O
crucigrama da revista do “Expresso”, de 10 de abril, com a indicação “Mítica
fadista” remeteu-me para o tempo da adolescência em que estava em voga a canção
“Ó Tempo volta pra trás” – composição de Eduardo Dantas e Manuel Paião,
interpretada por António Mourão e que replicávamos nos nossos serões – em que
se falava da Severa e cuja letra é :
“A
Severa, foi-se embora. / O tempo, pra mim parou. / Passado que vai com ela, / Para
mim não mais voltou.
“As
horas pra mim são dias, / As horas pra mim são dias, / Os dias pra mim são
anos. / Recordação é saudade, / Recordação é saudade, / Saudades são
desenganos.
“Ó
tempo, volta pra trás, / Traz-me tudo o que eu perdi. […]” (bis)
Maria
Severa Onofriana, filha de Severo Manuel de Sousa e de Ana Gertrudes Severa (apelido
adaptado do nome do marido), nasceu a 26 de julho de 1820, na Rua da
Madragoa ou dos Barracos (atual Rua Vicente Borga, n.º 33, na freguesia
da Estrela), onde a mãe tinha uma taberna, e passou por vários locais, até
se fixar na Mouraria, onde faleceu. Os locais do nascimento e da morte
estão assinalados com lápides, colocadas com o apoio da Câmara Municipal
de Lisboa.
Embora
a lenda lhe atribua ascendência cigana, investigação publicada, em 2022,
pelo antropólogo Paulo Lima, na obra “Severa 1820” (da Tradisom),
trouxe novos dados concludentes de que a fadista descendia de africanos
escravizados, levados, originalmente, para Ponte de Sor. A obra reconstrói o
percurso biográfico de Severa, desde o nascimento, a 26 de julho de 1820, na
Rua dos Barracos (freguesia dos Anjos), até à sua morte precoce, aos 26 anos,
desmistificando a narrativa romântica que envolve a sua figura.
A
mãe, conhecida como “A Barbuda”, era uma prostituta da Mouraria. E Maria
Severa ingressou, muito cedo, na mesma profissão, por volta dos 12 anos,
distinguindo-se “pelos olhos de fogo” e pelo seu modo de cantar o fado, segundo
vários relatos e registos epocais.
Em
1831, morava na Rua Direita da Graça e teria morado no Pátio do Carrasco ao
Limoeiro, por volta de 1844. Viveu no Bairro Alto à Travessa do Poço
da Cidade, antes de se fixar na Mouraria, na Rua do Capelão, n.º 35A, que
foi frequentada por marujos portugueses e ingleses, no tempo de Rua
Suja. Contam-se histórias sobre a Severa, mas muitas terão credibilidade
contestável, sendo mais lendas do que relatos oficiais. Percorria os bairros
populares de Lisboa e a sua voz animou as noites de muitas tertúlias bairristas,
tendo algumas tabernas ficado famosas pela sua presença. Teve vários amantes,
entre eles o 13.º Conde de Vimioso, D. Francisco de Paula de Portugal e
Castro) enfeitiçado pelo modo como ela cantava e tocava guitarra,
levando-a, muitas vezes, à tourada, o que lhe proporcionou celebridade, prestígio
e maior número de oportunidades para se exibir ante um público de jovens da
elite social e intelectual.
Morreu
de tuberculose e de apoplética, às 21 horas de 30 de novembro de 1846, aos
26 anos, num bordel da Rua do Capelão, na Mouraria (freguesia
do Socorro), e foi sepultada no Cemitério do Alto de São João, em
vala comum, sem caixão. As suas últimas palavras terão sido: “Morro, sem nunca
ter vivido.” Na Mouraria,
na Rua do Capelão, encontra-se o “Largo da Severa”, onde a casa da fadista está
assinalada com a indicação de “Casa da Severa” e no chão, empedrado de calçada
à portuguesa, vê-se o desenho de uma guitarra. Na fachada da casa foi colocada
uma placa, onde se lê: “Nesta casa viveu Maria Severa Onofriana / Considerada
na época a expressão sublime do Fado / Faleceu em 30-11-1846 com 26 anos de
idade / Lisboa 3-6-1989.” A placa foi descerrada por Amália Rodrigues, geralmente
aclamada como a voz de Portugal.
