quarta-feira, 15 de abril de 2026

Donald Trump é comparável a Afonso de Albuquerque?

Há dias, num grupo de amigos, maioritariamente, reformados/aposentados, que se reúne, semanalmente, para convívio e para troca de impressões sobre matérias diversas, lembrei-me de atirar a ideia do paralelo entre o rei português D. Manuel I, que se intitulava praticamente como rei do Mundo inteiro, e o presidente dos Estados Unidos da América (EUA).

Efetivamente, o furor expansionista em busca das especiarias no Oriente e a ânsia de dominar os mares e os oceanos, sob a capa da difusão da civilização cristã, por parte de D. João II e de D. Manuel I, com que emparceiravam, dialeticamente, os reis católicos espanhóis, Fernando e Isabel, não parece tão distante do furor do atual líder norte-americano, em demanda do petróleo, das terras raras, no objetivo confessado de assegurar o domínio dos continentes e dos oceanos, em nome da segurança nacional e dos valores que diz defender, também com água benta cristã, embora não católica. Há, contudo, uma diferença: os reis portugueses ou os espanhóis davam orientações à distância, mas as estratégias eram definidas, a nível local, pelos governadores, alguns dos quais ganharam o estatuto de vice-rei. Hoje, Donald Trump, como não há distâncias, define as estratégias, a partir de Washington ou de qualquer lugar onde esteja.    

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Entretanto, a 15 de abril, atraiu-me a atenção o artigo da Euronews intitulado “Trump vs. Afonso de Albuquerque: duas ‘expedições’ militares com resultados muito diferentes?”, subscrito por Ema Gil Pires, que admite a possibilidade de comparar a operação militar dos EUA contra o Irão, com a investida de que resultou conquista de Ormuz pelos Portugueses, no século XVI.

Verificou a jornalista que circula, nas redes sociais, uma imagem que estabelece o paralelo entre consequências, meios e fundos empenhados pelos EUA na guerra com o Irão, e a conquista bem-sucedida, no século XVI, de Ormuz, por parte do Império Português.

Trata-se da operação comandada por Afonso de Albuquerque, o segundo governador português da Índia, no quadro do projeto expansionista de Portugal, quando o Estreito de Ormuz detinha, como agora, expressiva importância económica e geostratégica, nomeadamente, a nível das trocas comerciais, em suposto paralelo com a ambição dos EUA, face ao Irão.

As duas expedições contaram com mobilização de pessoal e de equipamento militares díspares: a investida portuguesa em 1515, era, supostamente, menos ambiciosa do que o destacamento ordenado por Washington para a região, que se retrata como mais dispendioso, do ponto de vista financeiro, do que a expedição lusa de há séculos, o que é discutível, tendo em conta a diferença dos meios disponíveis e dos custos, agora e naquele tempo, face aos diferentes níveis de vida. Todavia, enquanto Albuquerque, cerca de oito anos após a primeira tentativa de posse da ilha de Ormuz, acabou por a conquistar, com vantajosas consequências para o Império Português, as forças armadas, de que Trump é comandante supremo, terão atingido resultados que ficaram bastante aquém dos obtidos pelos Portugueses, apesar do empenhamento militar dito superior, e com impactos reconhecidamente nefastos para a economia global.  

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A presença portuguesa em Ormuz iniciou-se em 1507, mas só em 1515 é que Portugal “efetuou a conquista” e a ocupação “do Reino de Ormuz”, como sustenta Rui Manuel Loureiro, investigador do ISMAT - Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes. E, citando a obra Décadas da Ásia, de João de Barros, historiador e cronista do século XVI, o investigador confirma que a “expedição de Afonso de Albuquerque” envolveu 27 navios”, nomeadamente, “14 naus” e “sete caravelas”, acompanhadas de “seis embarcações asiáticas mais pequenas”. E, quanto ao número de homens envolvidos, diz o investigador que “eram 1500 portugueses e cerca de 600 ou 700 indianos, mas “não necessariamente malabares” (oriundos do Malabar, região na costa ocidental da Índia). Também estiveram envolvidas “tropas de outras regiões da Índia, que participavam sempre nestas embarcações pequenas, quer como marinheiros, quer como soldados”.

