Celebrou-se,
a 2 de abril, como previsto, em sessão solene da Assembleia da República (AR), a
comemoração do cinquentenário da aprovação e da promulgação da Constituição da
República Portuguesa (CRP), com a óbvia presença dos deputados e com a comparência
de muitos convidados, com destaque para antigos deputados à Assembleia Constituinte
(AC), eleita a 25 de abril de 1975, e para antigos capitães de Abril.
Usaram
da palavra os deputados únicos representantes de partido, os representantes dos
grupos parlamentares, o presidente da Assembleia da República e o Presidente da
República.
***
Numa
sessão parlamentar polarizada, com vem sendo habitual, nos últimos tempos, a
intervenção de André Ventura, líder do partido do Chega, provocou saídas do
hemiciclo e das galerias, com o antigo secretário-geral do Partido Comunista Português
(PCP), Jerónimo de Sousa, convidado na qualidade de deputado da AC, a ser um
dos que se levantaram, ao ouvir a acusação de que os partidos de esquerda foram
cúmplices de homicídios cometidos após o 25 de Abril.
Tema
constante da sessão foi a revisão constitucional, que o presidente da AR, José
Pedro Aguiar-Branco, considerou uma “possibilidade política” e não “uma traição”,
defendendo que a CRP “é mais flexível e mais abrangente do que muitos pensavam”.
Os
representantes das bancadas à direita confluíram na possibilidade de revisão e
os da esquerda afastaram-se do processo, entre críticas a eventual entendimento
da Aliança Democrática (AD) com o Chega. Eurico Brilhante Dias, líder
parlamentar do Partido Socialista (PS), vincou a fidelidade do partido à atual
Constituição e o deputado Filipe Sousa, do Juntos pelo Povo (JPP), divergiu do
consenso informal, ao advogar a regionalização como justificação para uma
revisão. E Paulo Núncio, representante do único partido que votou contra a CRP,
em 1976, e líder parlamentar do partido do Centro Democrático Social (CDS) fez
a defesa do “voto corajoso, democrático e patriótico e, sobretudo, de liberdade”,
através do qual os deputados do partido, então liderado por Freitas do Amaral,
deixaram claro que “Portugal merecia muito melhor do que um caminho para uma
sociedade socialista”.
O
primeiro a discursar foi o deputado do JPP, segundo o qual “celebrar este momento não pode apenas evocar
o passado”, mas obter o reconhecimento pleno das autonomias regionais, por motivo
de “justiça territorial”, num país demasiado “centralizado”, onde é preciso “construir
um Estado mais equilibrado e próximo das pessoas”, que passa pela
regionalização.
Inês
de Sousa Real, deputada única do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), destacou
o papel pioneiro dos constituintes, ao darem atenção à proteção do ambiente no
texto fundamental que descreveu como “um dos mais ambiciosos catálogos de
direitos fundamentais” e à afirmação dos direitos das mulheres, que passaram “a
ser cidadãs de pleno direito”. E afastou uma revisão constitucional por
partidos que apelam ao ódio, numa alusão à possibilidade de um acordo entre a
AD e o Chega, referindo os que defendem “três Salazares no nosso país”.
O
deputado único do Bloco de Esquerda (BE), Fabian Figueiredo, salientou o “exercício
de coragem coletiva” que implicou a construção da CRP, aprovada por “pessoas
tão diferentes” quanto Marcelo Rebelo de Sousa e o líder histórico comunista
Álvaro Cunhal, constituindo “um chão comum” – “um texto imune ao sectarismo de
trincheira”, escrito “na língua de Camões e Amílcar Cabral”.
O
líder parlamentar do CDS, Paulo Núncio, recordou o momento em que a bancada
centrista votou contra a CRP: “um voto corajoso, democrático e patriótico e,
sobretudo, um voto de liberdade” – menção que mereceu aplausos à direita do
hemiciclo, sobretudo, do Chega. Porém, o centrista considerou que as sucessivas
revisões se desviaram do caminho para o socialismo e destacou a revisão de
1982, que abriu o caminho para a Europa e substituiu o Conselho da Revolução
pelo Tribunal Constitucional, assim como ditou o fim da irreversibilidade das
nacionalizações e da Reforma Agrária.
