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quarta-feira, 4 de abril de 2018

A história de Noé é diferente, mas não prejudica o essencial


No passado dia 27 de março, o site do DN inseria uma local com a seguinte epígrafe: “A história de Noé é diferente, revelam os Manuscritos do Mar Morto”. A seguir, vinha a informação subliminar: “Uma parte do Génesis Apócrifo está em exibição no Museu de Israel”.

É, pois, verdade que os Manuscritos ou Rolos do Mar Morto, considerados a versão mais antiga do texto bíblico hebraico e guardados no Museu de Israel, estão em exibição pela primeira vez ao público, sendo possível, durante três meses, ver muito ao perto um fragmento do Génesis apócrifo. A este respeito, Adolfo Roitman, comissário da exposição, disse ao jornal El Mundo:
É uma parte de uma cópia do Génesis Apócrifo, o único testemunho físico deste documento no mundo inteiro”.
O trecho do manuscrito pode ser visto através duma pioneira inovação tecnológica israelita que consiste num vidro inteligente desenhado para proteger o documento e evitar a degradação, bem como para medir os níveis de humidade e a temperatura dentro da caixa.
Assim, de 30 em 30 segundos, as luzes que iluminam o documento acendem-se, permitindo ao visitante observar o pedaço de manuscrito, mas evitando que este sofra danos. Desta forma, e só desta forma, é possível que o público tenha acesso a este “tesouro” único – o que permite ao comissário afirmar que os Rolos do Mar Morto são “uma janela para o mundo antigo”.
Segundo o comissário, “o objetivo é expor o manuscrito original, mas tendo sempre em mente que o nosso dever é preservá-lo para as gerações futuras”.
O conteúdo da parte do manuscrito exposto diz respeito à coluna 10 do Apócrifo, que versa sobre o que aconteceu a Noé depois do dilúvio. E Roitman revela:
Na versão bíblica do Pentateuco, o Deus de Israel, Javé, ordena a Noé que deixe a arca com a sua família. Uma vez no exterior, o patriarca faz um sacrifício de gratidão, mas no fragmento do apócrifo de Génesis o que nos é dito é que o sacrifício não foi feito fora da arca, mas sim no seu interior.”.
É uma diferença não essencial, como tantas, que não põe em causa o conteúdo.
Os oito rolos de Manuscritos do Mar Morto foram alegadamente descobertos, em 1947, por pastores de cabras, nas cavernas de Qumran, no Mar Morto e datam dum período situado entre o terceiro século antes de Cristo e o primeiro século A.D. (Anno Domini ou depois de Cristo). A maior parte está escrita em hebraico, mas 15% estão em aramaico e a alguns em grego. Cerca de 230 contêm textos que fazem parte da Bíblia.
Muitos anos depois de descobertos e milhares de anos depois de escritos, os Manuscritos estão disponíveis online, por colaboração entre a Google e a Autoridade de Antiguidades de Israel. No total, são mais de 5000 os documentos e imagens disponíveis em alta resolução desde dezembro de 2012, à distância de um clique. Têm permanecido guardados no Museu de Israel, não tendo sido expostos ao público devido aos cuidados que o seu estado de conservação requer.
Na transposição dos documentos para a visualização online recorreu-se técnicas de especialistas da agência espacial norte-americana NASA. As imagens dos manuscritos têm uma definição 200 vezes superior à duma câmara fotográfica digital comum, tendo cada uma cerca de 1200 megapíxeis, o que permite uma melhor análise dos documentos e do seu próprio estado de conservação. Para Yossi Matias, responsável da Google em Israel,  a parceria com a Autoridade de Antiguidades é mais um passo em frente a permitir aos utilizadores de todo o mundo desfrutarem deste tipo de material cultural, pois desde que  foi encontrado, apenas um reduzido número de investigadores podia consultá-lo (apenas 5 conservadores em todo o mundo tinham acesso aos Manuscritos), o que vinha gerando  controvérsia ao longo dos anos. Ora, foi para fazer frente às críticas e tornar os manuscritos acessíveis a um maior número de pessoas que as autoridades israelitas avançaram com este projeto online e agora possível de exibir.