Mais complicada, segundo Rui Loureiro, é a análise dos custos associados à ação portuguesa que conduziu à posse de Ormuz, pois, hoje, é difícil saber, por exemplo, o valor de uma nau ou de uma caravela, mas pode dizer-se que “as perdas portuguesas foram praticamente insignificantes, nestes combates”. Já no atinente às consequências da vitória portuguesa referidas na publicação das redes sociais, o  historiador tem opinião diferente, já que o triunfo luso resultou na criação de “uma espécie de protetorado da coroa portuguesa”, em Ormuz, até 1622, ano em que uma “aliança entre os Persas e os Ingleses” desinstalou os Portugueses do local.

Albuquerque pretendia assegurar o controlo da ilha de Ormuz, entidade autónoma da Pérsia. Contudo, como diz Rui Loureiro, não havia a ideia de atacar a Pérsia, “estado continental enorme”, em contraste com a recente atuação dos EUA, face ao Irão. Efetivamente, a situação atual marcha ao contrário: há o ataque ao Irão e, por consequência, surge o problema de Ormuz, sobre o qual os estrategos norte-americanos não terão pensado com antecedência. Ao invés, na ótica do historiador, a ideia de Albuquerque era controlar uma ilha-chave nas rotas marítimas, o que se enquadrava numa estratégia meramente “oceânica”, com a preocupação de “manter o bom relacionamento com as potências continentais”. No entanto, o controlo dos Portugueses sobre a ilha permitiu assegurar a segurança de algumas rotas comerciais em que os Portugueses estavam interessados”, nomeadamente, no Mar Arábico.

Também é exagerada é a asserção de que o domínio português sobre o Golfo Pérsico durou cerca de 150 anos. Ora, tal domínio durou até 1622, o equivalente a cerca de 107 anos, mas abrangeu só a ínsula e “algumas das suas pequenas dependências dos dois lados do Golfo”, ou seja, não havia controlo total do Golfo Pérsico, pois continuava a navegação árabe e persa.

Sobre a “introdução de um sistema de portagem” por parte do Império Português, é de referir que, na ótica do investigador, “esse sistema já existia, funcionando, então, em benefício do Reino de Ormuz”. Porém, ocupado o território pelos Portugueses, estes “passaram a beneficiar desse sistema de portagem”. Assim, eram isentas de taxas as mercadorias trazidas para Ormuz pelos Portugueses, que beneficiavam de parte das receitas da alfândega de Ormuz.

Quanto ao alegado “monopólio comercial [de Portugal] entre a Arábia e a Índia”, Rui Loureiro sustenta que também isso “é uma coisa muito complicada de se dizer”, a propósito do que são “superfícies geográficas imensas”. Os Portugueses controlavam parte do comércio, através do sistema de alfândegas de Ormuz e através de outros sistemas, os cartazes, que eram autorizações emitidas pelas autoridades portuguesas da Índia e que permitiam a outros navios fazer essa rota. Contudo, na perspetiva do historiador, a vigilância não era total. Muitos navios escapavam ao controlo português, bastava dirigirem-se a cidades que os Portugueses não controlavam, na Índia. Portanto, não havia monopólio, mas interferência portuguesa, em grande parte, com sucesso.

E, no atinente à “fundação de um domínio europeu no Oceano Índico”, com a duração de cerca de 500 euros, considera o especialista que também é expressão “exagerada”, porque, devido ao número de pessoas e de navios (milhares e milhares), era impossível controlar todo o tráfego que atravessava o Oceano Índico, por uma série de rotas. E, assim como “os Portugueses controlavam alguns dos entrepostos e algum do movimento desses navios”, no Oceano Índico, depois, os Ingleses e, mais tarde, os Holandeses fizeram o mesmo.

