quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Europa unida perante aumento de ataques de guerra híbrida

 

Ursula von der Leyen e Mark Rutte, responsáveis da União Europeia (UE) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), respetivamente, tiveram conversações, em Bruxelas, a 2 de setembro, em resposta a uma série de incidentes de guerra híbrida ocorridos na Europa, no verão, incluindo a tentativa de ataque, a 4 de agosto, com drones, no aeroporto de Leipzig, que o governo alemão atribuiu, formalmente, à Rússia e disse que tomou medidas firmes, deixando mensagem clara: “Os ataques híbridos não ficarão sem uma resposta clara.”

A Alemanha ordenou o encerramento do consulado russo, em Bona, e garantiu que a Casa da Rússia, em Berlim, também será encerrada.

Na verdade, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou, a 1 de setembro, que iria aproveitar a reunião, no dia 2, com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, para discutir o incidente alemão, devendo os ministros dos Negócios Estrangeiros preparar sanções adicionais em próxima reunião. “Manteremos a UE unida, apesar destes atos graves e cada vez mais intensos”, afirmou, em declaração publicada na plataforma de redes sociais X.

A reunião bilateral de última hora foi confirmada por Paula Pinho, porta-voz principal da Comissão Europeia, que afirmou que o encontro se inscreveria também no contexto do reforço da cooperação em matéria de defesa entre a Europa e a NATO. E um responsável da NATO disse que a reunião se centraria, principalmente, na forma de aprofundar a coordenação contra as ameaças híbridas.

A esta preocupação juntam-se o Reino Unido, a Suíça e o Canadá, o que levou os respetivos líderes a garantirem que a Europa e o Canadá não cederão ao aumento de ataques híbridos da Rússia. Tal demonstração de unidade ocorreu na cimeira de ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, em Wicklow, na Irlanda, também a 2 de setembro, com a presença de responsáveis daqueles três países e da Ucrânia, tendo-se mostrado os chefes da diplomacia do bloco europeu unidos e preparados para responder, com firmeza, ao aumento de ataques de guerra híbrida da Rússia, no continente, e os estados-membros da UE alinhados com a Alemanha.

O incidente no aeroporto de Leipzig, a 4 de agosto, levou as autoridades alemãs a intercetarem um drone que trazia explosivos de grau militar. Berlim foi inequívoca, ao atribuir a incursão ao Kremlin. “Os meios utilizados – como a configuração do drone, os componentes, os explosivos e os sistemas de detonação – são-nos familiares de outras operações híbridas da Rússia”, afirmou, a 1 de setembro, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, descrevendo o ataque como parte de uma longa série de tentativas de desestabilização, de desinformação, de ameaças, de sabotagem e de agressão dirigidas contra a Europa”.

Nas declarações em que condenou as atividades da Rússia, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Ed Miliband, recordou a experiência do seu país com ataques russos, nos últimos anos, como a tentativa de assassínio, com recurso a agentes químicos, do antigo agente do KGB russo Sergei Skripal, em Salisbury. “Estamos em plena solidariedade com a Alemanha e com a Ucrânia”, afirmou Miliband aos jornalistas, clarificando: “Sabemos, pela experiência de ataques russos, no nosso território, que estas tentativas de nos dividir não terão êxito; ainda assim, são um sinal perigoso de que a Rússia procura criar divisões e provocar um efeito intimidatório nos países europeus, relativamente à sua invasão da Ucrânia.”

Já o ministro lituano dos Negócios Estrangeiros, Kestutis Budrys, afirmou que a Rússia parece estar a intensificar o número de ataques híbridos que lança. “Vemos que estão a alargar e a quadruplicar os ataques contra nós, no último ano. […] O nosso objetivo é mostrar que estas atividades não nos vão intimidar, nem travar o nosso apoio à Ucrânia”, explicou.

