A
presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, visitou a Gronelândia,
nos dias 6 e 7 de setembro, numa altura em que a União Europeia (UE) sinaliza o
seu apoio contínuo àquela ilha ártica, face aos reiterados propósitos do
presidente norte-americano, Donald Trump, no sentido de os Estados Unidos da
América (EUA) a adquirirem. E, no dia 7, a chefe do executivo europeu assinou uma
declaração conjunta entre a UE e o território autónomo dinamarquês.
Regressado
à Casa Branca, em janeiro de 2025, Donald Trump tem afirmado que os EUA
precisam de assumir o controlo da Gronelândia por motivos de “segurança
nacional”, alegando que, de outro modo, a ilha seria tomada pela China ou pela
Rússia.
Em
janeiro, Ursula von der Leyen e o presidente do Conselho Europeu, António
Costa, divulgaram uma declaração conjunta a sublinhar a importância da
“integridade territorial e soberania” e afirmaram que a UE manifestava “total
solidariedade com a Dinamarca e com o povo da Gronelândia”. E, intervindo na
reunião anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, neste ano, Ursula von der
Leyen afirmou que a UE está a preparar “forte aumento do investimento europeu”
na Gronelândia, para reforço da segurança no Ártico.
A
Comissão propôs destinar 530 milhões de euros à Gronelândia no orçamento para o
período 2028-2034, o que reflete a sua “importância geoestratégica crescente no
Ártico”. E o jornal Financial Times avançou que, durante a visita, Ursula
von der Leyen iria anunciar mais 200 milhões de euros de financiamento para a
ilha.
Em
maio, Jeff Landry, enviado especial de Donald Trump à Gronelândia e governador
da Luisiana, afirmou estar na altura de os EUA “recuperarem a sua presença” no
território. Esta asserção ocorreu durante uma viagem ao território, a primeira
desde que foi nomeado para o cargo de enviado especial, em dezembro de 2025. A
partir de Nuuk, capital da Gronelândia, o diplomata declarou à Agence
France-Presse (AFP) que se iria ver o presidente dos EUA falar em “aumentar
as operações de segurança nacional e em voltar a ocupar certas bases na
Gronelândia”. “Todas as pessoas com quem falei, na Gronelândia, gostariam de
ver os EUA voltarem a ocupar essas bases”, prosseguiu, vincando que o
território “precisa dos EUA”.
Em
janeiro, os líderes de cinco partidos políticos no parlamento da Gronelândia
emitiram uma declaração conjunta com uma mensagem clara para os EUA. “Não
queremos ser americanos, não queremos ser dinamarqueses; queremos ser gronelandeses”,
lia-se.
Os
EUA terão tido 17 instalações militares e mais de 10 mil soldados na
Gronelândia, no auge da Guerra Fria. Hoje, só opera, na ilha, a Base Espacial
de Pituffik – a instalação mais a norte do Departamento de Defesa dos EUA. E, segundo
a Força Espacial dos EUA, Pituffik é usada em missões de alerta de mísseis, de
defesa antimíssil e de vigilância espacial.
Durante
a visita à Gronelândia, a presidente da Comissão Europeia defendeu a
integridade territorial da Gronelândia, ao anunciar um pacote de 200 milhões de
euros de investimentos, nos próximos dois anos, em resposta à pressão de Donald
Trump, que ameaça anexar a ilha rica em recursos minerais. O objetivo é reforçar
os laços económicos e explorar matérias-primas. “Sabemos que o Ártico se tornou
um dos lugares onde as placas tectónicas da geopolítica colidem, pelo que temos
interesse direto no que aqui acontece”, afirmou, em Nuuk.
O
pacote financeiro pretende reforçar a presença do bloco no território
semiautónomo, que, há muito está na mira do presidente dos EUA, que abalou a
aliança transatlântica, ao tentar tomar a à Dinamarca. As tensões atingiram o
auge, em janeiro, quando ameaçou impor tarifas elevadas para pressionar a
Dinamarca a ceder a ilha. A contestação fê-lo recuar. Porém, em julho, reiterou,
subitamente, a ambição de anexar a ilha – por negociação comercial ou à força–,
mostrando que o tema continua entre as suas principais preocupações.
