domingo, 6 de setembro de 2026

Responsabilidade dos cristãos, face aos irmãos e às irmãs que os rodeiam

 

A tendência é para interpretar, de forma errada, o dito evangélico: “E se [o teu irmão] também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano”. Ora, a liturgia do 23.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, insta à reflexão sobre a responsabilidade cristã, face aos irmãos e irmãs. Ninguém pode ficar indiferente ante o que ameace a vida e a felicidade do próximo e todos somos responsáveis uns pelos outros, sem qualquer tipo de ostracismo.

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Na primeira leitura (Ez 33,7-9), surge a figura do profeta como sentinela a quem Deus confiou a vigilância da cidade dos homens. Atento ao desígnio de Deus e à realidade do Mundo, o profeta apercebe-se do que subverte o plano de Deus e impede a felicidade dos homens. E, como vigilante responsável alerta a comunidade para os perigos que a ameaçam.

Ezequiel é o profeta da esperança. Desterrado na Babilónia, desde 597 a.C. (no reinado de Joaquin, quando Nabucodonosor toma Jerusalém, pela primeira vez, e deporta para a Babilónia a classe dirigente do país), exerce aí o serviço profético entre os exilados judeus.

A primeira fase decorre entre 593 a.C. (data do chamamento) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma segunda leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel tenta destruir falsas esperanças e anuncia que, ao invés do que pensam os exilados, o cativeiro durará. E os que ficaram em Jerusalém (a multiplicar pecados e infidelidades) farão companhia aos já desterrados na Babilónia. A segunda fase desenrola-se a partir de 586 a.C. e vai até cerca de 570 a.C. Instalados em terra estrangeira, privados do templo, do sacerdócio e do culto, os exilados desesperam e duvidam do amor de Deus. Então, Ezequiel alimenta a esperança dos exilados e transmite ao Povo a certeza de que o Deus libertador – o Deus que Israel descobriu na sua História – não os abandonou, nem esqueceu.

O teor do trecho em apreço não permite dizer, de forma clara, se pertence à primeira ou à segunda fase da atividade profética de Ezequiel. Todavia, define – pelo recurso à imagem da sentinela – a missão profética: o profeta é, entre os exilados, uma sentinela atenta, que escuta o apelo de Deus e avisa o Povo dos perigos que aparecem no horizonte da comunidade.

A imagem da sentinela aplicada ao profeta não é nova. Já Habacuc, Isaías, Jeremias e Oseias recorrem a esta figura para definir a missão profética. Como sentinela ou plantão, o profeta é o vigilante atento que, enquanto os outros descansam, perscruta o horizonte e procura detetar o perigo que ameaça cidade, os concidadãos, os camaradas de armas. E, ao pressentir o perigo, tem a obrigação de dar o alarme. Assim, a comunidade pode preparar-se para enfrentar o desafio que o inimigo lhe colocar. Se a sentinela não vigiar ou se não der o alarme, será responsável pela catástrofe que atingiu o seu Povo.

Conta-se que São Frei Bartolomeu dos Mártires, quando era arcebispo de Braga, no regresso da visita pastoral a uma das paróquias encontrou, na serrania, um zagal cujas ovelhas pastavam tranquilas sob forte vento e chuva, mas que estava de vigia em cima de um penedo. E, questionado pelo arcebispo por que motivo não se abrigava do vento e da chuva numa gruta rochosa que estava no perímetro da pastagem, respondeu que, se o lobo viesse e roubasse alguma das ovelhas, o pai, que era severo, ajustaria contas consigo, pois não bastava a ajuda do cão. Este não passava de um adjutor, ainda que importante.