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Peter Colón, em seu artigo “O Verdadeiro Tesouro dos Manuscritos do Mar Morto”, conta a história da descoberta do achado – relato que se condensa a seguir e se completa com outra informação relevante.
Muhammad andava agitado e inquieto por a cabra travessa ter desaparecido. Ao vaguear longe do rebanho e dos amigos, o beduíno topou uma caverna que ficava em posição elevada e dava frente para a costa noroeste do mar. Pensando que o animal se perdera na caverna, começou a lançar pedras pela entrada da gruta para o fazer sair. Porém, sentindo que o ruído das pedras batia em peças cerâmicas, ficou intrigado e correu até a entrada da caverna. Porém, no seu interior, apenas encontrou jarros grandes e antigos ao longo das paredes, os quais continham rolos de pergaminhos despedaçados. Aí pensou: “pelo menos os pergaminhos de couro vão servir para fazer correias e tiras de sandálias”. O beduíno não percebeu a real importância do momento. A teimosia da cabra levara-o à que pode ser considerada, nos tempos modernos, a maior descoberta de manuscritos.
Os beduínos não marcam o tempo como os ocidentais: assemelham-se aos seus antepassados; a sua conceção de tempo e momento está relacionada com outros eventos. Assim, não se pode datar a descoberta com precisão. Após uma revisão, a data da descoberta do primeiro rolo de manuscritos será 1935 ou 1936 e não 1947, como se propalou. A partir de então até 1956, muitos outros manuscritos foram achados. Crê-se que os manuscritos sejam de datas diferentes, que variam do século III a.C. até o século I d.C. A maior parte deles foi descoberta em cavernas de formação calcária em Wadi Qumran, sitas exatamente a noroeste do Mar Morto. A maioria é escrita em hebraico; o restante é escrito em aramaico e grego. Foram achados mais de 900 documentos, que correspondem a 350 obras distintas em suas múltiplas cópias. Muitos dos escritos bíblicos e extrabíblicos vêm em pequeníssimos fragmentos. Só numa caverna foram achados 520 textos, na forma de 15 mil fragmentos. Ora, juntar todos os pedaços de pergaminho na respetiva posição para fazer a tradução tem sido tarefa hercúlea.
O achado dos Manuscritos confirma o que as pessoas que creem na Bíblia sempre souberam, ou seja, que a Bíblia, tal qual a temos na atualidade, é texto que passa nos testes de fidedignidade. Apesar dos ataques contra a Bíblia, a Palavra de Deus permanece para sempre: 
O caminho de Deus é perfeito; a palavra do Senhor é provada; ele é escudo para todos os que nele se refugiam” (2Sm 22,31).
Sempre houve quem haja questionado a confiabilidade das Escrituras. Dado que o texto foi copiado e recopiado ao longo de séculos, os críticos alegam ser impossível saber-se com certeza o que os hagiógrafos escreveram ou queriam dizer. Os Manuscritos do Mar Morto invalidam tal hipótese ou suposição no que se refere ao Antigo Testamento (AT). Foram achadas entre 223 e 233 cópias das Escrituras Hebraicas, que foram comparadas com o texto atual. O único livro do AT que não foi encontrado nessa descoberta é o livro de Ester. Pode ser que esteja oculto em caverna ainda não identificada de algum lugar isolado.
Antes dessa descoberta, os manuscritos mais antigos das Escrituras Hebraicas datavam do século IX d.C. ao século XI d.C. Tais manuscritos constituem o chamado Texto Massorético (TM) – expressão originada da palavra hebraica masorah a significa “tradição”. Os escribas judeus de Tiberíades, denominados massoretas, procuraram meticulosamente padronizar o texto hebraico e a sua pronúncia; a obra que realizaram é considerada uma referência confiável. Os manuscritos de Qumran são, no mínimo, mil anos mais antigos que o Texto Massorético. Na realidade, esses manuscritos são até mais antigos que a Septuaginta, a tradução grega do AT elaborada no Egito durante o período de 300 a 200 a.C. Têm-se feito comparações minuciosas entre o TM e os Manuscritos do Mar Morto. Encontraram-se diferenças insignificantes de ortografia e gramática. Os críticos e céticos em relação à Bíblia ficaram surpresos quanto ao modo por que o texto daqueles manuscritos se assemelha ao texto atual. Não encontraram objeção evidente às principais doutrinas das Escrituras. A parte bíblica da literatura descoberta em Qumran confirma o estilo de expressão e o significado do AT que hoje temos em mãos:
Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5,39).
