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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O Congresso Internacional de Turismo Religioso e Peregrinação

Decorreu nestes dias, 22 e 23 de novembro, em Fátima, no Centro Pastoral Paulo VI, o Congresso Internacional de Turismo Religioso e Peregrinação, iniciativa conjunta da Organização Mundial do Turismo (OMT ou UNWTO), do Ministério da Economia e do Município de Ourém.
O evento, que se insere no contexto do centenário das aparições de Fátima (1917-2017), constituiu uma oportunidade para reflexão sobre o potencial e o papel do turismo religioso e dos lugares sagrados como uma ferramenta para o desenvolvimento socioeconómico e cultural dos destinos, bem como dos seus percursos.
O congresso partiu dos seguintes pressupostos:
- O conhecimento das motivações que levam milhões de pessoas a visitar os lugares sagrados é condição essencial para o desenvolvimento sustentável dos destinos turísticos.
- O visitante dos lugares sagrados em geral, e de Fátima em particular, carateriza-se pela notável fidelização ao lugar visitado.
- Por isso, pode dizer-se que a fidelização do turista é, nestes casos, um elemento essencial da relação que o turista religioso e o peregrino estabelecem com os destinos que estão a visitar.
- Assim, o princípio-chave é preservar o espírito dos destinos, a autenticidade e a integridade com que são administrados e promovidos embora tornando-os acessíveis a todos.
- Por outro lado, estes lugares de espiritualidade têm potencial para encaminhar parte dos seus fluxos turísticos para outras atrações turísticas da respetiva região, obviamente com estratégias de promoção adequada; é possível orientar visitantes para áreas menos conhecidas e lugares complementares que são oferecidos em lugares sagrados.
- Adicionalmente, os destinos de turismo religioso são normalmente afetados por tendências e crises económicas.  
Por conseguinte, tomando nota de que as Nações Unidas (ONU) declararam 2017 como o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento, o Congresso discutiu a forma como as parcerias efetivas, em lugares sagrados, podem beneficiar as comunidades locais e encorajar o seu desenvolvimento sustentável e a capacitação socioeconómica no longo prazo. 

Também foi debatida a necessidade de políticas específicas de proteção e gestão de locais religiosos e sagrados que levem em linha de conta o valor sagrado ou espiritual distinto associado ao local, como um fator-chave para sua conservação.

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Segundo o ex-Presidente da Câmara Municipal de Ourém Paulo Fonseca, o congresso é mais um passo numa estratégia de Fátima assumir a sua centralidade no mundo. O congresso internacional, que tem o apoio do Ministério da Economia, contou com a presença do Secretário-Geral da OMT, Taleb Rifai, assim como de vários ministros e ex-ministros de países como o Paraguai, Sri Lanka, Lituânia, Macedónia, Egito. Marcaram ainda presença vários especialistas do setor do turismo da Coreia do Sul, Espanha, Noruega, Etiópia e Israel.
Segundo a autarquia, o congresso internacional está integrado nas comemorações do Centenário das Aparições de Fátima e, face à presença de vários membros de governos estrangeiros, houve um cuidado especial relativamente à segurança do evento.
Os principais objetivos do congresso centram-se na necessidade de:
- Refletir sobre o potencial competitivo do mercado do turismo religioso;
- Aumentar a atratividade nos destinos religiosos;
- Prosseguir a afirmação do turismo religioso nas redes regionais, nacionais e internacionais de inovação; e
- Partilhar conhecimento sobre as melhores formas de promover destinos religiosos.
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Em consonância com o programa atempadamente divulgado, o Congresso iniciou-se em 22 de novembro, pelas 9,15 horas com “Introdução ao “Congresso Internacional sobre Turismo Religioso e Peregrinação”, por Sandra Carvao, Chefe de Comunicações e Publicações na UNWTO.
Às 9,20 horas, ocorreu a Cerimónia de Abertura, com intervenções de Luís Miguel Marques Grossinho Coutinho Albuquerque, Presidente da Câmara Municipal de Ourém, Portugal, Carlos Cabecinhas, Reitor do Santuário de Fátima, Portugal, Taleb Rifai, Secretário-Geral, UNWTO, e o Representante do Presidente da República de Portugal.
Das 10 às 11 horas, desenvolveu-se um Diálogo de Alto Nível, introduzido e moderado por Mr. Taleb Rifai, Secretário-Geral da UNWTO.
Em relação às quatro sessões indicam-se: o tema, o introdutor e moderador; a ideia de fundo; e a questão ou questões a que se pretende responder. Assim:
Das 11,30 horas às 13, decorreu a Sessão 1 subordinada ao tema “Preservação das tradições sagradas e proteção dos sítios religiosos”, introduzido e moderado por Mr. Jafar Jafari, Professor, Founding Editor, Annals of Tourism Research.
Muitos sítios sagrados estão em risco devido ao grande peso de pressões e ameaças, tanto externas como internas. As ameaças externas incluem as relacionadas com os desastres naturais e a poluição, acentuadas pelas mudanças climáticas, enquanto as ameaças internas podem ser atribuídas aos aspetos sociais como o vandalismo e o furto. Também o turismo pode ser em parte responsável devido ao uso excessivo dos sítios e por exceder os limites da capacidade de lotação dos preditos sítios.
Assim, questiona-se: O que se pode fazer para identificar, combater e mitigar tais ameaças?
A preservação das tradições sagradas postula boas práticas em termos de acessibilidade universal que reforça a competitividade dos destinos do turismo. Adaptar produtos e serviços para as pessoas com necessidades especiais de acesso ajuda à inclusão e dignificação das experiências e turismo.
Por isso, pergunta-se como podem os sítios religiosos tornar-se acessíveis sem se alterar o seu valor cultural ou afetar a sua condição de segurança?

