terça-feira, 8 de setembro de 2026

UE investe 200 milhões de euros na Gronelândia e reforça cooperação

 

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, visitou a Gronelândia, nos dias 6 e 7 de setembro, numa altura em que a União Europeia (UE) sinaliza o seu apoio contínuo àquela ilha ártica, face aos reiterados propósitos do presidente norte-americano, Donald Trump, no sentido de os Estados Unidos da América (EUA) a adquirirem. E, no dia 7, a chefe do executivo europeu assinou uma declaração conjunta entre a UE e o território autónomo dinamarquês.

Regressado à Casa Branca, em janeiro de 2025, Donald Trump tem afirmado que os EUA precisam de assumir o controlo da Gronelândia por motivos de “segurança nacional”, alegando que, de outro modo, a ilha seria tomada pela China ou pela Rússia.

Em janeiro, Ursula von der Leyen e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, divulgaram uma declaração conjunta a sublinhar a importância da “integridade territorial e soberania” e afirmaram que a UE manifestava “total solidariedade com a Dinamarca e com o povo da Gronelândia”. E, intervindo na reunião anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, neste ano, Ursula von der Leyen afirmou que a UE está a preparar “forte aumento do investimento europeu” na Gronelândia, para reforço da segurança no Ártico.

A Comissão propôs destinar 530 milhões de euros à Gronelândia no orçamento para o período 2028-2034, o que reflete a sua “importância geoestratégica crescente no Ártico”. E o jornal Financial Times avançou que, durante a visita, Ursula von der Leyen iria anunciar mais 200 milhões de euros de financiamento para a ilha.

Em maio, Jeff Landry, enviado especial de Donald Trump à Gronelândia e governador da Luisiana, afirmou estar na altura de os EUA “recuperarem a sua presença” no território. Esta asserção ocorreu durante uma viagem ao território, a primeira desde que foi nomeado para o cargo de enviado especial, em dezembro de 2025. A partir de Nuuk, capital da Gronelândia, o diplomata declarou à Agence France-Presse (AFP) que se iria ver o presidente dos EUA falar em “aumentar as operações de segurança nacional e em voltar a ocupar certas bases na Gronelândia”. “Todas as pessoas com quem falei, na Gronelândia, gostariam de ver os EUA voltarem a ocupar essas bases”, prosseguiu, vincando que o território “precisa dos EUA”.

Em janeiro, os líderes de cinco partidos políticos no parlamento da Gronelândia emitiram uma declaração conjunta com uma mensagem clara para os EUA. “Não queremos ser americanos, não queremos ser dinamarqueses; queremos ser gronelandeses”, lia-se.

Os EUA terão tido 17 instalações militares e mais de 10 mil soldados na Gronelândia, no auge da Guerra Fria. Hoje, só opera, na ilha, a Base Espacial de Pituffik – a instalação mais a norte do Departamento de Defesa dos EUA. E, segundo a Força Espacial dos EUA, Pituffik é usada em missões de alerta de mísseis, de defesa antimíssil e de vigilância espacial.

Durante a visita à Gronelândia, a presidente da Comissão Europeia defendeu a integridade territorial da Gronelândia, ao anunciar um pacote de 200 milhões de euros de investimentos, nos próximos dois anos, em resposta à pressão de Donald Trump, que ameaça anexar a ilha rica em recursos minerais. O objetivo é reforçar os laços económicos e explorar matérias-primas. “Sabemos que o Ártico se tornou um dos lugares onde as placas tectónicas da geopolítica colidem, pelo que temos interesse direto no que aqui acontece”, afirmou, em Nuuk.

O pacote financeiro pretende reforçar a presença do bloco no território semiautónomo, que, há muito está na mira do presidente dos EUA, que abalou a aliança transatlântica, ao tentar tomar a à Dinamarca. As tensões atingiram o auge, em janeiro, quando ameaçou impor tarifas elevadas para pressionar a Dinamarca a ceder a ilha. A contestação fê-lo recuar. Porém, em julho, reiterou, subitamente, a ambição de anexar a ilha – por negociação comercial ou à força–, mostrando que o tema continua entre as suas principais preocupações.