Além de cópias das Escrituras do AT, as cavernas do Mar Morto proporcionam-nos outras obras. Estes documentos descrevem o estilo de vida e as crenças da misteriosa comunidade que viveu na região de Qumran – os essénios – que terá organizado todos os manuscritos achados. Embora os atinentes à vida essénica não sejam escritos bíblicos, são registos valiosos que possibilitam a compreensão do contexto de vida e cultura na época do Novo Testamento (NT). Porém, os estudiosos dão mais atenção a essas obras de menor relevância que às Escrituras, quando os textos bíblicos sejam mais importantes para os problemas da vida, pois o legítimo plano de Deus para a redenção da humanidade só se encontra no texto da Bíblia.
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A cópia mais antiga das Escrituras do AT conhecida até agora foi descoberta em 1979. São dois minúsculos rolos de manuscritos feitos de prata, usados como talismãs, que foram descobertos dentro dum túmulo em Jerusalém. O texto da sua inscrição foi cunhado em hebraico antigo. O manuscrito, surpreendentemente, continha uma citação da bênção sacerdotal registada em Números 6,24-26:
O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz”.
A inscrição data do século VII a.C., época do templo de Salomão e do profeta Jeremias. Portanto, esses versículos, provenientes do 4.º livro da Torah [ou Pentateuco, na versão grega], são mais antigos do que os Manuscritos do Mar Morto (cerca de 400 anos).
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O Rolo de Isaías achado na caverna 1 da região de Qumran oferece um exemplo da transmissão exata do texto na tradução. Crê-se que esse manuscrito date de cem anos antes do nascimento de Jesus Cristo. Foi um manuscrito semelhante a esse que Jesus utilizou na sinagoga de Nazaré, na leitura da passagem das Escrituras: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres (Lc 4,18; Is 61,1). Ele continuou a leitura até determinado ponto. Em seguida, devolveu o rolo ao assistente da sinagoga e sentou-se. Todos tinham os olhos fitos em Jesus, que declarou que aquele passo das Escrituras acabara de se cumprir naquele momento. Assim, Jesus afirmou claramente ser Ele mesmo o Messias que veio ao mundo para oferecer a salvação a todo aquele que O receber.
A mesma passagem traduzida do Manuscrito do Livro de Isaías descoberto em Qumran (cerca de mil anos mais antigo do que o manuscrito hebraico [i.e., o Texto Massorético] em que se basearam as outras traduções) é praticamente idêntica: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque YHVH [o tetragrama sagrado em hebraico que se refere ao nome supremo de Deus: Yahweh ou Javé] me ungiu para pregar as boas novas aos quebrantados”. A integridade da reivindicação de Cristo, conforme está escrita em nossas Bíblias, confirma-se.
É importante registar que os manuscritos achados com mais frequência em Qumran, completos ou na forma de pequenos fragmentos, se referem aos mesmos livros da Bíblia geralmente citados no NT: Deuteronómio, Isaías e Salmos. Tal facto desperta um interesse ainda maior à luz das próprias palavras de Jesus concernentes às Escrituras Hebraicas:
A seguir, Jesus disse-lhes: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,44).
Muitos outros exemplos poderiam ser citados. O facto principal acerca da Bíblia e desses rolos resume-se no que um grande estudioso e paladino das Escrituras, o inglês G. Campbell Morgan (1863-1945) compartilhou certa vez:
Não existe vida nas Escrituras em si mesmas, porém, se seguirmos a direção para onde as Escrituras nos levam, elas nos conduzirão até Ele e assim encontraremos a vida, não nas Escrituras, mas n’Ele através delas”.
E comprova a sua tese com uma citação de Isaías:
Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente” (Is 40,8).
Infindáveis argumentações e debates têm surgido acerca desses manuscritos, como trouxessem à fé cristã uma derrocada apocalíptica. Contudo, os crentes podem estar certos de que este material ratifica a Bíblia que temos hoje, a apoia e lhe dá credibilidade. A Palavra de Deus é a única fonte legítima da fé e da doutrina para todo aquele que busca recompensa eterna.
