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quarta-feira, 4 de abril de 2018

A história de Noé é diferente, mas não prejudica o essencial


No passado dia 27 de março, o site do DN inseria uma local com a seguinte epígrafe: “A história de Noé é diferente, revelam os Manuscritos do Mar Morto”. A seguir, vinha a informação subliminar: “Uma parte do Génesis Apócrifo está em exibição no Museu de Israel”.

É, pois, verdade que os Manuscritos ou Rolos do Mar Morto, considerados a versão mais antiga do texto bíblico hebraico e guardados no Museu de Israel, estão em exibição pela primeira vez ao público, sendo possível, durante três meses, ver muito ao perto um fragmento do Génesis apócrifo. A este respeito, Adolfo Roitman, comissário da exposição, disse ao jornal El Mundo:
É uma parte de uma cópia do Génesis Apócrifo, o único testemunho físico deste documento no mundo inteiro”.
O trecho do manuscrito pode ser visto através duma pioneira inovação tecnológica israelita que consiste num vidro inteligente desenhado para proteger o documento e evitar a degradação, bem como para medir os níveis de humidade e a temperatura dentro da caixa.
Assim, de 30 em 30 segundos, as luzes que iluminam o documento acendem-se, permitindo ao visitante observar o pedaço de manuscrito, mas evitando que este sofra danos. Desta forma, e só desta forma, é possível que o público tenha acesso a este “tesouro” único – o que permite ao comissário afirmar que os Rolos do Mar Morto são “uma janela para o mundo antigo”.
Segundo o comissário, “o objetivo é expor o manuscrito original, mas tendo sempre em mente que o nosso dever é preservá-lo para as gerações futuras”.
O conteúdo da parte do manuscrito exposto diz respeito à coluna 10 do Apócrifo, que versa sobre o que aconteceu a Noé depois do dilúvio. E Roitman revela:
Na versão bíblica do Pentateuco, o Deus de Israel, Javé, ordena a Noé que deixe a arca com a sua família. Uma vez no exterior, o patriarca faz um sacrifício de gratidão, mas no fragmento do apócrifo de Génesis o que nos é dito é que o sacrifício não foi feito fora da arca, mas sim no seu interior.”.
É uma diferença não essencial, como tantas, que não põe em causa o conteúdo.
Os oito rolos de Manuscritos do Mar Morto foram alegadamente descobertos, em 1947, por pastores de cabras, nas cavernas de Qumran, no Mar Morto e datam dum período situado entre o terceiro século antes de Cristo e o primeiro século A.D. (Anno Domini ou depois de Cristo). A maior parte está escrita em hebraico, mas 15% estão em aramaico e a alguns em grego. Cerca de 230 contêm textos que fazem parte da Bíblia.
Muitos anos depois de descobertos e milhares de anos depois de escritos, os Manuscritos estão disponíveis online, por colaboração entre a Google e a Autoridade de Antiguidades de Israel. No total, são mais de 5000 os documentos e imagens disponíveis em alta resolução desde dezembro de 2012, à distância de um clique. Têm permanecido guardados no Museu de Israel, não tendo sido expostos ao público devido aos cuidados que o seu estado de conservação requer.
Na transposição dos documentos para a visualização online recorreu-se técnicas de especialistas da agência espacial norte-americana NASA. As imagens dos manuscritos têm uma definição 200 vezes superior à duma câmara fotográfica digital comum, tendo cada uma cerca de 1200 megapíxeis, o que permite uma melhor análise dos documentos e do seu próprio estado de conservação. Para Yossi Matias, responsável da Google em Israel,  a parceria com a Autoridade de Antiguidades é mais um passo em frente a permitir aos utilizadores de todo o mundo desfrutarem deste tipo de material cultural, pois desde que  foi encontrado, apenas um reduzido número de investigadores podia consultá-lo (apenas 5 conservadores em todo o mundo tinham acesso aos Manuscritos), o que vinha gerando  controvérsia ao longo dos anos. Ora, foi para fazer frente às críticas e tornar os manuscritos acessíveis a um maior número de pessoas que as autoridades israelitas avançaram com este projeto online e agora possível de exibir.
***
Peter Colón, em seu artigo “O Verdadeiro Tesouro dos Manuscritos do Mar Morto”, conta a história da descoberta do achado – relato que se condensa a seguir e se completa com outra informação relevante.
