sexta-feira, 3 de abril de 2026

Celebração da Paixão do Senhor: memória e atualidade pascais

 

Em Sexta-feira Santa, dia em que, reunindo-nos em torno da cruz de Cristo, fazemos memória da Morte de Jesus na cruz, cumprem-se as palavras do profeta Zacarias que João nos recorda na sua narração da Paixão e Morte de Jesus: “Hão de olhar para Aquele que trespassaram.” A Liturgia da Palavra leva-nos, de facto, ao centro da celebração: a adoração da cruz de Cristo.

O primeiro contacto com a cruz de Cristo pode causar certo mal-estar. Numa sociedade em que se oculta e se evita o sofrimento, a contemplação do condenado provado pelo sofrimento incomoda e quase instintivamente leva à fuga e à indiferença. Contudo, temos de olhar a cruz de Cristo com olhos de ver e de nos demorar diante dela, sem nos atermos às primeiras impressões. Temos de descobrir o verdadeiro sentido da cruz de Cristo. Na verdade, todas as leituras do dia nos revelam uma dimensão importante da cruz de Cristo.

A primeira leitura (Is 52,13-53, 12), é o quarto cântico do Servo do Senhor, que as primeiras comunidades cristãs viram como imagem profética de Jesus crucificado. Jesus crucificado é o Servo justo e silencioso que não acusa nem invoca maldição e vingança para os que O maltratam, mas oferece a vida e intercede por eles. O sofrimento silencioso do Servo é mais eloquente do que muitos discursos. O silêncio não é resposta normal ao sofrimento indevido. Tanto a experiência comum como o Antigo Testamento nos mostram que os justos inocentes, quando são atingidos pelo sofrimento levantam a voz. Porém, o Servo do Senhor segue rota diferente: sofrendo injustamente, não grita por vingança. Não entra no círculo vicioso da vingança que gera violência atrás de violência, mas trava e vence este círculo de violência pelo perdão. A postura nova e inesperada que assumiu ante os maus tratos leva-nos a pensar. Passamos do profeta que profetiza para o profeta profetizado. Morto e sepultado, não fala. Fala dele Deus, falamos dele nós. Fala do Servo o grupo “nós” que, olhando o Servo, descobre o seu pecado. Como diz este texto e como dirá, mais tarde, Pedro: “Pelas suas chagas fomos curados.”

A segunda leitura (Heb 4,15-16; 5,7-9) apresenta-nos Jesus como o sumo-sacerdote, não num plano humano, porque não pertence a tribo sacerdotal de Levi, nem recebeu ordenação das mãos de homem. É o verdadeiro sacerdote, porque, sendo filho de Deus e verdadeiro Homem, tem todos os requisitos que o tornam o mediador entre Deus e os homens. Pela sua obediência até à morte e morte de cruz, ofereceu a Deus o sacrifício perfeito e obteve-nos a salvação. Deste sumo-sacerdote que se imola no altar da cruz podemos nos aproximar cheios de confiança, porque é Nele e na sua compaixão que encontramos a misericórdia e a sua graça.

O evangelho (Jo 18,1 – 19,42) relata a paixão de Jesus segundo João. Jesus, neste evangelho, tinha predito que “assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que Nele crê tenha a vida eterna”. Na verdade, é na cruz de Cristo que se revela plenamente Jesus. Ora, este relato acentua a majestade de Jesus. Jesus sabia tudo o que ia acontecer e, por isso, antecede-Se aos acontecimentos, mostrando a sua liberdade. Além disso, João não refere – ou refere muito ao de leve – os elementos que podiam acentuar a humilhação e o sofrimento de Jesus na Paixão. A Paixão é como que a marcha triunfal de Jesus até à cruz e a entronização real de Jesus. O diálogo entre Jesus e Pilatos é sobre a realeza de Jesus. Jesus revela-Se como o rei. São, pois, de extrema importância a apresentação de Jesus como rei por Pilatos aos Judeus e a inscrição que Pilatos mandou colocar na cruz de Cristo. O facto de em Jo 19, 19-22 aparecer, três vezes, a expressão “rei dos judeus” é artefacto de João para se aperceber que Jesus é rei na cruz. A inscrição que Pilatos mandou colocar na cruz é o último ato da revelação da realeza de Jesus. O diálogo entre Jesus e Pilatos prepara-nos para a interpretação da cruz e da morte de Jesus como manifestação da sua realeza.