São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces que o mel e o destilar dos favos. Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa.” (Sl 19,11-12).
Sendo assim, Muhammad terá ficado desiludido por ter momentaneamente alimentado a esperança de encontrar ali os tesouros deste mundo. Apenas achou pergaminhos despedaçados que só prestavam para fazer correias de sandálias. Lamentavelmente o lucro deste mundo é uma prioridade que absorve a pessoa completamente. O mundo considera as Escrituras Sagradas como algo sem valor; ou com alguma utilidade, de vez em quando, para serem citadas como “palavras da boca para fora”, mas nunca para serem aceitas pela fé e praticadas. Todavia, nós, os salvos em Cristo, temos um conhecimento mais apurado. Temos conhecimento suficiente para não desprezar o tesouro verdadeiro e incalculável que só pode ser descoberto quando se faz uma escavação no solo da Palavra de Deus:
E, se clamares por inteligência e por entendimento alçares a voz, se buscares a sabedoria como a prata e como a tesouros escondidos a procurares, então, entenderás o temor do Senhor e acharás o conhecimento de Deus” (Pr 2,3-5). 
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(cf Peter Colón, Israel My Glory, http://www.chamada.com.br). Cf ainda: GARCÍA, Florentino MARTÍNEZ – TREBOLLE, Julio (1993). Los hombres de Qumrán: literatura, estructura social y concepciones religiosas. Trotta, Madrid;POULLY, Jean (1980). Los manuscritos del mar muerto y la comunidad de Qumrán, Verbo divino, Estella. RIESNE, R. – BETZ, H. D. (1992). Jesús, Qumrán y el Vaticano, Herder, Barcelona.
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Assim, em vista das descobertas científico-bíblicas, o crente pode clamar como o salmista:
A lei do Senhor é perfeita e reconforta a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símples [...] são mais desejáveis do que ouro, [...] em os guardar há grande recompensa [...] Para mim vale mais a lei que procede de tua boca do que milhares em ouro ou prata (Sl 19,8.11-12; Sl 119,72).
2018.04.04 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 2 de março de 2017

Uma iniciativa marcada por intoleráveis tribulações

Cidade Global – Lisboa do Renascimento é a exposição que o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tinha planeado para o último trimestre de 2016 e que só foi inaugurada na tarde de 23 de fevereiro de 2017 pelo Ministro da Cultura, Luís Castro Mendes, para ficar patente ao público apenas durante mês e meio (24 de fevereiro a 9 de abril), mercê dos compromissos já assumidos com os Museus do Vaticano.
Os compromissos com o Vaticano têm a ver com uma mostra que os seus Museus pretendem patentear em Lisboa por ocasião da visita do Papa Francisco a Fátima no próximo mês de maio, no âmbito do centenário fatimita, como declarou a nova Diretora dos Museus Vaticanos, Barbara Jatta, em conferência de imprensa no passado dia 12 de dezembro.
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A história desta exposição começou em 1866, num dia de abril, quando o pintor e poeta Dante Gabriel Rossetti saiu de sua casa em Chelsea (Londres) para avaliar um quadro que vira numa pequena loja de antiguidades. O mundo da arte britânico tinha despertado para a pintura espanhola e os colecionadores procuravam trabalhos de grandes mestres, como El Greco, Velázquez e Goya. Apesar de não reconhecer a cidade representada no predito quadro, Rossetti percebeu a sua origem ibérica.
Entretanto, 150 depois, as historiadoras Annemarie Jordan Gschwens e Kate identificaram a pintura que Rossetti comprou (dividida em duas ainda no século XIX) como representando uma vista da Rua Nova dos Mercadores, que não escapou ao flagelo destruidor do Terramoto de 1755. É, pois, uma notável representação da principal artéria comercial da Lisboa quinhentista, “repleta de mercadores, saltimbancos, músicos, vendedores ambulantes, cavaleiros, joias, sedas, especiarias, animais exóticos e outras maravilhas importadas de África, do Brasil, da Ásia” (cf site do MNAA).
