domingo, 5 de abril de 2026

Da subida dos preços na energia à dos alimentos e dos serviços

 

Os conflitos no Médio Oriente e, em especial, o bloqueio do estreito de Ormuz, acrescidos às tempestades de janeiro e de fevereiro, levam alguns economistas a admitir que o choque nos preços estará apenas a começar. Efetivamente, a inflação está a acelerar, em Portugal e na Zona Euro, tendo já atingido, em março, 2,7% e 2,5%, respetivamente – um salto mensal de 0,6%, nas duas taxas, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) e o Eurostat.

E novas acelerações parecem um dado adquirido para instituições, como o Banco de Portugal (BdP) e para os consumidores, sentindo estes o vazio da carteira, sobretudo, por causa dos preços dos combustíveis, o que é injustificável, porque os preços dos combustíveis, agora, em utilização foram estabelecidos há uns seis meses.

Do encarecimento dos combustíveis passamos, com facilidade, ao de vasta gama de bens e de serviços, desde bens essenciais, como alimentos, a bens duradouros, como computadores e telemóveis. Porém, alguns economistas sustentam – não sei se com razão – que as famílias portuguesas estarão mais preparadas do que em 2022, com salários reais superiores e com poupanças em máximos históricos, mas que a inflação afeta, desproporcionalmente, as famílias com menores rendimentos, no que têm razão.

Com efeito, após anos de fraca inflação, apesar dos esforços do Banco Central Europeu (BCE) de estímulo à procura, o agravamento de preços regressou em 2022, na reta final da pandemia, em que o regresso à vida normal se confrontou com a incapacidade de resposta do lado da oferta, depois de meses de paralisação da atividade produtiva. O choque energético derivado da invasão da Ucrânia pela Rússia e da imposição de sanções económicas ao invasor, da parte do dito Ocidente, incluindo a União Europeia (UE) agravou a situação, com os Portugueses a suportarem uma rápida subida dos preços. Ora, em 2022, as poupanças da pandemia (acumuladas após meses de confinamento e de restrições à mobilidade) ajudaram muitos a enfrentar o aumento do custo de vida. E, agora, a questão é se os Portugueses estão mais preparados, do que então, para nova subida rápida dos preços.

De acordo com o INE, a taxa de crescimento das remunerações médias mensais brutas era de 3,7%, em 2022; de 6,7%, em 2023; de 6,4%, em 2024; e de 5,6%, em 2025. Já a taxa de inflação média anual era de 7,8%, em 2022; de 4,3%, em 2023; de 2,4, em 2024; e de 2,3%, em 2025. E, de acordo com o INE e com o BdP, a taxa de poupança dos particulares era, de 7,3%, em 2022; de 8,9%, em 2023; de 12,5%, em 2024; e de 12,1, em 2025.

Alguns economistas pensam que a ajudar as famílias a suportar o encarecimento dos bens e de serviços, no curto prazo, estão os aumentos salariais dos últimos anos, acima da inflação, e as taxas de poupança em máximos históricos, em Portugal, de 12,5%, em 2024, e de 12,1%, em 2025, de acordo o INE. Assim, para Susana Peralta, professora da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (Nova SBE), como “o salário real médio tem vindo a aumentar”, as famílias estão mais preparadas, em média, para resistir à crise inflacionista do que estavam em 2022, à saída da grande crise económica. E o facto de a taxa de poupança estar em máximos sinaliza alguma capacidade de absorção do choque inflacionista, pois “é uma poupança sobre um rendimento superior”. Ou seja, é poupança maior, em valor absoluto (em euros), do que no choque de 2022. Porém, não podemos esquecer que, em 2020, a taxa média de poupança era de 12%, tendo descido para 10,9, em 2021. Por outro lado, a taxa de crescimento das remunerações médias mensais brutas era de 3,6%, em 2021 (quando era de 3%, em 2020).

