Há
dias, num grupo de amigos, maioritariamente, reformados/aposentados, que se
reúne, semanalmente, para convívio e para troca de impressões sobre matérias
diversas, lembrei-me de atirar a ideia do paralelo entre o rei português D.
Manuel I, que se intitulava praticamente como rei do Mundo inteiro, e o
presidente dos Estados Unidos da América (EUA).
Efetivamente,
o furor expansionista em busca das especiarias no Oriente e a ânsia de dominar
os mares e os oceanos, sob a capa da difusão da civilização cristã, por parte
de D. João II e de D. Manuel I, com que emparceiravam, dialeticamente, os reis
católicos espanhóis, Fernando e Isabel, não parece tão distante do furor do
atual líder norte-americano, em demanda do petróleo, das terras raras, no
objetivo confessado de assegurar o domínio dos continentes e dos oceanos, em
nome da segurança nacional e dos valores que diz defender, também com água
benta cristã, embora não católica. Há, contudo, uma diferença: os reis
portugueses ou os espanhóis davam orientações à distância, mas as estratégias
eram definidas, a nível local, pelos governadores, alguns dos quais ganharam o
estatuto de vice-rei. Hoje, Donald Trump, como não há distâncias, define as
estratégias, a partir de Washington ou de qualquer lugar onde esteja.
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Entretanto,
a 15 de abril, atraiu-me a atenção o artigo da Euronews intitulado “Trump
vs. Afonso de Albuquerque: duas ‘expedições’ militares com resultados muito
diferentes?”, subscrito por Ema Gil Pires, que admite a possibilidade de
comparar a operação militar dos EUA contra o Irão, com a investida de que
resultou conquista de Ormuz pelos Portugueses, no século XVI.
Verificou
a jornalista que circula, nas redes sociais, uma imagem que estabelece o
paralelo entre consequências, meios e fundos empenhados pelos EUA na
guerra com o Irão, e a conquista bem-sucedida, no século XVI, de Ormuz, por
parte do Império Português.
Trata-se
da operação comandada por Afonso de Albuquerque, o segundo governador português
da Índia, no quadro do projeto expansionista de Portugal, quando o Estreito de
Ormuz detinha, como agora, expressiva importância económica e geostratégica,
nomeadamente, a nível das trocas comerciais, em suposto paralelo com a ambição dos
EUA, face ao Irão.
As
duas expedições contaram com mobilização de pessoal e de equipamento
militares díspares: a investida portuguesa em 1515, era, supostamente, menos
ambiciosa do que o destacamento ordenado por Washington para a região, que se
retrata como mais dispendioso, do ponto de vista financeiro, do que a expedição
lusa de há séculos, o que é discutível, tendo em conta a diferença dos meios
disponíveis e dos custos, agora e naquele tempo, face aos diferentes níveis de
vida. Todavia, enquanto Albuquerque, cerca de oito anos após a primeira
tentativa de posse da ilha de Ormuz, acabou por a conquistar, com vantajosas
consequências para o Império Português, as forças armadas, de que Trump é
comandante supremo, terão atingido resultados que ficaram bastante aquém dos obtidos
pelos Portugueses, apesar do empenhamento militar dito superior, e com
impactos reconhecidamente nefastos para a economia global.
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A
presença portuguesa em Ormuz iniciou-se em 1507, mas só em 1515 é que Portugal “efetuou
a conquista” e a ocupação “do Reino de Ormuz”, como sustenta Rui Manuel
Loureiro, investigador do ISMAT - Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes. E, citando
a obra Décadas da Ásia, de João de Barros, historiador e
cronista do século XVI, o investigador confirma que a “expedição de Afonso de
Albuquerque” envolveu 27 navios”, nomeadamente, “14 naus” e “sete
caravelas”, acompanhadas de “seis embarcações asiáticas mais pequenas”. E,
quanto ao número de homens envolvidos, diz o investigador que “eram 1500
portugueses e cerca de 600 ou 700 indianos, mas “não necessariamente
malabares” (oriundos do Malabar, região na costa ocidental da Índia). Também
estiveram envolvidas “tropas de outras regiões da Índia, que participavam
sempre nestas embarcações pequenas, quer como marinheiros, quer como soldados”.