Assim, é natural que o grande objetivo da exposição de 250 peças seja a reconstituição do coração da cidade mais global da Europa do Renascimento.
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Depois de o evento ter sofrido sucessivos atrasos, surgiram à última da hora, pelos vistos sem fundamento sólido, suspeitas sobre a autenticidade de duas obras que estão na exposição, “Cidade Global – Lisboa no Renascimento” ora inaugurada.
Segundo António Filipe Pimentel, Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga e Subdiretor-Geral do Património Cultural por inerência, isto “faz parte dos percalços administrativos” e “tem que ver com as circunstâncias em que trabalham os museus da DGPC [Direção Geral do Património Cultural]”.  Referindo, que a DGPC é uma “máquina pesada”, garantiu estar a trabalhar com o Ministério da Cultura “para mudar este mecanismo obsoleto”. Uma das razões que tornam pesada esta máquina é a logística do transporte de obras de arte, um dos fatores que impediram o cumprimento do calendário previsto. Depois, foram 80 as entidades – públicas e privadas – que emprestaram peças para Cidade Global. Por exemplo, a considerada peça-estrela, a vista da Rua Nova dos Mercadores, “gatilho da exposição”, veio de Londres e pertence à Society of Antiquaries de Londres, em Kelmscott Manor.
Além disso, esta é uma das obras sobre cuja autenticidade recaiu a suspeita em virtude de uma notícia veiculada pelo semanário Expresso. O historiador João Alves Dias, citado pelo predito semanário, avançava que o quadro identificado em 2009 “é um quadro forjado no século XX a imitar o passado”, pelo que, alegadamente, não poderia ter feito parte do espólio do pintor Dante Gabril Rossetti (1828-1882).
Porém, Filipe Pimentel contrapõe com as investigações das comissárias da exposição Kate Lowe e Annemarie Jordan, as primeiras a identificarem esta vista como pertencente a Lisboa, e com o artigo publicado pela historiadora Julia Dudkiewicz no The British Art Journal, intitulado “Dante Gabriel Rossetti’s collection of Old Masters at Kelmscott Manor”.
A historiadora analisou o testamento de May Morris, filha de William Morris e herdeira de Kelmscott Manor, que inclui uma lista de 220 objetos doados à Universidade de Oxford, com a casa, e refere:
“Nessa lista, com descrições dos vários itens, que englobam proveniências e localização na casa, surgem os dois quadros representando a Rua Nova dos Mercadores: Duas imagens de cenas de uma cidade, parte das coisas de Dante Gabriel Rossetti”.
Por outro lado, a já referida Annemarie Jordan Gschwend, do Centro de História de Além Mar, na Suíça, explicitou que, após a descoberta, a obra foi requisitada para uma exposição no Museu Rietberg, que patrocinou o seu restauro. A restauradora situou a obra no século XVI depois de analisar a sua pigmentação e remeteu para a leitura do livro “The Global City: On the Streets of Renaissance Lisbon”, editado em 2015 com a Fundação Calouste Gulbenkian.
E, em relação à obra Chafariz d’El Rey (adquirida pelo empresário Joe Berardo), Pimentel admite que não foi produzido “um exaustivo estudo monográfico, material e iconográfico”, mas a obra “é inquestionavelmente pintura antiga”, é conhecida e, em finais do século XIX, pertencia à coleção do conde Adanero, de Madrid. Mais:
“Identificada como uma cena urbana, foi fotografada cerca de 1940 pela Casa Moreno/Archivo de Arte Español. [E] foi reconhecida como representando o Chafariz d’el-Rei no antiquário madrileno, Caylus Anticuarios, e divulgada em Portugal por Vítor Serrão em 1998”.
Também o historiador de arte Fernando Batista Pereira, que integrou a organização da exposição “Os Negros em Portugal, séculos XV a XIX, atesta a autenticidade da obra, referindo que “são cenas irónicas, pícaras da vida de Lisboa”, e acreditando tratar-se da visão dum artista de fora em Lisboa, mas provavelmente executada em Lisboa, pois os exames feitos revelam que “a superfície da tela e a preparação técnica têm afinidades com o que se fazia na Península Ibérica”.