Resta saber se os aumentos salariais e as taxas de poupança continuarão acima da inflação. De facto, os danos em instalações energéticas-chave do Médio Oriente e em portos marítimos já se fazem sentir no aumento dos preços da energia, nas bombas de abastecimento de combustíveis e nos pontos de venda de gás; e estará para breve o efeito nos preços de bens e de serviços.

Como explica Miguel Faria e Castro, economista da Reserva Federal de St. Louis, nos Estados Unidos da América (EUA), a subida dos preços do petróleo causa três efeitos diretos: sendo os produtos derivados do petróleo componente da despesa das famílias, o aumento dos preços reduz o consumo; sendo o petróleo importante bem intermédio para produzir bens e serviços destinados ao consumo final, a subida dos preços do petróleo aumenta os custos de produção, que se repercutem nos preços dos bens finais, reduzindo o consumo; e, como Portugal é importador líquido de produtos petrolíferos, o aumento dos seus preços corresponde a um rendimento negativo, que pode contribuir para a contração do consumo agregado, o que pode ter um efeito de moderação no aumento do nível de preços. Contudo, há consumos inevitáveis.

A evolução do consumo dos bens e de serviços depende da reação da procura à subida dos preços de cada um deles. Há bens e serviços cuja procura aumenta, quando o preço baixa, e diminui, quando o preço sobe. Têm elevada elasticidade a procura/preço bens e serviços cujo consumo não é essencial para as famílias, como as refeições em restaurantes. Já noutros bens e serviços a procura não diminui, quando os preços sobem, pois têm baixa elasticidade a procura/preço dos bens e serviços essenciais, como muitos dos bens alimentares.

“O que se espera é que haja cortes nos consumos menos essenciais (como lazer), adaptações no cabaz de consumo alimentar, a favor de produtos menos afetados pela carestia ou mais baratos tout court (como marcas brancas e produtos de época), e poupanças energéticas (por exemplo, no aquecimento da casa ou nas deslocações em viatura própria)”, diz Susana Peralta.

Porém, a subida generalizada dos preços agrava as desigualdades entre famílias com mais rendimentos e as que menos têm: as primeiras podem prescindir de certos bens e serviços, sem sacrifício do consumo de bens essenciais, o que não sucede com agregados com menores rendimentos, porque a maior parte dos seus rendimentos vai para os bens e serviços de que ninguém pode prescindir, como alimentos ou fornecimento de água.

O aumento do rendimento médio acima da inflação e a almofada das poupanças não se aplicam a todas as famílias, na mesma medida. Nas menos favorecidas, o rendimento não tem aumentado tanto e as poupanças são menores. Não será por, em média, as famílias estarem mais preparadas para fazer face à inflação que todas estão igualmente preparadas. Depois, há muitas categorias do consumo conexas com o petróleo que não são facilmente substituíveis: todos temos de acender luzes em casa, independentemente do rendimento. E muitas pessoas têm de se deslocar para o trabalho ou para levar as crianças à escola, sejam altos ou baixos os rendimentos.

Os governos aconselham o teletrabalho, o uso dos transportes públicos e a poupança de produtos energéticos, mas esquecem que o trabalho presencial continua a ser necessário, em muitos casos, que os transportes públicos são escassos e mal organizados e que os transportes escolares dificilmente cobrem as necessidades de deslocação dos alunos.   

Os valores nominais de despesa em bens e em serviços conexos com petróleo tendem a não variar muito com o nível de rendimento. Por isso, a tendência é haver uma relação negativa entre o nível de rendimento e a percentagem de despesa com bens e serviços conexos com petróleo, despesa pode ser relativamente maior para famílias de baixos rendimentos, as quais podem ser mais afetadas, em termos relativos

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Portugal registou o maior aumento mensal de preços da Zona Euro, entre fevereiro e março, com a taxa de 2,3%, acima da média europeia de 1,2%. A inflação homóloga portuguesa atingiu 2,7%, ultrapassando a meta do BCE de 2%. Os preços da energia subiram 7,5%, o maior aumento desde 1996, devido aos conflitos geopolíticos no Médio Oriente.