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Os custos estimados da operação militar de Donald Trump, no Golfo Pérsico, juntamente com Israel, contra o Irão, segundo a publicação que circula nas redes sociais e com base nos dados referentes a março, ronda os 18 mil milhões de dólares. Porém, Bruno Cardoso Reis, especialista em História Contemporânea e Estudos de Segurança e Defesa, citou recente estimativa do Finantial Times, com base em indicadores do American Enterprise Institute, que aponta para gastos diários na ordem dos “500 milhões de dólares”, em consequência do equipamento militar dos EUA destruído no conflito. Contas feitas, prevê-se que “o custo da campanha tenha rondado os 22,3 a 31 mil milhões de dólares, nas cinco semanas, desde que Trump ordenou às forças norte-americanas o ataque, no final de fevereiro”.

Quanto a meios mobilizados, as alegações que circulam online falam de 30 navios, 120 aeronaves e 50 mil meios humanos mobilizados, em março. Porém, segundo dados tabelados pelo grupo de reflexão norte-americano Atlantic Council, referentes a 3 de abril, estimam-se pelo menos, 134 aeronaves (excluindo caças) e 18 navios, entre outros equipamentos militares, mobilizados no âmbito da guerra com o Irão. E, no respeitante ao número de soldados, uma notícia publicada, a 29 de março, no New York Times, aponta para 50 mil, após a “chegada de 2500 fuzileiros navais e de outros 2500 marinheiros”, em tempos recentes.

Para Bruno Reis, importa destacar a maior concentração de forças dos EUA, a nível naval e aéreo na região, desde 2003, ou seja, desde a intervenção contra o Iraque. Já o recente destacamento de meios humanos pode indicar que Washington estará a ponderar alguma operação terrestre, visando a ilha de Kharg ou algumas das da zona do Estreito de Ormuz.

Aa consequências da intervenção militar dos EUA no Médio Oriente têm feito manchetes, como “crise energética global”, “disrupção económica com riscos de recessão e de insegurança alimentar”, tensões diplomáticas entre os EUA e os aliados europeus e o “Irão a assinalar um potencial sistema de portagem no Estreito [de Ormuz]”. Todavia, na ótica do investigador em História Contemporânea, há outros efeitos a considerar: “a disrupção causada nos países aliados do Golfo”, com mortes e com destruição de infraestruturas críticas, como de produção de energia, de refinação, de liquefação de gás, etc. – o que  mina a perceção de que a zona é uma espécie de oásis de riqueza e de segurança, de enorme importância para o turismo, para os serviços e para setores que envolvem os “centros de dados e a inteligência artificial, que têm sido apostas destes países, para diversificarem um pouco a sua economia”.

E, apesar do acordo de cessar-fogo, mediado pelo Paquistão, o que permanece é a “situação de impasse”, no dizer de Bruno Reis, continuando em jogo as questões comerciais. Como a economia está muito globalizada, embora os EUA não tenham “de se preocupar com a segurança do abastecimento, pois têm produção própria de petróleo e de gás”, não quer dizer que não sintam “algum impacto nos preços”. Efetivamente, como observa o historiador, as interdependências levam as crises, sobretudo numa região tão importante para o mercado da energia e, por exemplo, para os fertilizantes, a terem “impacto global, imediato e também a prazo”.

É também de frisar que a hipótese de o Irão replicar o sistema que os Portugueses adotaram, com base na hegemonia naval, de cobrar taxa para permitir a passagem das embarcações é “ilegal, à luz da lei internacional”, tendo sido essa “uma das grandes mudanças da transição do século XVI para o século XVII”, com o surgimento de novas potências navais, como a Inglaterra e os Países Baixos, defensoras da liberdade de navegação. E o Irão não pode fazer tal reversão.