Mais
complicada, segundo Rui Loureiro, é a análise dos custos associados à ação
portuguesa que conduziu à posse de Ormuz, pois, hoje, é difícil saber, por
exemplo, o valor de uma nau ou de uma caravela, mas pode dizer-se que “as
perdas portuguesas foram praticamente insignificantes, nestes combates”. Já no
atinente às consequências da vitória portuguesa referidas na publicação das
redes sociais, o historiador tem opinião
diferente, já que o triunfo luso resultou na criação de “uma espécie de
protetorado da coroa portuguesa”, em Ormuz, até 1622, ano em que uma “aliança
entre os Persas e os Ingleses” desinstalou os Portugueses do local.
Albuquerque
pretendia assegurar o controlo da ilha de Ormuz, entidade autónoma da Pérsia. Contudo,
como diz Rui Loureiro, não havia a ideia de atacar a Pérsia, “estado
continental enorme”, em contraste com a recente atuação dos EUA, face
ao Irão. Efetivamente, a situação atual marcha ao contrário: há o ataque ao
Irão e, por consequência, surge o problema de Ormuz, sobre o qual os estrategos
norte-americanos não terão pensado com antecedência. Ao invés, na ótica do
historiador, a ideia de Albuquerque era controlar uma ilha-chave nas rotas
marítimas, o que se enquadrava numa estratégia meramente “oceânica”, com a
preocupação de “manter o bom relacionamento com as potências continentais”. No
entanto, o controlo dos Portugueses sobre a ilha permitiu assegurar a
segurança de algumas rotas comerciais em que os Portugueses estavam
interessados”, nomeadamente, no Mar Arábico.
Também
é exagerada é a asserção de que o domínio português sobre o Golfo
Pérsico durou cerca de 150 anos. Ora, tal domínio durou até 1622, o
equivalente a cerca de 107 anos, mas abrangeu só a ínsula e “algumas das suas
pequenas dependências dos dois lados do Golfo”, ou seja, não havia controlo
total do Golfo Pérsico, pois continuava a navegação árabe e persa.
Sobre
a “introdução de um sistema de portagem” por parte do Império Português, é de
referir que, na ótica do investigador, “esse sistema já existia,
funcionando, então, em benefício do Reino de Ormuz”. Porém, ocupado o
território pelos Portugueses, estes “passaram a beneficiar desse sistema de
portagem”. Assim, eram isentas de taxas as mercadorias trazidas para Ormuz pelos
Portugueses, que beneficiavam de parte das receitas da alfândega de Ormuz.
Quanto
ao alegado “monopólio comercial [de Portugal] entre a Arábia e a Índia”, Rui
Loureiro sustenta que também isso “é uma coisa muito complicada de se dizer”, a
propósito do que são “superfícies geográficas imensas”. Os Portugueses controlavam
parte do comércio, através do sistema de alfândegas de Ormuz e através de
outros sistemas, os cartazes, que eram autorizações emitidas pelas autoridades
portuguesas da Índia e que permitiam a outros navios fazer essa rota. Contudo,
na perspetiva do historiador, a vigilância não era total. Muitos navios
escapavam ao controlo português, bastava dirigirem-se a cidades que os Portugueses
não controlavam, na Índia. Portanto, não havia monopólio, mas
interferência portuguesa, em grande parte, com sucesso.
E,
no atinente à “fundação de um domínio europeu no Oceano Índico”, com a duração
de cerca de 500 euros, considera o especialista que também é expressão “exagerada”,
porque, devido ao número de pessoas e de navios (milhares e milhares), era
impossível controlar todo o tráfego que atravessava o Oceano Índico, por uma
série de rotas. E, assim como “os Portugueses controlavam alguns dos
entrepostos e algum do movimento desses navios”, no Oceano Índico, depois, os Ingleses
e, mais tarde, os Holandeses fizeram o mesmo.