O
líder do PCP, Paulo Raimundo, descreveu a Constituição de 1976 como uma “grande
vitória dos trabalhadores, da juventude, dos democratas e dos capitães de Abril”.
Defendeu que, “apesar dos golpes e das sete revisões, a Constituição continua a
dar um rumo de progresso para o país”.
“A
Constituição não é neutra e faz opções”, reconheceu o líder comunista, para
quem o texto fundamental toma as opções certas, que têm de ser implementadas.
Com
um cravo vermelho na mão, Paulo Muacho, deputado do Livre referiu os “muitos
problemas” de Portugal, como a subida dos preços das casas e o milhão e meio de
Portugueses sem médico de família, afastando que a CRP conste dessa “longa
lista”. Pediu que não nos tentem convencer de que os problemas que enfrentamos se
resolvem com revisões da CRP. E garantiu
que “os filhos, os netos e os bisnetos do 25 de Abril estarão prontos
para defender a democracia”.
Mariana
Leitão, líder da Iniciativa Liberal (IL), referiu-se ao “pacto de civilização
escrito pela voz de um povo inteiro” na Constituição de 1976, dizendo que “ficaram
consagrados direitos que pareciam impossíveis”, “que hoje nos parecem óbvios,
porque os temos”. Considera a CRP um alicerce, mas que “precisa da nossa
coragem de a atualizar e de a fazer crescer, sem nunca abandonar a defesa da
democracia liberal, do Estado de Direito e das liberdades individuais”.
O
líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, repetiu a saudação de Mário
Soares, na AC, aos militares de Abril; “Nunca é de mais lembrar que somos todos
filhos e netos de Abril, da valentia e da coragem dos capitães que derrubaram
um regime com partido único.”
Depois,
recordou Maria Barroso, para falar no “corte com um passado de guerra, [de] emigração
forçada e [de] pobreza”, traduzido na CRP. E, referindo-se aos novos problemas
e aos novos desafios como o acesso à habitação, elogiou uma Constituição “na
qual se reveem os verdadeiros democratas, da esquerda e da direita”. E voltou
às palavras de Mário Soares, há meio século, para dizer que “o PS é fiel à
atual Constituição”.
O
líder do Chega começou o seu discurso sobre os 50 anos da CRP, “que, de alguma
forma, nos projetou o futuro”, dizendo que os problemas do país eram diferentes
dos de hoje. Depois, lembrou os presos sem mandato e os mortos em atentados,
mencionando grupos terroristas “patrocinados por muitos deputados da
Constituinte” e verberando que a AR tenha amnistiado os membros da FP-25 de
Abril.
Sustentando
que a Constituição não é uma Bíblia sagrada, mas “um consenso de uma
comunidade, que muda e se altera”, disse que é necessária uma revisão
constitucional, “pois não temos de ter uma Constituição que caminhe para o
socialismo nem para o cheganismo”. E termina, citando Sá Carneiro: “A política
sem ética é uma vergonha, mas a política sem risco é uma chatice.”
Cristóvão
Norte, deputado do Partido Social Democrata (PSD), emocionado, evocou o pai,
que foi deputado da AC, dizendo que “uma das forças da Constituição está na
capacidade que ela própria prevê de se rever”, sem questionar os seus
princípios, mas adaptando-se à realidade. E, evidenciando os “alicerces
fundamentais” da democracia, da liberdade e da dignidade humana, de tudo o que
pode ser “aperfeiçoado”, frisou que “a democracia exige um chão comum, onde
possamos discordar”. “Quando o ressentimento se torna motor da ação política,
alimentam-se os radicalismos”, disse, fazendo uma referência ao episódio que
marcou a sessão solene. “Ninguém tem de se ir embora. Todos fazemos falta aqui”,
proferiu.