João também apresenta a morte de Jesus como o verdadeiro e definitivo sacrifício do cordeiro pascal. Além das referências à Páscoa presentes em todo o relato, há detalhes que convém ter presentes. Em primeiro lugar, a unção de Jesus – a consagração de Jesus – acontece “seis dias antes da Pascoa”, isto é, no momento em que as prescrições rituais do Êxodo pedem que se separe o cordeiro destinado ao sacrifício pascal. É de recordar que Jesus morre no dia da preparação, na hora em que os cordeiros pascais eram sacrificados para a festa. Por isso, se recorda o cumprimento da profecia de que “não lhe quebraram nenhum osso”, referência clara a Jesus como verdadeiro cordeiro de Deus. O tema de Jesus como o cordeiro de Deus já tinha sido pré-anunciado no início do quarto evangelho com a proclamação “Eis o Cordeiro de Deus!”

O Deus revelado na cruz de Cristo seduz-nos com a sua beleza e convida-nos a uma maneira muito concreta de seguimento. Defronte do Deus revelado na cruz de Cristo, o homem não pode ficar indiferente: é chamado, na sua liberdade, a tomar uma decisão.

A cruz explica quem é e como é Deus, em cada uma das pessoas da Trindade. Podemos, então dizer que na cruz de Cristo descobrimos a verdadeira beleza: o todo que se revela no fragmento. A verdadeira beleza é o Homem sem beleza nem atrativo de Isaías. É a Beleza cravada no monte do calvário, mortal e salvífica. É mortal, porque recorda aos habitantes do tempo a caducidade da sua permanência. É salvífica, porque nos convida a transgredir o tempo rumo à eternidade. Ao contemplarmos a Beleza cravada no monte do calvário, ocorre um choque em nós. A revelação do amor apaixonado de Deus na Paixão de Cristo não nos deixa indiferentes.

O Deus revelado ‘sub contrario’, na cruz da beleza, convida o homem ao seguimento, a um modo concreto de estar, de se situar e de agir no Mundo. A Igreja, nascida do lado aberto de Cristo do qual manam sangue e água, prefiguração dos sacramentos do batismo e da eucaristia, é chamada a ser discípula da cruz de Cristo. A cruz de Cristo deve ser o princípio hermenêutico e crítico do ser e da autoconstrução da Igreja. A Igreja que segue o Senhor Crucificado tem de ser uma Igreja pobre, que não busque o poder. Os principais beneficiários da ação da Igreja devem ser os pobres. A Igreja que ama o Crucificado tem de amar os crucificados com quem Ele Se identifica. Além disso, a Igreja que segue o Crucificado deve ser uma Igreja fecunda no sofrimento dos seus membros e que se alegra, quando é perseguida pela sua autenticidade. A Igreja, peregrina na Terra, é chamada a seguir Cristo pelos passos do sofrimento, da paixão e da cruz. Como Jesus arriscou a vida em defesa dos valores do Reino, assim a Igreja está chamada a ter uma dimensão profética. Por isso, cada membro da Igreja, corpo místico do Senhor Crucificado, deve seguir a via da cruz, da entrega da vida por amor e fidelidade. Todos e cada um dos discípulos de Jesus devem confrontar a sua imagem com a de Jesus crucificado-ressuscitado. Cristo crucificado tem de ser o critério hermenêutico e fundacional do ser, do pensar e do atuar dos discípulos.

