quinta-feira, 9 de abril de 2026

Economia mundial cresce menos e o FMI culpa os EUA e Israel

 

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a guerra no Irão e o encerramento do Estreito de Ormuz desencadearam a maior perturbação de abastecimento no historial do mercado petrolífero no Mundo,  devendo os ataques contra instalações no Golfo ter um impacto de vários anos no fornecimento de gás.

Todos os países cujo abastecimento de combustível depende do cerca de um quinto que passa pelo Estreito de Ormuz terão enorme quebra na sua economia, que afetará os seus estilos de vida e as suas necessidades. E, também a Europa, embora não depende muito do Estreito de Ormuz, poderá manter elevados os seus preços da energia, durante algum tempo.

Apesar da forte queda dos preços do petróleo, após os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão terem confirmado um cessar-fogo de duas semanas, a Europa ainda não respira de alívio, devido ao duradouro impacto no fornecimento de energia de que o bloco depende, em grande medida. Com efeito, a Europa, que apostou na minimização da dependência da Rússia, é afetada, significativamente, pela crise energética, ainda que só uma pequena parte do petróleo e do gás chegue diretamente através do estreito de Ormuz, que esteve, na prática, sob controlo e, em grande medida, sob bloqueio das forças iranianas até ao cessar-fogo.

A reabertura do estreito foi condição sine qua non do cessar-fogo, já que este ponto de estrangulamento é essencial para o transporte mundial de petróleo e de gás natural liquefeito (GNL). Em 2025, quase 15 milhões de barris de petróleo bruto, por dia, passaram pelo estreito. Deste volume, cerca de 600 mil barris, por dia, ou apenas 4%, tiveram como destino a Europa, face às necessidades diárias da União Europeia (UE ) de 13 milhões de barris. Todavia, é pouco provável a queda rápida dos preços dos combustíveis, na Europa, ainda que, após o cessar-fogo, haja acordo de paz. “Mesmo que essa paz chegue amanhã, não vamos voltar ao normal num futuro previsível”, afirmou o comissário europeu para a Energia, Dan Jørgensen.

A UE importa entre 80% e 85% do petróleo que consome, a partir de vasta gama de fornecedores. Os EUA são o maior, com 15,1% em valor, seguidos da Noruega e do Cazaquistão.

A maior parte do comércio mundial de crude é indexada ao Brent, a principal referência internacional. Os preços para entrega no mês seguinte subiram de 72 a 73 dólares, por barril, antes da guerra, para quase 120 dólares, no pico, antes de ser acordado o cessar-fogo. Mesmo após o cessar-fogo, o preço rondava os 93 dólares, a 8 de abril.

Os preços do gás, na Europa, subiram desde 28 de fevereiro, quando começou a guerra. Os contratos de futuros aumentaram para 50 euros por megawatt, por hora (MWh), face a cerca de 35,5 euros antes da guerra, atingindo um máximo de 61,93 euros/MWh, a 19 de março. O preço estabilizou em cerca de 44 euros/MWh, a 8 de abril, após o cessar-fogo.

Em muitos países europeus, o preço da eletricidade é definido pela fonte mais cara, muitas vezes, o gás. “A subida dos preços do gás afeta as faturas de energia britânicas e europeias pelo custo direto do gás ou pelo aumento do custo de produção de eletricidade nas centrais a gás”, explicou Ethan Tillcock, especialista em gás do Reino Unido e da Europa na Independent Commodity Intelligence Services (ICIS), em declarações à Euronews Business, antes do cessar-fogo.

O impacto pode ser atrasado ou atenuado por contratos fixos e por apoios públicos. Na Alemanha, os preços grossistas do gás indexados ao Title Transfer Facility (TTF) influenciam os preços da eletricidade em cerca de 40% e os do gás para as famílias em cerca de 50% a 60%, sendo o resto composto por impostos, taxas de rede e custos de políticas públicas.