O
presidente da Assembleia da República começou o seu discurso com uma homenagem
a seis repórteres fotográficos que fizeram a cobertura jornalística dos
trabalhos da AC, que mereceram aplausos de todas as bancadas do hemiciclo.
Admitindo
que falar sobre a Constituição de 1976 “é um exercício exigente, José Pedro
Aguiar-Branco disse que todas as palavras que possa dizer “vão ter segundas
leituras”, mas assumiu o risco. “É a pedra angular do nosso sistema político e
da nossa democracia”, declarou.
Para
Aguiar-Branco, a sobrevivência do texto, escrito há 50 anos, com todas as
diferenças entre o Portugal de 1976 e de 2026, resiste, “porque é mais flexível
e mais abrangente do que muitos pensavam”, pois está escrito, “para se adaptar
aos tempos” e a sua revisão é “uma possibilidade política” e não “uma traição”.
“Mudamos as palavras, mudamos os textos, mas o elo que nos liga a 1976
permanece”, disse, recordando que o Presidente da República foi deputado e
votou a última revisão constitucional. “Temos muitas diferenças, temos muitas
causas fraturantes, mas a Constituição não é uma causa fraturante”, continuou,
pedindo aos deputados “um pouco mais de confiança na Constituição”, que é um
garante de estabilidade.
***
Merece
realce a intervenção do Presidente da República, para quem a CRP, escrita “com
mãos ainda trémulas de liberdade”, é o “pacto mais solene” de Portugal “com o
futuro”, pois constitui “a voz de um povo que, saindo das sombras de décadas de
silêncio, escolheu a luz da democracia, da dignidade e da justiça social como
seus valores fundacionais”. E disse que a data que evocamos, nesta casa,
expressão plural da soberania do povo português, pertence “ao Portugal que
somos e que queremos continuar a ser”.
Depois,
o chefe de Estado homenageou os Capitães de Abril que “nos devolveram a
Liberdade e foram fiéis ao seu compromisso: instaurar a Democracia com eleições
livres em Portugal”; e à AC, cujos “membros cumpriram a missão, em menos de um
ano, em condições instáveis, perante o ceticismo dos habituais Velhos do
Restelo que vaticinavam uma tarefa inacabada”, tendo contribuído, decisivamente,
“na construção de uma República livre, plural e assente no Estado de Direito
democrático”. O chega e o CDS não alinharam no aplauso geral.
Citando
o presidente da AC, Henrique de Barros, referiu que os constituintes foram
“dignos” de si “próprios, dotando a nossa pátria com uma Constituição que, na
sua essência”, resiste “à prova do tempo”. E, citando António Macedo, um dos
constituintes, lembrou que “não foi apenas uma lei que revogou outra lei”, mas
que, “no mais profundo significado das coisas, foi revogado um país e outro lhe
sucedeu”, pois “éramos uma ditadura” e “somos uma democracia”.
Observou
que a CRP soube resistir ao tempo, “revelando flexibilidade, sem perder a sua
essência”, pois “conjugou sempre a adaptação a novos desafios com o
universalismo dos valores que transporta” e “é a matriz comum que dá
continuidade e estabilidade à nossa democracia” e “o escudo do cidadão, perante
o arbítrio do poder” ou “a garantia da cidadania: todos iguais nos direitos e
nos deveres”.
No
dizer do Presidente da República, a CRP “serviu de bússola à construção de
muitas das respostas que Portugal deu ao nosso povo” e “tornou possível o
Estado Social, um percurso de dignidade, solidariedade e projeção de futuro,
assente nos direitos à saúde, à educação, à cultura, à habitação e à segurança
social”.
Verificando
que “os Portugueses guardam pela Constituição um apreço vigilante” e se orgulham
“do que ela diz”, mas se inquietam “com o que ela ainda não faz”, clarificou
que “não é a Constituição que impede a resolução dos problemas concretos dos Portugueses”,
mas o “seu incumprimento” e “a incapacidade de vários poderes [que acordaram demasiado
tarde] em concretizarem, de forma efetiva, os direitos que ela consagra”.
