Nas
eleições de 12 de abril, as mais participadas da História recente da Hungria e
das que tiveram o mais rápido desfecho, o Tisza (Partido Respeito e Liberdade),
liderado por Péter Magyar, foi o vencedor, com Viktor Orbán, líder do Fidesz (União
Cívica Húngara), a reconhecer a derrota, ainda antes de a contagem dos votos ter
chegado ao fim, e a dar os parabéns a Péter Magyar, que festejou a vitória com
milhares de apoiantes que saíram às ruas.
Em
conferência de imprensa, Viktor Orbán, primeiro-ministro em exercício, disse
que o “resultado das eleições é doloroso, mas é inequívoco”. E o chefe do
governo, durante 16 anos, garantiu, no discurso de derrota, que vai continuar a
servir o país, mesmo “na oposição”. Já o presidente do Tisza, Péter Magyar, discursando
perante os milhares de apoiantes que saíram às ruas, em Budapeste, celebrou a
vitória, frisando que este é um “mandato sem precedentes”, pois o seu partido
vai ter dois terços, no Parlamento.
O
vencedor declarou que “o Tisza e a Hungria venceram esta eleição, não por
pouco, mas por muito”, o que significa derrube do regime de Orbán e libertação da
Hungria. É, na sua ótica, uma vitória que “é visível, não apenas da lua, mas de
todas as janelas da Hungria”.
Às
6h00, os eleitores começaram a acorrer às urnas, que encerraram às 19h00,
protagonizando um ato eleitoral seguido por toda a Europa, pelos Estados Unidos
da América (EUA) e pela Rússia. As ramificações da União Europeia (UE), para
Vladimir Putin, são muitas.
A
participação dos húngaros nas eleições atingiu os 77,8% até às 18h30, segundo o
balanço oficial divulgado meia hora antes da votação terminar. É um recorde de
participação e um aumento significativo, face aos 62% na última eleição há
quatro anos.
No
site da Comissão Eleitoral, ao final da noite, o Tisza seguia à frente
com mais de 90% dos votos contabilizados. Por conseguinte, o partido vencedor
elegerá 138 deputados, em 199 (o que lhe garante a maioria absoluta no
Parlamento que é de 100 deputados), enquanto o Fidesz de Viktor Orbán terá 55
parlamentares. O partido de extrema-direita Nossa Pátria deverá entrar com seis
deputados. E a Coligação Democrática (DK), de esquerda, não deverá eleger ninguém.
A
Hungria tem o sistema eleitoral de uma volta, em que o partido ou a coligação
que obtiver o maior número de lugares deverá formar governo. Dos 199 lugares do
Parlamento, 106 são eleitos em círculos eleitorais uninominais e os restantes
93 são atribuídos através de listas partidárias. Os cidadãos húngaros que vivem
no estrangeiro também podem votar.
Não
há sondagens à boca das urnas, apenas são divulgados resultados das últimas.
No
Facebook, Magyar, informou que Orbán lhe ligou e lhe deu os parabéns
pela vitória eleitoral. Depois de votar, o então líder da oposição disse que
estava certo de que o Tisza venceria e que acreditava que haveria mudança no
topo da política. Mais tarde, após o fecho das urnas, o então candidato da
oposição falou aos apoiantes e aos jornalistas, mostrando-se otimista, face aos
números, mas pediu calma. Não queria ganhar as sondagens, mas as eleições.
Após
campanha de ataques pessoais, de assédio e de incidentes isolados de violência,
as urnas abriram, para o que os analistas descrevem como referendo a 16 anos de
governo.
***
Viktor
Orbán, que governava com supermaioria parlamentar, desde 2010, enfrentava,
desta vez, o maior desafio da sua carreira política com o antigo aliado, Péter
Magyar. E o analista político Szabolcs Dull, antes da votação, sustentava que esta
era a primeira eleição em que havia verdadeiro risco, visto que Viktor Orbán, tendo
ganho, consistentemente, por grandes margens, em grande parte, devido à fragmentação
oposicionista, enfrentava, agora, um único adversário que, de acordo com as
sondagens, era capaz de ganhar.