Na agenda da reunião informal, conhecida como “Gymnich”, havia propostas para que a Comissão Europeia discutisse os ativos soberanos russos imobilizados para financiar a Ucrânia, ideia defendida pela Suécia, pela Espanha, pela Polónia e pelos Países Baixos. E a ministra finlandesa dos Negócios Estrangeiros, Elina Valtonen, disse que “a Europa precisa de apoiar a Ucrânia, antes do inverno”. “Esta é uma boa oportunidade para falar dos ativos congelados. […] Precisamos de explorar todas as opções em cima da mesa”, declarou, antes da cimeira.

Também na Irlanda, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, afirmou que Portugal convocaria, a 2 de setembro, o embaixador russo, após os ataques híbridos, no aeroporto de Leipzig, atribuídos a Moscovo pela Alemanha. “Iremos convocar o embaixador russo para dar explicações sobre este incidente. Fá-lo-emos, ainda durante a manhã [de 2 de setembro]. Portanto, é natural que, depois, nos próximos dias, ele venha ao Ministério dos Negócios Estrangeiros”, afirmou, salientando que, “evidentemente, algumas medidas serão tomadas”, nomeadamente, “de segurança, de segurança cibernética, do espaço aéreo”.

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Na sequência da atribuição formal pela Alemanha da responsabilidade pelo incidente com o drone de 4 de agosto à Rússia, Mark Rutte publicou uma declaração, no X, afirmando que a NATO se mantém em total solidariedade com Berlim e que são claras as provas de que a Rússia é a responsável. “A NATO continuará a reforçar a nossa capacidade de dissuadir e de defender todos os Aliados contra qualquer ameaça – incluindo ações maliciosas, como as observadas em Leipzig e noutros locais da Aliança”, enfatizou.

Também Ursula von der Leyen comentou o caso de Leipzig, depois de o ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, ter declarado que os “meios utilizados [pela Rússia] para levar a cabo o ato” de um incidente de sabotagem com um drone ocorrido, em agosto, são “conhecidos por terem sido utilizados noutras operações híbridas conduzidas pela Rússia e na sua guerra contra a Ucrânia”. “O governo alemão conclui, portanto, que a Rússia é responsável pelo ataque híbrido em Leipzig, a 4 de agosto”, afirmou, perentoriamente.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo condenou, em comunicado, no final de agosto, a Europa por atribuir a culpa a Moscovo, salientando que as acusações foram feitas antes de a investigação ter sido concluída. E a embaixada russa em Berlim emitiu um comunicado a negar as alegações da Alemanha e a ameaçar com “consequências” pelas novas sanções. Porém, Kaja Kallas, responsável pela política externa da UE, afirmou que a Rússia está a atingir a Europa com crescente número de incidentes híbridos cinéticos, com o objetivo de “nos assustar”, para deixarmos de apoiar a Ucrânia. “Não vão conseguir”, afirmou, na sequência de reunião dos ministros da Defesa, também realizada em Wicklow, para discutir a criação de uma missão da UE no Líbano, salientando que os riscos decorrentes destes incidentes estão a aumentar e que “é evidente que não estamos a fazer o suficiente para impedir isto”.

O certo é que, a 4 de agosto, foi encontrado um drone na zona de segurança do Aeroporto de Leipzig/Halle, perto de um avião de carga ucraniano utilizado para transportar material militar. Mais tarde, um segundo veículo aéreo não tripulado colidiu com uma aeronave, impedindo-a de aterrar, pelo que o chanceler alemão, Friedrich Merz, já tinha prometido resposta aos incidentes, com ações coordenadas entre a UE e os aliados da NATO.

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Irlanda, Helen McEntee, na conferência de imprensa, ao lado de Kallas, afirmou que o “apoio à Ucrânia e a pressão sobre a Rússia” continuam a ser fundamentais para a presidência semestral da Irlanda no Conselho da UE. “Estamos agora a começar a ver as ameaças a concretizarem-se, ainda nas últimas 24 horas, em que os nossos colegas da Roménia, da Letónia e da Estónia, e, claro, da Alemanha, falaram de incursões no seu próprio espaço aéreo, mas também no seu próprio território”, observou.