Nos combustíveis, o banco central francês estima que um aumento de 1% nos preços dos produtos refinados se traduz em cerca de mais 0,75% nos preços, antes de impostos, e em cerca de mais 0,3%, ao nível do preço, na bomba, dependendo da carga fiscal. Um aumento de 10 dólares no preço do petróleo bruto acrescenta, aproximadamente, três a seis cêntimos de euro, por litro, para os consumidores europeus, consoante os sistemas fiscais nacionais. As taxas de câmbio também contam: como o petróleo é cotado em dólares norte-americanos, um euro mais fraco encarece os custos, ainda que os preços de referência continuem inalterados.

Para limitar as subidas de preços, ministros da Itália, da Alemanha, da Espanha, da Portugal e da Áustria pediram à UE que considere um imposto sobre lucros extraordinários no setor da energia, a fim de os preços baixarem. Aliás, a Europa dispõe de alguns instrumentos para aliviar a pressão, incluindo reservas estratégicas – parte dos 426 milhões de barris da AIE – e medidas nacionais, como cortes de impostos, subsídios e racionamento. Contudo, na opinião de Andrei Covatariu, investigador sénior não residente no Global Energy Center do Atlantic Council, “estas medidas só podem atenuar, temporariamente, a situação”.

A AIE estima que os países do Golfo reduziram a produção de petróleo em, pelo menos, 10 milhões de barris, por dia, cerca de 10% da procura mundial. Porém,  a oferta física é só parte da questão; a outra é a incerteza. Segundo Covatariu, um prémio de risco elevado é ditado pela “incerteza”, bem como por “uma forte perturbação real nos fluxos e na produção”. Assim, não somos afetados só por dados de ordem física ou só por fatores psicológicos.

Além das preocupações com a oferta, os traders acompanham os prémios de seguro de risco de guerra e as tarifas de frete dos petroleiros, ambos determinantes do custo do crude. Os custos de transporte marítimo dispararam. O Baltic Dirty Tanker Index atingiu um recorde de 3737 pontos, a 27 de março, face a cerca de mil, na maior parte de 2025. Após o cessar-fogo, estava ligeiramente acima dos dois mil pontos, na tarde do dia 8, na Europa.

Durante os ataques mais intensos, em março, os prémios de seguro de risco de guerra para navios destinados ao Golfo quadruplicaram para 1% do valor do navio, por sete dias de cobertura. Porém, o regresso aos níveis anteriores à guerra levará semanas ou meses, exigindo uma paz duradoura e provas de que o trânsito é seguro. Para Covatariu, mesmo com um acordo de paz, a descida prolongada dos preços para os consumidores europeus demorará meses, porque as reservas demoram tempo a ser reconstituídas e a oferta continua limitada, após mais de 40 ativos energéticos, em toda a região, terem sido gravemente danificados. E Donald Trump prometeu destruir mais. Assim, mesmo após o acordo de paz, as reparações demorarão meses ou anos, mantendo a oferta escassa e os preços altos.

Nas últimas quase seis semanas, grande parte do fornecimento mundial de GNL proveniente do Golfo perdeu-se ou ficou bloqueada, devido a perturbações na produção e à quase paralisação dos carregamentos, através do estreito, tudo isto ligado à guerra no Irão. Com efeito, a unidade de Ras Laffan, no Qatar, a maior central de GNL do Mundo, foi danificada. A QatarEnergy declarou força maior, em alguns contratos, após retirar 17% da produção, prevendo uma recuperação que pode demorar até cinco anos.

Ora mesmo após o estreito de Ormuz reabrir e o trânsito de navios ser totalmente retomado, os mercados de gás poderão continuar a enfrentar uma oferta reduzida, face aos níveis anteriores à guerra, devido à menor disponibilidade física proveniente do Qatar. Na verdade, a Europa obtém cerca de 8% do seu GNL no Qatar e, por agora, dispõe de fornecimentos suficientes, mas a concorrência está a intensificar-se, à medida que os países reconstituem as reservas. E cerca de 40% do gás consumido na Europa provém de GNL, que é um mercado global, o que torna o continente vulnerável a perturbações globais. E a concorrência com a Ásia pelo fornecimento restante pode impelir os preços para cima.