Muhammad andava agitado e inquieto por a cabra travessa ter desaparecido. Ao vaguear longe do rebanho e dos amigos, o beduíno topou uma caverna que ficava em posição elevada e dava frente para a costa noroeste do mar. Pensando que o animal se perdera na caverna, começou a lançar pedras pela entrada da gruta para o fazer sair. Porém, sentindo que o ruído das pedras batia em peças cerâmicas, ficou intrigado e correu até a entrada da caverna. Porém, no seu interior, apenas encontrou jarros grandes e antigos ao longo das paredes, os quais continham rolos de pergaminhos despedaçados. Aí pensou: “pelo menos os pergaminhos de couro vão servir para fazer correias e tiras de sandálias”. O beduíno não percebeu a real importância do momento. A teimosia da cabra levara-o à que pode ser considerada, nos tempos modernos, a maior descoberta de manuscritos.
Os beduínos não marcam o tempo como os ocidentais: assemelham-se aos seus antepassados; a sua conceção de tempo e momento está relacionada com outros eventos. Assim, não se pode datar a descoberta com precisão. Após uma revisão, a data da descoberta do primeiro rolo de manuscritos será 1935 ou 1936 e não 1947, como se propalou. A partir de então até 1956, muitos outros manuscritos foram achados. Crê-se que os manuscritos sejam de datas diferentes, que variam do século III a.C. até o século I d.C. A maior parte deles foi descoberta em cavernas de formação calcária em Wadi Qumran, sitas exatamente a noroeste do Mar Morto. A maioria é escrita em hebraico; o restante é escrito em aramaico e grego. Foram achados mais de 900 documentos, que correspondem a 350 obras distintas em suas múltiplas cópias. Muitos dos escritos bíblicos e extrabíblicos vêm em pequeníssimos fragmentos. Só numa caverna foram achados 520 textos, na forma de 15 mil fragmentos. Ora, juntar todos os pedaços de pergaminho na respetiva posição para fazer a tradução tem sido tarefa hercúlea.
O achado dos Manuscritos confirma o que as pessoas que creem na Bíblia sempre souberam, ou seja, que a Bíblia, tal qual a temos na atualidade, é texto que passa nos testes de fidedignidade. Apesar dos ataques contra a Bíblia, a Palavra de Deus permanece para sempre: 
O caminho de Deus é perfeito; a palavra do Senhor é provada; ele é escudo para todos os que nele se refugiam” (2Sm 22,31).
Sempre houve quem haja questionado a confiabilidade das Escrituras. Dado que o texto foi copiado e recopiado ao longo de séculos, os críticos alegam ser impossível saber-se com certeza o que os hagiógrafos escreveram ou queriam dizer. Os Manuscritos do Mar Morto invalidam tal hipótese ou suposição no que se refere ao Antigo Testamento (AT). Foram achadas entre 223 e 233 cópias das Escrituras Hebraicas, que foram comparadas com o texto atual. O único livro do AT que não foi encontrado nessa descoberta é o livro de Ester. Pode ser que esteja oculto em caverna ainda não identificada de algum lugar isolado.
Antes dessa descoberta, os manuscritos mais antigos das Escrituras Hebraicas datavam do século IX d.C. ao século XI d.C. Tais manuscritos constituem o chamado Texto Massorético (TM) – expressão originada da palavra hebraica masorah a significa “tradição”. Os escribas judeus de Tiberíades, denominados massoretas, procuraram meticulosamente padronizar o texto hebraico e a sua pronúncia; a obra que realizaram é considerada uma referência confiável. Os manuscritos de Qumran são, no mínimo, mil anos mais antigos que o Texto Massorético. Na realidade, esses manuscritos são até mais antigos que a Septuaginta, a tradução grega do AT elaborada no Egito durante o período de 300 a 200 a.C. Têm-se feito comparações minuciosas entre o TM e os Manuscritos do Mar Morto. Encontraram-se diferenças insignificantes de ortografia e gramática. Os críticos e céticos em relação à Bíblia ficaram surpresos quanto ao modo por que o texto daqueles manuscritos se assemelha ao texto atual. Não encontraram objeção evidente às principais doutrinas das Escrituras. A parte bíblica da literatura descoberta em Qumran confirma o estilo de expressão e o significado do AT que hoje temos em mãos:
Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5,39).