Já Anísio Franco, historiador de arte e conservador do MNAA, tem dúvidas na datação, que põe “entre 1590 e 1630”, mas não põe em causa a autenticidade da obra, assegurando que “[o quadro] está a descrever uma coisa que só existia antes do terramoto”.
E Pimentel diz tratar-se pintura tem sido mostrada por várias vezes, “reproduzida e comentada nos respetivos catálogos”. Por outro lado, elenca as referências, sublinhado a participação do historiador Diogo Ramada Curto – o alegado crítico do Chafariz d’El Rey – em duas delas: “Os Negros em Portugal. Séculos XV a XIX”, Lisboa, Mosteiro dos Jerónimos, 1999, com comissariado de Didier Lahon e Maria Cristina Neto; “Encompassing the Globe. Portugal and the World in the 16th & 17th Centuries”, Washington: Smithsonian Institution, 2007, editado por Jay A Levenson, com a colaboração de Diogo Ramada Curto e Jack Turner; “Autour du Globe. Le Portugal dans le monde aux XVIe et XVIIe siècles”, Bruxelas, Palais des Beaux-Arts, 2007-8, com comissariado de Jay A. Lavenson, com a colaboração de Jean-Michel Massing, Nuno Vassallo e Silva, Regina Krahl, Diogo Ramada Curto e James Ulak; e “Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII”, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 2009, com comissariado de Jay A. Levenson, Jean Michel Massing, Julian Raby, Nuno Vassallo e Silva, James Ulak e Regina Krahl.
Todavia, Pimentel diz estar aberta a possibilidade de se fazerem exames laboratoriais às obras, “desde que os proprietários queiram”, adiantando, porém, que “é preciso saber se se consegue avançar mais do que aquilo que já foi feito” – papel dos historiadores de arte.
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Sobre a exposição propriamente dita, Kate Lowe diz que “é a prova de como o mundo se passava em Lisboa”. A historiadora de arte, que trabalha na Universidade Queen Mary, estava no Museu Britânico a preparar uma exposição sobre Shakespeare quando uma colega lhe mostrou uma fotocópia com a vista da Rua Nova dos Mercadores. Embora se dedique aos estudos sobre África, achou poder tratar-se de Lisboa, o que confirmou com a outra comissária. E Annemarie Jordan também fala da cidade onde tudo acontecia junto ao rio, incluindo o comércio de animais exóticos.  
Catarina de Áustria, já casada com D. João III, enviou animais exóticos de presente para a família na Alemanha e em Viena. E o rinoceronte embalsamado do Museu de História Natural que aqui aparece tem a sua razão de ser: “existem descrições de como um rinoceronte nadava no Tejo”. E Filipe II, ao tomar Portugal, mandou para Madrid um elefante e a rinoceronte Abada que se mostrava, cobrando bilhete, em Madrid. Vivia naquela que é hoje a Calle Abada.
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Tudo isto é típico do português: o hipercriticismo fora de tempo, pois, por exemplo, qualquer um dos quadros da polémica não foi desenterrado para esta exposição; a desconfiança sobre quem não é da nossa escola ou academia; o excessivo peso da burocracia, alegadamente por questões técnicas e de segurança, quando, muitas vezes, aquilo de que se trata é da guerrilha de competências entre departamentos estatais e falta de competência orçamental; e a falta de gestão dos compromissos.
Sobre este ponto, não duvido da importância da exposição em Lisboa por ocasião da visita papal a Fátima, mas tinha de se encontrar forma de garantir a perdurabilidade da mostra da exposição “Cidade Global – Lisboa no Renascimento”, dada a pertinência, a raridade e o apreço pela mobilização das 80 entidades, acima referida. Lisboa – e talvez o próprio MNAA – não é tão minúscula que não possa albergar mais que uma relevante exposição temporária.
Entregar por hipótese “Cidade Global – Lisboa no Renascimento” ao Porto, por exemplo, pode ser simpático e revestir-se de utilidade prática, mas perde pela simbologia. O Porto pode dizer-nos tanto ou mais que Lisboa, mas as suas vivências são diferentes.
Mas Deus dá as nozes a quem não tem dentes. Só que nos esquecemos de que também escreve direito por linhas tortas. E um país só pode ser grande se tiver cidadãos grandes.

2017.03.02 – Louro de Carvalho