Das 14,30 horas às 14,45 – Saudação de Boas-vindas, por Manuel Caldeira Cabral, Ministro da Economia de Portugal.
Das 14,45 às 15,15 horas, Comunicação, por Ms. Noga Collins-Kreiner, Department of Geography and Environmental Studies, University of Haifa, Israel, Vice-President of the Israeli Geographical Association (IGA)
Das 15,15 às 16,45 horas, Sessão 2, subordinada ao tema “Papel do turismo religioso no crescimento económico sustentável e na inclusividade social das comunidades locais”, introduzido e moderado por Mr. Kevin Griffin, Lecturer in Tourism, Dublin Institute of Technology, Irlanda.
Os lugares sagrados só caraterizados pela sazonalidade e pela grande afluência de visitantes em certas épocas do ano, o que coloca muitos desafios. É necessário desenvolver estratégias para gerir essa afluência, muito embora garantindo aos turistas a qualidade da visita. Salvaguardar a herança cultural para a satisfação das comunidades locais é uma prioridade para o desenvolvimento sustentável, a longo prazo, dos sítios religiosos.
Assim, pergunta-se como podem os governantes, as autoridades religiosas e os operadores turísticos otimizar as vantagens que o turismo religioso cria?

Às 16,45 Notas de encerramento e termo das sessões do 1.º dia, pelo porta-voz da organização.
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No dia 23 de novembro, às 9,50 horas, Abertura do 2.º dia do Congresso, pelo porta-voz da organização.
Das 10 às 11,30 horas, Sessão 3, subordinada ao tema “Sinergias potenciais para o desenvolvimento do turismo religioso através de rotas culturais e rede de destinos”, introduzido e moderado por Mr. Stefano Dominioni, Secretário Executivo, Enlarged Partial Agreement on Cultural Routes of the Council of Europe (EPA) Director, Instituto Europeu das Rotas Culurais (EICR), Conselho da Europa.
As rotas culturais e religiosas são importantes produtos turísticos que atraem peregrinos em todo o mundo e sugerem que as experiências ao longo do percurso são tão importantes como os próprios destinos. Como as rotas de turismo, algumas vezes, cruzam vários países ou regiões, elas estimulam a oportunidade do empreendedorismo através do desenvolvimento de produtos subsidiários e serviços e, por consequência, são potenciais propulsores para o desenvolvimento económico local, oferecendo oportunidades de formação de parcerias entre diversas regiões.
Assim, pergunta-se como podem o Governo e as autoridades locais trabalhar em conjunto para desenvolver um portefólio de ações estratégicas desenhado para um plano detalhado que seja capaz de sustentar e promover as rotas de turismo

Das 11,30 às 13, horas, Sessão 4, subordinada ao tema “O futuro do turismo religioso: marketing inovador e uso da tecnologia”, introduzido e moderado por Ms. Silvia Aulet Serrallonga, Professora e Investigadora, Faculdade de Turismo da Universidade de Girona, Espanha.
As novas tecnologias da comunicação foram rapidamente adotadas pelo turismo religioso.
As tecnologias da informação e da comunicação (TIC) proporcionam novas oportunidades de crescente interesse e consciência da herança religiosa e de reforço da representação da prática religiosa.
Assim, pergunta-se em que medida as inovações tecnológicas e a evolução digital criam impacto no turismo religioso e contribuem para a sua promoção?

