terça-feira, 7 de abril de 2026

Passagem da leitura de Saramago a opcional na escola cria polémica

 

A obra de José Saramago, o único escritor português laureado com o Prémio Nobel da Literatura, deixará de ser leitura obrigatória no 12.º ano do ensino secundário, de acordo com a proposta do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), em consulta pública, até 28 de abril, que permite às escolas optar por outro autor, mas que está a gerar controvérsia.

Tornar opcional uma das obras de Saramago, em alternativa à de outro autor, no caso, Mário de Carvalho, decorre da revisão das Aprendizagens Essenciais de Português. Aliás, os titulares da pasta da Educação gostam de fazer alterações nem sempre necessárias.

Todavia, convém esclarecer o assunto, pois não há retirada de obras do programa, nem inserção de obras no mesmo. Aliás, as mudanças agora propostas só deverão entrar em vigor no ano letivo 2027/2028, no âmbito de revisão mais alargada dos programas escolares. Estamos a falar apenas da lista de obras e de textos no âmbito da educação literária.

Assim, em termos de poesia, vem no topo, em poesia lírica, a obra de Fernando Pessoa: poesia do ortónimo (escolha de oito poemas), poesia dos heterónimos (escolha de três poemas de Alberto Caeiro, de três poemas de Ricardo Reis e de  três poemas de Álvaro de Campos). A seguir, vêm poemas de Cesário Verde: “Num Bairro Moderno”, “De Verão”, e a leitura integral de “O Sentimento dum Ocidental”, in Cânticos do Realismo – O Livro de Cesário Verde (introdução e nota biobibliográfica de Helena Buescu. Depois, temos poemas de Mário de Sá-Carneiro e de Teixeira de Pascoaes, em contrato de leitura (um compromisso individual de um aluno ou de um grupo de alunos). E, ainda, a escolha de seis poemas de, pelo menos, três poemas de poetas portugueses contemporâneos (em contrato de leitura): Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, António Ramos Rosa, Ruy Belo, Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral; ou Fiama Hasse Pais Brandão, José Régio, Mário Cesariny, Ruy Cinatti, Vitorino Nemésio, Carlos de Oliveira, Raul de Carvalho, Salette Tavares (poemas visuais), Ana Hatherly (poemas visuais) e Luís Filipe de Castro Mendes.

Na poesia épica, surge “Mensagem”, de Fernando Pessoa, com a escolha de três poemas de cada uma das três partes.

Na narrativa em prosa, é obrigatória a leitura do conto “George”, de Maria Judite de Carvalho; e, em contrato de leitura, dois dos seguintes contos: “Sempre é uma companhia”, de Manuel da Fonseca; “As famílias desavindas”, de  Mário de Carvalho; “Saudades para a Dona Genciana”, de José Rodrigues Miguéis, in Léah e Outras Histórias; “A minha vida com Bela”, de Teresa Veiga, in O Último Amante;  “Wanda e o espelho”, de David-Mourão Ferreira, in As Quatro Estações; “Leão Velho”, de Lídia Jorge, in O Belo Adormecido;  “A enfermeira”,  de Irene Lisboa, in Obras de Irene Lisboa, O Pouco e o Muito – Crónica Urbana; e “Sentado no Deserto”, de Luísa Costa Gomes, in Contos outra vez.

Mário de Carvalho pode ver escolhidas duas obras suas.

A nível do romance – e é, neste âmbito que se situa a polémica – a proposta estabelece: José Saramago, com opção entre Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis; ou Mário de Carvalho, com Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde.

Quanto ao teatro, a proposta estabelece a escolha de um texto dramático, entre: Eurípides, As Troianas; Jean Cocteau, A Voz Humana; Maria Velho da Costa, Madame; Sófocles, Antígona; Tiago Rodrigues, Ifigénia; Agamémnon, Electra; e William Shakespeare, Romeu e Julieta.

Não vejo ninguém a contestar a floresta de obras obrigatórias ou opcionais, no parâmetro “educação literária”, a par do parâmetro “leitura”, com uma enorme variedade de obras, como as constantes do  Plano Nacional de Leitura (PNL), para cada ano da escolaridade. Isto, além dos parâmetros de escrita e de oralidade. Acreditam, a sério, que é assim que se consegue que o aluno do ensino secundário fará, diariamente, 60 minutos de leitura?

Reportando-me ao romance, devo referir que a reforma de Roberto Carneiro não estabelecia o elenco de obras de leitura obrigatória, o qual ficava ao critério da escola. Porém, o Ministério da Educação, sob a liderança de Manuela Ferreira Leite, ao preparar a exigência de exames nacionais para conclusão do ensino secundário, tarefa que Marçal Grilo levou por diante, estabeleceu um programa mínimo, mas deixou que as escolas optassem entre Aparição, de Vergílio Ferreira, e Memorial do Convento, de José Saramago. David Justino impôs Memorial do Convento, de José Saramago. E foi Nuno Crato que determinou a opção entre Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, ambos de José Saramago.