Ursula Von der Leyen aproveitou a deslocação a Nuuk para vincar o apoio europeu perante aquilo a que chamou “pressão enorme”, embora sem mencionar Donald Trump. “A União Europeia manifesta plena solidariedade com o Reino da Dinamarca e com o povo da Gronelândia. Vamos continuar a fazê-lo. E queremos ser muito claros e repetir, aqui, que o futuro da Gronelândia cabe ao povo da Gronelândia e da Dinamarca decidir. A mais ninguém”, afirmou, em declarações à imprensa, frisando que “integridade territorial, soberania, inviolabilidade das fronteiras são princípios fundamentais do direito internacional”.

O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, e a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, agradeceram. E Nielsen considerou que a Gronelândia precisa da UE e a UE precisa da Gronelândia, e que “isto é verdade”, já que “precisamos uns dos outros”. E, dirigindo-se à presidente da Comissão Europeia, disse: “Nos últimos dois anos, a sua voz tem sido muito clara. Precisávamos disso e precisamos, agora. Por isso, obrigado.”

Frederiksen afirmou que a Dinamarca está disponível para trabalhar “mais de perto” com os EUA e com a Europa, em questões de segurança e de defesa ligadas ao Ártico, região que as alterações climáticas tornaram cada vez mais apetecíveis para as potências mundiais, nomeadamente, a Rússia, os EUA e a China, pela maior facilidade de sulcar o Ártico, pelo surgimento de novas rotas comerciais e geoestratégicas, pelos recursos endógenos da região, e pela exploração geocientífica. E Ursula von der Leyen disse que a Gronelândia é “um parceiro credível, um aliado estratégico e um membro precioso na nossa família europeia mais vasta”.

O pacote de investimento de 200 milhões de euros será distribuído por três áreas centrais: conectividade digital, incluindo cabos submarinos e infraestruturas de satélite; energia limpa, com especial foco na hidroeletricidade; e extração sustentável de matérias-primas críticas.

A Gronelândia possui 25 dos 34 minerais que Bruxelas julga cruciais para o desenvolvimento interno de sistemas de energia renovável e de tecnologia de ponta. O setor é dominado pela China, deixando a UE à mercê dos controlos de exportação de Pequim. Na ilha, porém, a atividade mineira continua muito aquém do seu potencial, devido às duras condições glaciais, que afastam investidores de projetos de elevado custo. Porém, os minerais estiveram entre os argumentos invocados por Trump para justificar a ameaça de assumir o controlo da Gronelândia, embora tenha dito ao New York Times que era uma questão de propriedade e que os aliados não tinham investido o suficiente na região.

Por isso, a Europa vem contrariando a narrativa de trumpiana, reforçando o compromisso com a Gronelândia. Nas próximas duas semanas, soldados de 10 países participarão no exercício Arctic Shield da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). E a Comissão Europeia, que trabalha na atualização da sua estratégia no Ártico, reserva 530 milhões de euros, especificamente, para a Gronelândia, na proposta do próximo orçamento da UE.

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Obviamente, a visita-relâmpago de Ursula von der Leyen à capital da Gronelândia não se cinge ao anúncio do investimento, mas teve em vista aprofundar as relações entre a UE e o Ártico e recolher informação, enquanto a UE define uma nova política para o Ártico.