Das 13 às 13,30 horas, Notas de encerramento, por: Luís Albuquerque, Presidente da Câmara Municipal de Ourém, Portugal, Mr. Bartłomiej Walas, Vereador do Turismo do Município de Cracóvia, Polónia, e Mr. Taleb Rifai, Secretário-Geral da UNWTO.
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Registe-se que o turismo mundial movimentou 1,2 mil milhões de pessoas em 2016, sendo que um quarto dos turistas viajou por motivos religiosos, como disse, em Fátima, o Secretário-Geral da Organização Mundial de Turismo
E o Congresso Internacional de Turismo Religioso e Peregrinação, que decorreu no Centro Pastoral Paulo VI, em Fátima, contou com mais de 700 participantes. A iniciativa teve, como se disse, o apoio da Organização Mundial do Turismo (OMT) e levou até Fátima os mais altos representantes dos países membros da OMT, além do seu secretário-geral, Taleb Rifai, bem como reconhecidos oradores provenientes de todo o mundo.
O intenso trabalho levado a cabo nos últimos anos pelo Município de Ourém fundamentou a escolha para a realização deste evento de alcance internacional. Este evento foi oportunidade única para a promoção de Fátima no Mundo, um verdadeiro reforço e complemento ao trabalho já realizado, como por exemplo o Workshop Internacional de Turismo Religioso. Assim, após a sua realização em cidades como Elche (2014), Belém (2015) e Utrecht (2016), o Congresso Internacional de Turismo Religioso e Peregrinação refletiu sobre o potencial e o papel do turismo religioso e dos lugares sagrados como uma ferramenta para o desenvolvimento socioeconómico e cultural dos destinos, bem como dos seus percursos.
O património religioso faz parte integrante do nosso património cultural. Esta herança histórica deve ser preservada pelo seu valor cultural, independentemente das suas origens religiosas.
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O reitor do Santuário de Fátima, falando na abertura do Congresso Internacional de Turismo Religioso e Peregrinação, disse, no dia 22, que a Cova da Iria é o mais significativo destino de turismo religioso português e que a celebração do Centenário consolidou a internacionalização de Fátima. Para o Padre Carlos Cabecinhas, a realização deste congresso apresenta-se como “especialmente feliz”, por ser uma ocasião de reflexão sobre o “potencial dos lugares sagrados”. O sacerdote sublinhou:
A variedade de proveniências de peregrinos que, em cada ano, acorrem a Fátima, comprova que este é, de facto, um Santuário mundialmente conhecido. E, se isto era claro no passado, no Centenário tem aparecido com especial evidência, com o aumento significativo de peregrinos vindos de todos os continentes”.
Referido a importância de se promover uma reflexão sobre as potencialidades da peregrinação e do turismo religioso, formulou o seguinte voto:
Que este Congresso se proponha refletir sobre as potencialidades da peregrinação e do turismo religioso como meios de desenvolvimento de um turismo sustentável e como meio de aproximação entre os povos, assume especial relevo neste lugar”.
E o Congresso correspondeu ao voto do reitor do Santuário de Fátima e às expectativas dos congressistas? Espera-se, para ver, a publicação das atas para enriquecimento cultural de todos e incremento desta indústria da paz.

2017.11.23 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 2 de março de 2017

