sexta-feira, 10 de abril de 2026

Severa, a mítica fadista de Lisboa que morreu na flor da vida

 

O crucigrama da revista do “Expresso”, de 10 de abril, com a indicação “Mítica fadista” remeteu-me para o tempo da adolescência em que estava em voga a canção “Ó Tempo volta pra trás” – composição de Eduardo Dantas e Manuel Paião, interpretada por António Mourão e que replicávamos nos nossos serões – em que se falava da Severa e cuja letra é :

“A Severa, foi-se embora. / O tempo, pra mim parou. / Passado que vai com ela, / Para mim não mais voltou.

“As horas pra mim são dias, / As horas pra mim são dias, / Os dias pra mim são anos. / Recordação é saudade, / Recordação é saudade, / Saudades são desenganos.

“Ó tempo, volta pra trás, / Traz-me tudo o que eu perdi. / Tem pena e dá-me a vida, / A vida que eu já vivi. / Ó tempo, volta pra trás. / Mata as minhas esperanças vãs. / Vê que até o próprio sol, /
Volta todas as manhãs. / Vê que até o próprio sol, / Volta todas as manhãs.

“Porque será que o passado, / E o amor são tão iguais. / Porque será que o amor, /
Quando vai, não volta mais. / Mas para mim a Severa, / Mas para mim a Severa, / É o eco dos meus passos. / Eu tenho a saudade à espera, / Eu tenho a saudade à espera, /
Que ela volte prós meus braços.

“Ó tempo, volta pra trás, / Traz-me tudo o que eu perdi. […]” (bis)

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Maria Severa Onofriana, filha de Severo Manuel de Sousa e de Ana Gertrudes Severa (apelido adaptado do nome do marido), nasceu a 26 de julho de 1820, na Rua da Madragoa ou dos Barracos (atual Rua Vicente Borga, n.º 33, na freguesia da Estrela), onde a mãe tinha uma taberna, e passou por vários locais, até se fixar na Mouraria, onde faleceu. Os locais do nascimento e da morte estão assinalados com lápides, colocadas com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

Embora a lenda lhe atribua ascendência cigana, investigação publicada, em 2022, pelo antropólogo Paulo Lima, na obra “Severa 1820” (da Tradisom), trouxe novos dados concludentes de que a fadista descendia de africanos escravizados, levados, originalmente, para Ponte de Sor. A obra reconstrói o percurso biográfico de Severa, desde o nascimento, a 26 de julho de 1820, na Rua dos Barracos (freguesia dos Anjos), até à sua morte precoce, aos 26 anos, desmistificando a narrativa romântica que envolve a sua figura. 

A mãe, conhecida como “A Barbuda”, era uma  prostituta da Mouraria. E Maria Severa ingressou, muito cedo, na mesma profissão, por volta dos 12 anos, distinguindo-se “pelos olhos de fogo” e pelo seu modo de cantar o fado, segundo vários relatos e registos epocais. 

Em 1831, morava na Rua Direita da Graça e teria morado no Pátio do Carrasco ao Limoeiro, por volta de 1844. Viveu no Bairro Alto à Travessa do Poço da Cidade, antes de se fixar na Mouraria, na Rua do Capelão, n.º 35A, que foi frequentada por marujos portugueses e ingleses, no tempo de Rua Suja. Contam-se histórias sobre a Severa, mas muitas terão credibilidade contestável, sendo mais lendas do que relatos oficiais. Percorria os bairros populares de Lisboa e a sua voz animou as noites de muitas tertúlias bairristas, tendo algumas tabernas ficado famosas pela sua presença. Teve vários amantes, entre eles o 13.º Conde de Vimioso, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro) enfeitiçado pelo modo como ela cantava e tocava guitarra, levando-a, muitas vezes, à tourada, o que lhe proporcionou celebridade, prestígio e maior número de oportunidades para se exibir ante um público de jovens da elite social e intelectual.

