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domingo, 10 de dezembro de 2017

A ajuda de Maria a desenvolver anticorpos contra os vírus do nosso tempo

“Maria Imaculada,
pela quinta vez venho aos vossos pés como Bispo de Roma,
para fazer-vos uma homenagem em nome de todos os habitantes desta cidade.
Quero agradecer-vos pelo cuidado constante
com que acompanhais o nosso caminho,
o caminho das famílias, das paróquias, das comunidades religiosas;
o caminho daqueles que todos os dias, e com muito esforço,
atravessam a cidade de Roma para trabalhar,
o caminho dos doentes, idosos e todos os pobres,
o caminho dos imigrantes aqui, provenientes de terras de guerra e fome.
Obrigado, porque assim que vos dirigimos um pensamento,
um olhar ou uma Ave Maria fugaz,
sentimos sempre a vossa presença materna, carinhosa e forte.”.
“Ó Mãe, ajudai esta cidade a desenvolver os anticorpos
contra alguns vírus dos nossos tempos:
a indiferença, que diz: “Não me interessa”;
a má educação cívica que despreza o bem comum;
o medo do diferente e do estrangeiro;
o conformismo disfarçado de transgressão;
a hipocrisia de acusar os outros, enquanto se fazem as mesmas coisas;
a resignação à degradação ambiental e ética,
a exploração de muitos homens e mulheres.
Ajudai-nos a rejeitar estes e outros vírus
com os anticorpos que vêm do Evangelho.
Fazei com que tenhamos o bom costume
de ler todos os dias uma passagem do Evangelho
e sob o vosso exemplo, proteger no coração a Palavra,
para que, como uma boa semente, dê fruto em nossa vida.”.
“Virgem Imaculada,
cento e setenta e cinco anos atrás, pouco distante daqui,
na igreja de Sant’Andrea delle Fratte,
vós tocastes o coração de Afonso de Ratisbonne, que naquele momento
de ateu e inimigo da Igreja se tornou cristão.
Vós vos mostrastes a ele como Mãe da graça e da misericórdia.
Concedei também a nós, especialmente na provação e na tentação,
manter o olhar fixo em vossas mãos abertas,
que deixam cair sobre a terra as graças do Senhor,
e nos despojar da arrogância orgulhosa
para nos reconhecermos como realmente somos:
pequenos e pobres pecadores, mas sempre vossos filhos.
E assim, pegando em vossas mãos,
nos deixar reconduzir a Jesus, nosso irmão e salvador,
e ao Pai celeste, que nunca se cansa de nos esperar
e nos perdoar quando retornamos a Ele.”.
“Obrigado, ó Mãe, por nos ouvir sempre!
Abençoai a Igreja aqui em Roma,
e abençoai também esta cidade e o mundo inteiro”.
Amen.
***
Na tarde do dia 8 de dezembro, dia da Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, o Papa Francisco, cumprindo um hábito que vem desde o tempo de Pio XII – que foi o primeiro a enviar flores à Praça de Espanha na Solenidade da Imaculada –, foi a esta Praça, localizada no centro de Roma, para rezar aos pés do monumento à Imaculada, a Ela dedicado e construído na Praça Mignanelli, próximo à Praça de Espanha, renovando o tradicional ato de homenagem à Virgem Maria. E pronunciou a oração acima transcrita (tradução da Rádio Vaticano).
Esta imagem de Nossa Senhora é obra do escultor Giuseppe Obici e está no alto da coluna projetada pelo arquiteto Luigi Poletti.
Pio XII, em 1953, foi o primeiro Pontífice, como se disse, a prestar esta homenagem, dando assim início a esta tradição que perdura desde então.
Acolhido na Praça de Espanha por volta das 16 horas  pelo Arcebispo Angelo De Donatis, Vigário Geral de Sua Santidade para a Diocese de Roma, o Papa caminhou até ao monumento onde rezou e depositou flores.
No final da cerimónia, Francisco fez uma visita privada à Basílica paroquial de “Sant’Andrea delle Fratte”, para rezar diante da efígie de Nossa Senhora do Milagre, no 175.º aniversário da aparição a Alfonso Ratisbonne.
Também diversas organizações fizeram sua homenagem a Maria Imaculada, a começar, como reza a tradição, pelos bombeiros, que com a colocação duma coroa de flores no alto do monumento às 7,30 horas, recordaram os 220 colegas que a 8 de dezembro de 1857 inauguraram o monumento.
Ao longo de todo o dia, diversas fraternidades e associações, religiosas e leigas, se revezaram para prestar a sua homenagem com procissões provenientes de diversas partes, momentos de oração e caminhadas acompanhadas por bandas de música.
Entre estes grupos, os Cavaleiros e Damas da Ordem do Santo Sepulcro, a Ordem de Malta, os Frades Menores Conventuais, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Grupos de Oração do Padre Pio, a Legião de Maria, a Cruz Vermelha, estudantes e populares. Também trabalhadores de diversas empresas romanas, guiados pelo capelão Oliviero Pellicccioni, fizeram uma caminhada que culminou com uma oração de consagração à Imaculada.