Além de cópias das Escrituras do AT, as cavernas do Mar Morto proporcionam-nos outras obras. Estes documentos descrevem o estilo de vida e as crenças da misteriosa comunidade que viveu na região de Qumran – os essénios – que terá organizado todos os manuscritos achados. Embora os atinentes à vida essénica não sejam escritos bíblicos, são registos valiosos que possibilitam a compreensão do contexto de vida e cultura na época do Novo Testamento (NT). Porém, os estudiosos dão mais atenção a essas obras de menor relevância que às Escrituras, quando os textos bíblicos sejam mais importantes para os problemas da vida, pois o legítimo plano de Deus para a redenção da humanidade só se encontra no texto da Bíblia.
***
A cópia mais antiga das Escrituras do AT conhecida até agora foi descoberta em 1979. São dois minúsculos rolos de manuscritos feitos de prata, usados como talismãs, que foram descobertos dentro dum túmulo em Jerusalém. O texto da sua inscrição foi cunhado em hebraico antigo. O manuscrito, surpreendentemente, continha uma citação da bênção sacerdotal registada em Números 6,24-26:
O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz”.
A inscrição data do século VII a.C., época do templo de Salomão e do profeta Jeremias. Portanto, esses versículos, provenientes do 4.º livro da Torah [ou Pentateuco, na versão grega], são mais antigos do que os Manuscritos do Mar Morto (cerca de 400 anos).
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O Rolo de Isaías achado na caverna 1 da região de Qumran oferece um exemplo da transmissão exata do texto na tradução. Crê-se que esse manuscrito date de cem anos antes do nascimento de Jesus Cristo. Foi um manuscrito semelhante a esse que Jesus utilizou na sinagoga de Nazaré, na leitura da passagem das Escrituras: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres (Lc 4,18; Is 61,1). Ele continuou a leitura até determinado ponto. Em seguida, devolveu o rolo ao assistente da sinagoga e sentou-se. Todos tinham os olhos fitos em Jesus, que declarou que aquele passo das Escrituras acabara de se cumprir naquele momento. Assim, Jesus afirmou claramente ser Ele mesmo o Messias que veio ao mundo para oferecer a salvação a todo aquele que O receber.
A mesma passagem traduzida do Manuscrito do Livro de Isaías descoberto em Qumran (cerca de mil anos mais antigo do que o manuscrito hebraico [i.e., o Texto Massorético] em que se basearam as outras traduções) é praticamente idêntica: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque YHVH [o tetragrama sagrado em hebraico que se refere ao nome supremo de Deus: Yahweh ou Javé] me ungiu para pregar as boas novas aos quebrantados”. A integridade da reivindicação de Cristo, conforme está escrita em nossas Bíblias, confirma-se.
É importante registar que os manuscritos achados com mais frequência em Qumran, completos ou na forma de pequenos fragmentos, se referem aos mesmos livros da Bíblia geralmente citados no NT: Deuteronómio, Isaías e Salmos. Tal facto desperta um interesse ainda maior à luz das próprias palavras de Jesus concernentes às Escrituras Hebraicas:
A seguir, Jesus disse-lhes: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,44).
Muitos outros exemplos poderiam ser citados. O facto principal acerca da Bíblia e desses rolos resume-se no que um grande estudioso e paladino das Escrituras, o inglês G. Campbell Morgan (1863-1945) compartilhou certa vez:
Não existe vida nas Escrituras em si mesmas, porém, se seguirmos a direção para onde as Escrituras nos levam, elas nos conduzirão até Ele e assim encontraremos a vida, não nas Escrituras, mas n’Ele através delas”.
E comprova a sua tese com uma citação de Isaías:
Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente” (Is 40,8).
Infindáveis argumentações e debates têm surgido acerca desses manuscritos, como trouxessem à fé cristã uma derrocada apocalíptica. Contudo, os crentes podem estar certos de que este material ratifica a Bíblia que temos hoje, a apoia e lhe dá credibilidade. A Palavra de Deus é a única fonte legítima da fé e da doutrina para todo aquele que busca recompensa eterna.
São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces que o mel e o destilar dos favos. Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa.” (Sl 19,11-12).