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Os
custos estimados da operação militar de Donald Trump, no Golfo Pérsico, juntamente
com Israel, contra o Irão, segundo a publicação que circula nas redes
sociais e com base nos dados referentes a março, ronda os 18 mil milhões de
dólares. Porém, Bruno Cardoso Reis, especialista em História Contemporânea e
Estudos de Segurança e Defesa, citou recente estimativa do Finantial Times,
com base em indicadores do American Enterprise Institute, que aponta para
gastos diários na ordem dos “500 milhões de dólares”, em consequência do
equipamento militar dos EUA destruído no conflito. Contas feitas, prevê-se que “o custo
da campanha tenha rondado os 22,3 a 31 mil milhões de dólares, nas cinco
semanas, desde que Trump ordenou às forças norte-americanas o ataque, no final
de fevereiro”.
Quanto
a meios mobilizados, as alegações que circulam online falam de 30
navios, 120 aeronaves e 50 mil meios humanos mobilizados, em março. Porém,
segundo dados tabelados pelo grupo de reflexão norte-americano Atlantic Council,
referentes a 3 de abril, estimam-se pelo menos, 134 aeronaves (excluindo caças)
e 18 navios, entre outros equipamentos militares, mobilizados no âmbito da
guerra com o Irão. E, no respeitante ao número de soldados, uma notícia
publicada, a 29 de março, no New York Times, aponta para 50
mil, após a “chegada de 2500 fuzileiros navais e de outros 2500 marinheiros”,
em tempos recentes.
Para
Bruno Reis, importa destacar a maior concentração de forças dos EUA, a
nível naval e aéreo na região, desde 2003, ou seja, desde a intervenção
contra o Iraque. Já o recente destacamento de meios humanos pode indicar que
Washington estará a ponderar alguma operação terrestre, visando a ilha de Kharg
ou algumas das da zona do Estreito de Ormuz.
Aa consequências
da intervenção militar dos EUA no Médio Oriente têm feito manchetes, como “crise
energética global”, “disrupção económica com riscos de recessão e de insegurança
alimentar”, tensões diplomáticas entre os EUA e os aliados europeus e o “Irão a
assinalar um potencial sistema de portagem no Estreito [de Ormuz]”. Todavia, na
ótica do investigador em História Contemporânea, há outros efeitos a
considerar: “a disrupção causada nos países aliados do Golfo”, com mortes
e com destruição de infraestruturas críticas, como de produção de energia, de
refinação, de liquefação de gás, etc. – o que mina a perceção de que a
zona é uma espécie de oásis de riqueza e de segurança, de enorme importância
para o turismo, para os serviços e para setores que envolvem os “centros de
dados e a inteligência artificial, que têm sido apostas destes países, para
diversificarem um pouco a sua economia”.
E,
apesar do acordo de cessar-fogo, mediado pelo Paquistão, o que permanece é a “situação
de impasse”, no dizer de Bruno Reis, continuando em jogo as questões comerciais.
Como a economia está muito globalizada, embora os EUA não tenham “de se
preocupar com a segurança do abastecimento, pois têm produção própria de
petróleo e de gás”, não quer dizer que não sintam “algum impacto nos preços”. Efetivamente,
como observa o historiador, as interdependências levam as crises, sobretudo
numa região tão importante para o mercado da energia e, por exemplo, para os
fertilizantes, a terem “impacto global, imediato e também a prazo”.
É
também de frisar que a hipótese de o Irão replicar o sistema que os Portugueses
adotaram, com base na hegemonia naval, de cobrar taxa para permitir a passagem
das embarcações é “ilegal, à luz da lei internacional”, tendo sido essa “uma
das grandes mudanças da transição do século XVI para o século XVII”, com o
surgimento de novas potências navais, como a Inglaterra e os Países Baixos,
defensoras da liberdade de navegação. E o Irão não pode fazer tal reversão.