***
O tom da oração papal é de prece impetratória e de gratidão. E o texto espelha as preocupações do Pontífice pelos problemas que afligem o mundo e a atenção que ele tem ao pensamento e aos gestos da Virgem Mãe.
O Papa homenageou a Virgem em nome de todos os habitantes da cidade de Roma. E agradeceu a solicitude com que Maria acompanha o percurso de todos, em especial, o das famílias das paróquias, das comunidades religiosas, dos que diariamente e com muito esforço atravessam a cidade para o trabalho, dos doentes, dos idosos, de todos os pobres, dos imigrantes provenientes de terras de guerra e de fome, sendo a leal peregrina com todos os que peregrinam, mesmo aos tropeções. Agradeceu por todas as vezes que pensamos em Maria ou Lhe dirigimos uma simples Ave Maria e ela nos mima com a sua “presença materna, carinhosa e forte”.
E Francisco pede expressamente a ajuda da Mãe contra o que chama os vírus do nosso tempo: a indiferença do “Não me interessa”; a má educação cívica que despreza o bem comum; o medo do diferente e do estrangeiro; o conformismo; a hipocrisia de acusar os outros do que nós mesmos fazemos; a resignação à degradação ambiental e ética; a exploração de muitos homens e mulheres. Contra estes vírus o Papa pretende a ajuda de Maria para desenvolvermos os necessários anticorpos, que vêm do Evangelho, e quer que tenhamos o costume de ler todos os dias uma sua passagem e, sob o exemplo da Virgem fiel, saibamos “proteger no coração a Palavra, para que, como uma boa semente, dê fruto em nossa vida”.
Fez referência explícita à conversão de Afonso de Ratisbonne, tocado pela mão da Virgem na igreja de Sant’Andrea delle Fratte. E, reconhecendo que Ela Se mostrou a ele como Mãe da graça e da misericórdia, pediu-lhe que nos ensine e ajude, “especialmente na provação e na tentação”, a “manter o olhar fixo” nas mãos abertas de Maria, “que deixam cair sobre a terra as graças do Senhor”, e a “nos despojar da arrogância orgulhosa para nos reconhecermos como realmente somos: pequenos e pobres pecadores, mas sempre vossos filhos”.
Depois, salienta o fundamental da devoção mariana: pegando em suas mãos, deixarmo-nos “reconduzir a Jesus, nosso irmão e salvador, e ao Pai celeste, que nunca se cansa de nos esperar e nos perdoar quando retornamos a Ele”.
Finalmente, colocando plena confiança na Mãe, o Papa agradece mais uma vez porque Ela nos ouve sempre e pede que abençoe a Igreja de Roma, a cidade e o mundo.
***
Não podemos deixar de considerar esta oração como um modelo de oração mariana, preocupada com o próximo, de que está ausente qualquer forma de egoísmo e que coloca no sítio a devoção mariana, tantas vezes desfigurada.
É a prece confiante e agradecida daquele que, na recitação do Angelus, porfiava contemplar a beleza de Maria Imaculada e, imerso no Evangelho da Anunciação, pretende festejar o mistério replicando a saudação do Anjo, que se dirige à Virgem, não lhe chamando Maria, mas com uma expressão de não fácil tradução: “cumulada de graça”, “criada pela graça”, “cheia de graça”. Na verdade. Maria está repleta da presença de Deus e, porque inteiramente habitada por Deus, não morou nem mora nela o pecado – coisa admirável num mundo contaminado pelo mal.
Isto exige da nossa parte, que somos pecadores, que, olhando para este “oásis entre verde” da humanidade, nos afeiçoemos à graça, adiramos à história nova inaugurada em Maria. Reconhecendo-A cheia de graça, entendemos a razão por que é Ela sempre jovem. Com efeito não é a idade que envelhece, mas o pecado; é o pecado que esclerotiza o coração e o torna inerte. Maria é, pois, a pessoa mais jovem do género humano, a mais bela, a excelsa. E o segredo da sua beleza é a Palavra que Ela lia e escutava, guardava e servia, cumprindo totalmente a vontade do Pai. A vontade do Pai era o seu paraíso, mesmo no turbilhão das muitas tribulações. Com efeito, depois que o anjo se afastou, os problemas aumentaram, mas a Virgem não desfaleceu, não teve medo, não desistiu.
E, sobretudo, está sempre disponível para o desígnio de Deus, para amparo do povo de Deus e para rogar por nós.
É a mesma a quem Francisco homenageou na Praça de Espanha com flores e oração, agradecendo e pedindo, confiando à sua ternura de Mãe as preocupações com a Igreja e com o Mundo e sentindo na vida da Igreja e dos crentes – e até dos pecadores – o toque materno da compaixão e da graça eficaz.