Sendo assim, Muhammad terá ficado desiludido por ter momentaneamente alimentado a esperança de encontrar ali os tesouros deste mundo. Apenas achou pergaminhos despedaçados que só prestavam para fazer correias de sandálias. Lamentavelmente o lucro deste mundo é uma prioridade que absorve a pessoa completamente. O mundo considera as Escrituras Sagradas como algo sem valor; ou com alguma utilidade, de vez em quando, para serem citadas como “palavras da boca para fora”, mas nunca para serem aceitas pela fé e praticadas. Todavia, nós, os salvos em Cristo, temos um conhecimento mais apurado. Temos conhecimento suficiente para não desprezar o tesouro verdadeiro e incalculável que só pode ser descoberto quando se faz uma escavação no solo da Palavra de Deus:
E, se clamares por inteligência e por entendimento alçares a voz, se buscares a sabedoria como a prata e como a tesouros escondidos a procurares, então, entenderás o temor do Senhor e acharás o conhecimento de Deus” (Pr 2,3-5). 
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(cf Peter Colón, Israel My Glory, http://www.chamada.com.br). Cf ainda: GARCÍA, Florentino MARTÍNEZ – TREBOLLE, Julio (1993). Los hombres de Qumrán: literatura, estructura social y concepciones religiosas. Trotta, Madrid;POULLY, Jean (1980). Los manuscritos del mar muerto y la comunidad de Qumrán, Verbo divino, Estella. RIESNE, R. – BETZ, H. D. (1992). Jesús, Qumrán y el Vaticano, Herder, Barcelona.
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Assim, em vista das descobertas científico-bíblicas, o crente pode clamar como o salmista:
A lei do Senhor é perfeita e reconforta a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símples [...] são mais desejáveis do que ouro, [...] em os guardar há grande recompensa [...] Para mim vale mais a lei que procede de tua boca do que milhares em ouro ou prata (Sl 19,8.11-12; Sl 119,72).
2018.04.04 – Louro de Carvalho

domingo, 13 de novembro de 2016

“Tabacaria”, um poema de Álvaro de Campos

No próximo dia 23, a editora Guerra & Paz vai lançar no mercado uma edição monumental deste poema do heterónimo de Fernando Pessoa indicado em epígrafe, numa caixa de madeira, com 25 fotografias inéditas. Segundo o que explicou o editor:
“A caixa em que a obra de Fernando Pessoa fica agora depositada é de madeira de álamo ou choupo (populus alba), revestida de uma orla em madeira de ‘maple’ (aceraceae), duas faces da madeira, capa e contracapa, têm impressão direta UV e a lombada da caixa foi impressa a laser 50W, com acabamento final com proteção de verniz mate”.
Transcreve-se o poema em verso livre e branco (com estrofes irregulares e assimétricas a exprimir o estado conturbado e desesperado do poeta) e se tecem considerações com a respetiva análise.
***
Tabacaria
Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E, se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.  
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,  
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça,  
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.  
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,  
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.  
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.  
A aprendizagem que me deram,  
Desci dela pela janela das traseiras da casa,  
Fui até ao campo com grandes propósitos.  
Mas lá encontrei só ervas e árvores,  
E quando havia gente era igual à outra.  
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? 
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! 
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, 
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim. 
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! 
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? 
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? 
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. 
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,  
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. 
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, 
Ainda que não more nela; 
Serei sempre o que não nasceu para isso; 
Serei sempre só o que tinha qualidades; 
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,  
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.  
Crer em mim? Não, nem em nada.  
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,  
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.  
Escravos cardíacos das estrelas,  
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;  
Mas acordámos e ele é opaco,  
Levantámo-nos e ele é alheio,  
Saímos de casa e ele é a terra inteira,  
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;  
Come chocolates!  
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.  
Come, pequena suja, come!  
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!  
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,  
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos,  
Pórtico partido para o Impossível. 
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,  
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,  
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, 
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,  
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,  
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,  
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,  
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,  
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,  
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!  
Meu coração é um balde despejado.  
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
A mim mesmo e não encontro nada.  
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.  
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,  
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,  
Vejo os cães que também existem,  
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,  
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,  
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. 
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, 
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);  
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz.  
O dominó que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.  
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho,  
Já tinha envelhecido. 
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.  
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis, 
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, 
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, 
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,  
Como um tapete em que um bêbado tropeça 
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. 
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei. 
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. 
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. 
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, 
E a língua em que foram escritos os versos. 
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. 
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, 
Sempre uma coisa defronte da outra, 
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,  
Sempre o impossível tão estúpido como o real, 
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,  
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),  
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.  