Tanto a Roménia como a Estónia relataram incursões de drones ocorridas a 1 de setembro. Vários engenhos explosivos improvisados foram encontrados perto de uma central elétrica a carvão na Alemanha, também nesse dia. Ao dirigir-se para as negociações, o ministro da Defesa da Estónia, Hanno Pevkur, afirmou que a Europa deve preparar-se para mais incidentes de guerra híbrida, por parte da Rússia. “Eles estão sempre a testar este limiar, onde está esta linha vermelha”, afirmou, vincando que a Europa deve manter a cabeça “muito fria”.

Por outro lado, o presidente francês, Emmanuel Macron e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni manifestaram a sua solidariedade para com a Alemanha, na sequência do incidente em Leipzig. “AFrança está em total solidariedade com a Alemanha e apoia a adoção de novas sanções europeias contra a Rússia”, afirmou Macron, segundo um comunicado online.

Meloni assumiu tal asserção e acrescentou: “As tentativas de nos intimidar ou de criar divisões entre os aliados não terão sucesso: as ações híbridas contra qualquer um de nós são motivo de preocupação para todos nós e serão recebidas com uma resposta unida.”

O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, considerou que a Rússia está a agravar as tensões em toda a Europa, mas que o continente não se deixaria intimidar. “A Rússia não vai ganhar esta guerra”, afirmou.

O primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, afirmou que a Rússia pretende intimidar a Europa e amedrontar os aliados da Ucrânia. “Isso não vai dar certo”, disse ele, acrescentando que iria presidir a uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, na manhã do dia 2.

“As medidas firmes tomadas pelo governo alemão demonstram que qualquer ação híbrida contra qualquer um de nós será recebida com uma resposta clara. […] Quem nos atacar pagará um preço”, declarou o presidente lituano, Gitanas Nausėda, em separado.

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O conceito de “guerra híbrida”, evocado pelo governo alemão para lidar com incidentes como drones, ciberataques e terrorismo, abrange uma série de ameaças que têm em comum o anonimato. Um drone com explosivos surge num aeroporto da Alemanha. Não se sabe de onde vem, mas não é coincidência barata o facto de ficar ao lado de um avião Antonov ucraniano. Ciberataques em hospitais, apagões em instalações de governo, difusão de fake news para influenciar eleições, incêndios criminosos, drones e terrorismo, tudo isso, para as forças de segurança e de inteligência, são eventos misteriosos com o objetivo desestabilizar o ambiente político e causar pânico social. E o Ministério do Interior alemão entende que aumentaram os sinais de guerra híbrida, desde a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Com sustenta Fábio Corrêa no DW Brasil, as origens do conceito remontam ao general James Norman Mattis, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos da América (EUA), no primeiro mandato de Donald Trump, tendo utilizado tal expressão, pela primeira vez, em 2005, enquanto comandante no Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, para sintetizar a estratégia de segurança dos EUA desse ano, que citava uma gama de capacidades e de métodos “tradicionais, irregulares, catastróficos e disruptivos” como ameaça aos interesses de Washington. E, em 2007, Frank Hoffman, coronel da Marinha dos EUA, incorporou a “guerra híbrida” numa série de artigos e de livros académicos. Para ele, os ataques híbridos são, normalmente, coordenados, operacional e taticamente, por atores ligados ou não a um estado ou nação, e executados no espaço de batalha principal, para alcançar “efeitos sinérgicos nas dimensões física e psicológica do conflito”.

A Estratégia Nacional de Segurança da Alemanha, de 2023, cita estados impelidos por rivalidades sistémicas e por revisionismo contrários aos direitos humanos, julgando a participação democrática uma ameaça ao seu poder, pelo que recorrem a estratégias híbridas como ofensivas multifacetadas. Marcados pela conceção de rivalidade sistémica, alguns estados tentam minar a ordem e impor visões revisionistas nas suas áreas de influência.

