domingo, 6 de setembro de 2026

Bino Branco, a voz do “Fundo Baxo” e grande intérprete de funaná

 

Faleceu a 29 de agosto de 2026, nos Estados Unidos da América (EUA), onde se encontrava em tratamento, desde 2025, Bino Branco, vocalista e compositor cabo-verdiano cujo nome fica ligado, para sempre, ao funaná, género musical e dança tradicional cabo-verdiana, típico da ilha de Santiago, tendo o grupo Ferro Gaita, por ele cofundado, contribuído muito para a sua difusão, como anota Filinto Elísio – na sua crónica semanal, de 3 de setembro, no Programa “África em Clave Cultural: personagens e eventos” do podcast do Vaticano dedicado à cultura, à arte, às figuras públicas e aos acontecimentos relevantes ligados ao continente africano –, pondo em evidência a filosofia, a evolução e os maiores sucessos do grupo.

A cerimónia fúnebre do músico Carlos Alberto Pereira Lopes (nome de registo e de batismo), conhecido por Bino Branco, de 56 anos (faria 57, a 29 de dezembro), que enfrentava uma doença oncológica, ocorreu a 6 de setembro, na cidade da Praia.  Os seus restos mortais chegaram à cidade da Praia, a 5 de setembro, às 23h00, tendo-se seguindo o velório, às 23h40, na Casa Mortuária da Agência Funerária Estrela de Cabo Verde, em Achada, no município de São Filipe. No dia 6, às 9h00, a urna foi transportada para a residência do falecido, em Calabaceira, a cerimónia fúnebre tem lugar às 15h00, na Capela de Calabaceira, e seguiu, às 15h40, o cortejo para o Cemitério da Várzea, com passagem por Achadinha.

Na circular disponibilizada nas redes sociais pedia-se aos familiares, amigos e artistas que comparecessem vestidos de branco, em sinal de homenagem, respeitando a vontade do músico.

Conhecido pela sua energia em palco, Bino Branco tornou-se uma figura indissociável do ferrinho, instrumento que marcou a sonoridade do grupo e a sua identidade artística.

Em junho deste ano, o governo aprovou a atribuição de uma pensão de Estado no valor de 75 mil escudos mensais ao músico, em “reconhecimento pelo seu contributo para a cultura nacional”, numa altura em que enfrentava uma doença oncológica.

“Nascido em Cabo Verde, Bino Branco tornou-se conhecido pela sua voz marcante e pela execução do ferrinho (ou ferro), instrumento tradicional que, juntamente com a gaita (acordeão diatónico), constitui a base sonora do funaná. A sua imagem tornou-se tão associada ao instrumento que é, frequentemente, utilizada como referência quando se fala do ferrinho na música cabo-verdiana”, lê-se no Boletim Oficial que publicou a medida.

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Para Filinto Elísio, os funanás Ferro Gaita, uma das bandas mais emblemáticas e históricas de Cabo Verde, assumiram, em pleno o funaná, ritmo tradicional da ilha de Santiago.

Bino Branco, participou em diversos grupos musicais juvenis, sendo o mais conhecido o Grupo Djassy, onde era o vocalista principal, tendo, após a dissolução em 1991, ido viver na ilha Brava, onde era presença assídua nas noites cabo-verdianas.

Este músico (também compositor) passou a ser identificado pela voz marcante e pela execução do ferrinho ou ferro. A sua imagem tornou-se tão associada ao instrumento que é, frequentemente, utilizada como referência, quando se fala do ferrinho na música cabo-verdiana.

O conjunto Ferro Gaita foi fundado em 1996, por Bino Branco, Eduíno e Paulino Preto. O nome “Ferro Gaita” foram-no buscar a dois instrumentos tradicionais do arquipélago, verdadeiros pilares do funaná: respetivamente, um pedaço de metal tocado com uma faca e uma espécie de acordeão. A estes decidiram juntar as potencialidades da bateria e do baixo, construindo assim as bases da sua aventura musical. O grupo teve papel vital na revitalização da música tradicional da ilha de Santiago, injetando ritmos modernos numa herança secular, especialmente, o género musical funaná.