2017.12.09 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Nossa Senhora dos Coletes e Nossa Senhora do Ar

A referência à invocação de Nossa Senhora com estes dois títulos, entre os muitos – que espelham os diversos rostos da Mãe de acordo com as necessidades dos seus filhos, no dizer do Papa Francisco – tem a ver com o gesto curioso de muitos peregrinos que rumam a pé a Fátima e com esta peregrinação do Pontífice argentino.
A historiazinha de Nossa Senhora dos Coletes resume-se num pequenino segmento discursivo, mas cheio de significado e revelador da idiossincrasia do peregrino português.
Com efeito, criou-se, na aldeia de Saramago, da freguesia da Caranguejeira, no concelho de Leiria, uma espécie de santuário popular onde se amontoam coletes refletores e outras dádivas. A imagem representa Nossa Senhora de Fátima e tem vulgarmente a designação de Nossa Senhora dos Coletes porque a maior parte das dádivas é constituída por coletes utilizados pelos peregrinos que vão a pé a Fátima. Porém, chegados ali, àquele sítio, entre o concelho de Pombal e o de Leiria, que marca o início da última etapa da caminhada, os milhares de peregrinos que vêm do Norte, veem ali o lugar de paragem obrigatória. E muitos, perante aquela imagem de Nossa Senhora de Fátima, como que sentindo ali já os odores do Santuário de Fátima, oferecem à Virgem o colete de peregrino tal como dantes se deixavam como ex-voto objetos de uso pessoal ou de devoção: vela, imagem de santo ou de santa, retrato de pessoa ou de animal, quadro que assinalava a cura ou a colmatação de necessidade premente…
O local, como explicou ao DN Joel Silva, que há vários anos ajuda um grupo de amigos de Valença, no alojamento e transporte de bagagens até Fátima, “é uma proximidade que lhes faz bem, numa altura em que já vêm muito cansados”. A imagem e o que a envolve impressionam: centenas de coletes amontoam-se em seu redor, juntamente com mochilas, lenços, T-shirts, fotografias e outros adereços. Uma placa em granito explica do que se trata – foi oferecida a Cabora Bassa, Moçambique, “mas devido aos acontecimentos de 25 de abril de 1974, não pôde chegar ao seu destino. Foi então oferecida para o Brasil por intermédio de uns jovens da T.F.P. que, tendo dificuldade no seu transporte, resolveram pô-la num local onde passassem os peregrinos a pé para Fátima”. Assim, Nossa Senhora dos Coletes é a imagem de Nossa Senhora de Fátima que nunca chegou a Cabora Bassa, mas ali presta o primeiro consolo ao peregrino.
A imagem terá sido ali colocada a 13 de agosto de 1990, data da peregrinação dos emigrantes a Fátima. Mais tarde, a 13 de maio de 1992, na comemoração dos 75 anos das aparições, foi colocada uma placa que explica a história da imagem.
E, quando, no final dos anos 90, foi aconselhado aos peregrinos o uso de coletes refletores, os grupos começaram a deixá-los como sinal de agradecimento. Assim, todos os anos, são deixados naquele local milhares de coletes. Luísa Ribeiro, 44 anos, vinda da Guarda, integrando um grupo de 20 pessoas (que todos os anos repete este caminho), questionada quando ali depositava o colete, explicou: “Agora também já estamos perto e é de dia, não me há de fazer falta”.
Parece que o cansaço se dissipa e os peregrinos reganham força para rumarem ao Santuário com mais alegria, maior sensação de paz interior e melhor disponibilidade para o interior.
***
Também hoje, ao verem a aterragem do Papa em Monte Real, comentavam o seu cansaço. Entretanto, o contacto com as pessoas, a estada em segurança, os cantares e a oração na capela da Base Aérea n.º 5, dedicada a Nossa Senhora do Ar e o contacto com as crianças, alguns doentes e deficientes parecem ter abolido o cansaço. Talvez também os cânticos marianos executados por crianças e por um grupo de cadetes da Academia da Força Aérea lhe tenham feito sentir por antecipação o toque da multidão fatimita e os esplendores do Santuário. Por outro lado, a Capela da Imaculada Senhora do Ar parece ter funcionado com a antecâmara do Santuário de Fátima, o da Virgem do Coração Imaculado, tal como a Senhora dos Coletes para os caminhantes.
Recorde-se a predita Capela foi edificada em 1941 sob a responsabilidade do Aeroclube de Leiria, que ocupava os terrenos que passaram depois a aeródromo militar até à inauguração da Base Aérea n.º 5. E a Capela, que servia a população da localidade de Serra do Porto de Urso, passou a servir a Força Aérea – militares e família. A capela era dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Entretanto, como ficou adstrita à Força Aérea, também a Virgem passou a ser ali invocada como Nossa Senhora do Ar, a designação da padroeira da Aviação.
O primeiro contacto de Francisco com a população portuguesa na sua visita apostólica decorreu efetivamente com militares e suas famílias, bem como funcionários da Base Aérea de Monte Real, onde aterrou, interagindo sobretudo com crianças e pessoas com deficiência.
Após o encontro com o Presidente da República, o Papa seguiu num carro elétrico aberto (ladeado pelo Ordinário Castrense, Dom Manuel Linda) até à Capela, em ritmo lento, recebendo flores, beijando crianças e bebés que algumas pessoas lhe iam apresentando, e abandonou mesmo a viatura para cumprimentar uma idosa de cadeira de rodas. Demorou-se, depois, a saudar crianças, algumas com necessidades especiais, que beijou e tocou nas faces com as suas mãos.
Uma das crianças, uma menina com um laço azul nos cabelos, tinha dois bonecos na mão, em que o papa pegou, simulando que os dois bebés de brincar davam beijos um ao outro.
Em seguida, Francisco deteve-se um pouco mais a falar a com um grupo de crianças que lhe pediram um autógrafo no livro “Querido Papa Francisco”.
O Papa deu alguns passos num tapete formado por flores preparado para a sua passagem à entrada da Capela de Nossa Senhora do Ar, onde tinham rezado Paulo VI e João Paulo II, e junto da qual cantava o Coro dos Cadetes da Academia da Força Aérea.
Logo no início deste trajeto, Francisco já tinha ouvido outro cantar entoado em português, por um grupo do Colégio de Nossa Senhora de Fátima, em Leiria, cujos versos dizem: “Francisco, tu és para nós / A aurora de um tempo novo / A força da tua voz / é a esperança do teu povo”.
***
Saramago e Monte Real fizeram-me lembrar a peregrinação dos israelitas ao Templo. No meio de perigos, fadiga e outras vicissitudes da caminhada, parecia-lhes que a Cidade do Templo nunca mais se tornava próxima. Porém, quando da última colina avistavam a Cidade e o Templo, a sensação de esquecimento e o cansaço cessavam e novo vigor e nova alegria se apoderava dos peregrinos e eles entoavam alegre e esperançosamente o seguinte salmo de peregrinação:
Alegrei-me quando me disseram:
“Vamos para a casa do Senhor”.
Detiveram-se os nossos passos,
Às tuas portas, Jerusalém.