À
ideia de impasse no conflito, como aponta Bruno Reis, acresce o facto de os EUA,
não estando a atingir os objetivos, quererem bloquear o Estreito de Ormuz, bem
como o facto de terem criado “um enorme problema”, ao nível do “impacto
económico direto” e da abertura de “um precedente potencialmente muito perigoso”.
Ora, se outros Estados fizerem o mesmo tipo intervenções militares noutros
estreitos, como o Estreito de Adem ou o de Malaca, “o impacto na economia
global, na segurança alimentar e na segurança energética será tremendo”.
***
Sobre
a possibilidade de comparar dois protagonistas de épocas tão diferentes, o especialista
em História Contemporânea e Estudos de Segurança e Defesa, explicou, em
entrevista à Euronews, que há “uma corrente entre os historiadores” que resiste
à ideia das comparações e das lições da História. Paralelamente, outra, que
se desenvolveu no mundo anglo-saxónico, sustenta que “toda a gente retira
lições da História” e que “mais vale tentar aprender com os erros dos outros”.
Por
sua vez, Bruno Reis ressalva que “a História não nos oferece lições no sentido
de como é que se consegue, garantidamente, uma vitória numa guerra”. Porém,
o investigador elege um ponto digno de apreciação: navios que queriam utilizar
o Golfo Pérsico, no século XVI, por causa das especiarias ou dos cavalos, ou os
que o pretendem fazer, agora, devido aos hidrocarbonetos, têm de passar pelo
Estreito de Ormuz. Assim, o que Albuquerque entendeu, há cerca de 500
anos, foi que, pela presença militar permanente, numa zona facilmente
defensável por uma potência naval e com uma esquadra ali permanentemente
baseada, conseguia ter hegemonia sobre tudo o que por ali passava.
No
entanto, para Bruno Cardoso Reis, “o problema de base” dos EUA é que, “ao
contrário de Afonso de Albuquerque, o presidente norte-americano não
avaliou bem a realidade geostratégica” e “exagerou o seu poder militar próprio”.
Dito de outro modo, Donald Trump “subestimou o inimigo” e, em particular, “a
questão do Estreito de Ormuz e da facilidade com que este pode ser usado”,
para ameaçar a geografia, permitindo facilmente ao Irão “ameaçar a segurança da
navegação naquela região”, e “confundir a superioridade militar esmagadora” dos
EUA com “uma espécie de omnipotência”.
Por
outro lado, o historiador julga necessário destacar que, à data das conquistas
do Império Português na região, “a tecnologia favorecia, muito claramente, o
controlo do Estreito [de Ormuz] pelas potências europeias”, que tinham “vantagem,
ao nível da tecnologia militar” e, sobretudo, da “tecnologia naval”, o que “facilitou
muito a conquista da Ilha [de Ormuz], a construção da Fortaleza [também em
Ormuz] e, depois, esta hegemonia naval”. Hoje, a realidade é diferente: a
tecnologia militar tem niveladores que tornam mais fácil a uma potência mais
fraca criar este tipo de problemas que as forças dos EUA têm enfrentado.
E
apesar da vantagem tecnológica dos EUA comparativamente com a de Teerão, a
existência corrente de “tecnologias muito mais simples, muito mais baratas” dá
ao Irão a possibilidade de, “com um nível de poderio militar muito
inferior”, ser “eficaz militarmente”, pois, como apontou o investigador, “está
disposto a assumir baixas e riscos muito maiores”.
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É
tentador fazer comparações entre períodos históricos com protagonistas semelhantes
e é inegável que podemos e devemos extrair lições dos factos históricos, mas nunca
na linha de transposição de situações, descurando a diferença de realidades. As
lições históricas, nunca literais, permitem compreender o comportamento humano (a
nível de atitudes, de tendências, de objetivos, de ações e de avaliações) e
ajudar a hermenêutica das realidades contemporâneas. É também isso que se pode depreender
da leitura de Norman Dixon, “ On the Psychology of Military Incompetence” (1976),
New York: Basic Books.
2026.04.15 – Louro de Carvalho
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