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,  
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.  
Sigo o fumo como uma rota própria,  
E gozo, num momento sensitivo e competente,  
A libertação de todas as especulações 
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando.  
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).  
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.  
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)  
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.  
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

***
Considerações e Análise
Álvaro de Campos, apesar de considerar Alberto Caeiro como o seu mestre, é radicalmente diferente dele, bem como de Ricardo Reis. A angústia e lucidez não permitem ser inocente, natural. Retornar à natureza torna-se utopia inútil. Assim, o poeta volta a opor a fantástica capacidade de sonhar à limitação do mundo exterior. Mas a sensação de euforia com o sonho não dura muito: o poeta toma efetivamente consciência de que o sonho nada vale, pois as aspirações altas e nobres e lúcidas talvez nem vejam a luz do sol, nem atinjam ouvidos de gente. Com efeito, “O mundo é para quem nasce para o conquistar / E não para quem sonha que pode conquistá-lo”, ainda que lhe assista a razão. Por isso, apesar de ter conquistado mais do que Napoleão, de ter amado mais do que Jesus Cristo e de ter filosofado mais que Kant, isso de nada vale, visto que tudo se processou na imaginação (Note-se a antítese nada/tudo). Para expressar essa impotência perante a realidade, Campos serve-se da imagem do homem que espera que lhe abram a porta numa parede sem porta ou a do homem que tenta fazer chegar a sua voz até Deus, cantando de dentro dum poço tapado. É o desespero niilista vertido em inconformismo supino! 
Nestes termos, o poeta sente-se como “escravo cardíaco de estrelas” ou como pessoa que sonha com as estrelas e sofre de doença cardíaca a impedi-lo de passar por emoções fortes ou, ainda, como quem só conquista tudo em sonhos. Como resultado, vem o distanciamento cada vez maior da realidade, do mundo visível. E essa consciência causa-lhe um cansaço e um sofrimento tais que passa a ter inveja da menina que inocentemente come chocolates. Nesse momento, Campos toca um aspeto que é uma constante na obra pessoana: pensar dói, faz doer, por impedir o homem de ser feliz. E, ao sentir dentro se si o vazio, o poeta procura algo que o inspire. Recorre então a musas do passado, mas a sensação de vazio persiste, já que o seu “coração é um balde despejado”.  Na realidade, Campos expressa a angústia do homem moderno, que jamais encontra ponto de apoio para lhe alavancar as inquietações e, por isso, entrega-se ao desespero. Essa consciência da inutilidade leva-o a sentir-se um exilado, um ser marginal à humanidade. Imagina o mundo como se fosse o teatro onde todos representam e o “eu” é o único que não sabe nem pode representar. Assim, o seu lugar é no vestiário e nunca no palco.
Os versos finais do poema colocam frente a frente o “eu” poético e o dono da tabacaria, um homem comum, sem inquietações metafísicas. Ao vê-lo, o poeta vive uma estranha sensação de desconforto e passa a ter a noção da absoluta inutilidade de tudo, incluindo a própria poesia. O poema fecha com a absoluta solidão do poeta, que tem consciência de que nada vale a pena, enquanto o dono da tabacaria, sem consciência do que o rodeia, apenas sorri. 
***
Datado de 15 de janeiro de 1928, o poema situa-se na “fase pessoal” (Jacinto Prado Coelho) ou “fase pessimista” ou “fase intimista” – a 3.ª fase poética de Campos, que vai de 1916 a 1935 (ano da morte de Fernando Pessoa). Desiludido das vicissitudes das fases “sensacionista” e “futurista” (anteriores), o poeta prostra-se num pessimismo intenso, marcado pelo regresso das memórias de infância e pela consciência de que ficou (e está) sozinho no mundo.
Com uma linguagem bem mais moderada que dantes, mas repleta de anáforas, interrogações e exclamações, Campos considera-se agora o poeta desiludido da vida, e “Tabacaria”, como aliás muitos dos seus outros poemas desta fase, apresenta um ritmo deliberadamente lento e retrospetivo, em clara contraposição com as Odes da fase futurista, por exemplo.