Jerusalém, cidade bem edificada,  
Que forma tão belo conjunto!
Para lá sobem as tribos,
As tribos do Senhor,
Segundo o costume de Israel,  
Para celebrar o nome do Senhor;
Ali estão os tribunais da justiça,  
Os tribunais da casa de David.
Pedi a paz para Jerusalém:
Vivam seguros quantos te amam.
Haja paz dentro dos teus muros,
Tranquilidade em teus palácios.

Por amor de meus irmãos e amigos,
Pedirei a paz para ti.
Por amor da casa do Senhor nosso Deus,
Pedirei para ti todos os bens.
   
Sl 122/121

Ficava a Cidade assim envolvida pela ternura dos peregrinos que suspiravam pelo santuário.

***
Dias antes da chegada do Papa, o ambiente do santuário, habitualmente pacato e calmo, parecia respirar alguma tensão e agitação. Na verdade, a confluência e complexidade das circunstâncias – a celebração centenária das Aparições e a visita papal – sob o signo de eventual ameaça terrorista pesam de forma visível sobre os responsáveis políticos e religiosos. Depois, é grande, muito grande a ansiedade com que tantos querem estar presentes naquele lugar nestes dias que não é fácil congraçar a segurança com a liberdade do acesso de todos à celebração do mistério e à concretização dos desígnios da peregrinação.
Por outro lado, é de urgir o equilíbrio entre o lugar proeminente de Maria na economia da salvação e na religiosidade – iluminada pela fé cristã – dos crentes que visitam o seu Santuário e o papel primacial do Sucessor de Pedro. Nem me digam que este Papa não tem o mesmo poder de atração que o Papa polaco ou a sua devoção mariana. Será menos teatral… Mas quem não estranhou o silêncio profundo e prolongado que ele criou e manteve ante a imagem da Virgem das Aparições – silêncio por si e pela multidão? A tensão dos dias anteriores deu hoje lugar à aclamação, aos cantares, ao silêncio, à oração (Que terá dito a Senhora a Francisco naquele dialogo silencioso e vice-versa?), à ovação!  
Nem se diga que não tem a riquíssima intelectualidade de Bento XVI ou a sua profundidade teológica, aliás por quem tenho a máxima consideração. De outro modo, como é que se compreenderia que o Papa Francisco se tenha tornado, para crentes e não crentes, cristãos ou não cristãos, “um fenómeno de liderança global e uma influência moral e ética inultrapassável com efetiva capacidade de influência, como assegura Cristina Azevedo no JN de ontem, dia 11? Pena é que o aplaudam sem o seguirem.
Bem diz Anselmo Borges ao afirmar que este Papa combina o melhor do jesuitismo com o melhor do franciscanismo: organizador e líder como jesuíta e simples, próximo e apaixonado pelos outros como o Pobrezinho de Assis; apostado na quebrada da excessiva hierarquização da veneranda soberania católica, tentando ‘impor’ a “reorganização sinodal onde o pensamento das comunidades, muito mais próximo da realidade tenha um eco real”, numa “dinâmica de regresso ao espírito que nos mostram as primeiras comunidades cristãs” em alívio, alegria e esperança; portador de sinais concretos de relevo do sentido de ternura e proximidade ao abrir o caminho a um acolhimento a todos; sem medo de ruturas; a mostrar uma imagem de despojamento e simplicidade; a querer uma Igreja em saída.
No mundo impante de escuridão, a figura branca e bondosa de Francisco, similar da imagem branca da Imaculada Mãe de Deus, impõe-se muito para lá das ovelhas que ele apascenta e que Ela conforta.
Por isso, em vez da tentativa de comercialização do “ar engarrafado” de Fátima ou das garrafas de água de Fátima, é urgente que respiremos o ar livre e aromático do Santuário e cheiremos a doutrina, peregrinação, genuíno Evangelho repartido por todos, em especial pelos pobres e desprotegidos; e nos purifiquemos na fonte da água lustral e nos dessedentemos a sério.
***E que, enquanto Senhora dos Coletes, Maria receba, em vez do colete, receba o nosso coração; e, como Senhora do Ar, nos ajude a definir rotas de divulgação ágil do evangelho da justiça, da fraternidade e da paz.   

