sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Donald Trump anuncia uma “armada maciça” a caminho do Irão

 

A vaga de protestos no Irão, que eclodiu a 28 de dezembro de 2025, devido ao colapso do rial e ao brutal aumento do custo de vida, levou o regime de Teerão a recear entre seis mil e 30 mil mortos. Porém, aumentou a repressão sobre os manifestantes, que acusa de terroristas ou de estarem ao serviço de países estrangeiros, nomeadamente,  os Estados Unidos da América (EUA) e Israel. Entretanto, a 26 de janeiro de 2026, o Canal 13 de Israel, fez constar que os EUA estavam a finalizar a constituição de forças navais, aéreas e terrestres para uma possível campanha contra o Irão.
Efetivamente, segundo altos funcionários norte-americanos as forças estariam mobilizadas em pontos estratégicos do Médio Oriente e da bacia do Mediterrâneo até ao dia 31, como parte dos preparativos para ataques que podem durar “várias semanas”. Todavia, como diziam os ditos responsáveis, ainda não tinha sido tomada uma decisão final sobre a investida.
De acordo com o Canal 13 de Israel, o porta-aviões USS Abraham Lincoln está no eixo do poder naval norte-americano. Com milhares de soldados a bordo, estão mobilizados cerca de 90 caças, incluindo caças F-35 e 10 helicópteros “Blackhawk”, perto do Mar da Arábia. A par do porta-aviões, há contratorpedeiros e submarinos equipados com mísseis de cruzeiro “Tomahawk”. Simultaneamente, para aumentar o poder aéreo, foram transferidos caças F-15 norte-americanos para várias bases da região, incluindo a Jordânia. Além disso, três contratorpedeiros foram implantados perto da costa espanhola e um submarino está no Sul da Grécia.  Essas forças podem chegar, rapidamente, ao alcance operacional contra o Irão, se necessário.
As defesas aéreas dos EUA foram reforçadas por navios de guerra que transportam o sistema de defesa antimísseis balísticos Aegis e os sistemas TODD (THAAD).
Eyal Zamir, chefe do Estado-Maior General do Exército israelita, encontrou-se, a 24 de janeiro, em Telavive, com Brad Cooper, comandante do quartel-general do Comando Central dos EUA (CENTCOM), encontro em que estiveram presentes o chefe da inteligência militar israelita Shlomi Binder, o líder da Direção de Operações Isaac Cohen e outros oficiais da defesa israelitas. De acordo com o Canal 13 de Israel, o objetivo era coordenar as operações na antecâmara de um possível ataque em solo iraniano.
Durante as conversações, como reporta a estação televisiva israelita, foi dito aos responsáveis de Israel que Donald Trump ainda não tinha tomado uma decisão final sobre a realização de um ataque, mas que, até ao final da semana, os EUA tinham concluído a preparação das ferramentas e os arranjos necessários para uma operação de contingência. Os oficiais das forças israelitas descreveram esta semana em campo como uma “semana chave”.
Altos funcionários israelitas também apresentaram, na reunião, o posicionamento do país sobre o possível ataque ao Irão. Segundo o Canal 13 de Israel, as autoridades israelitas disseram que, num primeiro golpe, os alvos militares deveriam ser incluídos ao lado dos alvos do governo. As instituições governamentais devem ser visadas, como defendeu o lado israelita, com vista a encorajar o povo iraniano a derrubar o regime dos aiatolas. Porém, os militares de Israel consideram que as aeronaves americanas também devem ter como alvo o arranjo de mísseis terra Terra do Irão, que representa uma ameaça direta contra Israel.
A 28 de janeiro, o presidente dos EUA afirmou que “uma enorme armada” se dirigia para o Irão e avisou Teerão de que deve negociar, no meio de ameaças de um possível ataque militar norte-americano ao país. “Está a mover-se rapidamente, com grande poder, entusiasmo e propósito”, escreveu Donald Trump, na plataforma Truth Social, sem dar pormenores sobre a missão, mas vincando: “Esperemos que o Irão venha, rapidamente, ‘para a mesa’ e negocie um acordo justo e equitativo, sem armas nucleares, que seja bom para todas as partes.”
Como dissemos, Washington deslocou para a região o USS Abraham Lincoln e vários destroyers de mísseis guiados, que podem ser utilizados para lançar ataques a partir do mar. Contudo, ainda não é claro o que Donald Trump decidirá sobre o uso da força, embora tenha estabelecido duas linhas vermelhas: a morte de manifestantes pacíficos e a possível execução em massa de detidos.
As autoridades iranianas lançaram uma repressão sangrenta sobre as manifestações, de acordo com organizações sem fins lucrativos e com outras fontes dentro do Irão.
No dia 25, a Agência de Notícias dos Ativistas dos Direitos Humanos, com sede nos EUA, afirmou que, pelo menos, 6221 pessoas foram mortas, incluindo 5858 manifestantes, 214 membros das forças governamentais, 103 crianças e 49 civis que não estavam a manifestar-se. E mais de 42300 pessoas foram presas.
O número de mortos continua impossível de verificar, e os meios de comunicação social estatais do Irão são a única fonte de notícias, já que Teerão cortou o acesso à Internet, há três semanas. Assim, o governo iraniano calculou o número de mortos em 3117, afirmando que 2427 eram civis e membros das forças de segurança, e classificou os restantes como “terroristas”. 
No passado, as autoridades iranianas subestimaram ou não comunicaram as mortes causadas pela agitação. Embora os protestos tenham sido interrompidos, durante semanas após, a repressão, as informações que chegam lentamente do Irão, pelas antenas parabólicas Starlink, estão a chegar aos ativistas e aos meios de comunicação social que tentam contabilizar as vítimas. E o número de mortos, que excede o de qualquer outra ronda de protestos ou de agitação, no Irão, em décadas, faz lembrar o caos que rodeou a Revolução Islâmica de 1979.
O Irão terá limitado a capacidade dos jornalistas locais para relatarem o rescaldo dos protestos. Em vez disso, transmitiu, repetidamente, na televisão estatal, afirmações que se referem aos manifestantes como “desordeiros” motivados pelos EUA e por Israel, sem apresentar provas que sustentem essa alegação.
O desafio de obter informações do Irão persiste, devido ao facto de as autoridades terem cortado o acesso à Internet, em 8 de janeiro, mesmo quando as tensões aumentam entre os EUA e o Irão, à medida que um grupo de porta-aviões americano se aproxima do Médio Oriente, força que o presidente dos EUA comparou a uma “armada”, em comentários a jornalistas.
O novo número de vítimas surge numa altura em que as tensões permanecem elevadas, devido ao facto de Donald Trump ter estabelecido as referidas duas linhas vermelhas, face aos protestos. Porém, o procurador-geral do Irão e outras pessoas apelidaram alguns dos detidos de “mohareb”, isto é, inimigos de Deus, acusação passível de pena de morte. Foi utilizada, com outras, para efetuar execuções em massa, em 1988, tendo liquidado, pelo menos, cinco mil pessoas.
Desta vez, os Iranianos ficaram zangados e ansiosos, ao verem imagens de manifestantes mortos a tiros, e estão preocupados com o que poderá acontecer a seguir, à medida que a economia do país se afunda cada vez mais. “Sinto que a minha geração não conseguiu dar uma melhor lição aos mais novos. O resultado de décadas de ensino dos meus colegas e meu levou à morte de milhares de pessoas e, talvez, a mais feridos e prisioneiros”, disse Mohammad Heidari, 59 anos, professor do ensino secundário em Teerão.

