pelas
Lajes.
Quando
o Expresso noticiou, em outubro, a passagem de F-35 para entrega a
Israel, segundo Vítor Matos, o ministro dos Negócios Estrangeiros emitiu um
comunicado a dizer que, “dada a sensibilidade da questão, esta comunicação
deveria ter sido reportada ao gabinete do ministro, antes de esgotado o prazo
de autorização”, anunciou o apuramento de responsabilidades (de cujas conclusões
não foi dado conhecimento público) e a “modificação de procedimentos, de
modo a evitar que tais falhas processuais voltem ocorrer, especialmente, em
processos de autorização tácita”. O prazo curto para informar o gabinete, de
forma a tomar uma decisão política, é de “24 horas”, após a autorização tácita,
quando existe uma “autorização anual de sobrevoo e aterragem”.
No
caso presente, o MNE não explicou se esta informação foi validada pelo
gabinete de Paulo Rangel, que diz desconhecer o objetivo dos sobrevoo destas
aeronaves, alegando que se enquadra nos acordos com os EUA.
Ora,
nos últimos dias, a retórica da administração norte-americana contra o Irão
endureceu, com o envio do porta-aviões USS Abraham Lincoln para a região. Fontes
da CNN internacional sustentam que a administração
norte-americana tenciona realizar ataques aéreos dirigidos aos líderes
iranianos e a funcionários da segurança tidos como responsáveis pelas
mortes nos protestos, assim como ataques a instalações nucleares e a instituições
governamentais. E os F-35A, os caças mais sofisticados do Mundo, já tinham participado
nos ataques ao Irão, em junho de 2025, na operação Midnight Hammer,
desempenhando papel fundamental na eliminação das defesas aéreas iranianas,
abrindo caminho, em segurança, aos bombardeiros B-2A.
Em
outubro, o embaixador de Israel em Lisboa, Oren Rozenblat, admitiu, na CNN
Portugal, que a cedência de F-35 a Israel e a sua passagem pelos Açores têm
sido secretamente faladas com o governo, que negou tais asserções. Aliás, pelos vistos, o chefe da diplomacia assumiu que não foi informado da escala de
três caças F-35 nas Lajes com destino a Israel e o executivo não disse o que
faria, quanto à passagem de mais material militar para Telavive pelos
Açores.
***
É
criticável o facto de um aliado autorizar o quer que seja, sem saber em que
termos e para que efeito. Isto é abdicar do exercício da soberania. Ou, então,
não nos dizem a verdade. Estarão a funcionar regularmente as instituições
democráticas, senhor Presidente da República?
2026.01.30
– Louro de Carvalho
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