O aumento do custo de vida é real para os cidadãos europeus, mas é mais real para uns do que para outros. Com efeito, nenhum país da Zona Euro teve aumento médio dos preços tão rápido como Portugal, entre fevereiro e março.

A taxa de variação em cadeia (de mês para mês) do índice harmonizado de preços no consumidor (IHPC) foi de 2,3%, nos países da Zona Euro, acima da média de 1,2%, para esses países, de acordo com as estimativas do Eurostat de 31 de março. Só em março e em abril de 2022, mercê da guerra na Ucrânia e da reconfiguração dos mercados energéticos europeus que se lhe seguiu, é que houve taxas mensais comparáveis, de 2,6% e 2,4%, respetivamente.

O IHPC é calculado com uma metodologia diferente da do índice de preços no consumidor (IPC) – cujas estimativas foram divulgadas, a 31 de março, pelo INE – para eliminar distorções e permitir comparações entre estados-membros da UE.

Em Portugal, a subida dos preços da energia, entre fevereiro e março de 2026, foi de 7,5%, a maior taxa em cadeia, desde 1996, ano de início da série do Eurostat, superando os aumentos mensais de 2022, nos preços da energia, superiores a 6%, em alguns meses.

No atinente às taxas de variação homóloga, a inflação média da Zona Euro aumentou, em março, 0,6%, para os 2,5%, excedendo a meta de 2% estabelecida pelo BCE como taxa de inflação ideal para garantir a estabilidade dos preços nos países da moeda única. A taxa de variação homóloga (que mede o aumento médio dos preços, num determinado mês, face ao mesmo mês do ano anterior) do IHPC, em Portugal, foi estimada pelo Eurostat nos 2,7%, crescendo 0,6%, em comparação com fevereiro. Foi a 12.ª maior taxa entre os 21 países da zona euro, numa lista encabeçada pela Croácia (4,7%).

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passa 38% do crude e 29% do gás de petróleo liquefeito globais, e o ataque a instalações-chave, como o complexo de Ras Laffan, no Catar, a maior fábrica de gás natural liquefeito (GNL) do Mundo (responsável por 25% da produção mundial de hélio, um subproduto da refinação de gás essencial para o fabrico de semicondutores), concitam comentários alarmantes.

Christine Lagarde, presidente do BCE, em recente entrevista à The Economist, considerou “demasiado otimista” a postura dos investidores, confiantes no regresso rápido à normalidade, e advertiu que o Mundo está ante “um choque real”, provavelmente, além do que imaginamos, neste momento”. E alguns analistas admitem que o banco de Frankfurt, na reunião de política monetária de 30 de abril, aumente as taxas diretoras (a taxa de referência está nos 2%) respondendo, mais depressa do que em 2022, à subida das taxas de inflação. Os dados divulgados pelo Eurostat dão força à tese: a taxa de inflação harmonizada média da Zona Euro estimada para março aumentou para os 2,5%, mais 0,6% do que em fevereiro e bem acima da meta do BCE.

Um dos indicadores seguidos pelos decisores de política monetária é a taxa de inflação subjacente, a qual, ao excluir dos seus cálculos a energia e os bens alimentares por sofrerem frequentes variações de preço, mede a tendência de médio prazo dos preços dos bens e serviços e refletindo persistência da inflação no custo de vida. Em março, este indicador foi estimado pelo Eurostat nos 2,2%, menos 1% do que em fevereiro. Assim, o aumento do custo da energia ainda não se repercutiu no resto do cabaz dos bens e serviços.   