Ursula
Von der Leyen aproveitou a deslocação a Nuuk para vincar o apoio europeu
perante aquilo a que chamou “pressão enorme”, embora sem mencionar Donald Trump.
“A União Europeia manifesta plena solidariedade com o Reino da Dinamarca e com
o povo da Gronelândia. Vamos continuar a fazê-lo. E queremos ser muito claros e
repetir, aqui, que o futuro da Gronelândia cabe ao povo da Gronelândia e da
Dinamarca decidir. A mais ninguém”, afirmou, em declarações à imprensa,
frisando que “integridade territorial, soberania, inviolabilidade das
fronteiras são princípios fundamentais do direito internacional”.
O
primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, e a primeira-ministra
da Dinamarca, Mette Frederiksen, agradeceram. E Nielsen considerou que a
Gronelândia precisa da UE e a UE precisa da Gronelândia, e que “isto é verdade”,
já que “precisamos uns dos outros”. E, dirigindo-se à presidente da Comissão
Europeia, disse: “Nos últimos dois anos, a sua voz tem sido muito clara.
Precisávamos disso e precisamos, agora. Por isso, obrigado.”
Frederiksen
afirmou que a Dinamarca está disponível para trabalhar “mais de perto” com os EUA
e com a Europa, em questões de segurança e de defesa ligadas ao Ártico, região
que as alterações climáticas tornaram cada vez mais apetecíveis para as
potências mundiais, nomeadamente, a Rússia, os EUA e a China, pela maior
facilidade de sulcar o Ártico, pelo surgimento de novas rotas comerciais e geoestratégicas,
pelos recursos endógenos da região, e pela exploração geocientífica. E Ursula
von der Leyen disse que a Gronelândia é “um parceiro credível,
um aliado estratégico e um membro precioso na nossa família europeia mais vasta”.
O
pacote de investimento de 200 milhões de euros será distribuído por três áreas
centrais: conectividade digital, incluindo cabos submarinos e infraestruturas
de satélite; energia limpa, com especial foco na hidroeletricidade; e extração
sustentável de matérias-primas críticas.
A
Gronelândia possui 25 dos 34 minerais que Bruxelas julga cruciais para o
desenvolvimento interno de sistemas de energia renovável e de tecnologia de
ponta. O setor é dominado pela China, deixando a UE à mercê dos controlos de
exportação de Pequim. Na ilha, porém, a atividade mineira continua muito aquém
do seu potencial, devido às duras condições glaciais, que afastam investidores
de projetos de elevado custo. Porém, os minerais estiveram entre os argumentos
invocados por Trump para justificar a ameaça de assumir o controlo da
Gronelândia, embora tenha dito ao New York Times que era uma questão de
propriedade e que os aliados não tinham investido o suficiente na região.
Por
isso, a Europa vem contrariando a narrativa de trumpiana, reforçando o
compromisso com a Gronelândia. Nas próximas duas semanas, soldados de 10 países
participarão no exercício Arctic Shield da Organização do Tratado do Atlântico
Norte (NATO). E a Comissão Europeia, que trabalha na atualização da sua
estratégia no Ártico, reserva 530 milhões de euros, especificamente, para a
Gronelândia, na proposta do próximo orçamento da UE.
***
Obviamente,
a visita-relâmpago de Ursula von der Leyen à capital da Gronelândia não se cinge
ao anúncio do investimento, mas teve em vista aprofundar as relações entre a UE
e o Ártico e recolher informação, enquanto a UE define uma nova política para o
Ártico.