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Na prática, as escolas deixam de estar obrigadas (como no tempo de Marçal Grilo) a escolher uma obra de Saramago no 12.º ano, passando a optar pela obra de Mário de Carvalho.

Também no 11.º ano, continuam a ser de leitura obrigatória Sermão de Santo António, do Padre António Vieira, Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, bem como as obras de Eça de Queirós ou de Antero de Quental e passa também a autor obrigatório Camilo Castelo Branco.

A Associação de Professores de Português (APP) participou, com o MECI, na revisão das Aprendizagens Essenciais da disciplina, depois de consultados especialistas do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL), da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. “No centro desta revisão das obras de educação literária está o facto de os alunos lerem pouco. Mais de um terço dos alunos, desde o primeiro ciclo até ao secundário, nunca lê ou raramente lê qualquer livro. O mesmo aluno que não lê no primeiro ciclo, continua a não ler no segundo, não lê no terceiro e continua a não ler no secundário. Isto dá resultados catastróficos e impede que os resultados dos nossos alunos sejam objetivamente bons”, explicou João Pedro Aido, presidente da direção da APP.

A APP defende que se pretende aumentar a diversidade de autores, de forma a permitir uma maior flexibilidade na escolha das obras e a fomentar hábitos de leitura nos alunos. Não é por aí. A floresta gera perda, não orientação. O gosto pela leitura precisa de outras inspirações.

O presidente da APP fala de várias indicações para os alunos terem mais escolhas de obras e de autores para estudarem e para lerem, bem como “para terem rotinas de leitura”. E fala do “projeto pessoal de leitura, autónoma e por prazer, para criar rotinas de leitura”, sugerindo que os alunos no ensino básico leiam, pelo menos, 30 minutos, por dia, e os alunos no secundário leiam 60 minutos, por dia, em leitura autónoma e por prazer, com obras que os alunos decidem com a ajuda do professor ou com recomendações do PNL ou com outras obras.

Segundo João Pedro Aido, os 10 minutos de leitura que escolas e professores promovem em sala de aula são insuficientes. São, normalmente, na aula de Português, mas não todos os dias, porque os alunos não têm a disciplina todos os dias. Porém, esquece que, em todas as disciplinas, há exercício de leitura e que algumas editoras publicam resumos baratos que dispensam a leitura das obras. E esses resumos não são combatidos. Mais, na ótica algo ingénua do presidente da APP, “os alunos vão continuar a ler Saramago”, mesmo que o autor passe a ser de leitura opcional na escola. O importante, na visão de João Pedro Aido não será tanto se os alunos leem em aula um romance de Saramago ou de Mário de Carvalho, mas o que farão com essas obras. Com efeito, em sua opinião (com que concordo) é mais relevante os alunos pensarem sobre as obras de uma forma pessoal, escreverem sobre elas, defendê-las publicamente e debaterem-nas.

O dirigente da APP não descarta a hipótese de dar um passo atrás, se os resultados da consulta pública contrariarem a proposta do MECI.

A revisão, que retira da obrigatoriedade o único Nobel português da Literatura, está a suscitar debate público. A Fundação Saramago pronunciou-se, nas redes sociais, sobre o tema, recuperando as palavras do autor no discurso de agradecimento do Prémio Nobel, a 10 de dezembro de 1998: “E, agora, quero também agradecer aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de agora: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar.”

A Fundação Saramago diz que a sua posição “será sempre a de agregar, de não excluir, não colocar em comparação ou oposição”, mas sugere “à Comissão responsável por esta alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano”: “Trocar a palavra ‘ou’ pela palavra ‘e’, juntando a José Saramago o escritor Mário de Carvalho, merecedor de toda a admiração e abrindo, assim, a porta a que outras e outros escritores participem também na formação das novas gerações de leitores.” Por outro lado, levanta duas questões: uma sobre qual o critério para esta alteração; a outra, sobre se a alteração “também abrangerá outros autores que integram o cânone da Literatura Portuguesa, colocando-os como de leitura sugerida e não obrigatória”.

“Trocar a palavra ‘ou’ pela palavra ‘e’, no caso, não resolve o problema da sobrecarga sobre os alunos. Portanto, do meu ponto de vista, o problema é a opção dos promotores da revisão das Aprendizagens Essenciais de Português, que se escudam em critérios de cientificidade e de tecnicidade pouco claros, que mais parecem refletir as perspetivas dos promotores, dadas as sugestões de algumas obras de análise crítica portadoras de alguns contos e poemas.

Mário de Carvalho, em declarações à TSF, mostrou-se satisfeito pelo “reconhecimento” de que o seu livro “merecia ser lido, apreciado e analisado”, mas recusou qualquer tipo de competição com José Saramago, autor que muito aprecia. O livro Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde é um estudo envolvente sobre a conduta moral de um homem e uma reflexão provocadora sobre a dificuldade de se levar uma vida virtuosa numa era em constante mudança. E o romancista refere: “Não vejo o meu livro em termos de competição com quem quer que seja. É uma obra, é uma proposta que teve o seu rumo e está em bom rumo, ao que me parece, continua. Portanto, não considero que haja qualquer tipo de competição com um grande escritor que eu muito admiro, que é o José Saramago.”