Sondagens
recentes sugeriam forte vantagem para o Tisza, numa mudança histórica, e uma
sondagem publicada, dias antes das eleições, pela empresa húngara Medián previa
potencial maioria parlamentar de dois terços para a oposição. No entanto, fonte
do partido de Orbán, o Fidesz, referiu à Euronews, sob anonimato, que o
campo governamental estava confiante, aduzindo que os seus principais eleitores
estão sub-representados nas sondagens.
Viktor
Orbán é uma das figuras mais experientes da História política moderna da
Hungria. Foi cofundador do Fidesz, aquando do colapso do comunismo, e ganhou
proeminência, em 1989, após ter apelado à retirada das tropas soviéticas. E,
com o regresso ao poder, em 2010, reformulou a Constituição, as instituições e
o panorama mediático da Hungria.
Na
cena europeia, emergiu como figura de proa da extrema-direita, conhecida pela
sua posição sobre a “migração zero” e pelos frequentes confrontos com as
instituições da UE. Já Péter Magyar rompeu com o governo, em 2024, na sequência
do escândalo conexo com o perdão de um condenado num caso de abuso sexual de
crianças, e fundou o partido Tisza, nesse ano, tendo obtido 30% dos votos nas
eleições para o Parlamento Europeu (PE).
A
campanha de Magyar centrou-se no trabalho de base, em especial, nas cidades
mais pequenas e nas zonas rurais, onde o apoio ao seu movimento tem crescido. Prometeu
mudança de governo e renovação da oposição. “A sua vantagem é que é o único
adversário credível, consolidando um apoio que, anteriormente, estava dividido”,
dizia Szabolcs Dull.
A
votação foi acompanhada de perto em Bruxelas e noutras capitais europeias. Há
muito que o governo de Orbán discorda da UE, recorrendo ao poder de veto. Em
março, a Hungria bloqueou um pacote de empréstimos da UE, no valor de 90 mil
milhões de euros para a Ucrânia, no âmbito da disputa sobre o gasoduto Druzhba,
o que suscitou críticas de vários estados-membros. Por outro lado, Viktor Orbán
tem mantido laços estreitos com o presidente russo.
Além
da UE, a Hungria tornou-se ponto focal na disputa ideológica mais vasta entre
forças nacionalistas e liberais democráticas. “Orbán promove o que descreve
como ‘política patriótica’, posicionando-a em oposição à democracia liberal,
diz Szabolcs Dull, vincando que a sua derrota será “revés simbólico para
movimentos semelhantes, a nível internacional”.
Viktor
Orbán tem recebido o apoio de várias figuras proeminentes da direita
internacional, como o presidente dos EUA, Donald Trump. E o vice-presidente James
David Vance, deslocou-se a Budapeste durante a campanha, juntamente com os
líderes da extrema-direita Marine Le Pen, de França, e Matteo Salvini, de
Itália.
Já
Péter Magyar está alinhado com a esfera conservadora europeia, mesmo que não
seja líder pró-europeu, no sentido liberal do termo. O Tisza integra o Partido
Popular Europeu (PPE), o grupo de centro-direita no PE, e prometeu restaurar as
relações da Hungria com a UE e com a Organização do Tratado do Atlântico Norte
(NATO). E, embora nenhum líder estrangeiro o tenha apoiado, publicamente,
recebeu o apoio de figuras de topo do PPE, incluindo o primeiro-ministro polaco,
Donald Tusk, e o chanceler alemão, Friedrich Merz.
A
campanha tem sido dominada por narrativas contrastantes. A oposição centrou-se
nas preocupações internas, como os serviços públicos, o custo de vida e a
corrupção. Ao invés, a campanha de Viktor Orbán centrou-se na política externa,
em particular, na Ucrânia, advertindo que a sua adesão à UE traria riscos
económicos e de segurança, e acusou a oposição de alinhamento com forças
obscuras que procuram prolongar a guerra, com Péter Magyar a servir de líder
fantoche de Bruxelas, asserções que o visado rejeita em absoluto.
O
enquadramento de ambos os lados claro: Orbán apresenta a escolha entre a guerra
e a paz; e Magyar aduz que a eleição é sobre a permanência de Orbán no poder.