Uma iniciativa marcada por intoleráveis tribulações

Cidade Global – Lisboa do Renascimento é a exposição que o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tinha planeado para o último trimestre de 2016 e que só foi inaugurada na tarde de 23 de fevereiro de 2017 pelo Ministro da Cultura, Luís Castro Mendes, para ficar patente ao público apenas durante mês e meio (24 de fevereiro a 9 de abril), mercê dos compromissos já assumidos com os Museus do Vaticano.
Os compromissos com o Vaticano têm a ver com uma mostra que os seus Museus pretendem patentear em Lisboa por ocasião da visita do Papa Francisco a Fátima no próximo mês de maio, no âmbito do centenário fatimita, como declarou a nova Diretora dos Museus Vaticanos, Barbara Jatta, em conferência de imprensa no passado dia 12 de dezembro.
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A história desta exposição começou em 1866, num dia de abril, quando o pintor e poeta Dante Gabriel Rossetti saiu de sua casa em Chelsea (Londres) para avaliar um quadro que vira numa pequena loja de antiguidades. O mundo da arte britânico tinha despertado para a pintura espanhola e os colecionadores procuravam trabalhos de grandes mestres, como El Greco, Velázquez e Goya. Apesar de não reconhecer a cidade representada no predito quadro, Rossetti percebeu a sua origem ibérica.
Entretanto, 150 depois, as historiadoras Annemarie Jordan Gschwens e Kate identificaram a pintura que Rossetti comprou (dividida em duas ainda no século XIX) como representando uma vista da Rua Nova dos Mercadores, que não escapou ao flagelo destruidor do Terramoto de 1755. É, pois, uma notável representação da principal artéria comercial da Lisboa quinhentista, “repleta de mercadores, saltimbancos, músicos, vendedores ambulantes, cavaleiros, joias, sedas, especiarias, animais exóticos e outras maravilhas importadas de África, do Brasil, da Ásia” (cf site do MNAA).
Assim, é natural que o grande objetivo da exposição de 250 peças seja a reconstituição do coração da cidade mais global da Europa do Renascimento.
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Depois de o evento ter sofrido sucessivos atrasos, surgiram à última da hora, pelos vistos sem fundamento sólido, suspeitas sobre a autenticidade de duas obras que estão na exposição, “Cidade Global – Lisboa no Renascimento” ora inaugurada.
Segundo António Filipe Pimentel, Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga e Subdiretor-Geral do Património Cultural por inerência, isto “faz parte dos percalços administrativos” e “tem que ver com as circunstâncias em que trabalham os museus da DGPC [Direção Geral do Património Cultural]”.  Referindo, que a DGPC é uma “máquina pesada”, garantiu estar a trabalhar com o Ministério da Cultura “para mudar este mecanismo obsoleto”. Uma das razões que tornam pesada esta máquina é a logística do transporte de obras de arte, um dos fatores que impediram o cumprimento do calendário previsto. Depois, foram 80 as entidades – públicas e privadas – que emprestaram peças para Cidade Global. Por exemplo, a considerada peça-estrela, a vista da Rua Nova dos Mercadores, “gatilho da exposição”, veio de Londres e pertence à Society of Antiquaries de Londres, em Kelmscott Manor.
Além disso, esta é uma das obras sobre cuja autenticidade recaiu a suspeita em virtude de uma notícia veiculada pelo semanário Expresso. O historiador João Alves Dias, citado pelo predito semanário, avançava que o quadro identificado em 2009 “é um quadro forjado no século XX a imitar o passado”, pelo que, alegadamente, não poderia ter feito parte do espólio do pintor Dante Gabril Rossetti (1828-1882).
Porém, Filipe Pimentel contrapõe com as investigações das comissárias da exposição Kate Lowe e Annemarie Jordan, as primeiras a identificarem esta vista como pertencente a Lisboa, e com o artigo publicado pela historiadora Julia Dudkiewicz no The British Art Journal, intitulado “Dante Gabriel Rossetti’s collection of Old Masters at Kelmscott Manor”.
A historiadora analisou o testamento de May Morris, filha de William Morris e herdeira de Kelmscott Manor, que inclui uma lista de 220 objetos doados à Universidade de Oxford, com a casa, e refere:
“Nessa lista, com descrições dos vários itens, que englobam proveniências e localização na casa, surgem os dois quadros representando a Rua Nova dos Mercadores: Duas imagens de cenas de uma cidade, parte das coisas de Dante Gabriel Rossetti”.
Por outro lado, a já referida Annemarie Jordan Gschwend, do Centro de História de Além Mar, na Suíça, explicitou que, após a descoberta, a obra foi requisitada para uma exposição no Museu Rietberg, que patrocinou o seu restauro. A restauradora situou a obra no século XVI depois de analisar a sua pigmentação e remeteu para a leitura do livro “The Global City: On the Streets of Renaissance Lisbon”, editado em 2015 com a Fundação Calouste Gulbenkian.