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Entretanto, no dia 25, pouco depois de Donald Trump ter anunciado que os EUA estavam a deslocar navios de guerra para a região, para o caso de querer agir, as autoridades iranianas fixaram um cartaz, numa praça central de Teerão, a avisar os EUA contra uma intervenção.
O cartaz na Praça Enghelab (Revolução) retrata um porta-aviões com caças danificados e a explodir no convés. Corpos e uma piscina de sangue cobrem o convés, com rastos de sangue, que se assemelham às riscas da bandeira americana, a correr atrás da frota. O grafismo é acompanhado por um slogan que diz: “Se semeares o vento, colherás o redemoinho.”
A Praça Enghelab é, normalmente, utilizada para reuniões organizadas pelo Estado, alterando as autoridades o seu mural, em função das ocasiões nacionais.
Já na semana anterior Donald Trump disse, a bordo do Air Force One, que os EUA estavam “a observar o Irão” e que estavam a deslocar os navios em direção ao país. “Temos uma frota enorme a ir nessa direção e talvez não tenhamos de a usar, veremos”, declarou no dia 22.
O inquilino da Casa Branca (naquele momento, inquilino do Air Force One) esclareceu que qualquer ação militar faria com que os ataques anteriores dos EUA, lançados contra as instalações nucleares iranianas,  em junho, “parecessem uma ninharia”. 
No dia 24, o comandante da Guarda Revolucionária paramilitar do Irão, poderosa força na teocracia do país, advertiu os EUA e Israel para “evitarem qualquer erro de cálculo” e que a força está “mais pronta do que nunca, com o dedo no gatilho”. 
Também o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão emitiu um aviso contra os EUA, a ameaça mais direta de sempre, vincando que a República Islâmica irá “ripostar com tudo o que temos, se formos alvo de um novo ataque”. “Ao contrário da contenção que o Irão demonstrou em junho de 2025, as nossas poderosas forças armadas não hesitam em ripostar com tudo o que temos, se voltarmos a ser atacados”, escreveu Abbas Araghchi, num artigo de opinião publicado pelo The Wall Street Journal, referindo-se ao conflito de 12 dias com Israel, em junho: “Não se trata de uma ameaça, mas de uma realidade que sinto que devo transmitir explicitamente, porque, como diplomata e veterano, abomino a guerra.” 
O líder da Casa Branca também mencionou as várias rondas de conversações que os funcionários norte-americanos tiveram com o Irão sobre o seu programa nuclear, antes de Israel lançar um conflito de 12 dias contra a República Islâmica, em junho, que viu aviões de guerra dos EUA bombardearem instalações nucleares iranianas. E ameaçou, explicitamente, o Irão com uma ação militar que faria com que os anteriores ataques dos EUA contra as suas instalações de enriquecimento de urânio “parecessem amendoins”. “Deviam ter feito um acordo, antes de os atingirmos”, acrescentou.

