quinta-feira, 30 de abril de 2026

Há enunciados sobre o 25 de Abril que podem ter efeito perverso

 

Ao dirigir-se aos jovens, no seu primeiro discurso, na sessão solene parlamentar comemorativa do 25 de Abril, o Presidente da República (PR) disse que não vinha pedir-lhes que amassem o 25 de Abril, porque não tem esse direito e porque “ninguém ama, por decreto ou procuração, aquilo que não viveu”. Ora, tal enunciado presidencial parece estar coberto por uma lógica indiscutível, mas pode dar ensejo a deduções ilegítimas e até perversas.

Como recorda Manuel Loff, no seu artigo intitulado “O ‘Sempre’ do 25 de Abril”, veiculado pelo jornal Público, de 28 de abril, “a grande maioria das pessoas que vivem em Portugal não viveram o 25 de Abril, e este dado demográfico óbvio tem alimentado a tese do desinteresse popular pela data, designadamente, dos jovens”.

É óbvio que não se pede a ninguém que ame quem quer que seja ou o quer que seja, nem o amor se estabelece por decreto. O amor dá-se pelo conhecimento e o amor aumenta o conhecimento. Neste âmbito, os filósofos medievais podem agrupar-se entre os que sustentam que ninguém ama o que não conhece e os que porfiam que ninguém conhece o que não ama. E, em termos existenciais, tanto o amor como o conhecimento se cultivam-se se aprofundam e se aumentam, ou, em alternativa, diminuem, estiolam e desaparecem.  

Porém, há que distinguir o conhecimento que nos é legado pelos educadores – pais, professores e catequistas –, pela cultura livresca e o conhecimento obtido pela vivência, pela experiência e pela experimentação. Conta-se que avisaram um homem que um bidão estava cheio de gasolina e que esta era inflamável. Porém, como não acreditou no que lhe diziam, quis viver o fenómeno e experimentou. Por isso, na sua lápide sepulcral, ficou escrito: “Aqui jaz um senhor que, não sabendo se um bidão tinha gasolina, acendeu um fósforo… e tinha!”  

Porém, como observa o colunista do Público, apesar de a asserção de António José Seguro ser “válida para tudo, na vida”, o PR engana-se “em achar que a dificuldade em criar laços afetivos com algum acontecimento do passado decorre do facto de não se o ter vivido”.

Recorda Manuel Off, pela figura literária da preterição, as centenas de milhões de pessoas que “amam” narrativas religiosas que nunca viveram e lembra, explicitamente, “o papel que, na formação política, ética, intelectual de outras tantas pessoas, à escala mundial, tem a memória de fenómenos históricos fundadores de novos ciclos históricos, como são as revoluções, associados necessariamente a datas específicas”. Há, efetivamente, muito conhecimento que nos advém pela educação, pela História, pelo conhecimento científico acumulado.

Basta atentar em alguns exemplos, para ilustrar o que se vem desenvolvendo, para ilustrar a tese de que não ter vivido o 25 de Abril não legitima o seu desconhecimento ou o desprezo pelos seus valores e pelas suas consequências políticas, económicas e sociais.

Por exemplo, nunca fui incomodado, pessoalmente, pela polícia política, a não ser numa ocasião, na cidade de Lamego, quando não bati palmas ao discurso do ministro da Obras Públicas, Eduardo Arantes e Oliveira, por distração. No entanto, não posso ignorar as narrativas demasiado conhecidas e documentadas sobre as torturas com que a PIDE (Polícia Internacional da Defesa do Estado) e a sua sucessora DGS (Direção-Geral de Segurança) “mimoseavam” os seus “hóspedes”, que recrutavam à força. E, quando viajava para França, com quatro colegas, no comboio Sud Expresso, em 1973, um agente da DGS, entre Mangualde e Vilar Formoso, recolheu os nossos passaportes e os nossos bilhetes, os quais só nos foram devolvidos, já perto de Paris, por um agente da polícia francesa.  