2017.05.12 – Louro de Carvalho


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Em Fátima, “Francisco, o maior coração do mundo”

Não se podem definir limites à criatividade, quer seja para assinalar o centenário de Fátima, quer seja para assinalar a peregrinação do Papa Francisco ao Santuário da Cova da Iria.
Na verdade, depois do Pórtico simbólico que marca a mística do Ano Jubilar Mariano e do terço gigante de Joana Vasconcelos, para emoldurar escultórica e luzidamente o conjunto das principais celebrações centenárias, a cidade de Fátima acaba de receber um coração gigante de homenagem ao Papa Francisco e “às pessoas boas como ele”.
Trata-se de uma escultura da autoria de Fernando Crespo, escultor residente em Coimbra, que delineou um coração gigante chamado Francisco, em vermelho e com uma cruz de cada um dos lados. De facto, a obra figurativa de cerca de 12 metros de altura e 12 de largura, intitulada “Francisco, o maior coração do mundo”, tem dois segmentos, que juntos representam um coração e é nominalmente dedicada ao Papa, que visita Fátima como peregrino, na próxima sexta-feira e sábado (12 e 13 de maio), para a celebração do Centenário das Aparições e para a canonização dos pastorinhos Jacinta Marto e Francisco Marto, dois dos videntes das Aparições do Anjo da paz e de Nossa Senhora.
Assente numa base de betão de “88 toneladas”, a escultura pretende ser “uma homenagem a um homem simples” e de uma “humanidade que é tocante”, como sublinhou o escultor durante a sessão de apresentação (no largo junto ao Posto de Turismo de Fátima), que pretendeu que a peça fosse singela e bonita e longe de ser “beata”, mas que, através de materiais inertes como o aço, pudesse “deixar um recado muito mais afetivo” a quem a observe e contemple.
A estrutura em aço conta com uma figura humana, em bronze, de cada um dos dois lados, que pode, segundo o artista, ser “um peregrino ou qualquer um de nós” e que caminha no coração em direção à “terra”. E Crespo assegurou que pretendeu representar “o lado efémero da vida”.
Os dois lados do coração representam “as várias dicotomias da vida humana”; e a predita figura humana instalada em cada um dos lados a descer até ao fundo é, na perspetiva e na tentativa do autor, uma figuração andrógina a fim de poder representar todas as pessoas.
Nas placas vermelhas figura também a cruz, “símbolo da Igreja Católica”, de onde desponta uma “ramificação que pode ser uma árvore ou veias”, simbolizando “a difusão de determinados princípios e de determinados valores”, como explicou o escultor. Tanto a figuração da árvore com a das veias remete para o campo semântico da vida.
A escolha da cruz envolta em ramos de árvore como ícone tem a ver com a simbologia deste signo e instrumento de salvação no âmbito da fé católica e com a expressão local da missão de evangelizar. Não sendo uma obra beata, a cruz empresta à escultura o traço de união das pessoas que visitam Fátima. O autor confessa que, “se fosse num país muçulmano, colocaria outro símbolo” e refere que “a arte urbana tem de dizer alguma coisa às pessoas”.
O monumento, que fica instalado atrás da Basílica da Santíssima Trindade, é uma oferta da Câmara Municipal de Ourém à cidade por ocasião da visita do Papa Francisco ao Santuário de Fátima, constituindo um dos contributos simbólicos do município para as celebrações centenárias. Todavia, questionado pela agência Lusa, Fernando Crespo afirmou que pagou “o custo da obra” e que “não houve mecenas”, apesar de ter sido referido em várias reuniões da Câmara de Ourém que a escultura tinha sido custeada a partir de mecenato. E o escultor escusou-se a revelar qual o valor total dos custos da escultura, cuja instalação em Fátima foi suportada pela Câmara de Ourém.
Pretendendo que o coração gigante se torne “em mais um dos ícones da cidade de Fátima”, o artista escultor revela que já tinha a ideia de executar uma obra com este formato, pois “o coração representa a nossa humanidade mais orgânica, a capacidade de amar que nós temos”. E Fernando Crespo queria com este desenho “unir pessoas”. Uma das primeiras ideias que teve foi a de fazer uma série de esculturas, para instalar uma em cada país da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), mas a ideia nunca avançou.
O autor aproveitou então o convite da Câmara Municipal de Ourém para concretizar de certo modo um dos seus emblemáticos sonhos e apresentou a proposta, tendo o município ficado responsável pela instalação do momento.
Apesar de não ter sido revelado o seu exato custo, estima-se que o custo da peça tenha rondado os 500 mil euros.
A diocese de Leiria-Fátima aprovou a instalação da obra e a inauguração, realizada pelas 12 horas de hoje, dia 10, contou com a presença de representantes do Santuário de Fátima e da diocese de Leiria-Fátima.
