Numa
altura em que a guerra no Médio Oriente mantém a restrição do abastecimento de
petróleo, em 12 milhões de barris, por dia, a União Europeia (UE) tenta
resolver o problema do aumento das faturas de energia e exorta os cidadãos do
bloco a reduzirem o número de carros. Com efeito, a questão é: Quanto tempo durarão
as reservas de petróleo da UE.
Os
analistas estimam que os 426 milhões de barris de petróleo libertados pela
Agência Internacional de Energia (AIE) – 91,7 milhões dos quais são contributo
de 20 países da UE – durarão cerca de cinco meses, mas o bloco conta com
reservas de armazenamento.
O
nível de alerta em toda a UE-27 intensificou-se quando o comissário da Energia,
Dan Jørgensen, mudou o enfoque da questão de preços para a potencial rutura do
abastecimento, na sequência da reunião de emergência dos ministros da Energia, a
31 de março. Nesse dia, disse aos governos da UE que o gasóleo e o
combustível para aviões corriam maior risco de escassez, devido à dependência
do Médio Oriente, alertou para um “potencial conflito prolongado” e apelou à “unidade
entre os países da UE”.
A
UE consome cerca de 10,5 milhões de barris de petróleo, por dia, isto é, cerca
de 10% da procura mundial, liderada pela Alemanha (2,3 milhões de barris),
seguindo-se a França (1,6 milhões de barris) e a Itália (1,3 milhões de
barris).
O
bloco dispõe de reservas petrolíferas de emergência de cerca de 100 milhões de
barris, uma mistura de petróleo bruto, gasóleo e gasolina, dos quais cerca de 91,7
milhões foram libertados a 11 de março, no âmbito da libertação coordenada de
426 milhões pela AIE. As reservas são detidas pelos governos nacionais,
enquanto a Comissão Europeia coordena as respostas, durante as crises, por
forma a garantir uma abordagem unificada. Estima-se que as reservas cubram
cerca de 90 dias de importações líquidas, ou cerca de 61 dias de consumo.
De
acordo com os dados da UE, a França, com 120 milhões de barris, a Alemanha, com
110 milhões, e a Itália, com 76 milhões, são os principais detentores de
reservas da UE. Também a Espanha detém grandes reservas, enquanto países como a
Bélgica, o Luxemburgo e Malta detêm reservas substanciais, noutros países da
UE.
Como
dissemos, 20 dos estados-membros da UE-27 contribuíram para a libertação de
emergência de petróleo coordenada pela AIE, num total de 91,7 milhões de
barris, ou seja, cerca de 20% dos 426 milhões de barris libertados em 11 de
março. A Alemanha libertou 19,5 milhões de barris, seguida da França (14,6), da
Espanha (11,6) e da Itália (10).
Assim,
as reservas de emergência de petróleo dos estados-membros da UE em resposta às
perturbações no Médio Oriente, os países da UE contribuem com 91,7
milhões (Mb) de barris de um total de 426 Mb libertados pela AIE. Por ordem
crescente, surgem: o Luxemburgo, com 0,1 Mb; a Bélgica, a Estónia e a Letónia,
com 0,3 Mb, cada; a Lituânia, com 0,6 Mb; a Dinamarca, com 1,2 Mb; a Irlanda,
com 1,7 Mb; a Finlândia, com 1,8 Mb; a Grécia e Portugal, com 2 Mb, cada; a Suécia,
com 2,1 Mb; a Chéquia, com 2,2 Mb; a Áustria, com 2,4 MB; os Países Baixos, com
5,4 MB; a Hungria, com 6,1 Mb; a Polónia, com 7,5 Mb; a Itália, com 10 Mb; a
Espanha, com 11,6 Mb; a França, com 14, 6 Mb; e a Alemanha, com 19,5 Mb.