Por
outro lado, a campanha foi marcada por alegações de intimidação, de violência
limitada e de alegações de interferência estrangeira. Em fevereiro, Magyar
alegou que indivíduos ligados ao governo o tentaram comprometer com a armadilha
de mel (a gravação, sem o seu conhecimento, de vídeo de cariz sexual com
uma mulher), mas não foram apresentadas quaisquer provas. Pouco tempo depois,
foram divulgadas gravações com o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro em
conversações com o seu homólogo russo, sobre a possibilidade de exercer pressão
na UE. E, de acordo com os analistas, vários serviços secretos podem ter tentado
influenciar a campanha, através da divulgação de material prejudicial.
***
“A
Hungria quer voltar a ser um país europeu”, diz o novo primeiro-ministro da
Hungria.
Com
um discurso de menos de sete minutos, antes da queda do muro de Berlim, Viktor Orbán
exigia a saída das tropas russas do país e a realização de eleições livres que restituíssem
o país ao seu natural curso: a Europa. Desta feita, é Peter Magyar, de
sobretudo azul estilo bocskai, como os membros da elite militar
húngara do século XVIII, está a dizer quase o mesmo, ou seja, que é preciso
fazer regressar a Hungria à sua posição ocidental, na NATO e na UE. E,
a 12 de abril, pelo menos, três milhões e meio de húngaros acompanharam-no,
nessa urgência. A derrota de Viktor Orbán é “dolorosa, mas inequívoca”, como
ele a classificou.
No
discurso de vitória, o líder do partido vencedor falou de milagre dos eleitores
e do triunfo “sobre as mentiras”. Evocando John F. Kennedy, outro líder jovem
que modificaria a definição de liderança democrática, em todo o Mundo, Péter
Magyar disse que os Húngaros perguntaram não o que a Hungria podia fazer por
eles, mas o que eles podiam fazer pela Hungria. “Perguntaram e deram a
resposta”, vincou, bradando à multidão que se reuniu para o ouvir, em frente ao
Parlamento: “Não temos medo! Não temos medo! Não temos medo!”.
Georgios
Samaras, professor do King’s College de Londres, considera que a Hungria está
“a deslocar-se num caminho mais pró-UE, potencialmente com uma maior
convergência em partes da política externa, incluindo a Ucrânia”, mas que “não
devemos esperar milagres”, já que, tendo o país passado por 16 anos de
desenvolvimento autoritário, qualquer novo governo herdará esses instrumentos e
os utilizará para arrancar o controlo ao Fidesz”. No entanto, “o reforço dos
laços com a UE parece ser uma prioridade clara”, diz o especialista.
O
documentário, “Tavaszi szél – Spring Wind” (“Ventos de Mudança”), que detalha a
génese e a consolidação do Tisza (Partido Respeito e Liberdade e o nome de um
rio húngaro), leva a perceber porque transbordou o Tisza. Logo na primeira
manifestação que organizou, contra o indulto concedido pela então presidente,
Katalin Éva Novac, ao cúmplice de um pedófilo, Magyar reuniu mais de 30
mil pessoas. Numa carrinha de caixa aberta pintada a spray, com as cores
da bandeira húngara, iniciou uma campanha por todos os círculos eleitorais do
país. Foi a primeira vez que alguém com a pretensão política de derrotar Orbán
se aventurou num terreno conservador que lhe confiava o voto, pelo menos, desde
2010. Três anos bastaram para pôr fim a um partido e a um homem que já não
consegue apaixonar os eleitores.
Com
a maioria de dois terços confirmada, Magyar disse que o Tisza venceu a batalha
de “David contra Golias”, porque o Fidesz “utilizou todos os meios ao seu
alcance para tentar impedir” a vitória, e lembrou a polémica do início de
abril, quando um polícia da brigada de investigação de cibercrime denunciou o
plano do governo para prender membros da equipa de informática do Tisza por
alegada suspeita da existência de pornografia infantil nos computadores.