Em 1997, o lançamento do álbum de estreia Fundu Baxu (ou Fundo Baxo) gerou enorme impacto local, impulsionado pela icónica atuação no Festival da Gamboa, na cidade da Praia. Os dois anos seguintes levaram-nos a partilhar a festa com diversas plateias, em Cabo Verde, em Portugal, na França, na Alemanha, em Cuba, no Senegal, nos Países Baixos, e na Espanha, entre outros países. Desde então, Bino Branco tornou-se a voz marcante e a presença eletrizante no comando do ferrinho, deixando profundo legado na História moderna da música cabo-verdiana.

Em 1999, os Ferro Gaita cruzam o oceano para gravar o segundo álbum de originais – “Rei Di Tabanka” – nos EUA. Levando mais longe o seu talento, a sua vontade e capacidade de revisitarem estilos tradicionais, conferindo-lhes novas roupagens, sem os adulterarem, os Ferro Gaita aventuram-se pelos territórios do batuque, da tabanka, do finaçon. Introduzem na sua música novos instrumentos e convocam o talento de uma das lendas vivas da música cabo-verdiana, Nha Nácia, então com 75 anos de idade, para participar no disco. E um novo sucesso comercial, trá-los de volta aos palcos internacionais, com destaque para uma alargada tournée europeia, ao lado de grandes nomes da música cabo-verdiana, como Cesária Évora, Ildo Lobo, Luís Morais e Tito Paris, entre outros.

O disco sucessor, “Bandêra Liberdadi”, editado em finais de 2003, é o primeiro trabalho do grupo gravado em Cabo Verde, onde fica bem patente a maturidade do grupo e que ilustra na perfeição o sentimento – a “Nós Cultura” – de uma terra, de um povo, que tão bem sabe cantar a sua alma, inebriada pelos ritmos ou embalada pela saudade. Ao vivo, os espetáculos do grupo transbordam de emoção, de sensualidade e de visceralidade da música cabo-verdiana.

Porém, a banda explora outros géneros de raiz cabo-verdiana, tais como o batuque e a tabanka, que se tornaram presença habitual no circuito global dos festivais e fizerem concertos nos países de forte comunidade cabo-verdiana, inscrevendo a música cabo-verdiana nos palcos do Mundo. 

O batuque é um género musical, dança tradicional e manifestação cultural com raízes africanas, com maior destaque histórico e expressão em Cabo Verde e no Brasil. Já a tabanca, enquanto género musical, caracteriza-se por ter um andamento alegre e um compasso binário e por ser, tradicionalmente ser apenas melódico, estruturando-se no canto-resposta, em que um cantor entoa versos que são, de imediato, replicados em uníssono. Nasceu, como organização hierarquizada, na sociedade escravocrata como espaço de união, de refúgio e de resistência das classes mais desfavorecidas e escravizados. E o finaçon é um género musical tradicional, caraterizado por uma narrativa cantada, como crónica do quotidiano, conselho ou sátira social.

Bino Branco gravou sete álbuns originais com o grupo Ferro Gaita, participou em colaborações com diversos artistas cabo-verdianos, gravou um álbum a solo e teve papel fundamental na promoção da música de Cabo Verde. E, em 2007, os Ferro Gaita receberam a Medalha Nacional de Mérito Cultural. Em 2024, assinaram com o Ministério da Cultura um protocolo de apoio à preservação do funaná, enquanto património imaterial nacional. A Bino Branco, que em vida recusou sempre o título de embaixador do funaná, fica reservado esse lugar, incontestável, na memória do género que ajudou a manter vivo.

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A morte do célebre compositor, “ferrinhista” e cantor encerra uma carreira de cerca de 30 anos ligada aos Ferro Gaita. Ao lado de Eduíno e Paulino Preto, ajudou a construir, a partir de 1996, uma das formações de referência na interpretação e divulgação do funaná.

Mais do que a voz, Bino Branco tinha um estilo único de estar em palco. O ferrinho, a energia, a animação e a simplicidade faziam parte da sua presença. Para os admiradores e expectadores, ao longo dos anos, era difícil separá-lo da sonoridade dos Ferro Gaita. “Estamos todos consternados com esta perda”, disse à Inforpress Emanuel Tavares, conhecido por Manel di Tilinha, percussionista e voz de coro do grupo. Sabiam que o estado de saúde do colega era grave, mas a notícia da morte foi recebida com choque.

Manel di Tilinha fala de Bino como “um grande artista”, alguém que entregava à música “o que de melhor há no funaná”, mas também como um homem divertido, alegre e simples. “Os Ferro Gaita não perderam apenas um músico. Perderam um amigo e um irmão”.

Bino Branco cresceu, artisticamente, num período em que o funaná ganhava novas formas de chegar ao público. Nos Ferro Gaita encontrou um espaço onde a tradição podia dialogar com uma abordagem contemporânea, sem perder aquilo que lhe dava identidade.

O ferrinho, uma das imagens associadas à sua presença, acompanhava uma voz que ajudou a dar personalidade ao grupo. Ao longo de três décadas, tal combinação passou por diferentes palcos e contribuiu para que a música nacional chegasse cada vez mais longe. E foi nessa capacidade de levar as raízes consigo que se construiu parte importante do seu percurso.

O Ministério da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto reagiu à morte com uma nota de pesar, considerando Bino Branco uma figura de grande relevância para a música e para a cultura nacional. Na mensagem, destaca o contributo do artista para a valorização e divulgação da música e considera que o seu percurso permanecerá na memória de quem ama e valoriza a cultura do país. E o ministro, António Duarte, lamentando a morte do músico, declarou que o Estado acompanhava com preocupação o seu estado de saúde e já tinha conhecimento da gravidade da situação. “Foi com profunda consternação e imensa tristeza que tomei conhecimento do falecimento de Bino dos Ferro Gaita, figura de grande relevância para a música e para a cultura cabo-verdiana. […] Deu um contributo marcante à valorização e divulgação da nossa música, ajudando a preservar e a projetar a riqueza e a diversidade da identidade cultural cabo-verdiana.

[…] Perde-se mais um artista. A cultura perde parte da sua referência”, afirmou.

Em nome do governo e do Ministério da Cultura, António Duarte apresentou condolências à família, amigos, colegas e à comunidade artística e cultural cabo-verdiana. “Que a sua memória permaneça viva, através da sua música e do legado que deixa às presentes e futuras gerações”, declarou.

Para o governante, o percurso artístico de Bino Branco e o legado que deixa “permanecerão, seguramente, na memória de todos aqueles que amam e valorizam a nossa cultura, de todos os cabo-verdianos a nível global; os Ferro Gaita ficam mais pobres; e o funaná também perde uma das suas referências.

A doença de Bino já vinha obrigando os Ferro Gaita a preparar o futuro do grupo. Segundo o produtor e manager David Vieira, há cerca de um ano que estavam a ser criadas condições para a entrada de novos talentos. E Eduíno, líder da formação, vinha assumindo maior protagonismo nos espetáculos, enquanto músicos mais jovens começavam a integrar o projeto.

A intenção, explica David Vieira, nunca foi substituir Bino Branco. “Não há substituição, há uma adaptação, para não deixar o trabalho morrer”, afirmou à Inforpress.