À ideia de impasse no conflito, como aponta Bruno Reis, acresce o facto de os EUA, não estando a atingir os objetivos, quererem bloquear o Estreito de Ormuz, bem como o facto de terem criado “um enorme problema”, ao nível do “impacto económico direto” e da abertura de “um precedente potencialmente muito perigoso”. Ora, se outros Estados fizerem o mesmo tipo intervenções militares noutros estreitos, como o Estreito de Adem ou o de Malaca, “o impacto na economia global, na segurança alimentar e na segurança energética será tremendo”.

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Sobre a possibilidade de comparar dois protagonistas de épocas tão diferentes, o especialista em História Contemporânea e Estudos de Segurança e Defesa, explicou, em entrevista à Euronews, que há “uma corrente entre os historiadores” que resiste à ideia das comparações e das lições da História. Paralelamente, outra, que se desenvolveu no mundo anglo-saxónico, sustenta que “toda a gente retira lições da História” e que “mais vale tentar aprender com os erros dos outros”.

Por sua vez, Bruno Reis ressalva que “a História não nos oferece lições no sentido de como é que se consegue, garantidamente, uma vitória numa guerra”. Porém, o investigador elege um ponto digno de apreciação: navios que queriam utilizar o Golfo Pérsico, no século XVI, por causa das especiarias ou dos cavalos, ou os que o pretendem fazer, agora, devido aos hidrocarbonetos, têm de passar pelo Estreito de Ormuz. Assim, o que Albuquerque entendeu, há cerca de 500 anos, foi que, pela presença militar permanente, numa zona facilmente defensável por uma potência naval e com uma esquadra ali permanentemente baseada, conseguia ter hegemonia sobre tudo o que por ali passava.

No entanto, para Bruno Cardoso Reis, “o problema de base” dos EUA é que, “ao contrário de Afonso de Albuquerque, o presidente norte-americano não avaliou bem a realidade geostratégica” e “exagerou o seu poder militar próprio”. Dito de outro modo, Donald Trump “subestimou o inimigo” e, em particular, “a questão do Estreito de Ormuz e da facilidade com que este pode ser usado”, para ameaçar a geografia, permitindo facilmente ao Irão “ameaçar a segurança da navegação naquela região”, e “confundir a superioridade militar esmagadora” dos EUA com “uma espécie de omnipotência”.

Por outro lado, o historiador julga necessário destacar que, à data das conquistas do Império Português na região, “a tecnologia favorecia, muito claramente, o controlo do Estreito [de Ormuz] pelas potências europeias”, que tinham “vantagem, ao nível da tecnologia militar” e, sobretudo, da “tecnologia naval”, o que “facilitou muito a conquista da Ilha [de Ormuz], a construção da Fortaleza [também em Ormuz] e, depois, esta hegemonia naval”. Hoje, a realidade é diferente: a tecnologia militar tem niveladores que tornam mais fácil a uma potência mais fraca criar este tipo de problemas que as forças dos EUA têm enfrentado.

E apesar da vantagem tecnológica dos EUA comparativamente com a de Teerão, a existência corrente de “tecnologias muito mais simples, muito mais baratas” dá ao Irão a possibilidade de, “com um nível de poderio militar muito inferior”, ser “eficaz militarmente”, pois, como apontou o investigador, “está disposto a assumir baixas e riscos muito maiores”.Parte superior do formulário

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É tentador fazer comparações entre períodos históricos com protagonistas semelhantes e é inegável que podemos e devemos extrair lições dos factos históricos, mas nunca na linha de transposição de situações, descurando a diferença de realidades. As lições históricas, nunca literais, permitem compreender o comportamento humano (a nível de atitudes, de tendências, de objetivos, de ações e de avaliações) e ajudar a hermenêutica das realidades contemporâneas. É também isso que se pode depreender da leitura de Norman Dixon, “ On the Psychology of Military Incompetence” (1976), New York: Basic Books.

2026.04.15 – Louro de Carvalho

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