***
Também Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, disse da sua justiça para classificar o coração gigante como “uma obra monumental que fica aqui como memorial de um acontecimento de alcance histórico-mundial, que é o Centenário das Aparições”. Nesta peça artística, o prelado vê representado “o coração de uma mãe, que é o maior”, mas também o coração “grande dos filhos pequeninos, muito acolhedor, sem muros”, que depois os adultos, por vezes, constroem.
Vê outrossim na escultura “o coração do papa Francisco”, um “coração grande” de uma pessoa que procura “deitar por terra os muros” que foram levantados e que, ao mesmo tempo, incita à criação de “pontes, de abraços, de afetos e de entendimentos”.
Por seu turno, o Presidente da Câmara Municipal, Paulo Fonseca, lembrou que a peça é o resultado de uma conversa com o escultor há bastante tempo, mas que o município não tinha condições económicas para a financiar. Por isso, chegou-se a acordo e o município ficou com a tutela, suportando os custos de implementação da obra, e Fernando Crespo os direitos de autor.
***
Embora a arquitetura exterior originária do Santuário de Fátima não seja modelar e o ordenamento do território do burgo que hoje tem o estatuto de cidade seja tudo menos ordenamento, vale a pena atentar no esforço despendido ao longo dos anos para que o Santuário ganhe funcionalidade em relação ao espírito multiforme da Mensagem – mariano, cristológico e trinitário – valorizando as suas diversas componentes: penitência e oração, sacrifício e reparação, adoração e contemplação, valorização da infância e dos que apresentam fragilidades. Depois, releva o cuidado dos espaços e serviços de modo que os peregrinos se sintam acolhidos, se sintam em comunhão na multidão, tenham acesso ao lugar memorialista das aparições e se ponham em contacto com o silêncio e a inspiração de Maria. E é pertinente a organização do serviço, que tanto privilegia a Capelinha das Aparições como as celebrações nas duas basílicas – a de Nossa Senhora do Rosário e a da Santíssima Trindade – ou a simplicidade solene do Altar emoldurado pelo Recinto de Oração.
Por outro lado, deve considerar-se a existência de espaços que favorecem a cultura e a formação das pessoas e, em especial dos agentes da pastoral, complementados pela oferta acolhedora e formativa de muitos institutos religiosos ali instalados. E não podemos esquecer a multiplicidade de elementos escultóricos, tanto os de feição mais tradicional como os de feição mais arrojada que visam o embelezamento, a memória e a vivência da fé.       
Porém, o itinerário típico das grandes peregrinações é edificante, quer do lado do acompanhamento da piedade popular como do incremento à vivência litúrgica. Com efeito, recitar o terço na Capelinha das Aparições, rumar em procissão caminhando com a Mãe ao encontro de Cristo para a Celebração Eucarística ou no Altar do Recinto de Oração ou na Basílica da Santíssima Trindade e, depois, continuar com a vigília de oração e procissão eucarística ou, no dia, com a bênção dos doentes e a procissão do Adeus são componentes de um itinerário peregrino que alia a alma popular com o sentido do arejado culto público.
Razão tinha Bento XVI quando confessava a Dom António Marto que não havia nada na Igreja Católica como Fátima. De facto, quando visitei o Santuário de Lourdes, não vi a mesma coerência entre os espaços ou entre os serviços, mas admito que tenha mudado. Era edificante o silêncio junto à Gruta, tal como a caótica dispersão e o ruído excessivo na esplanada. Achei uma ternura o percurso da via-sacra dos doentes, mas as celebrações na “Prairie” não mobilizavam o grosso dos peregrinos. E os atos religiosos – litúrgicos ou da piedade popular valiam por si, mas sem a concatenação que se vêm em Fátima.
E creio que, apesar das críticas demolidoras que algumas almas já desferiram contra a obra de Joana Vasconcelos, apraz-me olhar para o terço monumental de contas brancas que se suspende à frente da Basílica da Santíssima Trindade para se mostrar aos peregrinos como ícone mariano emblemático do Centenário e iluminar as grandes celebrações centenárias. Nem toda a arte tem de corresponder aos parâmetros do convencionalismo das escolas nem estas detêm o monopólio da criatividade e da estética. Também a arte ingénua e do desperdício tem lugar junto do Santuário, desde que se faça Bíblia dos Simples.
E o Coração do Papa, se for recebido como ícone da Cidade de Deus que se torna cidade dos homens, revelará o amor do Coração da Mãe e/ou do Coração do Filho que está presente como refúgio de todos e todas que sentem o acossamento das vicissitudes da vida e pretendem neste asilo de acolhimento desfiar o rosário dos seus dramas, para que os superem, ou depositar o tesouro das suas esperanças, para que elas se robusteçam.
Talvez seja conveniente que as pessoas e os povos comecem a interessar-se, pela via da metanoia, para a concretização do triunfo do Coração Imaculado, que outra coisa não é que a realização mariana do desígnio de Cristo: “Eu venci o mundo” (Jo 16,33).