A
sua fama deve-se, em parte, a Júlio Dantas, cuja novela “A
Severa” originou uma peça levada à cena, em 1901, e ao primeiro filme
sonoro português, de Leitão de Barros, em 1931. E, no filme “Fados”,
de 2007, do espanhol Carlos Saura, a Severa é interpretada por Cuca
Roseta.
***
O
Museu do Fado confirma a data do nascimento de Severa, pelo registo de batismo,
a 12 de setembro de 1820, na Paróquia dos Anjos, que, além do mais, refere que
era filha de Severo Manuel de Sousa, natural da freguesia de S. Nicolau, em
Santarém, e de Ana Gertrudes, nascida em Portalegre, tendo o casal celebrado
matrimónio a 27 de abril de 1815, na Paróquia de Santa Cruz da Prideira de
Santarém. E o assento de óbito, dá a entender que faleceu muito jovem, pois indica
a morte a 30 de novembro de 1846 na Rua do Capelão, apoplética e sem
sacramentos, aos 26 anos e solteira, tendo sido sepultada no Cemitério do Alto
de S. João.
Sustenta
o Museu do Fado que, além destes dados, pouco mais está comprovado sobre a vida
da cantadeira, pois a maioria das informações provém dos relatos orais de
contemporâneos, como Luís Augusto Palmeirim, Miguel Queriol e Raimundo António
de Bulhão Pato.
O
poeta Bulhão Pato, que a conheceu, testemunhou: “A pobre rapariga foi uma
fadista interessantíssima como nunca a Mouraria tornará a ter! Não será fácil
aparecer outra Severa altiva e impetuosa, tão generosa como pronta a partir a
cara a qualquer que lhe fizesse uma tratantada! Valente, cheia de afetos para
os que estimava, assim como era rude para com os inimigos. Não era mulher
vulgar.”
Augusto
Palmeirim que a viu e falou com ela uma vez, mas o bastante para não mais se
esquecer da “esbelta rapariga, que tinha lume nos olhos, uma voz plangente e
sonora”, mas também “modos bruscos e sacudidos”, que avisavam os interlocutores
a porem-se fora do alcance de um “revés de fortuna”. Tendo-a visitado numa casa
onde morava, no Bairro Alto, descreveu, posteriormente, no seu livro “Os
excêntricos do meu tempo”, a visita: “Quando entrei em casa da Severa, modesta
habitação do tipo vulgar das que habitam as infelizes suas congéneres, estava
ela fumando, recostada num canapé de palhinha, com chinelas de polimento
ponteadas de retrós vermelho, com um lenço de seda de ramagens na cabeça e as
mangas do vestido arregaçadas até ao cotovelo. Era uma mulher sobre o
trigueiro, magra, nervosa e notável por uns magníficos olhos peninsulares. Em
cima de uma mesa de jogo estava pousada uma guitarra, a companheira inseparável
dos seus triunfos; e pendente da parede (sacrilégio vulgar nas casas daquela
ordem) uma péssima gravura, representando o Senhor dos Passos da Graça!”
Miguel
Queriol refere a visita noturna de um grupo de boémios ao Palácio do Conde de
Vimioso, na qual Severa cantou o Fado, acompanhada à guitarra por Roberto
Camelo. Em artigo do jornal “O Popular”, comentou: “Era uma rapariga esbelta,
bem apessoada, cabelo escuro e farto, com um ar de desenvoltura sem ultrapassar
as conveniências da sua posição, para com quem a favorecia, trajando limpa, mas
modestamente, sem fazer lembrar a desgraça da classe em que menos o vício [do] que
a miséria a havia precipitado, e que, pela sua timidez, se mostrava contrafeita
no meio social em que ali se achava.”
Maria
Severa Onofriana, celebrizou-se como Severa, o ícone de primeira fadista pelos
seus amores e pelos fados que cantava, tocava e dançava, na Mouraria. Os locais
da sua atuação não estão ainda identificados, mas estarão relacionados com os
circuitos de prostituição, em particular do Bairro Alto e da Mouraria. Porém,
fez apresentações em festas aristocráticas, o que foi possível pela sua ligação
ao conde de Vimioso, como relata Miguel Queriol no jornal “O Popular”, que elogia
a apresentação de Severa no Palácio do Conde.