Assim é o profeta, o guarda que Javé colocou no meio da comunidade do Povo de Deus, para perscrutar, atentamente, o horizonte da História e da vida do Povo e para dar o alarme, sempre que a comunidade corre riscos. Contudo, para ser uma sentinela eficiente, tem de ser, ao mesmo tempo, homem de Deus e um homem atento ao Mundo que o rodeia. O profeta é, antes de mais, o homem que Javé chamou ao seu serviço, pelo que vive em comunhão com Deus, e descobre, na intimidade que vai criando com Deus, a vontade de Deus e aprende a discernir o desígnio de Deus para os homens e para o Mundo. Também é o homem do seu tempo, imerso na realidade e nos desafios da sociedade em que se integra. Conhece, pois, o Mundo e é capaz de ler, em chave crítica, os problemas, os dramas e as infidelidades dos contemporâneos.

Ao contemplar os planos de Deus e a vida do Mundo, o profeta apercebe-se do desfasamento entre uma realidade e outra e de que a realidade da vida dos homens é muito diferente da realidade que Deus projetou. Perante isto, não alija a responsabilidade, dizendo que não é nada com ele, não se fecha na comodidade, não ignora as infidelidades dos homens ao desígnio de Deus, nem se demite das suas responsabilidades, não se incomodando com as opções erradas dos irmãos. Ao invés, porque recebeu mandato de Deus para alertar a comunidade para os perigos que a ameaçam, o profeta tem de dizer a todos – mesmo que os concidadãos não o compreendam ou não o queiram escutar – custe o que custar, doa a quem doer, que trilhar caminhos errados só pode conduzir à infelicidade, ao sofrimento, à morte.

O profeta/sentinela é mais um sinal vivo do amor de Javé pelo seu Povo. Deus chama-o, envia-o em missão, dá-lhe a coragem de testemunhar e apoia-o nos momentos de crise, de desilusão e de solidão. É, por conseguinte, a prova de que Deus continua, a cada dia, a oferecer ao seu Povo caminhos de salvação e de vida, demonstrando, sem margem para dúvidas, que Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.

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O Evangelho (Mt 18,15-20) evidencia a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. É dever que resulta do mandamento do amor. Porém, Jesus ensina que a via para atingir o objetivo não é a humilhação, nem a condenação de quem falhou, mas o diálogo fraterno, leal, amigo, que revela ao irmão que a nossa intervenção resulta do amor.

O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é conhecido como o “discurso eclesial”, pois contém uma catequese de Jesus sobre a experiência de caminhada em comunidade. Mateus ampliou, de forma significativa, instruções apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária e compôs, com esses materiais, um dos cinco grandes discursos que o seu Evangelho transcreve. Os destinatários desta instrução são os discípulos e, obviamente, a comunidade a que o Evangelho de Mateus se dirige. A comunidade de Mateus é uma comunidade normal, com tensões entre os diversos grupos e com problemas de convivência. Há os que se julgam superiores aos outros e que querem ocupar os primeiros lugares; os que, sendo prepotentes, escandalizam os pobres e os débeis; os que magoam e ofendem outros membros da comunidade; e os que têm dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos outros. Em resposta a este cenário, a exortação mateana insta à simplicidade e à humildade, ao acolhimento dos pequenos, dos pobres e dos excluídos, ao perdão e ao amor; e desenha um modelo de comunidade para os cristãos de todos os tempos: a comunidade de Jesus tem de ser a família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos pequenos e aos débeis, que escuta os apelos e os conselhos do Pai e que vive no amor.

O fragmento do discurso eclesial em causa refere-se, especialmente, ao modo de proceder para com o irmão que errou e que provocou conflitos na comunidade. Nesta situação os irmãos não devem condenar, nem marginalizar o infrator. Com efeito, neste cenário, as decisões radicais e fundamentalistas não são cristãs. É preciso bom senso, maturidade, equilíbrio, tolerância e, acima de tudo, amor. E Mateus propõe um caminho em várias etapas.

Em primeiro lugar, deve promover-se um encontro, em privado com o irmão infrator, falando com ele cara a cara, sobre o tema. Nada de dizer mal nas suas costas, de publicitar a falta, de criticar publicamente (ainda que nada se invente) e de, muito menos, de espalhar boatos, de caluniar, de difamar. O caminho correto é o confronto pessoal, leal, honesto, sereno, compreensivo e tolerante com o irmão. Se o encontro resulta, o problema acaba, ficando entre os dois.