Será talvez este o poema mais apreciado de Álvaro de Campos. Ao nível do tema, deparamo-nos com a vertente da solidão interior do “eu” lírico ante à imensidão do Universo exterior. A tabacaria passa por símbolo sem valor próprio, mas que induz em Álvaro de Campos a necessidade de analisar a própria vida face à existência da Tabacaria como coisa fixa e real.
Enclausurado – imaginária ou realmente – no seu quarto da Rua Coelho da Rocha, o poeta lança no papel a ligação do imanente e do transcendente, do real e do ideal, do “eu” uno e do diverso.
A simbologia do quarto (espaço fechado e exíguo) e da janela (a abrir para um espaço aberto) versus rua e Tabacaria, marca o contraste entre o “dentro” e o “fora”, uma oposição dialética que parte em demanda da síntese de compreensão. Solitário, o eu-poético contempla uma rua, onde percebe um mistério, que é a morte e o destino que ninguém vê. Essa perceção extraordinária das coisas dá-se por via da sua capacidade imaginativa, que o faz ver o que os outros não podem ver.
Oscilando entre o seu mundo interior e a realidade externa, cósmica e universal, o poeta trata, simultaneamente, da angústia com o quotidiano e dos sonhos de libertação – o que pode ser observado logo a partir dos primeiros versos, cujo sentido se constitui como a base de todo o poema. O poeta revela-se absolutamente niilista em relação a si próprio (“não sou nada./ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada”), mas, em compensação, ele sabe que tem “todos os sonhos do mundo”. E, vivendo os seus sonhos, tenta esquecer toda a aprendizagem (tudo o que aprendeu com os homens) e parte em busca da natureza; contudo, essa solução não o satisfaz, na medida em que se sente desconfortável em qualquer lugar em que esteja (“estrangeiro aqui, como em toda parte”, dirá o poeta em outro poema). As metáforas da tabacaria, rua, janela e quarto servem bem esta situação.
Mesmo sem personagens presentes, está subjacente ao longo do poema um dinamismo de narrativa e diálogo (visível nos versos parentéticos e nos acenos e gritos) a quebrar o monólogo em que o emissor lírico fala consigo mesmo e para si mesmo: intercala-se complementarmente o discurso racional e visualizante com momentos de delírio momentâneo, irracionais, emocionais.
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O poema pode dividir-se em quatro partes:
A primeira funciona como introdução e corresponde à estrofe inicial, onde é assumido um vazio ontológico e fenomenológico – “não sou nada”, e a antítese entre o nada exterior e o tudo interior (“tenho em mim...”). De facto, o vazio ontológico é ilusório e o “nada” é o assumir de não ser nada exteriormente – a nulidade, ansiada e desfeita que foi a possibilidade de ser tudo.
Na 2.ª parte (estrofes 2-6), o poeta define a sua condição atual e mostra-nos a sua localização: está no seu quarto. E a metáfora do quarto é a metáfora da sua condição humana. Ele é a mente presa no quarto que olha a realidade do dia a dia por uma janela. Esta simbologia simples e delicada, marcante nestas estrofes, leva-nos à definição do “eu” poético enquanto ser só e abandonado à sua sorte. Ao expressar em metáforas reais os sentimentos, Campos materializa poeticamente uma análise impossível através do raciocínio simples. Porém, o que fica é sobretudo o sentido da antítese entre a realidade (a rua, a Tabacaria) e irrealidade (a vida do poeta, o quarto), ligadas apenas por uma janela, permitindo uma interação limitada, mas não uma passagem concreta de uma para a outra. O “eu” lírico é um “falhado”, mesmo sentindo-se um génio. Enfim, é, em última análise, Fernando Pessoa a falar pela voz e a escrever com a pena de Campos. Está vencido e sabe que nunca conseguirá ser feliz. Fica perdido nos pormenores!
A 3.ª parte (estrofes 7-13) mostra o poeta a justificar para si mesmo o rumo que tomou na vida e, deixando ainda tomar-se pelo desespero, a olhar as alternativas que lhe restavam para ser feliz. Aqui, o contraste já não é entre o real e o ideal, entre o fora e o dentro, mas entre ele e os outros, entre a sua condição e a condição dos outros. Chocam-no sobretudo os que vivem a vida numa inconsciência plena (o que se verifica em muitas das passagens de Pessoa, o ideal inatingível de felicidade) porque os vê precisamente como as suas próprias némesis – adversários de quem pensa e se preocupa. Começa com a rapariga que come chocolates, suja, perdida na gula. É uma passagem marcante e simples de entender: “Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! / Mas eu penso”. Sabe, porém, que tal está fora do seu alcance (não vai deixar de pensar). Resta-lhe um recurso nobre: os poemas – recurso nobre que ele espera que o salve, sem saber como, duma intensa mediocridade que lhe vem de nada lhe fazer sentido na vida.  
