quinta-feira, 3 de setembro de 2026

El Niño atingirá o pico no fim de dezembro, mas será intenso até fevereiro

 

A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência climática da Organização das Nações Unidas (ONU), a 3 de setembro, advertiu que El Niño deverá tornar-se “muito forte”, nos próximos meses, devendo atingir o pico perto do final deste ano, mas, como o calor acumulado nos oceanos passa mais lentamente para a atmosfera, elevará as temperaturas globais, em 2027, pelo menos, até fevereiro.

“El Niño está firmemente instalado e irá intensificar‑se até se tornar um evento muito forte nos próximos meses, com grandes impactos nos padrões de precipitação e de temperatura e riscos associados de cheias, seca e calor extremo”, indicou a OMM.

El Niño, que aquece as temperaturas da superfície no Pacífico equatorial central e oriental, provocando alterações globais nos padrões de vento, de pressão atmosférica e de precipitação, ocorre, em média, a cada dois a sete anos e costuma durar entre nove e 12 meses. Tende a atingir o auge no final do ano, mas o calor acumulado nos oceanos é libertado mais lentamente para a atmosfera, fazendo subir as temperaturas globais no ano seguinte. As condições oscilam entre El Niño e La Niña (fenómeno climático natural caraterizado pelo arrefecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico central e oriental), intercaladas por fases neutras.

El Niño é, pois, um fenómeno climático natural e não é provocado pelas alterações climáticas. Não obstante, os cientistas esperam que agrave o aquecimento de um planeta já mais quente, devido à queima de combustíveis de origem fóssil, intensificando, ao mesmo tempo, os fenómenos meteorológicos extremos.

Por seu turno, o secretário‑geral da ONU, António Guterres, sustenta que o fenómeno está a ser levado a escala gigantesca ante os nossos olhos. “A ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta entrou em águas desconhecidas e essas águas estão a aquecer. As temperaturas da superfície do mar estão a subir, as temperaturas continuam a aumentar e o Mundo encontra‑se na zona de perigo do clima extremo”, discorreu, frisando que a corrida é entre o aumento do risco e o compromisso de agir pelo clima e pelas pessoas, tendo nós de vencer a corrida.

A diretora da OMM, Celeste Saulo, lembrando que o ano mais quente de que há registo é 2024, na sequência do último episódio de El Niño, alerta que “este El Niño excecional tem potencial para desferir um golpe massivo nas comunidades e nas economias, em todo o Mundo”, de tal modo que “estamos a assistir a perturbações e [a] destruição causadas por secas e [por] cheias e esperamos que estes impactos aumentem, à medida que o El Niño se intensifica”. Por isso, deixa aviso às autoridades de gestão de catástrofes e aos setores sensíveis ao clima, como a agricultura, a saúde, a energia e a água, vincando que “não há tempo a perder” na preparação. Com efeito, segundo a OMM, “impulsionado por condições oceânicas excecionalmente quentes, em todo o Pacífico tropical, El Niño deverá fortalecer‑se, ainda mais, nos próximos meses até uma intensidade muito forte”.

A agência da ONU em referência classifica os episódios de El Niño como fracos, moderados, fortes ou muito fortes, o que significa que o atual deverá atingir o nível mais elevado dos quatro níveis, havendo mesmo “probabilidade excecionalmente elevada, de quase 100%”, de El Niño continuar até fevereiro.

El Niño pode alterar padrões de tempo e de clima a milhares de quilómetros de distância do Pacífico tropical. Cada episódio é diferente, mas os grandes eventos tendem a seguir padrões conhecidos. Entre eles, contam‑se secas, em partes da Amazónia, da Indonésia e da Austrália, monções perturbadas, na Índia, e alterações da pluviosidade, em várias regiões tropicais. E, para o período de setembro a novembro, as previsões sugerem maior probabilidade de temperaturas acima do normal, em quase todas as áreas terrestres, acompanhadas de padrões de precipitação que revelam “resposta atmosférica marcada e clássica ao forte El Niño no Pacífico”.

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Um novo estudo publicado, a 27 de agosto, na revista “Science” – que recua cerca de 900 anos, na análise dos episódios de El Niño –, indica que este fenómeno natural de caos climático que surge, periodicamente, faz disparar as temperaturas globais e torna-se mais intenso, devido às alterações climáticas provocadas pelo homem, sendo os episódios de El Niño, hoje, mais de 36% mais fortes do que antes do início da era industrial, em meados do século XIX, com o salto de 16%, só nos últimos 40 anos, o que mostra que o aumento acelera.

As conclusões surgem numa altura em que forte episódio de El Niño, formado há alguns meses, deverá tornar-se o mais intenso de que há registo, nos próximos meses. Os fenómenos de El Niño, isto é, aquecimentos temporários de partes do Pacífico equatorial, alteram o estado do tempo, em todo o Mundo, e aumentam os eventos extremos, incluindo ondas de calor, cheias, em algumas regiões, e secas, noutras. Podem causar prejuízos de biliões de dólares.