***

Os fiéis devem pensar com quais dos personagens do relato da Paixão mais se identificam e não vê-la como facto passado de há dois mil anos, mas atual, com cada cristão a refletir como a Paixão de Cristo se relaciona com a própria vida e com o testemunho da fé na Igreja e na sociedade. Se a Paixão de Jesus acontecesse hoje, nas nossas ruas, nos nossos tribunais, na nossa sociedade, como é que reagiríamos? É claro que é mais fácil anunciar Cristo, agora, do que na época dos primeiros cristãos, com a certeza do testemunho dos apóstolos, da fé dos mártires e tantos santos e santas e de pessoas simples e ilustres que creram firmemente na fé da Igreja.

Há três personagens a destacar: Simão Cireneu, José de Arimateia e Nicodemos – que têm muito a ensinar num Mundo em que as pessoas estão preocupadas com a própria vida, indiferentes à dor do próximo, espalham mentiras sobre os demais e no qual há quem seja capaz de criticar a Igreja por falar sobre amizade social.

O Cireneu não se envergonhou de carregar a cruz de Cristo, sabendo que este foi condenado, injuriado, torturado e acusado como falso profeta. Foi uma pessoa solidária com o sofrimento do próximo, sensível a Jesus que já não aguentava o peso da Cruz. Hoje, a insensibilidade é um dos problemas mais sérios e que faz com que percamos em qualidade humana. Entretanto, Jesus carregou sobre Si o peso que deveria estar sobre nossas costas. Pelas suas feridas, fomos curados. Jesus é o bom samaritano da Humanidade.

Também José de Arimateia e Nicodemos tiveram a coragem de testemunhar a sua adesão a Cristo, para que pudesse ser sepultado condignamente. Tanto José de Arimateia como Nicodemos, embora ocupassem altos cargos, fossem altamente reconhecidos, tiveram a coragem de se expor para dar digna sepultura a Jesus. Declararam-se discípulos de Jesus. Hoje, quantas vezes acontece que, na hora H, as pessoas não se querem expor ou envolver, não se fazem defensoras da verdade, do que é justo, do que é digno e do que merece ser honrado!

***

Diferente dos Sinóticos, João apresenta elementos peculiares. Um Jesus dramático na hora final não é uma vítima, mas alguém que decide, consciente e livremente oferecer a sua vida.

“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste Mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no Mundo, amou-os até o fim”. “Durante a ceia, quando já o diabo pusera no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, sabendo que o Pai tudo pusera em suas mãos e que viera de Deus e a Deus voltara, levanta-Se da mesa, depõe o manto e, tomando uma toalha, cinge-Se com ela.” O verbo oida (sabendo) indica a plena consciência do que se faz. É o lava-pés, símbolo do serviço e da purificação!

Outro dado importante é o destaque dado ao jardim. A Paixão tem o início e o término no jardim. “Jesus foi com os discípulos para o outro lado da torrente do Cedron. Havia ali um jardim, onde Jesus entrou com os seus discípulos.” “Havia um jardim, no lugar onde Ele fora crucificado e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ninguém fora ainda colocado.” É uma alusão ao jardim do Éden. Nele, o velho Adão rejeita o desígnio de Deus para si e depara-se com a morte. Jesus, o novo Adão, acolhe o desígnio de Deus e assume-o até as últimas consequências, oferecendo a sua vida para que pudéssemos ter vida plena.

O relato joanino é o único a usar a expressão “hora de Jesus”, que indica a sua glorificação, o seu retorno ao Pai. Assim, para João, a morte de Jesus na cruz não tem caráter negativo, não é fracasso, derrota, mas, nela manifesta-se a glória, a vitória. É necessário que o Filho do homem seja elevado sobre a cruz. É o julgamento deste Mundo, em que o seu príncipe é derrubado.

No episódio da prisão, Jesus vai ao encontro de Judas e não é pego de surpresa como narra Marcos. O Jesus joânico não se encontra inclinado, não dobra os joelhos, não se prostra com o rosto em terra em oração, não cai por terra. Permanece de pé, pois é Deus.

Os representantes do poder político, civil e religioso são abatidos, quando Jesus diz o seu nome ‘Eu sou’, mostrando que ninguém Lhe pode arrebatar a vida, a não ser que Ele o permita.

