terça-feira, 7 de abril de 2026

Guerras e alterações climáticas requerem proteção da saúde mental

 

A ansiedade pode ter várias causas. Todos recordamos o que os cidadãos, à escala mundial, sofreram com o confinamento e com as várias restrições à mobilidade, ao trabalho e aos serviços, no tempo da pandemia de covid-19. Nesse tempo, o nosso país, além de ter passado por vários níveis de alerta, incluindo declarações de calamidade pública, cercas sanitárias e uma declaração do estado de emergência, renovada por duas vezes, outra declaração do estado de emergência, renovada por quatro vezes, e mais uma declaração do estado de emergência, renovada por seis vezes (ao todo, 15 períodos emergência com a duração de 15 dias cada um).

Atualmente, a ansiedade que invade o espírito de muitas pessoas deve-se aos conflitos armados que pululam pelo Orbe e, em especial, à guerra no Irão e em territórios limítrofes, que gera enorme incerteza económica afetando a saúde mental de tantas pessoas, no Mundo. Isto, para não falarmos das políticas atrabiliárias de Donald Trump, que geram incerteza comercial e, obviamente, económica e política, ou da ambição expansionista de Vladimir Putin.  

A ansiedade de guerra alberga o medo, a insegurança e o impacto emocional na população civil que acompanha o conflito pelas notícias. Os principais sintomas são hipervigilância, pesadelos, flashbacks, irritabilidade, dificuldade de concentração e distanciamento emocional. Na verdade, os efeitos da guerra, além da incerteza económica e da perplexidade estratégica, lesam o bem-estar emocional das pessoas. Por isso, os especialistas recomendam o cuidado das relações sociais, a manutenção das rotinas diárias e a mínima exposição a estas questões.

Kazuhiro Tajima, psiquiatra espanhol de origem japonesa, salienta que a incerteza económica pode provocar angústia e sintomas de ansiedade, ao gerar a sensação de perda de controlo, podendo induzir problemas de ansiedade. E, para obviar a esta situação, recomenda que se obtenha o máximo de informação sobre a crise e que se reforcem as relações sociais, que são fundamentais para proteger o bem-estar psicológico em situações de instabilidade, tal como aconselha a manutenção de hábitos e de costumes. Assim, em seu entender, não devemos quebrar as rotinas diárias, em termos de lazer, de desporto ou de outras atividades. Porém, em situações de emergência ou de incerteza económica, a primeira coisa que muitas pessoas fazem é a suspensão das rotinas, o que lhes aumenta a angústia.

Ora, Kazuhiro Tajima sustenta que é crucial cuidar do nosso ambiente social, pois a socialização alivia os efeitos que podem prejudicar a saúde mental. Portanto, sublinha que temos de reforçar as relações sociais, “para evitar que nos isolemos, nesta situação de incerteza económica”. A falta de rotinas ou de não interação social leva à tendência para andar, constantemente, às voltas com os problemas e a excessiva preocupação económica faz pensar que não conseguimos fazer face às despesas. Em tempos de crise, muitas pessoas renunciam ao lazer e ao desporto, com vista à redução dos custos – um erro, já que as atividades de lazer ou desportivas nos ajudam a desligar das preocupações. Por isso, há que manter tais atividades e até as promover, “para nos reiniciarmos mentalmente”, como aconselha o psiquiatra, que também exorta a que nos sintamos úteis. “Não há nada pior do que sentirmo-nos inúteis”, reforça.

Kazuhiro Tajima afirma que, neste contexto de incerteza, está a regressar o boom da economia colaborativa, ou seja, o renascimento da troca, neste caso, digital, que nos pode ajudar, enquanto sociedade, a sentir que somos úteis. É o caso da SACO, plataforma que o psiquiatra, com outro empreendedor, criou para trocarem competências por serviços, tendo o tempo como moeda de troca, e para levarem a outros países. Por isso, em cenário de tensão geopolítica e de aumento do custo de vida, é mais necessário do que nunca proteger a saúde mental e enfrentar os desafios económicos para reforçar a resiliência coletiva.

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Também a ecoansiedade, isto é, o impacto silencioso das alterações climáticas na saúde mental é um problema. Como explicita a psicóloga Teresa Pereira, doutorada em Psicologia Aplicada, com investigação nas áreas da psicologia e das alterações climáticas, o conceito “engloba o conjunto de respostas emocionais da população, perante a antecipação e a vivência dos fenómenos associados às alterações climáticas”.

Multiplicam-se por toda a parte, os fenómenos meteorológicos extremos, potenciados pelas alterações climáticas. Do aumento das temperaturas globais às secas ou aos intensos incêndios florestais – não olvidando, as tempestades cada vez mais frequentes, com chuvas e ventos fortes de ingente capacidade de devastação –, todos estes fenómenos trazem efeitos devastadores ao quotidiano das populações. Assim, o comboio de tempestades que afetou Portugal resultou em danos avultados por todo o país, com particular incidência na região Centro. Todavia, o impacto nas populações não se mede só pela destruição causada pelas ocorrências naturais e pelos custos do processo de reconstrução, de recuperação e de reposição das infraestruturas e dos bens materiais de todo o tipo, mas também por influenciar a saúde mental.

Em declarações à Euronews, Teresa Pereira, explicou o “termo que engloba o conjunto de respostas emocionais da população, perante a antecipação e também, no fundo, a vivência dos fenómenos associados às alterações climáticas”. É a “ecoansiedade”, conceito referido pelo filósofo ambiental Glenn Albrecht, em 2007 e que, dez anos depois, em 2017, foi definido pela Associação Americana de Psicologia (APA) como “um medo crónico da degradação ambiental”. É, na ótica da psicóloga, um termo que “pode caraterizar-se por uma variabilidade emocional”, que se manifesta, por exemplo, em sintomas de “ansiedade, [de] preocupação, [de] medo, [de] raiva ou [de] culpa”, e por outros mais fisiológicos ou da “alteração das rotinas da vida quotidiana dos indivíduos”, como em “mudanças nos padrões de sono, na perda de apetite, da procura constante de informação sobre as alterações climáticas” ou na “diminuição do rendimento académico”, da parte dos mais jovens.

Os efeitos da degradação ambiental na saúde mental, de acordo com a especialista, devem ser considerados a três níveis. O primeiro é o das consequências diretas do fenómeno climático, isto é, “quando as pessoas vivenciam estas situações”, podendo surgir sintomas, como ansiedade, depressão e até perturbação de stresse pós-traumático. O segundo é o do impacto em pessoas afetadas pelos efeitos dos fenómenos climáticos extremos a nível indireto, já que não vivenciam ou não presenciam tais ocorrências, mas sentem os efeitos dos eventos meteorológicos sobre as “infraestruturas que utilizam” (por exemplo, serviços públicos, meios de subsistência próprios, como é o caso dos agricultores que viram as suas colheitas devastadas), o que pode repercutir-se na saúde mental. E o terceiro é o do conhecimento dos fenómenos extremos pelos meios de comunicação social ou pela informação que nos chega por outras pessoas.

É este último nível que leva os cidadãos a terem mais conhecimento destes fenómenos e dos seus impactos e que é a forma usual de enquadrar a ecoansiedade. E explica a psicóloga: “O facto de nós obtermos esta informação de que as alterações climáticas são um fenómeno cada vez mais presente na nossa vida diária acaba por gerar a vivência de ecoansiedade nas pessoas, mesmo não tendo presenciado, diretamente, um evento extremo.”

Ora surgindo, na comunicação social, cada vez mais informação e imagens dos efeitos das alterações climáticas na vida das populações, é “natural que essa preocupação se torne mais presente e que o fenómeno também se torne mais real”, acentua a especialista, vincando que não estão só em causa situações que “acontecem noutros países, noutras localizações geográficas, ou com outras pessoas que não nós, as nossas famílias” ou a comunidade portuguesa, dotando-as de um caráter de maior “proximidade”.

Apesar da variedade de sintomas e das formas de manifestação da ecoansiedade, é importante haver, na população, consciencialização para o facto de este ser “um fenómeno expectável e que revela uma resposta adaptativa”, especialmente, nos que viveram as consequências de fenómenos climáticos extremos, na primeira pessoa, como é o caso dos cidadãos afetados pelas últimas tempestades. Neste sentido, é de anotar que a ecoansiedade “não é uma patologia”. Contudo, em casos em que tais comportamentos interferem, significativamente, na vida diária das pessoas, pode ser necessária a ajuda de profissionais de saúde mental, para acompanhamento especializado, e pode ser essencial a validação e o suporte da comunidade, de família, de professores e dos pares, aliados a outras estratégias, sem alarmismo.

Por isso, a especialista  apela à promoção de medidas que ajudem a que “população, em geral, seja mais empática”, no atinente a este tema, de modo a fomentar uma maior “validação” destas emoções, o que passa pela “promoção da literacia sobre este fenómeno”, que se torna cada vez mais frequente, no nosso país, tendo as escolas, aqui, papel relevante.

Com base na investigação científica sobre o tema, a ecoansiedade pode motivar os indivíduos a adotarem comportamentos de proteção ambiental. Uma das estratégias mais eficazes para lidar com a ecoansiedade, está a conexa com esse tipo de iniciativa. Outra das formas possíveis para lidar com esta resposta emocional é o envolvimento em grupos, em associações com foco mais ambiental, bem como o contacto com pessoas que relatem ecoansiedade, de forma a adquirirem “maior suporte social”. E muitos estudos associam o contacto com a Natureza, com espaços verdes e azuis, a maiores níveis de bem-estar, pelo que também essa pode ser uma estratégia válida para combater alguns sintomas de ansiedade.

Nos últimos anos, a investigação académica tem-se debruçado sobre o impacto da ecoansiedade nas populações.  Um estudo europeu, publicado no European Journal of Public Health, em 2023, com base em dados retirados da 10.ª ronda do Inquérito Social Europeu (entre 2020 e 2022), avaliou a preocupação de 52219 participantes com mais de 15 anos de idade, provindos de 25 países, face às alterações climáticas, tendo concluído que há diferenças de níveis de ecoansiedade nos países europeus, sendo a Alemanha (55,3%) e a Espanha (55,2%) os países onde eles são mais altos, com a Eslováquia (22,6%) e a Estónia (24,7%) na base da tabela.

Outra análise de 2021, divulgada na The Lancet Planetary Health, inquiriu 10 mil crianças e jovens, com idades entre os 16 e os 25 anos, em dez países – a Austrália, o Brasil, a Finlândia, a França, a Índia, a Nigéria, as Filipinas, Portugal, o Reino Unido e Estados Unidos da América (EUA) –, para recolher “dados sobre as opiniões e sentimentos dos participantes, em relação às alterações climáticas”, tendo concluído que os “países que expressaram maior preocupação e maior impacto no funcionamento tendiam a ser mais pobres, localizados no Sul Global e mais diretamente afetados pelas alterações climáticas”. Porém, no Norte Global, o dos países ditos mais desenvolvidos, Portugal (que registou aumentos dramáticos nos incêndios florestais, desde 2017) tem o nível mais elevado de preocupação. Ainda assim, recente investigação, publicada no Social Responsability Journal, inferiu, com base na amostra de 3300 indivíduos com 18 ou mais anos de idade, que “a prevalência da ansiedade relacionada com as alterações climáticas é baixa entre os adultos, em Portugal”.

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Os jovens têm dificuldade em lidar com os desafios da vida e em funcionar de forma eficaz no dia a dia, mas os jovens adultos, na Europa, apresentam resultados fracos, face aos de outros continentes, com vários países europeus entre os mais mal classificados. Um estudo da Sapien Labs, organização sem fins lucrativos sediada nos EUA e dedicada à compreensão da saúde mental, mediu um Mind Health Quotient (MHQ), através de inquéritos online realizados na Ásia, na África, na Europa e nas Américas. Este índice avalia a saúde da mente, definida como o complexo das capacidades emocionais, sociais, cognitivas e físicas essenciais para prosperar na vida, no trabalho e nas relações.

Os inquiridos avaliaram capacidades essenciais para enfrentar os desafios do quotidiano e grandes perturbações de saúde mental, relatando dificuldades no controlo emocional, na gestão das relações com os outros e na capacidade de concentração. Os jovens adultos com menos de 35 anos, que já estavam em maior dificuldade do que pais e avós antes da pandemia de covid-19, sofreram queda acentuada durante a pandemia, de que nunca recuperaram. Já os adultos com 55 ou mais anos mantiveram-se estáveis, em torno de uma pontuação de 100, valor em que se espera que esteja a população considerada normal. Em contraste, cada geração mais jovem obtém valores mais baixos. Entre os 18 e os 34 anos, a pontuação média é de 36, no MHQ, e 41% dos participantes disse enfrentar problemas significativos de saúde mental.

O estudo concluiu que os jovens da África Subsariana, a região com o rendimento per capita mais baixo do Mundo, obtiveram resultados muito melhores do que os dos EUA, do Canadá, da Europa, da Índia, do Japão e da Austrália, todos próximos do fundo da classificação. A Itália é o país europeu mais bem classificado, na 20.ª posição, entre os 84 países do estudo. A Finlândia surge em 40.º lugar, Portugal e a Espanha em 46.º, a Bélgica em 52.º e a França em 58.º. Os países europeus mais mal classificados são a Irlanda, em 70.º, a Alemanha, em 71.º, e o Reino Unido, em 81.º. O surpreendente deste declínio nas gerações mais jovens é ser mais acentuado nos países mais ricos, onde o aumento da despesa em saúde mental não alterou a situação.

O estudo identificou quatro fatores que influenciam o estado de saúde mental dos jovens: laços familiares, espiritualidade, utilização de smartphones e consumo de alimentos ultraprocessados. Relações familiares frágeis tornam os jovens adultos quatro vezes mais propensos a situarem-se nas faixas de sofrimento ou dificuldade, em comparação com os que têm proximidade com os membros da família. Os participantes com forte sentido de espiritualidade e de ligação a uma força superior tiveram resultados melhores do que os não espirituais. Os países onde os jovens se sentem menos espirituais são a Alemanha, o Reino Unido e a Espanha. Além disso, o acesso mais precoce ao primeiro smartphone está associado a piores resultados de saúde mental mais tarde na vida. E o consumo de alimentos ultraprocessados aumentou nos últimos 15 anos e está associado a 15% a 30% da carga de doença mental.

Apesar do aumento do investimento em investigação e em cuidados de saúde mental, os resultados não melhoraram. E estes padrões apontam à urgência de mudanças estruturais, a montante, no tratamento e nos fatores ambientais que moldam a mente dos jovens.

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Por fim, um estudo do Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia, centrado no gene da apolipoproteína E (APOE), de que cerca 25% das pessoas é portadora de uma sua variante, que aumenta o risco de demência, concluiu que o consumo regular de carne é recomendado para travar a demência. Porém, o tipo de carne é importante. Os efeitos positivos estão associados à carne vermelha não transformada e às aves de capoeira. Já a carne processada, como a salsicha ou o fiambre, é fator de risco.

A importância dos resultados para a saúde pública é enorme. As pessoas têm sido aconselhadas a reduzir o consumo de carne, mas a algumas deve aconselhar-se o contrário.

É bem-vindo todo o apoio à saúde mental. E não podemos esquecer a ansiedade que atormenta os mais idosos pela sensação de isolamento e de abandono.

2026.04.06 – Louro de Carvalho


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