2017.05.10 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Em Petiz, poema de Cesário Verde

Para quem pensa que o leite se fabrica no pacote/garrafa ou que a vaca surge no talho:
De Tarde

Mais morta do que viva, a minha companheira
Nem força teve em si para soltar um grito;
E eu, nesse tempo, um destro e bravo rapazito,
Como um homenzarrão servi-lhe de barreira!

Em meio de arvoredo, azenhas e ruínas,
Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
E tetas a abanar, as mães, de largas ancas,
Desciam mais atrás, malhadas e turinas.

Do seio do lugar – casitas com postigos –
Vem-nos o leite. Mas batizam-mo primeiro.
Leva-o de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
Cujo pregão vos tira ao vosso sono, amigos!

Nós dávamos, os dois, um giro pelo vale:
Várzeas, povoações, pegos, silêncios vastos!
E os fartos animais, ao recolher dos pastos,
Roçavam pelo teu “costume de percale”.

Já não receias tu essa vaquita preta,
Que eu segurei, prendi, por um chavelho? Juro
Que estavas a tremer, cosida com o muro,
Ombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!
                         Cesário Verde

***
Conspecto geral
O título remete-nos para a evocação dum passeio pelo campo quando o poeta era mais pequeno, “em petiz”. E a leitura do texto poético permite dizer que o episódio gravita em torno de um “nós”, que se desdobra no sujeito poético e na sua acompanhante.
Trata-se duma composição poética que nos traz à memória a descrição do ocorrido numa tarde passada no campo onde o emissor lírico se autocarateriza como valente em contraponto ao medo contrastante da sua companheira naquele passeio em tempos idos (“nesse tempo”).
O texto compagina uma estrutura narrativa, formalmente de regularidade métrica (verso alexandrino), estrófica (cinco quadras) e rimática (rima emparelhada e interpolada; sempre grave e consoante), a evocar pormenores da vida campestre e a contar um episódio da vida infantil protagonizado por: rapariguita com medo do animal (“estavas a tremer, cosida com o muro,”); e o rapaz armado em forte a protegê-la (“eu, nesse tempo, um destro e bravo rapazito, / Como um homenzarrão servi-lhe de barreira!”).
Análise mais pormenorizada
Em vez de iniciar pela localização espácio-temporal, como é habitual no texto narrativo, o poeta-narrador começa por apresentar a personagem que com ele contracena, a pequenita de infância que lhe fazia companhia: “a minha companheira”. E a primeira impressão que nos deixa é de abatimento: “mais morta do que viva”. Ligado pelo conector aditivo “e”, vem, logo a seguir, o segmento referente ao narrador-personagem (atente-se no discurso de 1.ª pessoa: eu servi), que vem caraterizado como “um destro e bravo rapazito” e, logo, a comparação “como um homenzarrão”. É de notar, nesta caraterização das personagens, a polarização positiva revelada, num primeiro tempo, pela dupla adjetivação de valor conjetural “destro e bravo” e pelo diminutivo e, num segundo tempo, pelo aumentativo “homenzarrão” (um corpo forte e hábil em contraste com o tamanho de petiz).
O tempo é evocado de forma muito vaga “nesse tempo”, mas pressupõe-se, pela expressão “destro e bravo rapazito”, tratar-se do tempo da infância. E a ação é enunciada de forma lapidar: “servi-lhe de barreira”.
Na segunda estrofe e na terceira, inverte-se a centralização discursiva, dando-se ênfase, não aos protagonistas, mas aos elementos externos: caraterizam-se as bezerrinhas e as vacas; faz-se referência ao leite, recurso que estes animais fornecem; identificam-se elementos ambientais: arvoredo com azenhas e ruínas no meio e casitas com postigos.   
O ambiente, cuja descrição começa na segunda quadra, é bucólico, de aldeia: casas, postigos, vacas, bezerrinhas... E há movimento, sons e cor, ancas e tetas a abanar. São elementos a remeter para o realismo pictórico e dinâmico. Veja-se o contraste entre as “bezerrinhas”, no diminutivo, e o segmento morfossintático de nomes no grau normal, mas semanticamente a apontar para o aumentativo: as mães de tetas abanar e de ancas largas (vacas grandes) contrapõem-se às filhas menos corpulentas. Porém, não faltam os aspetos sociais: venda do leite misturado com água (“Vem-nos o leite. Mas batizam-no primeiro”); a moda do estrangeirismo expressa no empréstimo “costume de percale”.
Nas duas últimas estrofes, voltamos à tessitura da primeira, ou seja, o discurso volta a centrar-se no “nós”, retomando o contraste entre as duas personagens em torno das quais se desenvolve o episódio. E, em particular, na última quadra, o poeta assinala, num discurso de relação eu-tu, a mudança operada na companheira: como o tempo é outro, ganhou-se maturidade, “já não receias tu essa vaquita preta”. E não perde a ocasião de referir detalhes da ação enunciada, antes, de forma sucinta: “eu segurei, prendi, por um chavelho”. E retoma a caraterização da companheira adequada ao momento por ela vivido: “a tremer, cosida com o muro, ombros em pé, medrosa, e fina, de luneta”.