No caso de o encontro a dois não resultar, Mateus propõe nova tentativa, que implica o recurso a outros irmãos (“toma contigo uma ou duas pessoas”) que, com serenidade, sensibilidade e bom senso, sejam capazes de fazer o infrator perceber o sem sentido do seu comportamento. Se esta tentativa resultou, o problema terminou, tendo ficado entre testemunhas.

Se também essa tentativa falhar, resta o recurso à comunidade. A comunidade será chamada a confrontar o infrator, a recordar-lhe as exigências do caminho cristão e a pedir-lhe uma decisão. Se o irmão aceder ao apelo eclesial, a Igreja “reganha” o irmão.

No entanto, se o infrator se obstinar no comportamento errado, a comunidade terá de reconhecer, com dor, a situação em que o irmão se colocou, tendo de aceitar que esse comportamento o pôs à margem da comunidade. Nos termos da interpretação de muita gente, a solução de marginalização dá tranquilidade, o que não é suposto, evangelicamente. Mateus esclarece que, nesse caso, o faltoso será considerado como “um pagão ou um cobrador de impostos”. Ora, os contemporâneos de Jesus olhavam, como notório desprezo, os pagãos (não têm a fé judaica, agora, a cristã), os cobradores de impostos e para os pecadores públicos, em geral, porque estavam, definitivamente, arredados da salvação. Não é este o entendimento de Jesus, que procurou publicanos (Mateus era-o), prostitutas, leprosos, coxos, surdos-mudos, cegos de nascença, doentes e pagãos, porque têm entrada no Reino de Deus, bastando que aceitem a chamada.  

Dizem alguns comentadores que isto não significa que os pagãos e os cobradores de impostos não têm lugar na comunidade de Mateus e douram a pílula, referindo que, ao usar este exemplo, o evangelista não se refere a indivíduos, mas a situações. Trata-se de imagens judaicas para falar de pessoas que estão instaladas em situações de erro, que se obstinam no mau proceder e que recusam todas as oportunidades de integrar a comunidade da salvação. Não obstante, é de vincar que as situações não entram no Céu, nem no Inferno, mas as pessoas. Por isso, não basta não condenar as pessoas infratoras, mas importa redobrar a atenção e procurar, calma e rapidamente, as oportunidades de “reapelo” à conversão. A comunidade não tem o direito de dormir descansada, enquanto houver pecadores e pagãos. Por isso, é insensata a postura de hierarcas que se refugiam, comodamente, na excomunhão, na interdição, na negação da absolvição, na admissão à comunhão eucarística e ao funeral cristão e noutras penalizações. E é antievangélica a exclusão e qualquer outra prática de ostracismo que tantos leigos praticam, em relação aos demais, não admitindo alguns nas agremiações cristãs. Há muito Evangelho a percorrer!

Mateus não sugere que a Igreja exclua da comunhão qualquer irmão que errou. Na realidade, a Igreja é realidade divina e humana, onde coexistem a santidade e o pecado. E Mateus sugere que a Igreja tem de tomar posição, quando algum dos seus membros, consciente e obstinadamente, recusa a proposta do Reino e realiza atos que estão contra as propostas de Cristo.

Depois da instrução sobre a correção fraterna, mais bem expresso, promoção fraterna, o evangelista transcreve três “ditos” de Jesus que seriam, originalmente, independentes da temática precedente, mas que Mateus encaixou neste contexto.

O primeiro refere-se ao poder, conferido à comunidade, de “ligar” e “desligar”. Entre os judeus, a expressão designava o poder de interpretar a Lei com autoridade, de declarar o que era ou não permitido e de excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus; aqui, significa que a comunidade (em Mt 16,19 – Jesus disse o mesmo a Pedro, que representava a totalidade da comunidade dos discípulos) tem o poder de interpretar as palavras de Jesus, de acolher os que aceitam as suas propostas e de excluir os que não estão dispostos a seguir o caminho que Jesus propôs. Alguns parecem ter gosto em fechar, vedar e excluir. Todavia, qualquer tipo de atitude exclusiva tem de assumir a marca da transitoriedade.