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Em Portugal, como referiu, a 30 de janeiro, o jornalista Vítor Matos, no Expresso online, a 30 de janeiro, em artigo intitulado  “Governo autorizou escalas de F-35 nas Lajes, mas desconhece se o objetivo é atacar o Irão”, enquanto os EUA reforçam o dispositivo no Médio Oriente para um eventual ataque ao Irão, foi registada a passagem de vários caças F-35 pela Base das Lajes, com destino ao Médio Oriente. O governo autorizou tais escalas, ao abrigo dos acordos com os EUA, mas diz não conhecer a missão específica dos aviões de combate.
Tal postura governamental é, no mínimo, estranha, para não dizer hipócrita ou tímida. Na verdade, a Base das Lajes na Ilha Terceira, nos Açores, tem sido usada como ponto de passagem para os caças invisíveis F-35, em trânsito para o Médio Oriente, onde os EUA estão a concentrar significativa força militar para executarem um potencial ataque ao Irão.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) confirma a passagem autorizada das aeronaves, mas sem informação sobre o objetivo da escala: “Os voos com destinos diversificados, entre os quais o Médio Oriente, foram autorizados no quadro do acordo com aquele parceiro da NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte], e não ao abrigo de qualquer operação militar específica.” 
As imagens de aviões de combate de 5.ª geração a descolar das Lajes foram registadas por “André Spotter” e partilhadas, na rede social X, por uma conta especializada em Defesa, OSINTtechnical, provenientes de Porto Rico e da Virgínia, com destino ao Médio Oriente.
A publicação especializada em defesa “The War Zone” noticia as mesmas escalas nas Lajes, com destino desconhecido – embora o governo admita que há destinos para o Médio Oriente – e refere a possibilidade de as aeronaves que viajam a partir de Porto Rico serem as que intervieram na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Fontes militares chegaram a admitir, nessa ocasião, que, na captura do chefe do Estado venezuelano, algumas aeronaves norte-americanas que terão realizado voos de apoio a essa missão passaram pelas Lajes.
Quando o Expresso noticiou, em outubro, a passagem de F-35 para entrega a Israel, segundo Vítor Matos, o ministro dos Negócios Estrangeiros emitiu um comunicado a dizer que, “dada a sensibilidade da questão, esta comunicação deveria ter sido reportada ao gabinete do ministro, antes de esgotado o prazo de autorização”, anunciou o apuramento de responsabilidades (de cujas conclusões não foi dado conhecimento público) e a “modificação de procedimentos, de modo a evitar que tais falhas processuais voltem ocorrer, especialmente, em processos de autorização tácita”. O prazo curto para informar o gabinete, de forma a tomar uma decisão política, é de “24 horas”, após a autorização tácita, quando existe uma “autorização anual de sobrevoo e aterragem”.
No caso presente, o MNE não explicou se esta informação foi validada pelo gabinete de Paulo Rangel, que diz desconhecer o objetivo dos sobrevoo destas aeronaves, alegando que se enquadra nos acordos com os EUA.
Ora, nos últimos dias, a retórica da administração norte-americana contra o Irão endureceu, com o envio do porta-aviões USS Abraham Lincoln para a região. Fontes da CNN internacional sustentam que a administração norte-americana tenciona realizar ataques aéreos dirigidos aos líderes iranianos e a funcionários da segurança tidos como responsáveis pelas mortes nos protestos, assim como ataques a instalações nucleares e a instituições governamentais. E os F-35A, os caças mais sofisticados do Mundo, já tinham participado nos ataques ao Irão, em junho de 2025, na operação Midnight Hammer, desempenhando papel fundamental na eliminação das defesas aéreas iranianas, abrindo caminho, em segurança, aos bombardeiros B-2A.
Em outubro, o embaixador de Israel em Lisboa, Oren Rozenblat, admitiu, na CNN Portugal, que a cedência de F-35 a Israel e a sua passagem pelos Açores têm sido secretamente faladas com o governo, que negou tais asserções. Aliás, pelos vistos, o chefe da diplomacia assumiu que não foi informado da escala de três caças F-35 nas Lajes com destino a Israel e o executivo não disse o que faria, quanto à passagem de mais material militar para Telavive pelos Açores. 

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É criticável o facto de um aliado autorizar o quer que seja, sem saber em que termos e para que efeito. Isto é abdicar do exercício da soberania. Ou, então, não nos dizem a verdade. Estarão a funcionar regularmente as instituições democráticas, senhor Presidente da República?

2026.01.30 – Louro de Carvalho


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