A
primeira versão desta política, em 2021, quase não referia as crescentes
ameaças à segurança. O então chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, elegia
as alterações climáticas, as matérias-primas e a influência geoestratégica como
temas centrais. Porém, nos anos subsequentes, a Comissão Europeia reconheceu
que a política precisa de urgente revisão para responder ao novo contexto de
segurança e defesa na região, marcado por uma Rússia mais militarizada e pelos
esforços da China para ampliar a sua presença económica, à medida que o degelo
abre novas rotas marítimas no Ártico. Assim, o documento revisto terá o
objetivo de promover “paz, estabilidade e desenvolvimento sustentável na
região”, com Bruxelas empenhada em desempenhar um papel construtivo no
território, visto que o Ártico ganhou “uma atenção global significativa”,
devido ao seu ambiente único e ao papel que desempenha nas dinâmicas
internacionais.
A
atualização é necessária para garantir que a política se mantém relevante e
eficaz na resposta aos desafios e às oportunidades em evolução na região ártica.
Todavia, a publicação da nova política foi adiada e ainda não há uma data. Ora,
com o atraso a prolongar-se, os especialistas alertam para o muito que está em
causa, se o executivo da UE não acertar, sobretudo em matéria de segurança e de
defesa.
A
Rússia e a China têm estado cada vez mais ativas na região do Alto Norte, rica
em recursos. E também estão presentes, na zona, os EUA, e três estados-membros
da UE: a Finlândia, a Suécia e a Dinamarca. Neste contexto, o eurodeputado
estónio Urmas Paet, autor de vários relatórios de peso sobre a política externa
da UE, incluindo um sobre o Ártico, diz que, “se olharmos para o Ártico, é ali
que todas as potências se encontram”.
Num
relatório de 2025, o eurodeputado induziu a Comissão Europeia a atualizar a sua
estratégia para o Ártico, frisando que a militarização da Rússia e a Rota da
Seda Polar da China transformaram a região em importante foco de tensão
geopolítica. E advertiu que, se a nova estratégia não estiver à altura do
momento, a Europa ficará “cada vez mais” marginalizada, no Ártico, deixando que
outras potências ganhem vantagem.
Paet,
que tem defendido uma cooperação mais estreita da Europa com parceiros gronelandeses
no domínio das matérias-primas críticas e da energia, apelou a que o próximo
orçamento plurianual da UE reserve verbas para várias atividades económicas na
região, como a pesca, os navios quebra-gelo e o investimento em
infraestruturas.
O
aquecimento do Ártico é quase quatro vezes superior à média global, com mais de
10 mil quilómetros cúbicos de gelo marítimo perdidos na região, nos últimos 40
anos. Este aquecimento contínuo acelerou o degelo dos glaciares, tornando a
região cada vez mais atrativa para os países, ao abrir novas rotas de navegação
em zonas antes inacessíveis.
Em
2018, o presidente chinês, Xi Jinping, apresentou a iniciativa Rota da Seda
Polar, a visão oficial de Pequim para criar infraestruturas de transporte pelo
Oceano Ártico, ligando a Europa à Ásia. E, em agosto deste ano, Sergey Lavrov,
ministro dos Negócios Estrangeiros russo, celebrou, publicamente, a chegada de
um porta-contentores vindo da China à cidade de Murmansk, por uma rota ártica
que, antes, era intransitável, e aproveitou o ensejo para expor os planos da
Rússia de desenvolver outras formas de cooperação internacional na região.
Entretanto,
em fevereiro, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, afirmou que, face à
retórica anexionista do presidente dos EUA, em relação à Gronelândia e a outras
questões geopolíticas, o Ártico já não pode ser visto como um canto tranquilo
do mapa. “É a linha da frente da competição pelo poder à escala global”, disse,
à margem de uma conferência dedicada ao Ártico em Tromsø, na Noruega, alertando
que as ameaças híbridas aumentam em intensidade e frequência, na região, e
estão ligadas ao persistente reforço militar da Rússia no Alto Norte.
“Em
resposta, os aliados europeus estão a reforçar a segurança no Ártico e a UE
está pronta para fazer a sua parte”, frisou.
Mark
Rutte, secretário-geral da NATO, advertiu que, ante o crescente interesse da
China no Alto Norte e o aumento da atividade militar da Rússia, “é crucial
fazermos mais”. Por isso, a NATO lançou, em fevereiro, a iniciativa Sentinela
do Ártico, para reforçar a postura da Aliança, na área, reunindo os aliados sob
uma estratégia operacional única.