Morreu de tuberculose e de apoplética, às 21 horas de 30 de novembro de 1846, aos 26 anos, num bordel da Rua do Capelão, na Mouraria (freguesia do Socorro), e foi sepultada no Cemitério do Alto de São João, em vala comum, sem caixão. As suas últimas palavras terão sido: “Morro, sem nunca ter vivido.” Na Mouraria, na Rua do Capelão, encontra-se o “Largo da Severa”, onde a casa da fadista está assinalada com a indicação de “Casa da Severa” e no chão, empedrado de calçada à portuguesa, vê-se o desenho de uma guitarra. Na fachada da casa foi colocada uma placa, onde se lê: “Nesta casa viveu Maria Severa Onofriana / Considerada na época a expressão sublime do Fado / Faleceu em 30-11-1846 com 26 anos de idade / Lisboa 3-6-1989.” A placa foi descerrada por Amália Rodrigues, geralmente aclamada como a voz de Portugal.

A sua fama deve-se, em parte, a Júlio Dantas, cuja novela “A Severa” originou uma peça levada à cena, em 1901, e ao primeiro filme sonoro português, de Leitão de Barros, em 1931. E, no filme “Fados”, de 2007, do espanhol Carlos Saura, a Severa é interpretada por Cuca Roseta.

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O Museu do Fado confirma a data do nascimento de Severa, pelo registo de batismo, a 12 de setembro de 1820, na Paróquia dos Anjos, que, além do mais, refere que era filha de Severo Manuel de Sousa, natural da freguesia de S. Nicolau, em Santarém, e de Ana Gertrudes, nascida em Portalegre, tendo o casal celebrado matrimónio a 27 de abril de 1815, na Paróquia de Santa Cruz da Prideira de Santarém. E o assento de óbito, dá a entender que faleceu muito jovem, pois indica a morte a 30 de novembro de 1846 na Rua do Capelão, apoplética e sem sacramentos, aos 26 anos e solteira, tendo sido sepultada no Cemitério do Alto de S. João.

Sustenta o Museu do Fado que, além destes dados, pouco mais está comprovado sobre a vida da cantadeira, pois a maioria das informações provém dos relatos orais de contemporâneos, como Luís Augusto Palmeirim, Miguel Queriol e Raimundo António de Bulhão Pato.

O poeta Bulhão Pato, que a conheceu, testemunhou: “A pobre rapariga foi uma fadista interessantíssima como nunca a Mouraria tornará a ter! Não será fácil aparecer outra Severa altiva e impetuosa, tão generosa como pronta a partir a cara a qualquer que lhe fizesse uma tratantada! Valente, cheia de afetos para os que estimava, assim como era rude para com os inimigos. Não era mulher vulgar.”

Augusto Palmeirim que a viu e falou com ela uma vez, mas o bastante para não mais se esquecer da “esbelta rapariga, que tinha lume nos olhos, uma voz plangente e sonora”, mas também “modos bruscos e sacudidos”, que avisavam os interlocutores a porem-se fora do alcance de um “revés de fortuna”. Tendo-a visitado numa casa onde morava, no Bairro Alto, descreveu, posteriormente, no seu livro “Os excêntricos do meu tempo”, a visita: “Quando entrei em casa da Severa, modesta habitação do tipo vulgar das que habitam as infelizes suas congéneres, estava ela fumando, recostada num canapé de palhinha, com chinelas de polimento ponteadas de retrós vermelho, com um lenço de seda de ramagens na cabeça e as mangas do vestido arregaçadas até ao cotovelo. Era uma mulher sobre o trigueiro, magra, nervosa e notável por uns magníficos olhos peninsulares. Em cima de uma mesa de jogo estava pousada uma guitarra, a companheira inseparável dos seus triunfos; e pendente da parede (sacrilégio vulgar nas casas daquela ordem) uma péssima gravura, representando o Senhor dos Passos da Graça!”

Miguel Queriol refere a visita noturna de um grupo de boémios ao Palácio do Conde de Vimioso, na qual Severa cantou o Fado, acompanhada à guitarra por Roberto Camelo. Em artigo do jornal “O Popular”, comentou: “Era uma rapariga esbelta, bem apessoada, cabelo escuro e farto, com um ar de desenvoltura sem ultrapassar as conveniências da sua posição, para com quem a favorecia, trajando limpa, mas modestamente, sem fazer lembrar a desgraça da classe em que menos o vício [do] que a miséria a havia precipitado, e que, pela sua timidez, se mostrava contrafeita no meio social em que ali se achava.”

Maria Severa Onofriana, celebrizou-se como Severa, o ícone de primeira fadista pelos seus amores e pelos fados que cantava, tocava e dançava, na Mouraria. Os locais da sua atuação não estão ainda identificados, mas estarão relacionados com os circuitos de prostituição, em particular do Bairro Alto e da Mouraria. Porém, fez apresentações em festas aristocráticas, o que foi possível pela sua ligação ao conde de Vimioso, como relata Miguel Queriol no jornal “O Popular”, que elogia a apresentação de Severa no Palácio do Conde.

Eduardo Sucena refere que um dos locais frequentados pela cantadeira, onde teria conhecido o Conde de Vimioso, era a taberna da Rosária dos “Óculos”, que ficava ao cimo da Rua do Capelão, no prédio conhecido por “casa de pedra”. Aí ela cantava e batia o fado, acompanhada à guitarra por Joaquim Lucas, caixeiro de uma outra taberna da Rua dos Cavaleiros. O mesmo autor indica a taberna do Manuel Jerónimo, o Cegueta, e a do Manhoso, situadas na mesma Rua do Capelão, e o Café da Bola, na Rua de S. Vicente à Guia, como locais onde a presença de Severa seria habitual. A estes locais acrescenta o café do antigo moço de forcado Joaquim Silva, à Rua do Saco, perto da praça de touros do Campo de Santana, onde o Conde de Vimioso se juntava com apreciadores e com praticantes da arte de tourear.

Após a sua morte, a “meio-soprano dos conservatórios do vício”, conforme a apelidou Pinto de Carvalho, passou a usufruir de crescente fama, até então inédita, nestes círculos populares, cantada em letras de fados, em romance e até no cinema. Essa popularidade está patente no “Fado da Severa”, catalogado por Teófilo Braga no “Cancioneiro Popular” de 1867, como sendo de autoria de Sousa do Casacão e datado de 1848, de que transcrevem algumas quadras:

“Chorai fadistas, chorai, / Que uma fadista morreu. / Hoje mesmo faz um ano / Que a Severa faleceu.

“Chorai, fadistas, chorai / Que a Severa já morreu: / E fadista como ela / Nunca no Mundo apar’ceu.

(...)

“Chorai, fadistas, chorai, / Que a Severa se finou. / O gosto que tinha o Fado, / Tudo com ela acabou.”

Prolonga-se a aura de mistério que torna Severa a figura mitológica do fado, fruto da ausência de detalhes sobre a sua vida e da inexistência de retrato que possa, comprovadamente, perpetuar a sua figura. De tal forma esta imagem assumia grande importância que o jornal “Canção do Sul”, de 1 de Setembro de 1939, apresentava, na primeira página, uma fotografia que afirmava ser o retrato de Severa, mas que era a reprodução, em postal ilustrado, de Acácia Reis (Severa) e Rosa d’ Oliveira (Rosa Enjeitada), na revista “Na ponta da Unha”, representada no teatro da Rua dos Condes, em 1902.

Em 1901, Júlio Dantas escreveu “A Severa”, alterando alguns aspetos da possível verdade histórica, transformando o Conde de Vimioso em Conde de Marialva”, atribuindo origem cigana a Severa e construindo um enredo dramático que, ao gosto romântico da época, se baseia em “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas. Do mesmo autor é a peça que estreia a 25 de Janeiro de 1901, no Teatro D. Amélia (futuro Teatro São Luiz), com Ângela Pinto a protagonizar a cantadeira Severa. De tal forma esta peça se tornou um êxito que foi adaptada a opereta por André Brun, em 1909. Neste espetáculo a protagonista foi Júlia Mendes.

Continuando a ser tema popular e com sucesso, sucederam-se as reposições em palco com as mais conceituadas protagonistas, como a encenação da companhia de Vasco Morgado, estreada a 8 de março de 1955, no Teatro Monumental, com Amália Rodrigues a interpretar Severa.

A obra de Júlio Dantas foi adaptada ao cinema por Leitão de Barros, em 1931, tornando-se o primeiro filme sonoro português, que se estreou no São Luiz, a 18 de Junho de 1931 e esteve mais de seis meses em cartaz, sendo visto por 200 mil espectadores. Da sua banda sonora faz parte o “Novo Fado da Severa” (Rua do Capelão) com versos de Júlio Dantas e com música de Frederico de Freitas, que se popularizou muito para lá das telas do cinema.

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Duzentos anos após o seu nascimento, um grupo de investigadores, encabeçado pelo antropólogo Paulo Lima, desconstruiu a maior lenda da canção de Lisboa. Severa era descendente de escravos negros e prostituta de terceira categoria, explorada por um conde e produto de uma paisagem de exclusão. A este respeito, Miguel Azevedo, a 5 de janeiro de 2023, observa, no “The mag – the weekly magazine by flash”, que o novo e mais exaustivo trabalho de investigação sobre “a primeira cantora de fado” está no livro “Severa 1820”, que traça todo um mapa genealógico e muitos dos passos de Severa, durante os seus 26 anos de vida.

Começou a cantar por volta dos 10 anos e a vender o corpo pelos 12 anos. Destacou-se pela personalidade e pelos olhos de fogo, mas viveu uma vida de privações dificuldades e violência. Descobriu-se que terá vivido na Rua da Oliveirinha, porque documentação policial mostra que a mãe tentou matar o pai “com uma faca de sapateiro”. Contudo, Maria Severa marcou profundamente quem com ela se cruzou. Um texto de cerca de 1870 de alguém que ouvira uma sessão de fados na Praça da Figueira diz que a figura descrita é a da Severa.

Na hora da sua morte, terá sido a própria Severa a pedir que a lançassem em vala comum sem qualquer memória funerária, mas um embuçado apresentou-se a oferecer-se para comprar um coval ou erguer uma lápide, mas está por explicar de quem se trataria. 

Um do aspetos de maior interesse é que não era cigana, mas descendente de escravos africanos. Não era negra, mas teria pele trigueira. E Paulo Lima sustenta que os antepassados da Severa mais longínquos que se encontraram são um casal de escravos que se casa por volta de 1688. Têm vários filhos, entre os quais Luzia, “a Preta”, que era escrava forra ou liberta, mas que continuou a trabalhar para os mesmos patrões, que eram a família Manso, de Ponte de Sor. A Luzia teve vários filhos e é nesta linha de descendência que nasce, em 1791, Ana Gertrudes Severa, a mãe da Severa, que já casou tarde, em 1815, e que veio para Lisboa, por volta de 1817, à procura de melhor vida, que não encontrou.

Outro mito é o de que morreu jovem. Ora, à época, na idade em que morreu, já era mulher madura. Ao tempo, a primeira categoria de prostituta era a amante de alguém. A segunda era a que vivia em casas onde era explorada e a terceira era a prostituta de rua, onde se enquadrava a Severa. Há um documento segundo o qual  o pai e o padre local pediram para ela entrar na Casa Pia, para não cair na prostituição. Como tal não aconteceu, terá sido então que começou a prostituir-se. Não há documento que comprove o seu casamento, o que não era normal, se ele tivesse ocorrido, porque era prostituta de terceira categoria. Isso percebe-se pelas voltas que dava por Lisboa, à procura de clientes, sempre condicionadas às leis higiénicas da cidade que determinavam que as prostitutas só podiam andar em determinados sítios.

A relação com o 13.º Conde de Vimioso não era amor. Ela e a mãe deviam ser exploradas por ele, porque viviam em casas que lhe pertenciam, sem nunca pagarem.

Após a sua morte, surgem fados populares sobre esta mulher que morre de amores e é isso que se inscreve na História do Fado. Depois, surge a narrativa que vai construindo a figura da Severa. Ela foi a primeira fadista, mas, em 1830, a fadista era uma marginal. O que se pode dizer é que ela pertence à primeira geração daquilo a que viríamos a reconhecer como fado. Ela cantava já aos 10-12 anos. E, com ela, o fado extravasou dos ambientes marginais.

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Também com estas figuras, marcadas pela desdita (mas que marcam a vida), se deve construir a História e não só com os poderosos, cuja vida esconde, por vezes, imensa podridão.

2026.04.10 – Louro de Carvalho

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