A
paralisia dos serviços públicos, a degradação de muitas infra estruturas do
Estado, como hospitais e escolas, e a noção de que tudo era culpa de uma elite
que ficava com boa parte dos fundos europeus foram as queixas mais ouvidas em
conversa com eleitores.
O
que Magyar sabe aprendeu-o com Orbán. Tinha um poster seu no quarto de
adolescente. Em miúdo, via o canal parlamento com a avó. Quando casou com Judit
Varga, em 2006, a mulher que havia de se tornar ministra da Justiça de Orbán,
antes de cair, por ter assinado o referido indulto, com a presidente, passa
para o Fidesz, que tratava bem os seus. E ter sido tão próximo do poder que
derrotou, Magyar fez maior a sua vitória. Até a esquerda e o centro-esquerda, sem
opções que pudessem derrotar Orbán, votou em massa em Péter Magyar.
Contudo,
é difícil identificar o momento, a frase ou a promessa que levou os Húngaros a deixarem
o homem que ensinou ao Mundo como controlar um país, mantendo eleições livres.
E isso torna a vitória de Magyar tão significativa, servindo de prova de que é
possível derrotar o iliberalismo, sistema de democracia híbrido com controlo do
poder judicial, onde a quase totalidade dos meios de comunicação social é
detida por uma fundação do Fidesz, os membros do Conselho para o Orçamento do
Estado, que tem de o aprovar, são nomeados pelo executivo. Todavia, há oposição
e os seus membros não são encarcerados por se manifestarem com folhas brancas
na mão, como na Rússia, a quem Orbán se encostou demasiado.
Não
obstante, o grito de revolta de 1956 – “Rússia, vai para casa!” – foi
reiterado, nesta campanha, agora, dirigido a Orbán, bem como os
“contracomícios” (inovação deste ano), em locais onde este ia falando, a mostrar
onde os Húngaros não desejam estar.
A
geopolítica alterou-se, mas Magyar, em vez dos temas externos, falava dos
problemas das pessoas, como o preço da alimentação, as esperas nos hospitais, o
estado das estradas e a corrupção, que suga recursos públicos e impede a
melhoria das infraestruturas.
O
presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, foi constante presença na campanha
eleitoral. Cartazes do Fidesz anunciavam que a Europa retira fundos à Hungria
para os dar à Ucrânia e que Bruxelas estaria a preparar-se para deixar a
Ucrânia entrar na UE, sem qualquer compensação aos países que mais poderiam
sofrer com essa entrada. No entanto, apesar de referir que tenciona aproximar a
Hungria da UE, a questão da Ucrânia não é tão simples. Magyar opôs-se à aceleração do processo de
adesão da Ucrânia à UE, rejeitou o envio de armas para Kiev e deu a entender
que submeteria a referendo adesão à UE. O Tisza votou contra o empréstimo
da UE à Ucrânia, no PE, apesar de a Hungria não ter de contribuir
financeiramente. Os interesses de Budapeste devem estar em primeiro lugar e
Magyar criticou a erosão dos direitos da minoria húngara, na Ucrânia.
Porém,
Zelensky deu os parabéns a Magyar pela “vitória convincente” e espera uma “abordagem
construtiva”.
Quanto
à extrema-direita europeia, o declínio do Fidesz afeta o papel dos Patriotas
pela Europa (partido europeu onde estão forças nacional-conservadoras da UE,
como o Vox espanhol, o Chega português ou o Reagrupamento Nacional de França), pois
esse grupo terá de apoiar-se, mais fortemente, noutras forças de relevo sem o
Fidesz a governar.
***
A
retumbante vitória do Tisza desferiu um golpe na ascensão da extrema-direita na
Europa, mas resta saber qual a dimensão do golpe; representa opção clara pela UE,
mas falta definir tal clareza; significa enfraquecimento da diplomacia dos EUA
e da Rússia, mas convém verificar se não se trata de simples alfinetada. Enfim,
resta saber se a esperança da recomposição física, social, moral, infraestrutural
e política da Hungria será realidade e se as relações com os países de fronteira
e com a UE (em prol do projeto europeu) conhecerão melhores dias.
2026.04.13
– Louro de Carvalho
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