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Outro dado de difícil explicação é o preço internacional do cacau estar em queda e os chocolates da Páscoa serem mais caros. A inflação do chocolate fixou-se nos 13,7%, em fevereiro, em Portugal, seis vezes mais do que o índice geral dos preços, muito acima da inflação geral apesar da forte queda homóloga de 64%, na cotação internacional do cacau. O desfasamento temporal entre a compra de matéria-prima e o produto final, a recuperação de margens e outros custos explicam esta resistência à descida, mas não justificam a subida.

Depois de ter atingido um máximo histórico, em 2024, quando a tonelada chegou aos 12 mil dólares, o cacau negoceia em torno dos 3200 dólares. No último ano, a cotação desta matéria-prima caiu a pique (-64%), mas não se repercutiu no preço que os Portugueses pagam por cada ovo de chocolate no supermercado, que está mais caro do que em 2025.

Em fevereiro, os últimos dados disponíveis revelavam que os preços do chocolate, do cacau e dos produtos à base de cacau subiam 13,7% em Portugal, face ao mesmo período do ano anterior, segundo o INE, muito acima da inflação global, que se fixava nos 2,3%. E a tendência não é recente: em 2025, a subida destes produtos manteve-se, consistentemente, acima dos 14% e ultrapassou os 17%, em vários meses. Assim, mesmo em contexto de desinflação generalizada, o chocolate destoa e pesa mais na carteira. Desde o início da guerra na Ucrânia, a inflação do chocolate cresceu, em Portugal, em média, três vezes mais do que o índice geral dos preços. E no último ano, seis vezes mais.

Não é só questão de calendário. Há também o efeito de recuperação de margens. Após anos de forte pressão sobre custos, com o cacau a disparar, os produtores e retalhistas aproveitam a descida, para recompor rendibilidade, em vez de baixar preços. A isso somam-se outros fatores, como energia mais cara, custos de transporte elevados e embalagens mais dispendiosas.

Os dados de preços em Portugal ajudam a perceber a dimensão da escalada. O índice de preços do chocolate e produtos de cacau passou de cerca de 68%, em fevereiro de 2022, para perto de 99%, em fevereiro de 2026, uma subida acumulada de quase 45%. Nest período, a cotação do cacau aumentou apenas metade (20%). Entretanto, o mercado internacional entrou em nova fase. Em 2025, os preços do cacau recuaram de níveis próximos dos 10 mil dólares para menos de metade, refletindo melhores condições climatéricas, novas plantações e recuperação da oferta global. No início de 2026, a tendência manteve-se em descida de cerca de seis mil dólares, por tonelada, em janeiro, para pouco mais de três mil dólares, em abril.

Face aos preços elevados, as empresas ajustam estratégias. A mais comum é a shrinkflation ou reduflação: produtos mais pequenos ou com menor teor de cacau, mantendo ou aumentando o preço por grama. Em paralelo, há reformulações, com alguns produtos a serem vendidos como “com sabor a chocolate”, em vez de chocolate. Do lado dos consumidores, há abrandamento. Na Europa, a venda de chocolate caiu nos últimos meses, embora a procura resista em períodos sazonais, como a Páscoa, onde o consumo é  um pequeno luxo acessível.

Em Portugal, o contexto não é imune a estas pressões e as consequências veem-se no retalho.  Lojas de gomas e chocolates Hussel encerrarão depois da Páscoa. O fim da operação resulta da falência da marca, na Alemanha, que torna insustentável a manutenção dos 20 espaços do país, apesar dos esforços do grupo Jerónimo Martins para viabilizar o negócio.

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Em maré de crise, os preços sobem precocemente, reina a especulação, geram-se grandes oportunidades para espertos, os preços sobem em cadeia, há consumos inevitáveis, os salários não sobem, o desemprego e a precariedade crescem, os pobres sofrem. Subindo os preços e mantendo-se o consumo, sobe a carga fiscal e os governos distribuem migalhas às famílias e bolos às grandes empresas. Desta feita, querem tributar, excecionalmente, as empresas que lucram com a crise. Não há problema para elas: o cliente paga.

2026.04.05 – Louro de Carvalho

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