Linda
Solstrand Dahlberg, alta representante da Universidade do Ártico da Noruega,
disse que a nova política poderá incluir um plano para maior coordenação entre
a UE e a NATO, no atinente ao Ártico, o que permitirá proteger os cabos
submarinos que ligam a Noruega à Europa continental e reforçar a coordenação
contra a crescente militarização por potências externas.
E
Dahlberg sugeriu que o documento deve explorar a possibilidade de maior
cooperação na indústria de defesa, o que beneficiará os países europeus que
procuram capacidades testadas em condições meteorológicas extremas. “Temos
competências e experiência, nesta parte do Mundo, e dispomos de capacidades de
testes de esforço para climas frios”, vincou.
Maria
Martisiute, analista de defesa do European Policy Centre, afirmou que a
principal lacuna da política de 2021 é não mencionar a defesa militar, reiterou
que a agenda geopolítica da UE mudou, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, e
observou que, para lá disso, há evoluções, com a Europa a desenvolver parcerias
de segurança e de defesa com o Canadá, a Islândia, a Noruega e o Reino Unido,
as quais têm de “ficar espelhadas na nova estratégia ártica da UE”.
Em
conjunto, Martisiute e Dahlberg publicaram um estudo com dezenas de
recomendações para a futura política da UE. O mais importante que a Comissão deve
ter em conta, ao finalizar o documento, segundo ambas as especialistas, é a
consciência de que a defesa no Ártico tem impacto direto na defesa europeia. “O
Ártico não existe num vácuo. Está profundamente integrado no mais amplo
panorama de segurança”, afirmou Martisiute.
***
Por
fim, é de anotar que a UE se debate com um dilema: continuação da proibição (desde
2021) da exploração de petróleo e de gás, na Gronelândia, em nome da transição
energética versus pressão dos países interessados na exploração desses recursos.
A
26 de maio, uma coligação nórdica de instituições financeiras, sindicatos e
cientistas do clima fez, em carta aberta, contundente aviso à Comissão
Europeia, apelando aos líderes da UE, para que mantenham a proibição de novas
perfurações de petróleo e de gás no Ártico. O texto, além do objetivo
ecológico, sustenta que a evolução da situação geopolítica agravou os riscos de
segurança, no mar de Barents, com as infraestruturas de petróleo e gás a
tornarem-se potenciais alvos de guerra híbrida, devido à proximidade do
território russo e da Rota do Mar do Norte.
Porém,
os países da UE e outros estão divididos, nesta matéria. A Alemanha, a Suécia e
a Finlândia apoiaram, genericamente, a posição da Comissão. A Dinamarca achou
equilíbrio delicado, apoiando as metas ecológicas da UE, mas com capacidade
limitada de as impor à Gronelândia, que controla os seus vastos recursos
minerais. Os EUA, a Rússia e a China estão contra a proibição. E a Noruega, apesar
dos apelos da Agência Internacional de Energia (AIE), garante prosseguir a
exploração, independentemente da política da UE.
A
UE deverá tomar uma decisão de última hora sobre a proibição de novas
explorações de petróleo e gás no Ártico, durante uma reunião semanal dos 27
comissários do bloco, em outubro, de acordo com dois responsáveis da UE, que
falaram sob anonimato.
Notícias
anteriores na imprensa sugeriam que a UE considera abandonar a proibição de
novas perfurações no Ártico, na revisão da estratégia para o Ártico de 2021, porque
enfrenta uma crise energética desencadeada pelo encerramento do Estreito de
Ormuz, por onde transita cerca de um quinto do gás e do petróleo mundiais. Se tal
acontecer, a UE ficará presa a uma dependência de combustíveis fósseis muito
para lá do prazo de 2050, para a neutralidade climática, e ficará mais fragilizada
a sua aposta na eletrificação interna, na eficiência das redes e na rápida
expansão das energias renováveis.
2026.09.08
– Louro de Carvalho
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