A guerra híbrida é caraterizada por “táticas de dissimulação”, cujos atores agem anonimamente ou negam envolvimento em incidentes. Para tanto, agem de forma criativa e coordenada, sem ultrapassar o limiar que levaria a uma guerra oficial.

Entre as “ameaças híbridas”, conta-se o crime organizado, as atividades subversivas, o terrorismo jihadista, a pirataria e a criminalidade cibernética nos setores militar, económico e social. E a NATO, já em 2015, classificava este tipo de ofensiva como a maior ameaça atual no cenário de conflito internacional. No entanto, a variedade de frentes e o anonimato utilizados pelos atores da guerra híbrida aumenta, exponencialmente, a dificuldade em as autoridades se defenderem desses ataques. A imprevisibilidade é uma arma para levantar a dúvida se ainda estamos em paz ou já estamos em guerra.

O trânsito massivo recente de migrantes para a Lituânia foi considerado um indício de uma tentativa de desestabilização política na UE fomentada pela Bielorrússia, aliada da Rússia (túneis, construídos ou tolerados por Minsk, atestariam a suspeita). O Kremlin acusou a Europa e os EUA de guerra híbrida, por meio das sanções impostas à Rússia, desde a sua invasão da Ucrânia. E são guerra híbrida as ações de guerrilhas e de grupos de milícia armada, como o Hezbollah, no Líbano, ou as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e algumas estratégias de guerrilha utilizadas pelos EUA no Vietname, bem como o seu apoio político e logístico às ditaduras latino-americanas no século XX.

As ameaças híbridas são, pois, adversários misteriosos, capazes de conduzir todos os tipos de guerra em simultâneo. Um estratego terá dificuldade em elaborar uma estratégia de guerra moderna, se prescindir do conceito de guerra híbrida.

Para o governo alemão, a solução é a segurança integrada, interna e externa. Por isso, investe em centros de monitorização de drones, no combate aos ciberataques e na reforma dos serviços de inteligência, dando-lhes poder de executar ações e de intervir em ameaças.

Uma das principais iniciativas, inaugurada em junho, é o Centro Conjunto de Defesa contra Ameaças Híbridas (GAZ), no serviço de inteligência doméstico, o Verfassungsschutz. É lá que os diversos órgãos de segurança podem reunir-se, em caso de ameaças do tipo para “reagir com rapidez”. Contudo, não ficou poupado a críticas. Por exemplo, o procurador-geral federal, Jens Rommel, advertiu que o país já possui, além do GAZ, o Centro Nacional de Defesa Cibernética (NCAZ), o Centro Conjunto de Defesa contra Drones (GDAZ) e o Centro Conjunto de Combate ao Extremismo e ao Terrorismo (GETZ). Ora, na sua ótica, a existência de muitos centros diferentes pode ser contraproducente, por tender a gerar perda de eficiência, devido à falta de coordenação. Porém, o ministro do Interior, discordando, garante que o GAZ, para lidar com a guerra híbrida, vai “aperfeiçoar um conceito que já deu provas”.

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Para terminar, é de referir que a Rússia tem Portugal como “um dos países mais hostis na Europa” e não há dúvida sobre forma como encara as relações com o Estado português. A asserção é Aleksei Chekmarev, adido de imprensa da Embaixada da Rússia em Lisboa, numa entrevista exclusiva à CNN Portugal, transmitida a 30 de agosto, ao ser questionado sobre se Portugal é considerado um país inimigo pelos russos. “Agora a Rússia considera Portugal como um dos países mais hostis na Europa, sobre isto não deve haver qualquer dúvida”, respondeu, frisando que Lisboa “segue as políticas antirrussas” da UE e da NATO.

2026.09.02 – Louro de Carvalho


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