Não vivi os tempos das invasões francesas, da guerra civil entre liberais e absolutistas, das duas guerras mundiais, nem da guerra colonial portuguesa. No entanto, não posso sequer imaginar que tempos como esses voltem ao nosso quotidiano. E não posso esquecer que muitos monumentos, sobretudo, os atinentes à arquitetura militar, se degradaram com a falta de manutenção, com a erosão do tempo e com a índole obsoleta da sua função, mas também com a lapidação e roubos de material perpetrados pelos inimigos.

Não vivi tempos de peste e de fome, mas tenho de acreditar que as minhas irmãs (a mais nova tem mais 10 anos do que eu) passaram fome da negra (por falta de alimentos e pelo racionamento, aquando da II Guerra Mundial), tal como amigos que andaram comigo na escola, dada a penúria existente em suas casas.

Passámos todos o tempo da pandemia da covid-19 e sofremos as agruras do confinamento, da calamidade e da emergência, mas os alimentos não deixaram de faltar e multiplicaram-se as ações de solidariedade. No entanto, não posso deixar de acreditar nas narrativas de pais, de avós e de tios, segundo as quais, na epidemia da gripe pneumónica (dita espanhola), que chegou a Portugal em 1918, os caixões das vítimas mortais se acumulavam num dos largos principais da freguesia. Não foi preciso decretar o encerramento das igrejas para elas ficarem vazias.

***

Voltando ao 25 de Abril e ao artigo de Manuel Off, o qual, olhando para quem participa, em todos os anos, nas comemorações da Revolução dos Cravos, nas ruas do país, sustenta que a grande maioria não tinha nascido ou, pelo menos, não a viveu como adulto. Contudo, “nada a demove de sair à rua, de se apropriar do 25 de Abril, com a alegria e com o empenho de quem lhe dá, em cada ano, o significado que entende adequado e necessário a cada contexto do tempo que vive”, como observa o colunista.

Manuel OFF, citando António Barreto, “uma das vozes mais típicas de um certo ceticismo elitista, face à democracia, tal como ela se construiu em Portugal,​ isto é, por via revolucionária”, lamenta que o 25 de Abril seja das comemorações que entram na categoria do “ritual, não mais do que isso”. Aponta a António Barreto o facto de alimentar dúvidas sobre para o que serve o 25 de Abril (e o 5 de outubro), mas não ter hesitado em aceitar o convite de Cavaco Silva para fazer, em 2010, o discurso do Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, “dedicando-se a ‘despolitizar’ o significado das guerras contemporâneas portuguesas”. E conclui que “é o que nos acontece a todos: cada um de nós escolhe o que recordar, escolhe a memória dependendo do seu significado (político, entre outros) e da forma como lhe podemos dar utilidade para atuar no presente”.

Desconhecer ou desvalorizar a instauração da democracia, porque não se viveu, in tempore et in loco, o acontecimento, é desculpa de mau pagador para desvalorizar o momento fundacional do regime democrático. Desvalorizar a revolução democrática, a pretexto de excessos, à esquerda e à direita, é tomar a nuvem por Juno ou agarrar-se ao secundário, em vez de valorizar o essencial. Não gostar da democracia, porque alguns dos seus heróis foram afastados, outros se apropriaram dela e outros caíram nas malhas do crime organizado, é não perceber que todas as revoluções têm os seus excessos, as suas contrafações e os seus desvios, cabendo às pessoas lúcidas o ónus de joeirar o trigo e o joio, mas não subvertendo o essencial, que são os direitos, as liberdades e as garantias, bem como a boa condução do país por um poder político decente, com total respeito pelos cidadãos, pelas autarquias, pelas regiões e pelos diversos órgãos do poder político soberano.            

A falta de conhecimento do 25 de Abril pode ter origem num exíguo lugar que lhe dediquem os programas, os manuais e alguma docência da História, bem como a exígua formação política e cidadã, que alguns confundem com um conjunto de ideias político-partidárias.

