sábado, 4 de abril de 2026

A durabilidade da crise energética advinda da guerra no Irão

 

Numa altura em que a guerra no Médio Oriente mantém a restrição do abastecimento de petróleo, em 12 milhões de barris, por dia, a União Europeia (UE) tenta resolver o problema do aumento das faturas de energia e exorta os cidadãos do bloco a reduzirem o número de carros. Com efeito, a questão é: Quanto tempo durarão as reservas de petróleo da UE.

Os analistas estimam que os 426 milhões de barris de petróleo libertados pela Agência Internacional de Energia (AIE) – 91,7 milhões dos quais são contributo de 20 países da UE – durarão cerca de cinco meses, mas o bloco conta com reservas de armazenamento.

O nível de alerta em toda a UE-27 intensificou-se quando o comissário da Energia, Dan Jørgensen, mudou o enfoque da questão de preços para a potencial rutura do abastecimento, na sequência da reunião de emergência dos ministros da Energia, a 31 de março. Nesse dia, disse aos governos da UE que o gasóleo e o combustível para aviões corriam maior risco de escassez, devido à dependência do Médio Oriente, alertou para um “potencial conflito prolongado” e apelou à “unidade entre os países da UE”.

A UE consome cerca de 10,5 milhões de barris de petróleo, por dia, isto é, cerca de 10% da procura mundial, liderada pela Alemanha (2,3 milhões de barris), seguindo-se a França (1,6 milhões de barris) e a Itália (1,3 milhões de barris).

O bloco dispõe de reservas petrolíferas de emergência de cerca de 100 milhões de barris, uma mistura de petróleo bruto, gasóleo e gasolina, dos quais cerca de 91,7 milhões foram libertados a 11 de março, no âmbito da libertação coordenada de 426 milhões pela AIE. As reservas são detidas pelos governos nacionais, enquanto a Comissão Europeia coordena as respostas, durante as crises, por forma a garantir uma abordagem unificada. Estima-se que as reservas cubram cerca de 90 dias de importações líquidas, ou cerca de 61 dias de consumo.

De acordo com os dados da UE, a França, com 120 milhões de barris, a Alemanha, com 110 milhões, e a Itália, com 76 milhões, são os principais detentores de reservas da UE. Também a Espanha detém grandes reservas, enquanto países como a Bélgica, o Luxemburgo e Malta detêm reservas substanciais, noutros países da UE.

Como dissemos, 20 dos estados-membros da UE-27 contribuíram para a libertação de emergência de petróleo coordenada pela AIE, num total de 91,7 milhões de barris, ou seja, cerca de 20% dos 426 milhões de barris libertados em 11 de março. A Alemanha libertou 19,5 milhões de barris, seguida da França (14,6), da Espanha (11,6) e da Itália (10).

Assim, as reservas de emergência de petróleo dos estados-membros da UE em resposta às perturbações no Médio Oriente, os países  da UE contribuem com 91,7 milhões (Mb) de barris de um total de 426 Mb libertados pela AIE. Por ordem crescente, surgem: o Luxemburgo, com 0,1 Mb; a Bélgica, a Estónia e a Letónia, com 0,3 Mb, cada; a Lituânia, com 0,6 Mb; a Dinamarca, com 1,2 Mb; a Irlanda, com 1,7 Mb; a Finlândia, com 1,8 Mb; a Grécia e Portugal, com 2 Mb, cada; a Suécia, com 2,1 Mb; a Chéquia, com 2,2 Mb; a Áustria, com 2,4 MB; os Países Baixos, com 5,4 MB; a Hungria, com 6,1 Mb; a Polónia, com 7,5 Mb; a Itália, com 10 Mb; a Espanha, com 11,6 Mb; a França, com 14, 6 Mb; e a Alemanha, com 19,5 Mb.