A primeira versão desta política, em 2021, quase não referia as crescentes ameaças à segurança. O então chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, elegia as alterações climáticas, as matérias-primas e a influência geoestratégica como temas centrais. Porém, nos anos subsequentes, a Comissão Europeia reconheceu que a política precisa de urgente revisão para responder ao novo contexto de segurança e defesa na região, marcado por uma Rússia mais militarizada e pelos esforços da China para ampliar a sua presença económica, à medida que o degelo abre novas rotas marítimas no Ártico. Assim, o documento revisto terá o objetivo de promover “paz, estabilidade e desenvolvimento sustentável na região”, com Bruxelas empenhada em desempenhar um papel construtivo no território, visto que o Ártico ganhou “uma atenção global significativa”, devido ao seu ambiente único e ao papel que desempenha nas dinâmicas internacionais.

A atualização é necessária para garantir que a política se mantém relevante e eficaz na resposta aos desafios e às oportunidades em evolução na região ártica. Todavia, a publicação da nova política foi adiada e ainda não há uma data. Ora, com o atraso a prolongar-se, os especialistas alertam para o muito que está em causa, se o executivo da UE não acertar, sobretudo em matéria de segurança e de defesa.

A Rússia e a China têm estado cada vez mais ativas na região do Alto Norte, rica em recursos. E também estão presentes, na zona, os EUA, e três estados-membros da UE: a Finlândia, a Suécia e a Dinamarca. Neste contexto, o eurodeputado estónio Urmas Paet, autor de vários relatórios de peso sobre a política externa da UE, incluindo um sobre o Ártico, diz que, “se olharmos para o Ártico, é ali que todas as potências se encontram”.

Num relatório de 2025, o eurodeputado induziu a Comissão Europeia a atualizar a sua estratégia para o Ártico, frisando que a militarização da Rússia e a Rota da Seda Polar da China transformaram a região em importante foco de tensão geopolítica. E advertiu que, se a nova estratégia não estiver à altura do momento, a Europa ficará “cada vez mais” marginalizada, no Ártico, deixando que outras potências ganhem vantagem.

Paet, que tem defendido uma cooperação mais estreita da Europa com parceiros gronelandeses no domínio das matérias-primas críticas e da energia, apelou a que o próximo orçamento plurianual da UE reserve verbas para várias atividades económicas na região, como a pesca, os navios quebra-gelo e o investimento em infraestruturas.

O aquecimento do Ártico é quase quatro vezes superior à média global, com mais de 10 mil quilómetros cúbicos de gelo marítimo perdidos na região, nos últimos 40 anos. Este aquecimento contínuo acelerou o degelo dos glaciares, tornando a região cada vez mais atrativa para os países, ao abrir novas rotas de navegação em zonas antes inacessíveis.

Em 2018, o presidente chinês, Xi Jinping, apresentou a iniciativa Rota da Seda Polar, a visão oficial de Pequim para criar infraestruturas de transporte pelo Oceano Ártico, ligando a Europa à Ásia. E, em agosto deste ano, Sergey Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros russo, celebrou, publicamente, a chegada de um porta-contentores vindo da China à cidade de Murmansk, por uma rota ártica que, antes, era intransitável, e aproveitou o ensejo para expor os planos da Rússia de desenvolver outras formas de cooperação internacional na região.

Entretanto, em fevereiro, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, afirmou que, face à retórica anexionista do presidente dos EUA, em relação à Gronelândia e a outras questões geopolíticas, o Ártico já não pode ser visto como um canto tranquilo do mapa. “É a linha da frente da competição pelo poder à escala global”, disse, à margem de uma conferência dedicada ao Ártico em Tromsø, na Noruega, alertando que as ameaças híbridas aumentam em intensidade e frequência, na região, e estão ligadas ao persistente reforço militar da Rússia no Alto Norte.

“Em resposta, os aliados europeus estão a reforçar a segurança no Ártico e a UE está pronta para fazer a sua parte”, frisou.

Mark Rutte, secretário-geral da NATO, advertiu que, ante o crescente interesse da China no Alto Norte e o aumento da atividade militar da Rússia, “é crucial fazermos mais”. Por isso, a NATO lançou, em fevereiro, a iniciativa Sentinela do Ártico, para reforçar a postura da Aliança, na área, reunindo os aliados sob uma estratégia operacional única.