O cessar-fogo arrefeceu, de imediato, os índices de referência: os futuros de Brent e de WTI, para entrega no mês seguinte, caíram mais de 14% e 16%, respetivamente, até à tarde de 8 de abril, na Europa. Mas estes níveis continuam 20 dólares acima do custo do barril, antes da guerra. No caso do gás, os preços recuaram, face aos máximos da crise, mas devem manter-se acima dos níveis anteriores ao conflito. “O valor mínimo deverá ser superior ao do período pré-crise, porque a Europa tem de voltar a encher reservas baixas, pelo que preços acima dos 40 euros, por MWh, são cenário plausível para o curto prazo após um acordo”, observou Covatariu.

Os mercados acompanham a forma como o Irão e os EUA resolvem o conflito e avançam para um acordo de paz. “Se for assinado um acordo, o Irão poderá devolver volumes adicionais ao mercado, de forma relativamente rápida, sobretudo, se não se registarem novas perturbações na infraestrutura petrolífera de Teerão, até o acordo ser alcançado”, admitiu Covatariu.

Muito dependerá dos parâmetros do acordo de paz. Se o acordo deixar muitas incertezas, os preços manter-se-ão elevados, devido aos riscos persistentes, incluindo custos de transporte e de seguros. Por isso, a perceção da durabilidade do fim do conflito releva tanto como o acordo.

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Entretanto, Kristalina Georgieva, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), a 9 de abril, no discurso de abertura da assembleia da organização que decorrerá na semana seguinte, em Washington DC, onde tem a sede, disse que, se não fosse a guerra contra o Irão, as previsões económicas mundiais seriam revistas em alta. Porém, “agora, até o nosso cenário mais otimista implica a revisão em baixa do crescimento económico”, avisou.

A economista búlgara que dirige o FMI, desde 2019, não adiantou números, mas advertiu que, “em virtude das incertezas, o nosso World Economic Outlook [relatório], a publicar na próxima semana, incluirá uma gama de cenários, desde a normalização relativamente rápida, até um cenário intermédio, e outro em que os preços do petróleo e do gás ficam muito mais altos, durante muito mais tempo, e os efeitos de segunda ordem se instalam”.

Nestes termos, o certo é que o World Economic Outlook (WEO), documento de previsões económicas, cortará com o tom otimista avançado, em janeiro, quando a equipa de economistas liderada por Pierre-Olivier Gourinchas antecipava um crescimento económico mundial de 3,3%, em 2026, com ligeiro abrandamento, para 3,2%, em 2027. Nessa altura, o FMI esperava que o processo de desinflação (redução do ritmo da inflação) continuasse, com a inflação mundial a descer de 4,1%, em 2025, para 3,8%, em 2026, e 3,4%, em 2027.

A intervenção de Georgieva aponta para a palavra de ordem fundamental no momento atual: “Amortecer o choque da guerra no Médio Oriente.” E garante que o FMI está presente: “Como bombeiros que somos, estamos aqui para vos ajudar, quando a crise acontece.”

Assim, o FMI dispõe de um envelope financeiro em função dos pedidos de apoio à situação da balança de pagamentos por parte dos seus membros, variável entre 20 e 50 mil milhões de dólares (17 a 43 mil milhões de euros), consoante a duração e o impacto da crise. Este tipo de apoio visa financiar, temporariamente, os défices externos, permitindo pagar importações essenciais, estabilizar a moeda e evitar a bancarrota (incumprimento de responsabilidades da dívida pública). O FMI dispõe de um instrumento financeiro fundamental, o “acordo de stand-by” (SBA), a que Portugal recorreu, em 1978 (embora não o tenha usado), em 1983 e em 2011.

No dizer da diretora-geral do FMI, o “bombeiro” está pronto para situações muito diversas, pois o impacto da crise é “assimétrico”. Efetivamente, há diferenças significativas entre regiões do Mundo. Os países que exportam petróleo e gás sem perturbações são os menos afetados. Ao invés, os países diretamente atingidos pela guerra, incluindo exportadores de petróleo e de gás que sofreram o bloqueio, e os que dependem de petróleo e de gás importados continuam a suportar a maior parte do impacto. Contudo, Kristalina Georgieva deixa uma palavra aos mais esquecidos: “Pensemos também nos países insulares do Pacífico, no fim de uma longa cadeia de abastecimento, a perguntarem-se se o combustível ainda lhes chegará na sequência de uma perturbação tão grave.”

Porém, é preciso mais do que o serviço de bombeiro. Os governos e os bancos centrais têm de fazer o seu papel, no dizer da líder do FMI, “a lição mais importante de todas” é “as boas políticas fazem a diferença”. De facto, há forças que os países não conseguem controlar, mas têm autoridade sobre as suas próprias políticas e instituições. Assim, a solidez e a agilidade dos fundamentos são a melhor defesa, quando os choques chegam.

Por isso, Kristalina Georgieva deixa alguns avisos claros: procederem a “ajustamento, pelo lado da procura” (reduzir consumo, investimento, despesa pública e exportações líquidas); não tomarem decisões solitárias; não se precipitarem, mas verem e esperarem (sobretudo, os bancos centrais). E as políticas orçamental e monetária “não devem correr em direções opostas” (há um problema na política orçamental, pois “a dívida pública é mais elevada do que há 20 anos.

A política orçamental merece alguns parágrafos cirúrgicos da parte de Kristalina Georgieva. “Voltando à política orçamental, vemos que a maioria dos países manteve, em geral, a linha, evitando cortes fiscais indiscriminados, subsídios à energia e medidas baseadas em preços, embora alguns tenham optado por um apoio mais generalizado”, referiu, para frisar: “Acrescentar estímulo financiado, através do défice, a esta mistura, neste momento, aumentaria a pressão sobre a política monetária e amplificaria esses movimentos. Seria como conduzir com um pé no acelerador e [com] o outro no travão. Não é boa ideia.”

Portanto, todos os países devem usar os seus recursos orçamentais, que são limitados, de uma forma responsável, e a maioria deve agir, com determinação, para reconstruir a sua margem de manobra depois deste choque.

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De acordo com o portal de notícias económicas FX Street, a 5 março, a diretora-geral do FMI, em Banguecoque, a capital da Tailândia, na conferência que debate a Ásia, em 2050, afirmou que a economia mundial está, “novamente, a ser posta à prova”, desta vez, pela guerra lançada pelos EUA e por Israel contra o Irão.

Desencadeada, a 28 de fevereiro por uma ofensiva dos EUA e de Israel contra o Irão, alastrou, rapidamente, com a resposta de Teerão aos vários aliados dos dois países na região, ameaçando a navegação no Estreito de Ormuz e no Golfo Pérsico, fazendo disparar os preços mundiais do petróleo e mergulhando os mercados na turbulência.

A Ásia é o continente mais afetado pela crise no Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo e do GNL comercializados no Mundo.

Os dados da Kpler e da Administração de Informação Energética dos EUA (EIA) sustentam que, entre 84% e 90% do petróleo bruto que passa por Ormuz tem como destino a Ásia, onde chega 83% do GNL proveniente dessa rota crucial, cujos principais compradores são a China, a Índia, a Coreia do Sul e o Japão. E, apesar do contexto de incerteza energética, a Ásia é um dos grandes motores da economia mundial, pois gera “dois terços do crescimento global e concentra cerca de 40% do comércio”, pelo que não é possível “falar do futuro económico global, sem mencionar a Ásia, segundo Kristalina Georgieva.

2026.04.09 – Louro de Carvalho

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