É notória a bipolaridade e a solidariedade entre as duas personagens, mas também a bipolaridade entre o presente e o passado, sendo que esta leva à estruturação da composição em dois tempos distintos: o momento em que o “eu” recorda o passeio prende-se ao presente; mas o passeio ocorreu no passado, quando o sujeito poético era “um destro e bravo rapazito” (v. 3).
Como o “eu”, a “companheira” também é amplamente caraterizada. Esta figura feminina é retratada como elegante e burguesa (“teu “costume de percale” – v. 16), magra e com óculos (“E fina, de luneta” – v 20). É um retrato identificador duma personagem urbana da época, que serve para marcar a dicotomia ou dialética entre a cidade e o campo. Enquanto o rapazito rural tem domínio sobre os elementos campesinos, agindo “como um homenzarrão” (veja-se o poder do aumentativo), a menina da cidade sente-se insegura e tímida. Também para conseguir a expressão desta lógica, Cesário lança mão de recursos expressivos. É utilizada a hipérbole e comparação “Mais morta do que viva” (v.1), no início, e a metáfora e imagem “cosida com o muro” (v. 19), para mostrar o medo da companheira – que parece ensanduichar o poema.
Em função da mostra de capacidade do elemento masculino e da sua adaptação ao ambiente rural, usa-se também a metáfora e o aumentativo, “como um homenzarrão” (v. 4), a antítese “rapazito” (v.3) e “homenzarrão” (v.4); o jogo antitético do diminutivo e do aumentativo (vd vv. 3 e 4); mostra-se um indivíduo convencido e orgulhoso: “um destro e bravo rapazito,/Como um homenzarrão servi-lhe de barreira” (vv. 3-4); e aplica-se-lhe a reiteração gradação: “segurei, prendi” (v. 18). Porém, as duas personagens irmanam-se no “nós” (enálage de pessoa), “Nós dávamos, os dois, um giro pelo vale” (v. 13) e encontram, em enumeração, “Várzeas, povoações, pegos, silêncios vastos” (v. 14). E sobretudo, encontram “os fartos animais, ao recolher dos pastos” (note-se o infinitivo substantivado ou nominalizado – v. 15), sem os quais não se daria o incidente. Veja-se o poder da sensação táctil, “Roçam pelo teu costume de percale” (v. 16).
Sensivelmente a meio do poema, há um discurso direcionado, de forma apostrófica (note-se o vocativo” amigos” com a exclamação), aos camponeses a quem o pregão do leiteiro tira o sono.
“… estavas a tremer, cosida com o muro, / Ombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!”. Nesta imagem, a “companheira”, no presente da recordação, é interpelada pelo poeta no sentido de ainda recear a “vaquita preta” (atente-se no demonstrativo “essa”, de distância em relação ao emissor e de proximidade em relação ao recetor), que foi agarrada pelos chifres pelo petiz, evidenciando a dualidade entre a destreza da personagem masculina e o medo da personagem feminina. Por outro lado, o discurso remete-nos para a distância entre o acontecimento no passado de infância de ambos e o presente.
Verifica-se, a imagem, de que se falou há pouco, em vários versos o uso de inúmeros recursos expressivos que suscitam a dúvida e o ceticismo quanto ao impacto e às consequências do incidente na figura feminina, ainda criança. Esta dúvida percebe-se na interrogação retórica “Já não receias tu essa vaquita preta, / Que eu segurei, prendi, por um chavelho?” (vv. 17-18) – com que se pretende enfatizar e gerar expectativa através da interpelação. Depois, vem a anástrofe (“já não receias tu…” – v. 17), invertendo a ordem normal das palavras para relevar o pensamento. São notórios recursos como: a expressividade do diminutivo, “vaquita” (v. 17), como em cima “rapazito” (v. 3) e bezerrinhas (v. 6); a metáfora e imagem “cosida contra o muro” (v. 19); a adjetivação “medrosa”, “fina” (v. 20); e a exclamação “Juro…luneta!” (vv. 18-20).
A técnica narrativa faz passar, no poema, da frase declarativa à frase exclamativa para, como vimos, interpelar os camponeses e para valorizar a destreza do narrador poeta (na 1.ª estrofe), sublinhar o aspeto bucólico do passeio pelo vale (4.ª estrofe) e para caraterizar a companheira em momento tão dramático como o evocado na última estrofe.
Este episódio passado ocorreu num campo aberto, um “vale”, mostrando o poema referências típicas da construção duma paisagem campesina: por perto, “arvoredo”, “fonte”, “pastos”, “azenhas e ruínas”; ao longe, “várzeas, povoações, pegos”. É ainda referida uma povoação de “casitas com postigos”, onde vivem os camponeses. Ressalta a paz vivida neste espaço rural manifesta nos “silêncios vastos”, espraiada pela extensão campestre ao contrário do ruído citadino em espaço limitado, a que as personagens em causa estão habituadas a viver e a sentir.
Em suma,
O poema desenvolve uma temática campesina, transtemporal, de atual incidência social mordaz; patenteia uma estrutura narrativa e ambulatória; mostra o lado solidário do poeta para com a figura feminina franzina; e capta com precisão um instantâneo da vida campestre que ele presenciou e em que teve uma intervenção decisiva e que dava para uma aguarela, como ele refere a propósito de outro poema. É o predileto olhar campestre de Cesário, contrastante com o citadino!
2016.12.14 – Louro de Carvalho