Linda Solstrand Dahlberg, alta representante da Universidade do Ártico da Noruega, disse que a nova política poderá incluir um plano para maior coordenação entre a UE e a NATO, no atinente ao Ártico, o que permitirá proteger os cabos submarinos que ligam a Noruega à Europa continental e reforçar a coordenação contra a crescente militarização por potências externas.

E Dahlberg sugeriu que o documento deve explorar a possibilidade de maior cooperação na indústria de defesa, o que beneficiará os países europeus que procuram capacidades testadas em condições meteorológicas extremas. “Temos competências e experiência, nesta parte do Mundo, e dispomos de capacidades de testes de esforço para climas frios”, vincou.

Maria Martisiute, analista de defesa do European Policy Centre, afirmou que a principal lacuna da política de 2021 é não mencionar a defesa militar, reiterou que a agenda geopolítica da UE mudou, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, e observou que, para lá disso, há evoluções, com a Europa a desenvolver parcerias de segurança e de defesa com o Canadá, a Islândia, a Noruega e o Reino Unido, as quais têm de “ficar espelhadas na nova estratégia ártica da UE”.

Em conjunto, Martisiute e Dahlberg publicaram um estudo com dezenas de recomendações para a futura política da UE. O mais importante que a Comissão deve ter em conta, ao finalizar o documento, segundo ambas as especialistas, é a consciência de que a defesa no Ártico tem impacto direto na defesa europeia. “O Ártico não existe num vácuo. Está profundamente integrado no mais amplo panorama de segurança”, afirmou Martisiute.

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Por fim, é de anotar que a UE se debate com um dilema: continuação da proibição (desde 2021) da exploração de petróleo e de gás, na Gronelândia, em nome da transição energética versus pressão dos países interessados na exploração desses recursos.  

A 26 de maio, uma coligação nórdica de instituições financeiras, sindicatos e cientistas do clima fez, em carta aberta, contundente aviso à Comissão Europeia, apelando aos líderes da UE, para que mantenham a proibição de novas perfurações de petróleo e de gás no Ártico. O texto, além do objetivo ecológico, sustenta que a evolução da situação geopolítica agravou os riscos de segurança, no mar de Barents, com as infraestruturas de petróleo e gás a tornarem-se potenciais alvos de guerra híbrida, devido à proximidade do território russo e da Rota do Mar do Norte.

Porém, os países da UE e outros estão divididos, nesta matéria. A Alemanha, a Suécia e a Finlândia apoiaram, genericamente, a posição da Comissão. A Dinamarca achou equilíbrio delicado, apoiando as metas ecológicas da UE, mas com capacidade limitada de as impor à Gronelândia, que controla os seus vastos recursos minerais. Os EUA, a Rússia e a China estão contra a proibição. E a Noruega, apesar dos apelos da Agência Internacional de Energia (AIE), garante prosseguir a exploração, independentemente da política da UE.

A UE deverá tomar uma decisão de última hora sobre a proibição de novas explorações de petróleo e gás no Ártico, durante uma reunião semanal dos 27 comissários do bloco, em outubro, de acordo com dois responsáveis da UE, que falaram sob anonimato.

Notícias anteriores na imprensa sugeriam que a UE considera abandonar a proibição de novas perfurações no Ártico, na revisão da estratégia para o Ártico de 2021, porque enfrenta uma crise energética desencadeada pelo encerramento do Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de um quinto do gás e do petróleo mundiais. Se tal acontecer, a UE ficará presa a uma dependência de combustíveis fósseis muito para lá do prazo de 2050, para a neutralidade climática, e ficará mais fragilizada a sua aposta na eletrificação interna, na eficiência das redes e na rápida expansão das energias renováveis.

2026.09.08 – Louro de Carvalho


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