E, em relação à obra Chafariz d’El Rey (adquirida pelo empresário Joe Berardo), Pimentel admite que não foi produzido “um exaustivo estudo monográfico, material e iconográfico”, mas a obra “é inquestionavelmente pintura antiga”, é conhecida e, em finais do século XIX, pertencia à coleção do conde Adanero, de Madrid. Mais:
“Identificada como uma cena urbana, foi fotografada cerca de 1940 pela Casa Moreno/Archivo de Arte Español. [E] foi reconhecida como representando o Chafariz d’el-Rei no antiquário madrileno, Caylus Anticuarios, e divulgada em Portugal por Vítor Serrão em 1998”.
Também o historiador de arte Fernando Batista Pereira, que integrou a organização da exposição “Os Negros em Portugal, séculos XV a XIX, atesta a autenticidade da obra, referindo que “são cenas irónicas, pícaras da vida de Lisboa”, e acreditando tratar-se da visão dum artista de fora em Lisboa, mas provavelmente executada em Lisboa, pois os exames feitos revelam que “a superfície da tela e a preparação técnica têm afinidades com o que se fazia na Península Ibérica”.
Já Anísio Franco, historiador de arte e conservador do MNAA, tem dúvidas na datação, que põe “entre 1590 e 1630”, mas não põe em causa a autenticidade da obra, assegurando que “[o quadro] está a descrever uma coisa que só existia antes do terramoto”.
E Pimentel diz tratar-se pintura tem sido mostrada por várias vezes, “reproduzida e comentada nos respetivos catálogos”. Por outro lado, elenca as referências, sublinhado a participação do historiador Diogo Ramada Curto – o alegado crítico do Chafariz d’El Rey – em duas delas: “Os Negros em Portugal. Séculos XV a XIX”, Lisboa, Mosteiro dos Jerónimos, 1999, com comissariado de Didier Lahon e Maria Cristina Neto; “Encompassing the Globe. Portugal and the World in the 16th & 17th Centuries”, Washington: Smithsonian Institution, 2007, editado por Jay A Levenson, com a colaboração de Diogo Ramada Curto e Jack Turner; “Autour du Globe. Le Portugal dans le monde aux XVIe et XVIIe siècles”, Bruxelas, Palais des Beaux-Arts, 2007-8, com comissariado de Jay A. Lavenson, com a colaboração de Jean-Michel Massing, Nuno Vassallo e Silva, Regina Krahl, Diogo Ramada Curto e James Ulak; e “Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII”, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 2009, com comissariado de Jay A. Levenson, Jean Michel Massing, Julian Raby, Nuno Vassallo e Silva, James Ulak e Regina Krahl.
Todavia, Pimentel diz estar aberta a possibilidade de se fazerem exames laboratoriais às obras, “desde que os proprietários queiram”, adiantando, porém, que “é preciso saber se se consegue avançar mais do que aquilo que já foi feito” – papel dos historiadores de arte.
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Sobre a exposição propriamente dita, Kate Lowe diz que “é a prova de como o mundo se passava em Lisboa”. A historiadora de arte, que trabalha na Universidade Queen Mary, estava no Museu Britânico a preparar uma exposição sobre Shakespeare quando uma colega lhe mostrou uma fotocópia com a vista da Rua Nova dos Mercadores. Embora se dedique aos estudos sobre África, achou poder tratar-se de Lisboa, o que confirmou com a outra comissária. E Annemarie Jordan também fala da cidade onde tudo acontecia junto ao rio, incluindo o comércio de animais exóticos.  
Catarina de Áustria, já casada com D. João III, enviou animais exóticos de presente para a família na Alemanha e em Viena. E o rinoceronte embalsamado do Museu de História Natural que aqui aparece tem a sua razão de ser: “existem descrições de como um rinoceronte nadava no Tejo”. E Filipe II, ao tomar Portugal, mandou para Madrid um elefante e a rinoceronte Abada que se mostrava, cobrando bilhete, em Madrid. Vivia naquela que é hoje a Calle Abada.
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Tudo isto é típico do português: o hipercriticismo fora de tempo, pois, por exemplo, qualquer um dos quadros da polémica não foi desenterrado para esta exposição; a desconfiança sobre quem não é da nossa escola ou academia; o excessivo peso da burocracia, alegadamente por questões técnicas e de segurança, quando, muitas vezes, aquilo de que se trata é da guerrilha de competências entre departamentos estatais e falta de competência orçamental; e a falta de gestão dos compromissos.
Sobre este ponto, não duvido da importância da exposição em Lisboa por ocasião da visita papal a Fátima, mas tinha de se encontrar forma de garantir a perdurabilidade da mostra da exposição “Cidade Global – Lisboa no Renascimento”, dada a pertinência, a raridade e o apreço pela mobilização das 80 entidades, acima referida. Lisboa – e talvez o próprio MNAA – não é tão minúscula que não possa albergar mais que uma relevante exposição temporária.
Entregar por hipótese “Cidade Global – Lisboa no Renascimento” ao Porto, por exemplo, pode ser simpático e revestir-se de utilidade prática, mas perde pela simbologia. O Porto pode dizer-nos tanto ou mais que Lisboa, mas as suas vivências são diferentes.
Mas Deus dá as nozes a quem não tem dentes. Só que nos esquecemos de que também escreve direito por linhas tortas. E um país só pode ser grande se tiver cidadãos grandes.

2017.03.02 – Louro de Carvalho