Homayoun Falakshahi, analista sénior de energia da agência de informação comercial Kpler, disse que as reservas libertadas pela AIE estão a ser utilizadas, a nível interno. Depende dos países, mas estão a ser libertadas ao ritmo de cerca de 2,5 milhões de barris, por dia, o que significa que darão para cerca de 160 dias. Fatih Birol, diretor da AIE, afirmou, a 1 de abril, num podcast com Nicolai Tangen, CEO do Norges Bank Investment Management, que está a considerar nova libertação das reservas estratégicas de petróleo. E Dan Jørgensen declarou ao Financial Times, a 2 de abril, que a UE “não excluirá outra libertação”, se as condições se agravarem.

As reservas da UE contêm, atualmente, 270 milhões de barris de petróleo bruto, o que corresponde a um volume suficiente para três semanas de consumo, depois de refinado em gasóleo, em gasolina ou em combustível para aviões. As reservas estratégicas e a redução das existências estão a fazer parte do ajustamento restante, suportando cerca de seis milhões de barris, por dia, de procura, segundo a empresa de consultoria económica Oxford Economics. Porém os analistas alertam para o facto de estes amortecedores serem finitos e se tornarem menos eficazes, com o tempo, prevendo um défice de cerca de dois milhões de barris de petróleo, por dia. E, no cenário de guerra prolongada com o Irão, estima-se que a lacuna aumente para cerca de 13 milhões de barris de petróleo, por dia, no sexto mês.

Embora a crise energética de 2022 tenha afetado as importações de gás natural, depois de a UE ter perdido, abruptamente, 40% a 45% do combustível russo, a situação está cada vez mais difícil, à medida que se instala a grande escassez de petróleo, o que levou a indústria petrolífera a recordar os cerca de quatro mil milhões de barris de recursos petrolíferos inexplorados, na Europa, de acordo com a Associação Internacional de Produtores de Petróleo e Gás (IOGP).

“A questão não é se precisamos ou não deles. […] A verdadeira escolha é se os produzimos no nosso país ou se importamos mais do estrangeiro”, disse à Euronews Nareg Terzian, diretor de estratégia e comunicação da IOGP Europa, sugerindo que estes recursos inexplorados são uma “rede de segurança à disposição da UE”, juntamente com os esforços contínuos do bloco para eletrificar e para melhorar a eficiência energética, através do isolamento de edifícios e de tecnologias que ajudam a reduzir o consumo de energia.

Além dos campos do Mar do Norte e dos campos em terra, muito mais poderia ser descoberto em áreas de exploração bastante novas, como o Mediterrâneo Oriental e o Mar Negro.

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A subida dos preços do petróleo e do gás, na Europa, resultante da guerra que envolve o Irão, não voltará aos níveis normais tão cedo, mesmo que a paz seja declarada amanhã, alertou o comissário da Energia da UE, a 31 de março, numa conferência de imprensa após a reunião dos ministros da energia da UE, pois, embora não haja escassez imediata de petróleo e de gás em todo o bloco de 27 membros, há pressão sobre o abastecimento de gasóleo e combustível para aviação e restrições crescentes, nos mercados globais de gás, que fazem subir os preços da eletricidade. Contudo, afirmou que o braço executivo da UE está a preparar uma série de medidas para ajudar as famílias e as empresas a fazerem face à subida acentuada dos preços do petróleo, que provocou aumentos de cerca de 70%, no gás, e de 60%, no petróleo, na Europa.

Segundo Dan Jørgensen, desde o início desta guerra, a fatura da UE com a importação de combustíveis fósseis aumentou 14 mil milhões de euros (€), o que implica ação coordenada entre os estados-membros da UE, para “evitar respostas nacionais fragmentadas e sinais perturbadores para os mercados”. A “caixa de ferramentas” de medidas em preparação, que será revelada, em breve, incluirá formas de facilitar aos estados dissociarem os preços do gás dos preços da eletricidade. E está a ser considerada uma redução dos impostos sobre a eletricidade, como foi sugerido pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Dan Jørgensen disse que, embora não espere a repetição da crise do gás natural de 2022, durante a qual as empresas obtiveram grandes lucros com a subida dos preços, “continua a ser uma possibilidade” um “imposto extraordinário” sobre essas empresas. Há boas oportunidades para os estados-membros prestarem apoio financeiro a grupos vulneráveis e a indústrias sob “stresse extraordinário”, e a Comissão tornará tais possibilidades ainda mais simples e amplas.

O comissário encorajou os países da UE a considerarem o plano de 10 pontos da AIE, que inclui trabalhar a partir de casa, reduzir a velocidade das autoestradas, promover os transportes públicos e aumentar a partilha de automóveis. Todavia, a UE continua empenhada na proibição da compra de gás russo, para reduzir a dependência dos fornecimentos russos e para cortar o financiamento da guerra russa na Ucrânia. A dependência do gás russo caiu de 45%, antes da guerra, para 10% e espera-se que caia para zero, quando as importações de fornecedores alternativos aumentarem, especialmente dos Estados Unidos da América (EUA). E a UE está a explorar novas fontes de energia do Azerbaijão, da Argélia, do Canadá e de pequenos produtores mundiais.

Dan Jørgensen advertiu que a UE não deve “repetir os erros do passado, permitindo que Putin use a energia como arma contra nós e chantageie os estados-membros”, sendo inaceitável que a UE comprasse energia que ajudaria a financiar guerra que Putin trava na Ucrânia.

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Em poucas semanas, o conflito no Irão redefiniu a equação energética europeia. O preço de referência do gás natural TTF (Title Transfer Facility) holandês subiu, desde o início do mês de março, de 38 para 54 euros por megawatt-hora (MWh), uma subida de 70% que põe março de 2026 na rota do maior aumento mensal dos preços do gás, na Europa, desde setembro de 2021, um número com impacto muito para lá dos mercados de energia.

A 24 de março, as reservas subterrâneas de gás estavam em apenas 28,4%, ou 325 terawatt-hora (TWh), menos 5% do que na mesma data de 2025 e muito abaixo da média sazonal dos últimos cinco anos, segundo a Kyos European Gas Analytics. A Alemanha está entre os países mais expostos, com as instalações a 22,3% da capacidade, quase menos 7%, em termos homólogos. A França apresenta situação semelhante, com 22,1%. Os Países Baixos são o caso mais crítico no continente: o armazenamento caiu para 6,0%, ou 9 TWh, menos de um terço do nível de há um ano e muito abaixo do mínimo histórico para esta altura do ano.

Portugal entra na crise com os reservatórios 85,3% cheios e a Espanha com 55,5%, ambos a beneficiarem de maior capacidade de importação de gás natural liquefeito (GNL), de menor dependência do gás na produção elétrica e de uma expansão das renováveis que reduzem estruturalmente, a exposição às oscilações dos preços grossistas do gás.

O choque de oferta, na origem, é estrutural, não temporário. O Qatar – segundo maior exportador mundial de GNL, com 84 mil milhões de metros cúbicos, por ano, e fornecedor-chave de vários estados-membros da UE – confirmou que não consegue cumprir todas as obrigações contratuais, depois dos ataques do Irão, no início do mês, à Ras Laffan Industrial City.

Numa nota de investigação datada de 22 de março, o Goldman Sachs elevou a sua previsão para o TTF, no segundo trimestre de 2026, de 63 para 72 €/MWh, alertando que a Europa terá de desviar cargueiros de GNL de compradores asiáticos concorrentes para encher, adequadamente, as reservas antes do inverno. Num cenário adverso – em que os fluxos energéticos através de Ormuz se mantêm deprimidos, em 10 semanas, em vez de seis –, a média do TTF, no verão, pode superar os 89 €/MWh. E, em cenário muito adverso, que inclua danos mais prolongados na infraestrutura do Qatar, o TTF pode manter-se acima dos 100 €/MWh, em todo o verão.

Se o trânsito por Ormuz permanecer suspenso durante três meses, o contrato TTF do mês seguinte pode subir para cerca de 90 €/MWh. No limite superior, nesse cenário, os preços podem situar-se entre 115 e 155 €/MWh, visto que cerca de 28,6 mil milhões de metros cúbicos de GNL seriam retirados do mercado mundial. Um encerramento de seis meses faria subir a média do TTF para perto de 160 €/MWh, uma pressão ao estilo de 2022 ou pior, com preços potencialmente entre 145 e 240 €/MWh e com o enchimento das reservas para o próximo inverno a tornar-se “quase impossível”. Para referência, o TTF atingiu um máximo de 345 €/MWh, em agosto de 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Para as famílias europeias, o choque é real, mas repercute-se de forma desigual nas várias componentes da fatura energética. Os preços da eletricidade estão a subir, à medida que o custo do gás se repercute nos mercados grossistas de eletricidade, mas o impacto é mais diluído, ao nível do consumidor final. O mercado elétrico está a incorporar parte do choque do gás, estimando-se o efeito nas faturas das famílias em alguns pontos percentuais, visível, mas muito abaixo dos 60 a 70% de aumento registados no gás grossista.

Nos combustíveis, a pressão vai além do crude, com fretes mais caros, com prémios de seguro mais elevados e com limitações na refinação a fazerem subir os custos ao longo de toda a cadeia.

Embora a Itália esteja em melhor posição do que a média da UE, com reservas de gás a 43,9%, a ameaça imediata é de preços, não de falta física de gás.

A tendência desinflacionista que a Europa viveu nos últimos três anos terminou, pelo menos, no curto prazo. O Goldman Sachs previa que a inflação homóloga geral na Zona Euro subisse para 2,7% em março, bem acima dos 1,89% de fevereiro, impulsionada quase totalmente pela energia, cujo contributo deverá passar de -3,1% para +5,9% homólogos, num só mês. Também a trajetória de médio prazo mudou de forma abrupta: o banco antecipou uma inflação média de 2,9%, em 2026, com um pico de 3,2%, no segundo trimestre.

A inflação subjacente – que exclui energia e alimentos – deverá subir gradualmente, atingindo 2,5%, no terceiro trimestre, à medida que os custos energéticos começam a refletir-se nos preços dos serviços e nos custos de transporte.

Fechou-se a janela em que o Banco Central Europeu (BCE) podia, de forma credível, alegar que estava a caminho da meta de 2%, pois a equação inverteu-se em poucas semanas. Assim, o Goldman Sachs espera que o Conselho do BCE aumente as taxas em 25 pontos base, na reunião de 30 de abril, e em junho, novamente. Com efeito, o Goldman Sachs reviu, em baixa, o crescimento do produto interno bruto (PIB) da Zona Euro, no conjunto do ano, para 0,7%, quase metade da trajetória prevista antes do conflito.

É pouco provável que o choque se aproxime da magnitude da crise energética de 2022-23, nem que atinja as economias da Zona Euro de forma tão uniforme como nessa altura. O sinal mais claro está nos mercados de eletricidade: embora os preços do gás tenham disparado 80%, desde o início do ano, os preços médios grossistas de eletricidade, nas cinco maiores economias da Zona Euro, mal se mexeram e continuam cerca de 14% abaixo dos níveis do início do ano.

Esse desacoplamento reflete a aceleração da expansão das renováveis na Europa, desde 2022, e o regresso da frota nuclear francesa à plena capacidade, uma mudança estrutural que funciona como amortecedor parcial. E a resposta orçamental deverá ser mais contida: os governos estão mais condicionados, os mercados obrigacionistas menos tolerantes e os decisores políticos mais cônscios dos riscos inflacionistas associados a apoios energéticos pouco focalizados.

A crise de 2022 foi um choque sistémico que expôs as vulnerabilidades que a Europa acumulou ao longo de décadas de gás russo barato. A atual é mais localizada, mais desigual e, por agora, mais gerível. A dúvida é saber até quando se manterá assim.

Por isso, os países-membros da UE devem estar preparados, devendo travar qualquer, tentativa de especulação, procurar novos fornecedores estratégicos, aconselhar a poupança energética e criar condições para ela, apostar nas energias renováveis e incentivar a sua produção e utilização.

2026.04.03 – Louro de Carvalho

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