Por outro lado, temos detentores de cargos políticos que afirmam, hipocritamente, que não são políticos, que o seu partido é servir o país ou o seu concelho. Mau exemplo é também o de magistrados que fazem questão de distinguir o lado jurisdicional do lado político, parecendo que os políticos (eleitos) são responsáveis por todos os males do país. Ora, nos termos da Constituição, os órgãos do poder político são: o Presidente da República, a Assembleia da República (AR), o Governo e os Tribunais. Aliás, os tribunais, que não resultam de eleição, mas de provimento por nomeação, após formação e concursos, nos termos constitucionais, “administram a Justiça em nome do povo” (esta é também política pura, embora não partidária).    

O desinteresse pela política, e até pelo 25 de Abril, pode estar no mau exemplo de alguns detentores de cargos políticos, os quais, ao arrepio da ética republicana, tentam aproveitar-se dos lugares para benefício pessoal, familiar ou de grupo, para lá da justa remuneração adveniente do exercício do cargo.

Por outro lado, o discurso do presidente da AR que antecedeu o do chefe de Estado, na sessão comemorativa do 52.º aniversário do 25 de Abril e do cinquentenário da vigência da Constituição, foi um mau exemplo de discurso político, em dois aspetos: a crítica ao excesso de transparência da ação política e do escrutínio aos políticos; e o estabelecimento de limitações e de incompatibilidades – condicionantes do recrutamento de quadros constituídos por cidadãos de maior competência e prestígio, os melhores.  

***

Com razão, o constitucionalista Vital Moreira critica, no blogue “Causa nossa”, a 26 de abril, “a oportunidade e a substância do discurso do presidente da AR, em que se manifestou contra o atual regime de incompatibilidades e a obrigação de declaração de conflitos de interesses e de riqueza e de rendimentos dos titulares de cargos políticos”.

Sustenta o constitucionalista que é exigência internacional “a transparência no exercício de cargos políticos” e um “critério de avaliação da qualidade das democracias liberais”. E considera que “os parâmetros legais em vigor e as instituições votadas a fazê-los valer, como a Entidade para a Transparência, tornaram-se incontornáveis, com o advento dos movimentos populistas, que têm por lema a denúncia da alegada corrupção generalizada da classe política”. 

Ao invés do que afirma Aguiar-Branco, no encalço de declarações do líder parlamentar do Partido Social Democrata (PSD), diz Vital Moreira que “não são os mecanismos de transparência que criam ‘a ideia de que os políticos têm algo a esconder’ e que alimentam o populismo”, mas levam a “contrariar a retórica populista contra as elites políticas”. Por isso, esvaziar tais mecanismos “seria o melhor prémio que se poderia dar ao Chega”, o qual, pelos vistos, a meu ver, não suspira por algo que não seja substituir-se aos detentores do poder nos últimos 50 anos.

Admite Vital Moreira que as exigências de transparência “podem afastar da vida política algumas pessoas mais ciosas do sigilo da sua vida profissional ou empresarial e do seu património, mas esse é um pequeno preço a pagar pela defesa preventiva do bom nome e reputação dos que aceitam exercer cargos políticos, colocando-os à margem de suspeitas indevidas ou malévolas”. Porém, denuncia que “há outros fatores mais preocupantes de inibição da entrada de pessoas honestas e capazes na vida política, como é o caso dos políticos que são alvo seletivo do lawfare do Ministério Público [MP] ou do deliberado ‘assassinato de caráter’ político”, que todos conhecemos, como o caso da queda de um governo de maioria absoluta, por suposto envolvimento do seu primeiro-ministro em escutas de que, até agora, nada resultou.