Não esqueço que o juiz de Barrelas condenou, humanamente, um arguido, à pena de morte, mas concedeu-lhe 100 anos de espera, a fim de que se arrependesse dos seus pecados.

O segundo dito sugere que as decisões graves para a vida da comunidade devem ser tomadas em clima de oração. Assegura aos discípulos, reunidos em oração em nome de Jesus, que o Pai os escutará. Às vezes, a Igreja funciona mais como clube jurídico ou como alfandega da fé, do que em espaço de oração ou em espaço de escuta do Espírito Santo.

O terceiro dito garante aos discípulos a presença de Jesus “no meio” da comunidade. Neste contexto, sugere-se que as tentativas de correção, de reconciliação e de promoção entre irmãos, no seio da comunidade, terão o apoio e a assistência de Jesus. Encantados – e bem – com a presença real de Jesus na Eucaristia, esquecemos a presença também real de Cristo na assembleia dos irmãos, mesmo que seja apenas para rezarem.

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Na segunda leitura (Rm 13,8-10), Paulo convida os cristãos de Roma (e de todos os lugares e tempos) a porem no centro da existência cristã o mandamento do amor. É uma dívida que temos para com todos os nossos irmãos, e que nunca estará completamente saldada.

O apóstolo mostra como devem viver os que Deus chama à salvação. Deus oferece a todos a salvação, cabendo acolher o dom de Deus. Porém, a adesão a Jesus, portador do dom, implica assumir, na prática diária, atitudes coerentes com a vida nova que o cristão acolheu no batismo.

No ano 49, o imperador Cláudio publicou o édito de expulsão de Roma dos judeus (e dos cristãos de origem judaica). Ora, em 57/58 (tempo da escrita da Carta aos Romanos), muitos judeus tinham voltado a Roma. Possivelmente, os cristãos de origem pagã, donos da comunidade ostentavam superioridade e desprezo pelos cristãos de origem judaica entretanto regressados a Roma, concitando divisão e falta de amor na comunidade de Roma. Nessas circunstâncias, Paulo teria escrito a carta de reconciliação, para unir a comunidade dividida.

Paulo exorta os crentes a construírem a sua vida sobre o amor. Cristianismo sem amor é mentira. Os cristãos não podem deixar de amar os irmãos. Contudo, é exigência que nunca estará completamente realizada. Uma dívida pode ser liquidada de uma vez, mas o amor não. É preciso amar e amar sempre mais. O cristão não pode dizer que já ama o suficiente ou que já amou tudo.

O amor está no centro de toda a experiência religiosa. O mandamento do amor resume toda a Lei e todos os preceitos, que não passam de especificações da exigência do amor. A ideia de que toda a Lei se resume no amor não é invenção de Paulo, mas a constante na tradição bíblica.

Mais: Paulo menciona como cumprimento da Lei o amor ao próximo, porque sabe que não há amor ao próximo (que lhe faltava até à estrada de Damasco), sem o amor a Deus.

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É bom ouvir a voz de Deus e promover a unidade e a reconciliação:

“Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, / não fecheis os vossos corações.”

“Vinde, exultemos de alegria no Senhor, / aclamemos a Deus, nosso Salvador. / Vamos à sua presença e dêmos graças, /ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

“Vinde, prostremo-nos em terra, / adoremos o Senhor que nos criou. / Pois Ele é o nosso Deus /
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

“Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: ‘Não endureçais os vossos corações, / como em Meriba, no dia de Massa no deserto, / onde vossos pais Me tentaram e provocaram, / apesar de terem visto as minhas obras’.”

“Aleluia. Aleluia. Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo / e confiou-nos a palavra da reconciliação.”

2026.09.06 – Louro de Carvalho


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