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Questionado pelos jornalistas, o ministro Fernando Alexandre, detentor da pasta da Educação, considerou que “a proposta é resultado de uma avaliação absolutamente técnica, não é uma decisão” e que será feita uma “revisão mais profunda”. É óbvio que, seja técnica ou científica, a proposta, quando se transformar em decisão, será um ato político.

Ora, o governante, corajoso no anuncio de medidas a tomar, mas hesitante na confrontação com polémicas, sublinhou que José Saramago “é, obviamente, um escritor de referência” e admitiu que deve ser obrigatório ler este como outros escritores nacionais, apontando que, “felizmente, Portugal tem muitos e grandes” escritores.

Em comunicado, o governo qualificou a revisão das Aprendizagens Essenciais como uma “etapa de aperfeiçoamento e validação”, que “pretende recolher contributos da comunidade educativa, de especialistas e da sociedade em geral, com o objetivo de reforçar a qualidade da revisão curricular”, com a participações de professores, de escolas, de universidades e de politécnicos, bem como de “outros atores com conhecimento relevante” sobre a matéria. “Os contributos recebidos serão alvo de análise, pelo EduQA [Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação], com vista à sua integração nos documentos curriculares. Ao longo deste período, serão também auscultados peritos, de forma a reforçar a consistência técnica e científica do trabalho desenvolvido”, esclareceu o MECI.

O MECI recordou que a revisão das Aprendizagens Essenciais se insere “numa reforma mais ampla do currículo, que inclui a atualização dos conteúdos curriculares, a revisão da matriz curricular, a inserção da dimensão digital e de inteligência artificial [IA] de forma transversal, nas aprendizagens, e a reorganização do ensino básico”.

Resta saber se era necessária uma reforma do currículo e se a IA funciona melhor com uns autores do que com outros. Além disso, é de questionar por que motivo, para a leitura de alguns poemas e contos, são recomendados alguns tipos de livros, como consta da letra da proposta.

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Helena Buescu, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, considera normal que Saramago possa sair dos programas escolares, porque nem todos os autores os podem integrar. Diz a TSF que a coordenadora do programa e das metas curriculares de Português, em 2014, quando passou a ser obrigatório ler Saramago, no 12.º ano, sob a alçada do ministro da Educação Nuno Crato – o que não é exato, como expliquei (até então, era obrigatório ler Memorial do Convento e passou, depois de alguma controvérsia a poder-se optar por esta obra ou por O Ano da Morte de Ricardo Reis) –, afirma que apenas um autor não pode ser excluído. “A exceção, para mim, é Camões. Luís de Camões é um autor que não pode sair do cânone. Todos os outros, até mesmo Fernando Pessoa, pode entrar e sair, ser substituído por um heterónimo ou outro heterónimo”, acredita.

Na História Literária Portuguesa, há muito por onde escolher: “O resto é relativamente flexível e tem de ser, visto que nós temos, como dizia o Eduardo Lourenço, uma literatura que tem praticamente a idade do país, tal como foi constituído. São muitos séculos de grande literatura e, evidentemente, nem todos os autores podem fazer parte dos programas escolares e é natural que assim seja.”

A catedrática sustenta que os critérios de escolha “são, fundamentalmente, opções consensualizadas dentro da comunidade de leitores, nomeadamente, a comunidade interpretativa e dos críticos”. “Procura-se que haja um certo consenso e que as pessoas se pronunciem sobre autores que são consensualizados, sendo que, como todas as opções dentro do cânone, as coisas vão-se alterando. Pode haver autores que, em determinado momento, são absolutamente essenciais e, depois, podem ser substituídos por outros, por exemplo, o Camilo Castelo Branco”, esclarece.

Para Carlos Reis, professor catedrático e comissário para o centenário de José Saramago, em cima da mesa está “uma proposta um pouco arriscada”. Embora as escolas tenham o “direito e dever” de fazer escolhas, é o governo quem tem “obrigação de estabelecer determinados conteúdos essenciais para a aprendizagem”, argumentou, vincando a “presença muito significativa” de José Saramago. “Abre-se a possibilidade de muitos estudantes passarem pelo sistema de ensino e não conhecerem nada da obra de José Saramago. Acaba por pôr em causa justamente a sua formação no sentido mais exigente do termo. Quando nós lemos um grande escritor como Saramago, não estamos a ler só palavras, estamos a ler sentidos, valores, representações da História, da nossa relação com o Mundo, etc. […], frisou.

Carlos Reis sublinhou que a medida do governo surge numa época em que o pensamento crítico é cada vez mais subalternizado, devendo a tutela provar que isto “não tem nada a ver com o facto de Saramago ter sido sempre um escritor muito crítico”, face a certas instituições.

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Em suma, a opção é política e, provavelmente, “desideologizante” (!).

2026.04.07 – Louro de Carvalho

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