O constitucionalista aponta “campanhas de fake news nos media, como recentemente ocorreu com o candidato a provedor de Justiça, o professor Tiago Antunes, levando-o a retirar-se do cargo para o qual estava tão bem indicado”. E conclui que, “se a defesa da democracia liberal justifica, plenamente, algum ‘efeito colateral’ da transparência política, ela também exige, por maioria de razão, o combate aos custos ilegítimos da perseguição pessoal de titulares ou ex-titulares de cargos políticos por meios ilícitos”.

***

Também é de acolher a argumentação de Manuel Off, ao sustentar que, “num contexto em que o Chega arrancou mais de um quinto dos lugares da Assembleia [da República] e em que a direita do poder está apostada em ‘descafeinar’ as comemorações, o 25 de Abril tem sido resgatado, desde 2024, pelo muito povo que sai à rua, contra a ameaça do neofascismo do Chega que, agora, abertamente, se assume como coração da nostalgia salazarista”.

É claro que há toda uma tentativa de descafeinar a democracia, enquanto herança da Revolução dos Cravos, como se o 25 de Abril fosse um nefasto prelúdio da aurora da democracia instaurada só a 25 de novembro. É como se o 28 de maio de 1926 fosse um frágil prelúdio do 5 de julho de 1932, em que Oliveira Salazar foi nomeado presidente do Conselho de Ministros.  É por isso que se insiste no pacote laboral, nas alterações às leis da nacionalidade e da imigração ou na revisão da Constituição, aproximando-a da Constituição de 1933, embora sem o império colonial. E não será de esquecer que Marcelo Rebelo de Sousa, ao dissolver a AR em 2024, interrompeu um processo de revisão constitucional que, embora não fosse necessário, era tido por conveniente, porque resolveria casos pontuais, como a questão dos metadados e talvez o do enriquecimento ilícito. Enfim, um PR dissolveu uma AR que tinha poderes constituintes!

Ora, desviar a agulha do 25 de Abril para o 25 de novembro é tão ilegítimo como desviá-la para o 28 de setembro ou para o 11 de março; e só cria confusão nos espíritos mais débeis, quanto ao devir democrático e ao aprofundamento do conhecimento da História.  

Manuel Off observa que o Chega não poupa a boleia do governo, “como se leu em muitos cartazes da festa do 25 de Abril, mas sustenta que, nestes últimos anos, o 25 de Abril tem servido para gritar “Fascismo Nunca Mais!”, ainda com mais empenho do que antes, e contra a convergência crescente entre as direitas do governo e a que,​ no Chega, hoje, mas no PSD e no partido do Centro Democrático (CDS), até há meses – quer passar, “como os fascistas de há cem anos”, por “antissistema”.

Porque a memória do que fez do 25 de Abril uma revolução é argumento poderoso, na imaginação, do que é possível mudar, a direita envida todos os esforços para reescrever a História da construção da democracia, transferindo do 25 de Abril para o 25 de novembro a sua data fundadora e demonizando a participação popular que tenha tido um sentido socialista, num dado momento histórico, que é inapagável. Se quisermos apagar algumas inconveniências históricas, teríamos de reformular ou abandonar a “Portuguesa”. Hoje, nem somos os únicos heróis do mar, nem os avós são considerados tão egrégios como a memória os mitificou.

Segundo o colunista do Público, um historiador, a reivindicação do 25 de Abril, que pôs fim à guerra colonial, postula a reação contra o avanço do fascismo, à escala internacional, feito de genocídio e de neoimperialismo (veja-se o que fazem Washington, Telavive ou Moscovo). E, “num país em que a enorme maioria da população se opõe ao pacote laboral e a mais esta enésima tentativa de desfazer o que a Revolução construiu nos nossos direitos, a memória do 25 de Abril não é simplesmente atual, ela é muito prática”, conclui.

***

Conheçamos os 25 de Abril e apreciemo-lo, não por decreto, nem por imposição presidencial, mas pelo que significa e pelo que vale.

Não é, pois, um mero slogan o “25 de Abril, sempre!”

2026.04.30 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário