A
ansiedade pode ter várias causas. Todos recordamos o que os cidadãos, à escala
mundial, sofreram com o confinamento e com as várias restrições à mobilidade,
ao trabalho e aos serviços, no tempo da pandemia de covid-19. Nesse tempo, o
nosso país, além de ter passado por vários níveis de alerta, incluindo declarações
de calamidade pública, cercas sanitárias e uma declaração do estado de
emergência, renovada por duas vezes, outra declaração do estado de emergência,
renovada por quatro vezes, e mais uma declaração do estado de emergência,
renovada por seis vezes (ao todo, 15 períodos emergência com a duração de 15
dias cada um).
Atualmente,
a ansiedade que invade o espírito de muitas pessoas deve-se aos conflitos
armados que pululam pelo Orbe e, em especial, à guerra no Irão e em territórios
limítrofes, que gera enorme incerteza económica afetando a saúde mental de
tantas pessoas, no Mundo. Isto, para não falarmos das políticas atrabiliárias de
Donald Trump, que geram incerteza comercial e, obviamente, económica e
política, ou da ambição expansionista de Vladimir Putin.
A
ansiedade de guerra alberga o medo, a insegurança e o impacto emocional na
população civil que acompanha o conflito pelas notícias. Os principais sintomas
são hipervigilância, pesadelos, flashbacks, irritabilidade, dificuldade
de concentração e distanciamento emocional. Na verdade, os efeitos da guerra,
além da incerteza económica e da perplexidade estratégica, lesam o bem-estar
emocional das pessoas. Por isso, os especialistas recomendam o cuidado das
relações sociais, a manutenção das rotinas diárias e a mínima exposição a estas
questões.
Kazuhiro
Tajima, psiquiatra espanhol de origem japonesa, salienta que a incerteza
económica pode provocar angústia e sintomas de ansiedade, ao gerar a
sensação de perda de controlo, podendo induzir problemas de ansiedade. E, para obviar
a esta situação, recomenda que se obtenha o máximo de informação sobre a crise
e que se reforcem as relações sociais, que são fundamentais para proteger o
bem-estar psicológico em situações de instabilidade, tal como aconselha a
manutenção de hábitos e de costumes. Assim, em seu entender, não devemos
quebrar as rotinas diárias, em termos de lazer, de desporto ou de outras
atividades. Porém, em situações de emergência ou de incerteza económica, a
primeira coisa que muitas pessoas fazem é a suspensão das rotinas, o que lhes aumenta
a angústia.
Ora,
Kazuhiro Tajima sustenta que é crucial cuidar do nosso ambiente social, pois a
socialização alivia os efeitos que podem prejudicar a saúde mental. Portanto, sublinha
que temos de reforçar as relações sociais, “para evitar que nos isolemos, nesta
situação de incerteza económica”. A falta de rotinas ou de não interação social
leva à tendência para andar, constantemente, às voltas com os problemas e a
excessiva preocupação económica faz pensar que não conseguimos fazer face às
despesas. Em tempos de crise, muitas pessoas renunciam ao lazer e ao desporto,
com vista à redução dos custos – um erro, já que as atividades de lazer ou
desportivas nos ajudam a desligar das preocupações. Por isso, há que manter tais
atividades e até as promover, “para nos reiniciarmos mentalmente”, como
aconselha o psiquiatra, que também exorta a que nos sintamos úteis. “Não há
nada pior do que sentirmo-nos inúteis”, reforça.
Kazuhiro
Tajima afirma que, neste contexto de incerteza, está a regressar o boom da
economia colaborativa, ou seja, o renascimento da troca, neste caso, digital,
que nos pode ajudar, enquanto sociedade, a sentir que somos úteis. É o caso da
SACO, plataforma que o psiquiatra, com outro empreendedor, criou para trocarem
competências por serviços, tendo o tempo como moeda de troca, e para levarem a
outros países. Por isso, em cenário de tensão geopolítica e de aumento do custo
de vida, é mais necessário do que nunca proteger a saúde mental e
enfrentar os desafios económicos para reforçar a resiliência coletiva.
***
Também
a ecoansiedade, isto é, o impacto silencioso das alterações climáticas na saúde
mental é um problema. Como explicita a psicóloga Teresa Pereira, doutorada em
Psicologia Aplicada, com investigação nas áreas da psicologia e das alterações
climáticas, o conceito “engloba o conjunto de respostas emocionais da população,
perante a antecipação e a vivência dos fenómenos associados às alterações
climáticas”.
Multiplicam-se
por toda a parte, os fenómenos meteorológicos extremos, potenciados
pelas alterações climáticas. Do aumento das temperaturas globais às secas ou aos
intensos incêndios florestais – não olvidando, as tempestades cada vez mais
frequentes, com chuvas e ventos fortes de ingente capacidade de devastação –,
todos estes fenómenos trazem efeitos devastadores ao quotidiano das populações.
Assim, o comboio de tempestades que afetou Portugal resultou em danos avultados
por todo o país, com particular incidência na região Centro. Todavia, o impacto
nas populações não se mede só pela destruição causada pelas ocorrências naturais
e pelos custos do processo de reconstrução, de recuperação e de reposição das
infraestruturas e dos bens materiais de todo o tipo, mas também por influenciar
a saúde mental.
Em
declarações à Euronews, Teresa Pereira, explicou o “termo que engloba o
conjunto de respostas emocionais da população, perante a antecipação e também,
no fundo, a vivência dos fenómenos associados às alterações climáticas”. É a
“ecoansiedade”, conceito referido pelo filósofo ambiental Glenn Albrecht,
em 2007 e que, dez anos depois, em 2017, foi definido pela Associação
Americana de Psicologia (APA) como “um medo crónico da degradação
ambiental”. É, na ótica da psicóloga, um termo que “pode caraterizar-se por uma
variabilidade emocional”, que se manifesta, por exemplo, em sintomas de
“ansiedade, [de] preocupação, [de] medo, [de] raiva ou [de] culpa”, e por
outros mais fisiológicos ou da “alteração das rotinas da vida quotidiana dos
indivíduos”, como em “mudanças nos padrões de sono, na perda de apetite, da
procura constante de informação sobre as alterações climáticas” ou na “diminuição
do rendimento académico”, da parte dos mais jovens.
Os
efeitos da degradação ambiental na saúde mental, de acordo com a especialista,
devem ser considerados a três níveis. O primeiro é o das consequências diretas
do fenómeno climático, isto é, “quando as pessoas vivenciam estas
situações”, podendo surgir sintomas, como ansiedade, depressão e até
perturbação de stresse pós-traumático. O segundo é o do impacto em pessoas
afetadas pelos efeitos dos fenómenos climáticos extremos a nível indireto, já
que não vivenciam ou não presenciam tais ocorrências, mas sentem os efeitos dos
eventos meteorológicos sobre as “infraestruturas que utilizam” (por
exemplo, serviços públicos, meios de subsistência próprios, como é o caso dos
agricultores que viram as suas colheitas devastadas), o que pode repercutir-se
na saúde mental. E o terceiro é o do conhecimento dos fenómenos extremos pelos
meios de comunicação social ou pela informação que nos chega por outras pessoas.
É
este último nível que leva os cidadãos a terem mais conhecimento destes
fenómenos e dos seus impactos e que é a forma usual de enquadrar a ecoansiedade.
E explica a psicóloga: “O facto de nós obtermos esta informação de que as
alterações climáticas são um fenómeno cada vez mais presente na nossa vida
diária acaba por gerar a vivência de ecoansiedade nas pessoas, mesmo não
tendo presenciado, diretamente, um evento extremo.”
Ora
surgindo, na comunicação social, cada vez mais informação e imagens dos efeitos
das alterações climáticas na vida das populações, é “natural que essa
preocupação se torne mais presente e que o fenómeno também se torne mais
real”, acentua a especialista, vincando que não estão só em causa situações que
“acontecem noutros países, noutras localizações geográficas, ou com outras
pessoas que não nós, as nossas famílias” ou a comunidade
portuguesa, dotando-as de um caráter de maior “proximidade”.
Apesar
da variedade de sintomas e das formas de manifestação da ecoansiedade, é
importante haver, na população, consciencialização para o facto de este
ser “um fenómeno expectável e que revela uma resposta adaptativa”,
especialmente, nos que viveram as consequências de fenómenos climáticos
extremos, na primeira pessoa, como é o caso dos cidadãos afetados pelas últimas
tempestades. Neste sentido, é de anotar que a ecoansiedade “não é uma
patologia”. Contudo, em casos em que tais comportamentos interferem,
significativamente, na vida diária das pessoas, pode ser necessária a ajuda de
profissionais de saúde mental, para acompanhamento especializado, e pode ser
essencial a validação e o suporte da comunidade, de família, de
professores e dos pares, aliados a outras estratégias, sem alarmismo.
Por
isso, a especialista apela à promoção de
medidas que ajudem a que “população, em geral, seja mais empática”, no atinente
a este tema, de modo a fomentar uma maior “validação” destas emoções, o que
passa pela “promoção da literacia sobre este fenómeno”, que se torna
cada vez mais frequente, no nosso país, tendo as escolas, aqui, papel
relevante.
Com
base na investigação científica sobre o tema, a ecoansiedade pode motivar os
indivíduos a adotarem comportamentos de proteção ambiental. Uma das estratégias
mais eficazes para lidar com a ecoansiedade, está a conexa com esse tipo de
iniciativa. Outra das formas possíveis para lidar com esta resposta emocional é
o envolvimento em grupos, em associações com foco mais ambiental, bem como
o contacto com pessoas que relatem ecoansiedade, de forma a adquirirem “maior
suporte social”. E muitos estudos associam o contacto com a Natureza, com
espaços verdes e azuis, a maiores níveis de bem-estar, pelo que também
essa pode ser uma estratégia válida para combater alguns sintomas de ansiedade.
Nos
últimos anos, a investigação académica tem-se debruçado sobre o impacto da
ecoansiedade nas populações. Um estudo europeu, publicado no European
Journal of Public Health, em 2023, com base em dados retirados da 10.ª
ronda do Inquérito Social Europeu (entre 2020 e 2022), avaliou a preocupação de
52219 participantes com mais de 15 anos de idade, provindos de 25 países, face
às alterações climáticas, tendo concluído que há diferenças de níveis de
ecoansiedade nos países europeus, sendo a Alemanha (55,3%) e a Espanha
(55,2%) os países onde eles são mais altos, com a Eslováquia (22,6%) e a Estónia
(24,7%) na base da tabela.
Outra
análise de 2021, divulgada na The Lancet Planetary Health,
inquiriu 10 mil crianças e jovens, com idades entre os 16 e os 25 anos, em dez
países – a Austrália, o Brasil, a Finlândia, a França, a Índia, a Nigéria, as Filipinas,
Portugal, o Reino Unido e Estados Unidos da América (EUA) –, para recolher “dados
sobre as opiniões e sentimentos dos participantes, em relação às alterações
climáticas”, tendo concluído que os “países que expressaram maior preocupação e
maior impacto no funcionamento tendiam a ser mais pobres, localizados no Sul
Global e mais diretamente afetados pelas alterações climáticas”. Porém, no
Norte Global, o dos países ditos mais desenvolvidos, Portugal (que
registou aumentos dramáticos nos incêndios florestais, desde 2017) tem o
nível mais elevado de preocupação. Ainda assim, recente investigação, publicada
no Social Responsability Journal, inferiu, com base na amostra de
3300 indivíduos com 18 ou mais anos de idade, que “a prevalência da ansiedade
relacionada com as alterações climáticas é baixa entre os adultos, em
Portugal”.
***
Os
jovens têm dificuldade em lidar com os desafios da vida e em funcionar de forma
eficaz no dia a dia, mas os jovens adultos, na Europa, apresentam resultados
fracos, face aos de outros continentes, com vários países europeus entre os mais
mal classificados. Um estudo da Sapien Labs, organização sem fins
lucrativos sediada nos EUA e dedicada à compreensão da saúde mental, mediu um
Mind Health Quotient (MHQ), através de inquéritos online realizados na
Ásia, na África, na Europa e nas Américas. Este índice avalia a saúde da mente,
definida como o complexo das capacidades emocionais, sociais, cognitivas e
físicas essenciais para prosperar na vida, no trabalho e nas relações.
Os
inquiridos avaliaram capacidades essenciais para enfrentar os desafios do
quotidiano e grandes perturbações de saúde mental, relatando dificuldades no
controlo emocional, na gestão das relações com os outros e na capacidade de
concentração. Os jovens adultos com menos de 35 anos, que já estavam em maior
dificuldade do que pais e avós antes da pandemia de covid-19, sofreram queda
acentuada durante a pandemia, de que nunca recuperaram. Já os adultos com 55 ou
mais anos mantiveram-se estáveis, em torno de uma pontuação de 100, valor em
que se espera que esteja a população considerada normal. Em contraste, cada
geração mais jovem obtém valores mais baixos. Entre os 18 e os 34 anos, a
pontuação média é de 36, no MHQ, e 41% dos participantes disse enfrentar
problemas significativos de saúde mental.
O
estudo concluiu que os jovens da África Subsariana, a região com o rendimento per
capita mais baixo do Mundo, obtiveram resultados muito melhores do que os
dos EUA, do Canadá, da Europa, da Índia, do Japão e da Austrália, todos
próximos do fundo da classificação. A Itália é o país europeu mais bem
classificado, na 20.ª posição, entre os 84 países do estudo. A Finlândia surge
em 40.º lugar, Portugal e a Espanha em 46.º, a Bélgica em 52.º e a França em
58.º. Os países europeus mais mal classificados são a Irlanda, em 70.º, a
Alemanha, em 71.º, e o Reino Unido, em 81.º. O surpreendente deste declínio nas
gerações mais jovens é ser mais acentuado nos países mais ricos, onde o aumento
da despesa em saúde mental não alterou a situação.
O
estudo identificou quatro fatores que influenciam o estado de saúde mental dos
jovens: laços familiares, espiritualidade, utilização de smartphones e
consumo de alimentos ultraprocessados. Relações familiares frágeis tornam os
jovens adultos quatro vezes mais propensos a situarem-se nas faixas de
sofrimento ou dificuldade, em comparação com os que têm proximidade com os
membros da família. Os participantes com forte sentido de espiritualidade e de ligação
a uma força superior tiveram resultados melhores do que os não espirituais. Os
países onde os jovens se sentem menos espirituais são a Alemanha, o Reino Unido
e a Espanha. Além disso, o acesso mais precoce ao primeiro smartphone
está associado a piores resultados de saúde mental mais tarde na vida. E o
consumo de alimentos ultraprocessados aumentou nos últimos 15 anos e está
associado a 15% a 30% da carga de doença mental.
Apesar
do aumento do investimento em investigação e em cuidados de saúde mental, os
resultados não melhoraram. E estes padrões apontam à urgência de mudanças
estruturais, a montante, no tratamento e nos fatores ambientais que moldam a
mente dos jovens.
Por
fim, um estudo do Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia, centrado no
gene da apolipoproteína E (APOE), de que cerca 25% das pessoas é portadora de
uma sua variante, que aumenta o risco de demência, concluiu que o consumo
regular de carne é recomendado para travar a demência. Porém, o tipo de carne é
importante. Os efeitos positivos estão associados à carne vermelha não
transformada e às aves de capoeira. Já a carne processada, como a salsicha ou o
fiambre, é fator de risco.
A
importância dos resultados para a saúde pública é enorme. As pessoas têm sido
aconselhadas a reduzir o consumo de carne, mas a algumas deve aconselhar-se o
contrário.
É
bem-vindo todo o apoio à saúde mental. E não podemos esquecer a ansiedade que
atormenta os mais idosos pela sensação de isolamento e de abandono.
2026.04.06
– Louro de Carvalho
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