“Isso é importante, porque episódios fortes de El Niño têm impactos muito mais marcados em riscos climáticos e extremos, em todo o Mundo”, afirma Julia Cole, autora principal do estudo, especialista em Paleoclima, na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos da América (EUA), explicando: “Quando tentámos responder à questão de porque é que isto pode estar a acontecer, cruzámos os dados com o registo da temperatura global e verificámos que o aumento da intensidade dos episódios de El Niño acompanha, de perto, a subida da temperatura global, causada por fatores humanos, como a queima de combustíveis fósseis.”

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“El Niño é o aspeto mais violento da variabilidade climática, a nível mundial, com efeitos que vão desde o colapso de pescarias locais a mortandades generalizadas de coral, a secas severas e a falta de alimentos, em todo o Mundo”, afirma Boris Worm, especialista em ciências marinhas, da Universidade de Dalhousie, que não participou no estudo.

Worm cita o cientista do clima Wallace Broecker, que alertou: “O sistema climático é uma besta furiosa e estamos a espetar-lhe paus. […] As emissões humanas são o pau e El Niño é um dos surtos ‘furiosos’ que podem ser tão ameaçadores para a nossa segurança coletiva.”

A força de um episódio de El Niño é determinada medindo a temperatura da água, numa região do Pacífico central, em torno do equador, e comparando uma média de três meses com o normal. Se estiver graus Celsius (0,5º C) acima do valor habitual, considera-se um episódio de El Niño. O topo da escala é 2º C e é classificado como “muito forte”. E o valor semanal mais recente de El Niño é de 2,7º e continuará a subir, durante mais dois a quatro meses, segundo o sistema de monitorização de El Niño da Universidade de Columbia.

Os cientistas teorizam que, à medida que o planeta aquece, os episódios de El Niño se tornam mais fortes, porque se baseiam em diferenças de temperatura do oceano, face à média. Porém, como os registos observacionais só recuam cerca de 75 anos, os cientistas têm afirmado que os dados são demasiado escassos para se definir uma tendência. Assim, os investigadores têm procurado pistas que indiquem a presença de um episódio de El Niño, sem medirem, diretamente, a temperatura da água. Por exemplo, analisaram registos históricos de alterações do estado do tempo, em todo o Mundo, e identificaram episódios passados de El Niño – como o superepisódio de 1877 – através das mudanças que provocam, à escala global.

Cole fez uma abordagem inovadora, analisando o que sucedeu ao coral, ao longo dos séculos, funcionando como “uma máquina do tempo para olhar para o passado”, e verificou que as medições da proporção de cálcio e de estrôncio nos esqueletos de coral e dos diferentes isótopos de oxigénio produzem duas leituras independentes da água do mar em que o coral se formou. E a medição baseada em urânio e tório indica quando se formaram tais esqueletos.

Cole analisou 29 fósseis de coral das ilhas Gálapos – 14 anteriores à era industrial, 14 posteriores ao início da era moderna e mais um datado da fase em que a era industrial estava a começar. O mais antigo remonta, aproximadamente, ao ano 1100. E as temperaturas que obteve, a partir dos fósseis, ao longo de mais de 900 anos, são irregulares, com falhas, mas, quando representadas em gráfico, parecem-se com um taco de hóquei – a mesma descrição usada num estudo marcante dos anos 1990, sobre as temperaturas globais do passado.

Cole e outros cientistas afirmam que a situação só deverá piorar. “Levanta o espectro de um futuro em que episódios maiores de El Niño e de La Niña aceleram o ritmo e a gravidade dos extremos meteorológicos e climáticos”, afirma Kim Cobb, especialista em coral e clima na Universidade Brown, que não participou no estudo.

Especialistas externos dividem-se, quanto à investigação: uns consideram-na importante e fiável; outros não a aceitam, por entrar em choque com algumas observações recentes.

Para Cobb, “os corais são o padrão de ouro da reconstrução de episódios de El Niño” e “este estudo traz uma mina de ouro de novos dados”. Assim, na sua perspetiva, podemos esperar muitas décadas, até que o registo instrumental seja suficientemente longo, para detetar “mudança nas propriedades do El Niño”, ou “usar séculos de reconstruções de El Niño fornecidas pelos registos paleoclimáticos”. Ora, os dados paleoclimáticos disponíveis, apontam, consistentemente, no conjunto, para a intensificação dos episódios de El Niño com o aquecimento global.

Ao invés, o cientista do clima Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia – autor do gráfico em “taco de hóquei” das temperaturas –, e o especialista em ciências marinhas John Bruno, da Universidade da Carolina do Norte, dizem que os dados de coral conflituam com observações recentes da temperatura da água nas Galápagos. Mann diz que os registos mostram “diminuição substancial, nas últimas décadas”, das variações associadas ao El Niño perto das Galápagos, no período em que os gases com efeito de estufa (GEE) mais fizeram subir as temperaturas. E Bruno considera que aquilo que está a ser refletido pelo coral não é tanto uma alteração do El Niño, mas o aquecimento causado pelos GEE.