Eduardo
Sucena refere que um dos locais frequentados pela cantadeira, onde teria
conhecido o Conde de Vimioso, era a taberna da Rosária dos “Óculos”, que ficava
ao cimo da Rua do Capelão, no prédio conhecido por “casa de pedra”. Aí ela
cantava e batia o fado, acompanhada à guitarra por Joaquim Lucas, caixeiro de
uma outra taberna da Rua dos Cavaleiros. O mesmo autor indica a taberna do
Manuel Jerónimo, o Cegueta, e a do Manhoso, situadas na mesma Rua do Capelão, e
o Café da Bola, na Rua de S. Vicente à Guia, como locais onde a presença de
Severa seria habitual. A estes locais acrescenta o café do antigo moço de
forcado Joaquim Silva, à Rua do Saco, perto da praça de touros do Campo de
Santana, onde o Conde de Vimioso se juntava com apreciadores e com praticantes
da arte de tourear.
Após
a sua morte, a “meio-soprano dos conservatórios do vício”, conforme a apelidou
Pinto de Carvalho, passou a usufruir de crescente fama, até então inédita,
nestes círculos populares, cantada em letras de fados, em romance e até no
cinema. Essa popularidade está patente no “Fado da Severa”, catalogado por
Teófilo Braga no “Cancioneiro Popular” de 1867, como sendo de autoria de Sousa
do Casacão e datado de 1848, de que transcrevem algumas quadras:
“Chorai
fadistas, chorai, / Que uma fadista morreu. / Hoje mesmo faz um ano / Que a
Severa faleceu.
“Chorai,
fadistas, chorai / Que a Severa já morreu: / E fadista como ela / Nunca no Mundo
apar’ceu.
(...)
“Chorai,
fadistas, chorai, / Que a Severa se finou. / O gosto que tinha o Fado, / Tudo
com ela acabou.”
Prolonga-se
a aura de mistério que torna Severa a figura mitológica do fado, fruto da
ausência de detalhes sobre a sua vida e da inexistência de retrato que possa, comprovadamente,
perpetuar a sua figura. De tal forma esta imagem assumia grande importância que
o jornal “Canção do Sul”, de 1 de Setembro de 1939, apresentava, na primeira
página, uma fotografia que afirmava ser o retrato de Severa, mas que era a
reprodução, em postal ilustrado, de Acácia Reis (Severa) e Rosa d’ Oliveira
(Rosa Enjeitada), na revista “Na ponta da Unha”, representada no teatro da Rua
dos Condes, em 1902.
Em
1901, Júlio Dantas escreveu “A Severa”, alterando alguns aspetos da possível
verdade histórica, transformando o Conde de Vimioso em Conde de Marialva”,
atribuindo origem cigana a Severa e construindo um enredo dramático que, ao
gosto romântico da época, se baseia em “A Dama das Camélias”, de Alexandre
Dumas. Do mesmo autor é a peça que estreia a 25 de Janeiro de 1901, no Teatro
D. Amélia (futuro Teatro São Luiz), com Ângela Pinto a protagonizar a
cantadeira Severa. De tal forma esta peça se tornou um êxito que foi adaptada a
opereta por André Brun, em 1909. Neste espetáculo a protagonista foi Júlia
Mendes.
Continuando
a ser tema popular e com sucesso, sucederam-se as reposições em palco com as
mais conceituadas protagonistas, como a encenação da companhia de Vasco
Morgado, estreada a 8 de março de 1955, no Teatro Monumental, com Amália
Rodrigues a interpretar Severa.
A
obra de Júlio Dantas foi adaptada ao cinema por Leitão de Barros, em 1931, tornando-se
o primeiro filme sonoro português, que se estreou no São Luiz, a 18 de Junho de
1931 e esteve mais de seis meses em cartaz, sendo visto por 200 mil
espectadores. Da sua banda sonora faz parte o “Novo Fado da Severa” (Rua do
Capelão) com versos de Júlio Dantas e com música de Frederico de Freitas, que
se popularizou muito para lá das telas do cinema.