A 4.ª parte (estrofe 8 e seguintes) configura o regresso da realidade. Campos deixa de “filosofar” quando um elemento real se intromete entre ele e a Tabacaria. Tudo se desmorona, porque tudo estava apenas no seu pensamento e nunca poderia ser real do mesmo modo que o Esteves é real. (Haverá afinal um nome mais real do que Esteves?). Passando subitamente a interveniente na realidade que analisava, o poeta, mal vê um conhecido e que depois lhe acena, deixa de poder estar fora da realidade para ser puxado violentamente para o meio dela. É assim que o Universo se reconstrói subitamente, sem metafísica, sem dar mais azo ao pensamento e à análise; é só a verdade dos sentidos e não a idealização do pensamento: 
“Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo / Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.” 
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Finalmente, dois temas que permeiam o poema: a cidade e o existencialismo.
O tema da cidade permeia-o todo, o que se deve a ter sido construído por um poeta cuja profissão é de engenheiro, embora engenheiro naval. Mas não é apenas como engenheiro que Álvaro de Campos descreve o mundo que o circunda, mas como “poeta moderno, século XX, que do desespero extrai a própria razão de ser e não foge à sua condição de homem sujeito à maquina...” (MOISÉS, 2004:244). Como poeta que é, em “Tabacaria”, deixa de parte o olhar matemático de engenheiro e lança em muitos versos a literariedade em que exprime a condição do homem da época inserido no progresso emergente das cidades. “Janelas do meu quarto”, elemento físico que dá para o autor observar o “vai e vem” da cidade. Aliás, a janela até hoje, em muitas localidades, é por onde se mira o movimento dos forasteiros e as atividades dos vizinhos. “Com o destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada”“A fileira de carruagens de um comboio e uma partida apitada”. Este último verso particulariza o tema cidade. É um anúncio do crescimento citadino, da efervescência das cidades (é a era do comboio). É só lembrar que a aglomeração de carruagens evoluiu para as aglomerações que hoje presenciamos. É que hoje “a partida apitada” acontece nos portos, nos estádios e nos quartéis de bombeiros.
Temos também aqui a presença da corrente filosófica do Existencialismo, que a arte utilizou para desvendar o enigma da existência humana. Como sustenta SARAIVA e LOPES (2001:1000) “o espírito reflexivo de Pessoa, acaba, em certos momentos, por desvalorizar a sua própria razão humana”. Isso, logo desde o início: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada...”. Importa lembrar que, embora Campos não seja o próprio Pessoa, mesmo assim a luta interna pelo desvendamento da condição existencial do homem também lhe é peculiar. A afirmação de ser nada (vazio), de que nunca será nada e de que não pode ser nada converge para o paradoxo de que só mesmo numa reflexão existencialista se poderá encontrar uma resposta. A mesma ideia vem presente nos versos: “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?/ Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!”. Estes versos configuram “uma terrível estranheza de existir, um acordar para a misteriosa importância de viver, que preludia o existencialismo de meados do século” (id et ib) e que a poesia pessoana deixa visualizar.
Ainda temos, neste poema, um verso que explora claramente o conceito existencialista na poesia pessoana: “Com o destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nadaNeste verso vemos o dilema conflituoso existencial do “eu”. O poeta age como o filósofo Sartre no seu livro “O Ser e o Nada”. Mas Pessoa busca uma resposta para esta existência paradoxal, pois, ao mesmo tempo em que o tudo é tudo, ele se faz em nada. E o destino, personagem responsável por muitas de nossas indagações, é o condutor principal desta vida existencialista.
(cf: A. Veríssimo, Ser em Português-12 B, Areal Editores, 199; A.J. Saraiva e O. Lopes, História da Literatura Portuguesa, Porto Editora, 2001; Massaud Moisés, Fernando Pessoa – o espelho e a esfinge, Ed. Cultrix, 2004; blogue “Novos Navegantes”; Lima Reis, Apontamentos; blogue “Sentir português”)

2016.11.13 – Louro de Carvalho