Porém, segundo Cole, o enorme episódio de El Niño de 1997-1998, seguido de pequenos episódios até 2023-24, criou uma situação em que parece que El Niños não ganham força, porque as medições se baseiam em períodos de 20 anos e houve vários anos, entre superepisódios de El Niño, que distorceram os dados. Ora, a intensidade do El Niño varia muito e essa natureza irregular não desaparece só por o fenómeno responder a condições mais quentes.

Contudo, todos os cientistas concordam que as alterações climáticas são um problema, agravem-se ou não os episódios de El Niño. “É importante sublinhar isto como mais um motivo para deixarmos de depender de combustíveis fósseis”, afirma Cole, vincando que “não há uma solução milagrosa que vá abrandar os episódios de El Niño”.

O índice que mede as anomalias de temperatura da superfície do mar, no Pacífico equatorial centro‑oriental, intensificou‑se, a partir de uma média de 1,5º C acima do normal, entre maio e julho. Entre o final de julho e meados de agosto, os valores semanais variaram entre cerca de 2,2º C e 2,6º C acima da média, sinal de que o El Niño continua a intensificar‑se. E, em algumas zonas, as temperaturas subsuperficiais do oceano estiveram mais de 8º C acima da média, durante julho e o início de agosto.

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De acordo com os dados sobre alterações climáticas da União Europeia (UE), com El Niño em reforço, os oceanos do planeta atingiram a temperatura média diária mais alta de que há registo, com a temperatura global da superfície do mar a chegar aos 21,1 °C, em 22 de agosto – um novo máximo tanto mais significativo por ocorrer nesta altura do ano.

O valor, registado pelo Serviço de Alterações Climáticas Copernicus da UE, ultrapassou, por margem mínima o anterior recorde diário de 21,09 °C, de março de 2024.

Segundo o Copernicus, as temperaturas do oceano costumam atingir o pico global, em março e em abril, após o verão no Hemisfério Sul. O facto de este novo recorde ter sido alcançado em agosto, quando as temperaturas deveriam estar a descer, mostra o calor persistente que se espalha pelos oceanos do Mundo. Este novo valor também supera o anterior recorde de agosto, de 20,98 °C, registado em 2023. E, embora os banhistas apreciem oceanos mais quentes, as consequências são graves e de grande alcance para as pessoas e para os animais.

Este recorde surge num contexto de desenvolvimento de forte fenómeno El Niño. no Pacífico tropical, que acrescenta mais calor a um oceano já significativamente aquecido, ao longo de décadas pelas alterações climáticas provocadas pelo ser humano. A OMM prevê que El Niño se intensifique nos próximos meses, tornando-se um evento forte. E as previsões sazonais do Copernicus sugerem que poderá atingir níveis que não se observam, há décadas.

Porém, os cientistas alertam que não se deve olhar para El Niño como a única explicação deste recorde. “Este recorde é mais um sinal claro de um oceano sob pressão crescente. […] El Niño está a acrescentar calor ao sistema, mas fá-lo sobre décadas de aquecimento provocado pelo ser humano”, afirma Samantha Burgess, responsável estratégica para o clima, no Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo.

“Das águas atlânticas ao largo da Irlanda até ao mar Mediterrâneo, os mares europeus estão a registar um aumento preocupante das temperaturas […] A nossa investigação mostra, claramente, que isto é impulsionado pelas alterações climáticas, em particular, pela continuação da queima de combustíveis fósseis”, afirmou Thomas Frolicher, físico ambiental da Universidade de Berna, na Suíça, num estudo publicado na segunda quinzena de agosto.

As consequências de oceanos mais quentes vão dos ecossistemas marinhos às comunidades costeiras. Temperaturas mais elevadas do mar aumentam a probabilidade e a intensidade de ondas de calor marinhas, que podem danificar recifes de coral e pradarias de ervas marinhas e perturbar as redes alimentares marinhas. E também as pescas e a aquacultura podem ser afetadas, à medida que as espécies marinhas se deslocam, devido às condições em mudança.

Segundo o Copernicus, o oceano global já registou forte aumento das ondas de calor marinhas, com o número de dias de onda de calor marinha a mais do que triplicar, desde o início da década de 1990. E mares mais quentes contribuem para a subida do nível do mar, porque a água se expande, ao aquecer, e podem transferir mais calor e humidade para a atmosfera, o que pode aumentar a intensidade de alguns episódios de chuva e de sistemas de tempestade.

Outra preocupação é o oceano absorver grande parte do dióxido de carbono (CO2) emitido pelas atividades humanas e a água mais quente ser menos eficiente a captar CO2, podendo o aquecimento contínuo enfraquecer um dos principais sumidouros de carbono do planeta, na luta contra as alterações climáticas.

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Os cientistas acompanham a evolução do aquecimento das águas e dos efeitos de El Niño, para perceber se este último recorde será um pico temporário ou se integrará um período mais persistente de calor extremo nos oceanos. Já os decisores políticos, apesar de toda a propaganda, parecem não atar nem desatar. Ou as suas decisões surtem pouco efeito.

2026.09.03 – Louro de Carvalho


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