***
Duzentos
anos após o seu nascimento, um grupo de investigadores, encabeçado pelo antropólogo
Paulo Lima, desconstruiu a maior lenda da canção de Lisboa. Severa era descendente
de escravos negros e prostituta de terceira categoria, explorada por um conde e
produto de uma paisagem de exclusão. A este respeito, Miguel Azevedo, a 5 de
janeiro de 2023, observa, no “The mag – the weekly magazine by flash”, que o
novo e mais exaustivo trabalho de investigação sobre “a primeira cantora de
fado” está no livro “Severa 1820”, que traça todo um mapa genealógico e muitos
dos passos de Severa, durante os seus 26 anos de vida.
Começou
a cantar por volta dos 10 anos e a vender o corpo pelos 12 anos. Destacou-se
pela personalidade e pelos olhos de fogo, mas viveu uma vida de privações
dificuldades e violência. Descobriu-se que terá vivido na Rua da
Oliveirinha, porque documentação policial mostra que a mãe tentou matar o pai “com
uma faca de sapateiro”. Contudo, Maria Severa marcou profundamente quem com ela
se cruzou. Um texto de cerca de 1870 de alguém que ouvira uma sessão de fados
na Praça da Figueira diz que a figura descrita é a da Severa.
Na
hora da sua morte, terá sido a própria Severa a pedir que a lançassem em vala
comum sem qualquer memória funerária, mas um embuçado apresentou-se a oferecer-se
para comprar um coval ou erguer uma lápide, mas está por explicar de quem se
trataria.
Um
do aspetos de maior interesse é que não era cigana, mas descendente de
escravos africanos. Não era negra, mas teria pele trigueira. E Paulo Lima sustenta
que os antepassados da Severa mais longínquos que se encontraram são um casal
de escravos que se casa por volta de 1688. Têm vários filhos, entre os quais
Luzia, “a Preta”, que era escrava forra ou liberta, mas que continuou a
trabalhar para os mesmos patrões, que eram a família Manso, de Ponte de Sor. A
Luzia teve vários filhos e é nesta linha de descendência que nasce, em 1791,
Ana Gertrudes Severa, a mãe da Severa, que já casou tarde, em 1815, e que veio
para Lisboa, por volta de 1817, à procura de melhor vida, que não encontrou.
Outro
mito é o de que morreu jovem. Ora, à época, na idade em que morreu, já era mulher
madura. Ao tempo, a primeira categoria de prostituta era a amante de alguém. A
segunda era a que vivia em casas onde era explorada e a terceira era a
prostituta de rua, onde se enquadrava a Severa. Há um documento segundo o qual o pai e o padre local pediram para ela entrar na
Casa Pia, para não cair na prostituição. Como tal não aconteceu, terá sido então
que começou a prostituir-se. Não há documento que comprove o seu casamento, o
que não era normal, se ele tivesse ocorrido, porque era prostituta de terceira
categoria. Isso percebe-se pelas voltas que dava por Lisboa, à procura de
clientes, sempre condicionadas às leis higiénicas da cidade que determinavam
que as prostitutas só podiam andar em determinados sítios.
A
relação com o 13.º Conde de Vimioso não era amor. Ela e a mãe deviam ser
exploradas por ele, porque viviam em casas que lhe pertenciam, sem nunca
pagarem.
Após
a sua morte, surgem fados populares sobre esta mulher que morre de amores e é
isso que se inscreve na História do Fado. Depois, surge a narrativa que vai
construindo a figura da Severa. Ela foi a primeira fadista, mas, em 1830, a
fadista era uma marginal. O que se pode dizer é que ela pertence à primeira
geração daquilo a que viríamos a reconhecer como fado. Ela cantava já aos 10-12
anos. E, com ela, o fado extravasou dos ambientes marginais.
***
Também
com estas figuras, marcadas pela desdita (mas que marcam a vida), se deve
construir a História e não só com os poderosos, cuja vida esconde, por vezes,
imensa podridão.
2026.04.10
– Louro de Carvalho
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