A frase de David Vieira, agora, ganha outro peso. O grupo que Bino ajudou a fundar terá de continuar sem uma das suas figuras centrais, levando consigo uma história construída ao longo de 30 anos. David Vieira recorda o músico como alguém que se entregava por inteiro ao que fazia. No palco e fora dele, diz, dava sempre “cem por cento”. E é também essa entrega que fica na memória de quem acompanhou os Ferro Gaita, pois Bino tinha uma forma descontraída de estar, mas, quando entrava em palco, a música tomava conta. O ferrinho marcava o compasso, a voz conduzia e o funaná fazia o resto. Agora, o grupo prepara-se para continuar. A ideia é manter vivo o trabalho construído e chegar a mais lugares, apostando em novos intérpretes.

A morte de Bino Branco acontece num momento em que a música nacional continua a ser uma das principais formas de ligação entre quem vive nas ilhas e quem está fora delas. Ao longo da carreira, o músico fez parte dessa ligação. Cantou as raízes, levou o funaná a outros públicos e ajudou a manter vivo um som que, para muitos, é imediatamente reconhecível como sendo de casa. Por isso, a sua ausência será sentida não apenas pelos Ferro Gaita, mas por todos os que cresceram com a música do grupo e que reconheciam naquela voz e naquele ferrinho uma parte das suas próprias memórias.

Bino Branco parte, mas deixa uma obra que continuará a ser tocada. Deixa também uma geração de músicos que com ele partilhou estrada e palco e que, agora, terá a responsabilidade de continuar o caminho. Cada vez que o ferrinho voltar a soar e a voz de Bino surgir numa gravação dos Ferro Gaita, haverá quem reconheça ali mais do que uma canção. Reconhecerá uma época, um grupo e um modo de levar o funaná pelo Mundo, sem deixar as raízes para trás.

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Como género musical, o funaná carateriza-se pelo andamento alegre, mas variável, de vivace a andante, pelo compasso binário e pelo elemento meramente melódico Além do feru ou ferro (barra de ferro, também chamada de ferrinho, utilizada para produzir som com o apoio duma faca de mesa), o funaná está intimamente associado ao acórdão, mais precisamente ao acórdão diatónico, conhecido, em Cabo Verde, por gaita. Este facto influencia uma série de aspetos musicais que caraterizam o funaná, como o uso, na sua forma mais tradicional, de apenas escalas diatónicas, e não escalas cromáticas.

O acordeão diatónico, instrumento musical de palheta livre, com fole como agente ativador do som, cujas palhetas metálicas vibram através do fluxo e pressão de ar, quando pressionados botões, em função e proporção do movimento de expansão e compressão pelo instrumentista.

A estrutura da composição do funaná não é muito diferente da estrutura de outros géneros musicais, em Cabo Verde. Basicamente, a música estrutura-se num conjunto de estrofes principais que se alternam com um refrão. Só que, intercalando as estrofes e os refrãos, há um solo executado na gaita. As músicas são, geralmente, monotónicas. O acompanhamento é executado com a mão esquerda na gaita, dando os baixos e os acordes. O modelo rítmico é executado no ferrinho.

Como dança, o funaná é dançado aos pares, com os executantes com um braço a enlaçar o parceiro, enquanto com o outro braço mantêm as mãos dadas. A dança efeitua-se, imprimindo rápidas e fortes flexões alternadas de cada um dos joelhos, marcando os tempos do compasso. No modo de dançar mais rural, os corpos estão meio inclinados para frente (com contacto nos ombros), e os pés levantam-se do chão. No modo de dançar mais urbano, mais estilizado, os corpos estão na vertical (com contacto na zona peitoral), e os pés arrastam-se pelo chão.

O funaná é relativamente recente. Segundo a tradição oral, surgiu quando, na tentativa de aculturação, o acordeão teria sido introduzido na ilha de Santiago, no início do século XX, para que a população aprendesse géneros musicais portugueses.

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Enfim, uma justa homenagem a um artista, a uma bela expressão artística, a um povo e a um pouco da postura de Portugal, no passado e na atualidade.

2026.09.06 – Louro de Carvalho


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