Na narrativa joanina, não há um procedimento formal ante Caifás, mas um interrogatório diante de Anás, para saber se Jesus admite algo de revolucionário em seu movimento ou ensinamentos. Neste interrogatório, Jesus apresenta-se absolutamente autoconfiante a Anás, de modo que os seus captores são responsabilizados por O injuriarem. O interrogatório deixa Anás perplexo, e não Jesus. João não menciona o processo judaico, pois o mesmo já se encontra em todo o seu evangelho, desde o início, quando os judeus enviam sacerdotes e levitas para saberem quem era Jesus, até a decisão das autoridades judaicas de matá-lo.

Quanto à negação de Pedro, João apresenta o drama completo do apóstolo. É um dos que cortaram a orelha do soldado. Sobressaem as simultâneas negações de Pedro e da autodefesa de Jesus. E é o único a referir a presença de outro discípulo, que a tradição identifica como João, filho de Zebedeu.

Na presença no tribunal romano, é de destacar o foco de João à postura de Jesus. Apresenta um Jesus eloquente que responde às falsas acusações e aos questionamentos dos opositores, que assume o título de “Rei dos judeus” e testemunha a verdade. Não há um julgamento de Jesus por Pilatos. Não é Jesus que teme Pilatos; é Pilatos quem tem medo de Jesus, o Filho de Deus. Pilatos não tem autoridade independente sobre Jesus.

Na narrativa da crucifixão, da morte e do sepultamento, João não menciona Simão de Cirene. Isso não significa que Simão não tenha ajudado Jesus, mas combate alguns pensamentos heréticos que ventilavam no cristianismo primitivo, como o docetismo, segundo o qual Jesus não sofreu na cruz, mas um outro o substituiu.

Quanto à divisão das vestes de Jesus, João faz alusão explícita, mostrando que essa repartição faz parte do cumprimento das profecias acerca do Messias. “Isso, a fim de se cumprir a Escritura que diz: ‘Repartiram entre si minhas roupas e sortearam minha túnica’.” E  explicita que a túnica de Jesus não foi rasgada, mas dividida. A túnica sem costura fez pensar na Igreja una, que não deve ser dividida. Mas este pensamento é de época posterior, com são Cipriano, quando a unidade da Igreja está ameaçada. Embora tenha uma bela explicação teológica, não é certo que João tenha pensado nisso. O apóstolo terá aludido à veste de José, túnica tecida com mangas, que os irmãos embebem no sangue para que Jacob o julgue morto ou pensará na túnica do Sumo Sacerdote, que era de uma só peça e que Filão compara ao Mundo com os seus quatro elementos. A túnica sem costura usada por Jesus, segundo alguns teólogos, significa que João não queria apresentar Jesus só como rei, mas também como sacerdote. E, no relato da crucificação, destaca-se a presença das mulheres, inclusive a mãe de Jesus que estava ao pé da cruz com o apóstolo João.

As últimas palavras de Jesus na cruz também diferem das tradições de Mateus e de Marcos. Em João, Jesus diz: “Tenho sede” e, “está consumado”. A cena é de calmaria. Com isso, o evangelista apresenta Jesus como Aquele que controlava o seu próprio destino.

Mateus e Marcos colocam na boca de Jesus o início do salmo 22,2. João, ao mencionar o grito de sede de Jesus, pensa no salmo 69,22 que diz: “Como alimento deram-me fel e, na minha sede, serviram-me vinagre”. Até o grito mais humano de: “Tenho sede!” pode ser colocado no contexto do soberano controlo de Jesus sobre seu próprio destino.

A entrega do espírito de Jesus é rica de significado teológico. “Quando Jesus tomou o vinagre, disse “Está consumado!” “E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.” Para João, a entrega do Espírito Santo deu-Se com a morte na cruz e na ressurreição, ao soprar sobre os apóstolos o Espírito Santo. João estará a sugerir, por simbólica antecipação, que Jesus entregou o seu Espírito a seus seguidores ao pé da cruz, em particular, aos dois expressamente citados (a mãe e o discípulo amado), idealizados pela comunidade joanina como os seus antecedentes.