O
Presidente da República sabe que “não tem poder legislativo nem executivo”, mas,
como jurou, tudo fará para “defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da
República Portuguesa”. Nesse sentido, trabalhará “em cooperação com os outros
órgãos de soberania, para que os desígnios do Estado Social não sejam letra
morta”, mas “se consubstanciem em melhores condições de vida para os Portugueses,
a começar pela melhoria do Serviço Nacional de Saúde”. De igual modo, cooperará
para esbater a “desigualdade socioeconómica, territorial e de género, feridas
que se agravam, discriminações que persistem, pobreza que subsiste, mesmo entre
quem trabalha”, bem como para combater a
“corrupção que mina o funcionamento da sociedade e a confiança nas instituições”.
Com efeito, o chefe de Estado diz que “tem de ser concretizado, um dos mais
nobres princípios constitucionais: o de uma sociedade justa e solidária”.
No
quadro do acesso à habitação, denuncia “os recordes históricos nos custos de
habitação e nas taxas de esforço no arrendamento [que] esmagam o orçamento
familiar”.
Aludindo
a certos próceres políticos do desvirtuamento da CRP e do seu incumprimento, sustenta
que “este património não pode ser destruído, sobretudo, quando a neblina dos
tempos difíceis nos tenta desviar do caminho”, e que este é o momento da reafirmação
dos princípios fundamentais constantes dos onze artigos iniciais da CRP, “o
nosso ADN de nação livre, de vocação universalista e respeitadora do direito
internacional”.
O
Presidente da República adverte que “a Constituição não existe apenas nas
instituições”, mas “vive ou é posta em causa, em cada um de nós” e “nos valores
que partilhamos”. Com efeito, “a lei garante direitos e impõe deveres”,
esclarece, “mas é a cultura de respeito mútuo que torna esses direitos reais no
dia de hoje, na escola, no trabalho, na rua, nas redes sociais”.
Vinca
o chefe de Estado que “a Constituição deu-nos ferramentas”, cabendo-nos saber
usá-las. E, 50 anos depois, o maior tributo à CRP “é garantir que, a cada dia,
estamos mais próximos de uma ‘sociedade justa e solidária’ que não deixa
ninguém para trás”.
***
A
sessão terminou com o Hino Nacional cantado por Kátia Guerreiro. Depois, os deputados
da AC desceram ao hemiciclo para uma “foto de família” junto a um original da CRP
de 1976. Entre outros homenageados pelo presidente da AR, estiveram o antigo
líder comunista Jerónimo de Sousa e o anterior Presidente da República, Marcelo
Rebelo de Sousa. Dos atuais deputados, o momento foi presenciado, entre outros,
pelo secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, e pelo co-porta-voz do Livre,
Rui Tavares.
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É
de temer que esta sessão nublada constitua o canto do cisne da CRP com o mínimo
do espírito abrilino. O Chega, a IL e o CDS insistem numa revisão que a
expurgue da “ideologia” (direitos humanos e socioeconómicos, entre outros).
Tudo depende da coragem ou da acomodação do PSD. Se preferir uma revisão à
direita pesada, adeus vindima, que os cestos partiram! Se optar por uma revisão
em cooperação com forças de democráticas moderadas, a CRP continuará na sua
matriz fundacional. Porém, os indícios (leis da migração e nacionalidade) não
são bom augúrio.
O
PSD devia ler o artigo de Cavaco Silva no Expresso de 27 de março, em
que desmascara o Chega (mentira, contradição, incoerência, incapacidade) e diz
que, tendo sido ministro das Finanças e do Plano de Sá Carneiro e lido os seus
textos, lhe parece que não gostaria deste PSD. Caberá, pois, ao PSD ouvir os
politólogos que sustentam não haver condições politicas para uma revisão séria
da Lei Fundamental; e ao PS, ao Livre e a outros moderados fazerem eclodir os sobressalto
democrático contra uma revisão atrabiliária da CRP.
2026.04.02 – Louro de Carvalho
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