Homayoun
Falakshahi, analista sénior de energia da agência de informação comercial Kpler,
disse que as reservas libertadas pela AIE estão a ser utilizadas, a nível
interno. Depende dos países, mas estão a ser libertadas ao ritmo de cerca de
2,5 milhões de barris, por dia, o que significa que darão para cerca de 160
dias. Fatih Birol, diretor da AIE, afirmou, a 1 de abril, num podcast com
Nicolai Tangen, CEO do Norges Bank Investment Management, que está a considerar
nova libertação das reservas estratégicas de petróleo. E Dan Jørgensen declarou
ao Financial Times, a 2 de abril, que a UE “não excluirá outra
libertação”, se as condições se agravarem.
As
reservas da UE contêm, atualmente, 270 milhões de barris de petróleo bruto, o
que corresponde a um volume suficiente para três semanas de consumo, depois de
refinado em gasóleo, em gasolina ou em combustível para aviões. As reservas
estratégicas e a redução das existências estão a fazer parte do ajustamento
restante, suportando cerca de seis milhões de barris, por dia, de procura,
segundo a empresa de consultoria económica Oxford Economics. Porém os analistas
alertam para o facto de estes amortecedores serem finitos e se tornarem menos
eficazes, com o tempo, prevendo um défice de cerca de dois milhões de barris de
petróleo, por dia. E, no cenário de guerra prolongada com o Irão, estima-se que
a lacuna aumente para cerca de 13 milhões de barris de petróleo, por dia, no
sexto mês.
Embora
a crise energética de 2022 tenha afetado as importações de gás natural, depois
de a UE ter perdido, abruptamente, 40% a 45% do combustível russo, a situação
está cada vez mais difícil, à medida que se instala a grande escassez de
petróleo, o que levou a indústria petrolífera a recordar os cerca de quatro mil
milhões de barris de recursos petrolíferos inexplorados, na Europa, de acordo
com a Associação Internacional de Produtores de Petróleo e Gás (IOGP).
“A
questão não é se precisamos ou não deles. […] A verdadeira escolha é se os
produzimos no nosso país ou se importamos mais do estrangeiro”, disse à Euronews
Nareg Terzian, diretor de estratégia e comunicação da IOGP Europa, sugerindo
que estes recursos inexplorados são uma “rede de segurança à disposição da UE”,
juntamente com os esforços contínuos do bloco para eletrificar e para melhorar
a eficiência energética, através do isolamento de edifícios e de tecnologias
que ajudam a reduzir o consumo de energia.
Além
dos campos do Mar do Norte e dos campos em terra, muito mais poderia ser
descoberto em áreas de exploração bastante novas, como o Mediterrâneo Oriental
e o Mar Negro.
***
A
subida dos preços do petróleo e do gás, na Europa, resultante da guerra que
envolve o Irão, não voltará aos níveis normais tão cedo, mesmo que a paz seja
declarada amanhã, alertou o comissário da Energia da UE, a 31 de março, numa
conferência de imprensa após a reunião dos ministros da energia da UE, pois,
embora não haja escassez imediata de petróleo e de gás em todo o bloco de 27
membros, há pressão sobre o abastecimento de gasóleo e combustível para aviação
e restrições crescentes, nos mercados globais de gás, que fazem subir os preços
da eletricidade. Contudo, afirmou que o braço executivo da UE está a preparar
uma série de medidas para ajudar as famílias e as empresas a fazerem face à
subida acentuada dos preços do petróleo, que provocou aumentos de cerca de 70%,
no gás, e de 60%, no petróleo, na Europa.
Segundo
Dan Jørgensen, desde o início desta guerra, a fatura da UE com a importação de
combustíveis fósseis aumentou 14 mil milhões de euros (€), o que implica ação
coordenada entre os estados-membros da UE, para “evitar respostas nacionais
fragmentadas e sinais perturbadores para os mercados”. A “caixa de ferramentas”
de medidas em preparação, que será revelada, em breve, incluirá formas de facilitar
aos estados dissociarem os preços do gás dos preços da eletricidade. E está a
ser considerada uma redução dos impostos sobre a eletricidade, como foi sugerido
pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
Dan
Jørgensen disse que, embora não espere a repetição da crise do gás natural de
2022, durante a qual as empresas obtiveram grandes lucros com a subida dos
preços, “continua a ser uma possibilidade” um “imposto extraordinário” sobre
essas empresas. Há boas oportunidades para os estados-membros prestarem apoio
financeiro a grupos vulneráveis e a indústrias sob “stresse extraordinário”, e
a Comissão tornará tais possibilidades ainda mais simples e amplas.
O
comissário encorajou os países da UE a considerarem o plano de 10 pontos da AIE,
que inclui trabalhar a partir de casa, reduzir a velocidade das autoestradas,
promover os transportes públicos e aumentar a partilha de automóveis. Todavia,
a UE continua empenhada na proibição da compra de gás russo, para reduzir a
dependência dos fornecimentos russos e para cortar o financiamento da guerra
russa na Ucrânia. A dependência do gás russo caiu de 45%, antes da guerra, para
10% e espera-se que caia para zero, quando as importações de fornecedores
alternativos aumentarem, especialmente dos Estados Unidos da América (EUA). E a
UE está a explorar novas fontes de energia do Azerbaijão, da Argélia, do Canadá
e de pequenos produtores mundiais.
Dan
Jørgensen advertiu que a UE não deve “repetir os erros do passado, permitindo
que Putin use a energia como arma contra nós e chantageie os estados-membros”,
sendo inaceitável que a UE comprasse energia que ajudaria a financiar guerra
que Putin trava na Ucrânia.
***
Em
poucas semanas, o conflito no Irão redefiniu a equação energética europeia. O
preço de referência do gás natural TTF (Title Transfer Facility) holandês subiu,
desde o início do mês de março, de 38 para 54 euros por megawatt-hora (MWh),
uma subida de 70% que põe março de 2026 na rota do maior aumento mensal dos
preços do gás, na Europa, desde setembro de 2021, um número com impacto muito
para lá dos mercados de energia.
A
24 de março, as reservas subterrâneas de gás estavam em apenas 28,4%, ou 325
terawatt-hora (TWh), menos 5% do que na mesma data de 2025 e muito abaixo da
média sazonal dos últimos cinco anos, segundo a Kyos European Gas Analytics. A
Alemanha está entre os países mais expostos, com as instalações a 22,3% da
capacidade, quase menos 7%, em termos homólogos. A França apresenta situação
semelhante, com 22,1%. Os Países Baixos são o caso mais crítico no continente:
o armazenamento caiu para 6,0%, ou 9 TWh, menos de um terço do nível de há um
ano e muito abaixo do mínimo histórico para esta altura do ano.
Portugal
entra na crise com os reservatórios 85,3% cheios e a Espanha com 55,5%, ambos a
beneficiarem de maior capacidade de importação de gás natural liquefeito (GNL),
de menor dependência do gás na produção elétrica e de uma expansão das
renováveis que reduzem estruturalmente, a exposição às oscilações dos preços
grossistas do gás.
O
choque de oferta, na origem, é estrutural, não temporário. O Qatar – segundo
maior exportador mundial de GNL, com 84 mil milhões de metros cúbicos, por ano,
e fornecedor-chave de vários estados-membros da UE – confirmou que não consegue
cumprir todas as obrigações contratuais, depois dos ataques do Irão, no início
do mês, à Ras Laffan Industrial City.
Numa
nota de investigação datada de 22 de março, o Goldman Sachs elevou a sua
previsão para o TTF, no segundo trimestre de 2026, de 63 para 72 €/MWh,
alertando que a Europa terá de desviar cargueiros de GNL de compradores
asiáticos concorrentes para encher, adequadamente, as reservas antes do
inverno. Num cenário adverso – em que os fluxos energéticos através de Ormuz se
mantêm deprimidos, em 10 semanas, em vez de seis –, a média do TTF, no verão,
pode superar os 89 €/MWh. E, em cenário muito adverso, que inclua danos mais
prolongados na infraestrutura do Qatar, o TTF pode manter-se acima dos 100
€/MWh, em todo o verão.
Se
o trânsito por Ormuz permanecer suspenso durante três meses, o contrato TTF do
mês seguinte pode subir para cerca de 90 €/MWh. No limite superior, nesse
cenário, os preços podem situar-se entre 115 e 155 €/MWh, visto que cerca de
28,6 mil milhões de metros cúbicos de GNL seriam retirados do mercado mundial. Um
encerramento de seis meses faria subir a média do TTF para perto de 160 €/MWh,
uma pressão ao estilo de 2022 ou pior, com preços potencialmente entre 145 e
240 €/MWh e com o enchimento das reservas para o próximo inverno a tornar-se
“quase impossível”. Para referência, o TTF atingiu um máximo de 345 €/MWh, em
agosto de 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Para
as famílias europeias, o choque é real, mas repercute-se de forma desigual nas
várias componentes da fatura energética. Os preços da eletricidade estão a
subir, à medida que o custo do gás se repercute nos mercados grossistas de
eletricidade, mas o impacto é mais diluído, ao nível do consumidor final. O
mercado elétrico está a incorporar parte do choque do gás, estimando-se o
efeito nas faturas das famílias em alguns pontos percentuais, visível, mas
muito abaixo dos 60 a 70% de aumento registados no gás grossista.
Nos
combustíveis, a pressão vai além do crude, com fretes mais caros, com prémios
de seguro mais elevados e com limitações na refinação a fazerem subir os custos
ao longo de toda a cadeia.
Embora
a Itália esteja em melhor posição do que a média da UE, com reservas de gás a
43,9%, a ameaça imediata é de preços, não de falta física de gás.
A
tendência desinflacionista que a Europa viveu nos últimos três anos terminou,
pelo menos, no curto prazo. O Goldman Sachs previa que a inflação homóloga
geral na Zona Euro subisse para 2,7% em março, bem acima dos 1,89% de
fevereiro, impulsionada quase totalmente pela energia, cujo contributo deverá
passar de -3,1% para +5,9% homólogos, num só mês. Também a trajetória de médio
prazo mudou de forma abrupta: o banco antecipou uma inflação média de 2,9%, em
2026, com um pico de 3,2%, no segundo trimestre.
A
inflação subjacente – que exclui energia e alimentos – deverá subir
gradualmente, atingindo 2,5%, no terceiro trimestre, à medida que os custos
energéticos começam a refletir-se nos preços dos serviços e nos custos de
transporte.
Fechou-se
a janela em que o Banco Central Europeu (BCE) podia, de forma credível, alegar
que estava a caminho da meta de 2%, pois a equação inverteu-se em poucas
semanas. Assim, o Goldman Sachs espera que o Conselho do BCE aumente as taxas
em 25 pontos base, na reunião de 30 de abril, e em junho, novamente. Com
efeito, o Goldman Sachs reviu, em baixa, o crescimento do produto interno bruto
(PIB) da Zona Euro, no conjunto do ano, para 0,7%, quase metade da trajetória
prevista antes do conflito.
É
pouco provável que o choque se aproxime da magnitude da crise energética de
2022-23, nem que atinja as economias da Zona Euro de forma tão uniforme como
nessa altura. O sinal mais claro está nos mercados de eletricidade: embora os
preços do gás tenham disparado 80%, desde o início do ano, os preços médios
grossistas de eletricidade, nas cinco maiores economias da Zona Euro, mal se
mexeram e continuam cerca de 14% abaixo dos níveis do início do ano.
Esse
desacoplamento reflete a aceleração da expansão das renováveis na Europa, desde
2022, e o regresso da frota nuclear francesa à plena capacidade, uma mudança
estrutural que funciona como amortecedor parcial. E a resposta orçamental
deverá ser mais contida: os governos estão mais condicionados, os mercados
obrigacionistas menos tolerantes e os decisores políticos mais cônscios dos
riscos inflacionistas associados a apoios energéticos pouco focalizados.
A
crise de 2022 foi um choque sistémico que expôs as vulnerabilidades que a
Europa acumulou ao longo de décadas de gás russo barato. A atual é mais
localizada, mais desigual e, por agora, mais gerível. A dúvida é saber até
quando se manterá assim.
Por
isso, os países-membros da UE devem estar preparados, devendo travar qualquer,
tentativa de especulação, procurar novos fornecedores estratégicos, aconselhar
a poupança energética e criar condições para ela, apostar nas energias
renováveis e incentivar a sua produção e utilização.
2026.04.03 – Louro de Carvalho
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