João não menciona os sinais externos da Natureza, mas destaca o sinal no corpo de Jesus: “Mas um dos soldados traspassou-Lhe o lado com a lança e, logo, saiu sangue e água.” O sangue lembra a dimensão carnal (humanidade) e a água a dimensão espiritual (divindade). Em João, a água é comparada ao Espírito: “Aquele que crê em mim”, conforme a palavra da Escritura: De seu seio jorrarão rios de água viva. Ele falava do Espírito que deviam receber os que haviam crido nele, pois não havia ainda Espírito porque Jesus ainda não fora glorificado” (Jo 7,38-39). Sendo, para João, a cruz o lugar da glorificação de Jesus, essa profecia cumpre-se, “pois a mistura de sangue e água é o sinal de que Jesus passou desse Mundo para o Pai e foi glorificado. O sangue e a água jorrados do corpo do Crucificado foram interpretados pelos Padres da Igreja como o surgimento dos dois sacramentos da Iniciação Cristã: Batismo e Eucaristia, e desses dois sacramentos, o nascimento da Igreja, a nova Eva, que sai do lado do novo Adão.

No sepultamento de Jesus, João menciona o aparecimento de Nicodemos. “Nicodemos, que procurava, anteriormente, Jesus à noite, também veio, trazendo cerca de cem libras de uma mistura de mirra e aloés.” Não tinha aderido, totalmente, à proposta de Jesus, mas, agora, tem a coragem de mostrar o seu interesse pela pessoa de Jesus. As palavras de Jesus começam a tornar-se verdadeiras: “Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos os homens a mim.”

Os Sinóticos referem os perfumes usados para ungir o corpo de Jesus, mas João, ao destacar a enorme quantidade de perfume, cerca de 32 quilos, evidencia a realeza de Jesus. Somente no sepultamento dos reis se usava tamanha quantidade de perfumes. Na Paixão segundo João, Jesus é apresentado como verdadeiro rei. A unção de Nicodemos lembra-nos o que diz o salmista a respeito das núpcias do rei-Messias com a Humanidade: “O teu trono é de Deus, para sempre e eternamente! O centro do teu reino é cetro de retidão! Amas a justiça e odeias a impiedade. Eis porque o teu Deus, te ungiu com óleo da alegria, como nenhum dos teus companheiros; mirra e aloés perfumaram tuas vestes.”

A Paixão de Cristo joanina é diferente dos Sinóticos, em vários aspetos. O Jesus de Mateus e Marcos sente-Se abandonado. Lucas pinta o Jesus que Se preocupa com os que choram e perdoa aos opositores. Para João, o crucificado não é o fracassado, mas o rei soberano vitorioso, sobre quem o mal não tem poder. Porém, todos os retratos de Jesus pintados pelos evangelistas são significativos. Importa que alguns sejam capazes de ver a cabeça pendente de tristeza, enquanto outros observem os braços abertos para perdoar, e outros percebam na tabuleta pregada na cruz a proclamação do rei soberano. A cruz, em João, não é símbolo de maldição, mas trono onde Jesus reina. Ao olhar para a cruz o homem de todos os tempos reconhece e escreve na tabuleta do seu coração que Jesus é o rei da sua vida.

***

É de combater a tentação de separar supostos elementos diferentes do mistério pascal. Este coroa, como um todo, a vida de Jesus que passou pelo Mundo a fazer o bem. A entrada triunfal em Jerusalém visa a celebração da Páscoa: na quinta-feira, Jesus institui a Eucaristia (entrega sacrificial e refeição comunitária), ordena a sua celebração, institui o sacerdócio e o mandamento do amor fraterno, como selo discipular; na sexta-feira, isto é exposto, publicamente, no Calvário (o centurião, João, a mãe, Maria Madalena e outras mulheres estão presentes); no sábado, tudo germina na terra silente; e, no domingo, tudo eclode em espanto, força e aleluia!

2026.04.03 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário