sábado, 11 de abril de 2026

Portugal é o país da Zona Euro em que mais subiu o preço das casas

 

 

Na União Europeia (UE), o preço das casas subiu, em média, 5,5%, no quarto trimestre de 2025, face ao mesmo período de 2024, mas vários países registaram aumentos bastante mais fortes, acima dos 10%, nomeadamente, em destinos turísticos, como Portugal, a Croácia e a Espanha. E, em geral, os especialistas do setor apontam a melhoria das condições de financiamento, em particular, das taxas de juro, como principal motor desta tendência.

A Hungria foi o país da UE que registou, segundo o Eurostat,  o maior aumento anual dos preços das casas, no quarto trimestre de 2025, com a subida de 21,2%. “Na Hungria, que lidera a tabela, foram promovidos, nos últimos anos, programas de aquisição de habitação subsidiada, que impulsionaram a procura, a par de forte atividade dos investidores”, observou Kate Everett-Allen, responsável pela investigação em habitação europeia na Knight Frank.

Na Zona Euro, Portugal e a Croácia registaram os mais fortes aumentos. Neste âmbito, cabe a Portugal a subida de 18,9%, vindo, a seguir, a  Croácia, com 16,1%, e a Espanha, com 12,9%. E

Everett-Allen afirmou que a forte procura internacional foi um fator decisivo nos três países. Com efeito, a migração, por razões de estilo de vida, a compra de casas de férias e o investimento externo (incluindo nómadas digitais, reformados e compradores estrangeiros) mantiveram-se robustos, apesar da subida dos custos de financiamento interno, sobretudo, nos mercados costeiros e urbanos.

Michael Polzler, CEO da empresa imobiliária REMAX Europe adiantou que as maiores subidas de preços, em Portugal, na Croácia e na Espanha ocorreram nas grandes áreas urbanas e costeiras, onde a procura é maior. “Em Portugal, a subida dos preços tem sido impulsionada por uma oferta muito limitada, sobretudo, em Lisboa, no Porto e nas zonas envolventes, mas também por medidas de apoio específicas do governo”, referiu, sustentando que foi importante motor da procura a criação do regime de garantia pública para jovens compradores de primeira habitação, que permite financiamento bancário, até 100% do valor, com o Estado a garantir até 15% do preço do imóvel.

Trata-se, na sua ótica, de mercado dominado pelos vendedores, e a escassez de oferta, combinada com esta política, permite manter forte poder de fixação de preços.

Para o líder da REMAX Europe, “a evolução dos preços, no final de 2025, foi marcada pela melhoria das condições de financiamento, que trouxe de volta a procura”; e, “com a estabilização das taxas de juro, compradores que tinham adiado a procura de casa voltaram ao mercado”.

Mikk Kalmet, da Global Property Guide, frisando a recuperação da procura, após as subidas das taxas de juro, em 2023 e em 2024, observou: “À medida que a Euribor e as taxas de juro bancárias, em geral, estabilizaram, o mercado recuperou, ligeiramente, porque quem hesitava em comprar numa fase de incerteza passou a sentir alguma previsibilidade a partir do final de 2024.”

Michael Polzler referiu que cidades, como Valência e Madrid, têm superado as médias nacionais, na Espanha, apoiadas pela procura interna e internacional. De facto, o investimento estrangeiro sustentado e a atratividade contínua dos mercados reforçam a subida dos preços.

Para Mikk Kalmet, a maior subida dos preços, em Portugal, na Croácia e na Espanha, resulta, sobretudo, da sua atratividade de destinos turísticos. Efetivamente, compradores internacionais, a procura de segundas residências e a expansão do alojamento de curta duração aumentaram a pressão sobre o mercado de habitação, sobretudo, nas zonas costeiras e urbanas.

Além dos países referidos, há outros que também registaram fortes subidas dos preços das casas, superiores a 10%: a Eslováquia, com 12,8% (menos 0,1% do que a Espanha), a Bulgária, com 12,6%, a Letónia, com 11%, a Lituânia, com 10,8%, e a Chéquia, com 10,4%.

Everett-Allen salientou que a Europa Central e de Leste, a par da Península Ibérica, se destacaram, nos últimos 12 a 18 meses, em linha com o crescimento do produto interno bruto (PIB) mais forte. “Estes mercados beneficiam também do investimento em infraestruturas e da entrada de capitais, tanto associados a escolhas de estilo de vida como às perspetivas económicas de longo prazo”, explicitou.

Por seu turno, Mikk Kalmet sustenta que os preços tendem a subir mais depressa, na Europa Central e de Leste, em parte, porque os rendimentos estão a aproximar‑se da média europeia e o ponto de partida do mercado da habitação era mais baixo.

As subidas dos preços das casas na Dinamarca (7,6%), na Irlanda (7%), na Roménia (6,7%), nos Países Baixos (6,2%), em Malta (6,1%), em Chipre (6%), na Eslovénia (5,8%) e na Noruega (5,7%) ficaram também acima da média da UE, embora por margem menor.

A Finlândia foi o único país, entre 29 mercados europeus, onde os preços das casas desceram, com uma queda anual de 3,1%.

Entre as quatro maiores economias da UE, a Espanha destacou‑se com a subida de 12,9% e a Itália registou a subida de 4,1%. Na Alemanha, os preços das casas aumentaram 3%, enquanto a França ficou na terceira posição mais baixa na Europa, com apenas 1% de subida. “A França ainda está a recuperar da forte correção do mercado, em 2023 e em 2024, quando a subida das taxas de juro do crédito à habitação e a inflação afetaram, de forma significativa, a procura, como explicou Michael Polzler, sustentando que “o mercado está a estabilizar, com movimentos de preços moderados e [com] compradores mais cautelosos”.

E, segundo Everett-Allen, o mercado residencial alemão esteve mais exposto ao peso do endividamento barato, ao fraco crescimento dos rendimentos e a um sistema de arrendamento que permite a retração rápida da procura e elevados custos regulatórios e de entrada.

O Luxemburgo ficou na segunda posição, com a subida de 0,1%; e, na quarta posição ficou a Suécia, com a subida de 1,2%.

Abaixo da média da UE (5,5%) e da média da Zona Euro (5,1%), ficaram ainda a Bélgica (3,5%), a Áustria (3,7%) e a Polónia (4,3%).

Também consta, abaixo das médias da UE e da Zona Euro, a Suíça, com a subida de 3,9%, e, acima destas médias, a Noruega, com a subida de 5,7% – países que não integram a UE.

***

A aquisição de casa depende do rendimento real disponível para compra ou para arrendamento. E um dos fatores que dificultou o poder de compra ou de arrendamento de casa foi a crise surgida com a pandemia da covid-19. E, com o regresso ao normal, adveio a crise inflacionista provocada pela guerra na Ucrânia e pela situação em Gaza e no Irão. No entanto, na UE, o rendimento real dos agregados familiares, por pessoa, subiu cerca de 7%, face ao período pré-pandemia, mas a variação entre 2019 e 2024 difere muito de país para país. Os países nórdicos registaram ganhos modestos, enquanto muitos países da Europa de Leste e Central viram crescimentos mais fortes. Também a evolução, na última década, não foi uniforme no continente.

É importante saber como se alterou o rendimento real dos agregados familiares, por pessoa, na Europa, entre 2014 e 2024, como se compara com a pré-pandemia e que países apresentam o rendimento, por pessoa, mais elevado em standard de poder de compra (PPS).

***

O PPS (Padrão de Poder de Compra:  Purchasing Power Standard), no contexto de rendimento por agregado familiar é a unidade monetária artificial da UE para comparar o poder de compra real entre diferentes países, eliminando as diferenças de nível de preços. A sua finalidade é comparar se um rendimento de, por exemplo, 20 mil euros anuais, permite comprar os mesmos bens e serviços, por exemplo, em Portugal ou na Alemanha, ajustando a inflação e o custo de vida local. Conexo com este, vem o rendimento líquido equivalente (RLE), por agregado familiar, calculando quanto dinheiro cada membro da família tem para gastar, após ajustar o custo de vida e a dimensão do agregado familiar.

Um PPS compra, em média, a mesma quantidade de bens e serviços, em cada país. Se um país tem um nível de preços elevado, são necessários mais euros para comprar um PPS do que num país com preços baixos. Assim, quando se analisa o rendimento por agregado familiar em PPS, olha-se o poder de compra real e não apenas para o valor nominal do salário. 

***

No conjunto da UE, os rendimentos aumentaram 17%, entre 2014 e 2024. O crescimento travou, em 2020, devido à pandemia de covid-19, como aconteceu em muitos países, havendo alguns a registar quebras. Depois retomou, de forma gradual, entre 2019 e 2024, resultando num aumento de 7% face, aos níveis pré-pandemia.

O rendimento dos agregados familiares, por pessoa, calcula-se dividindo o rendimento disponível bruto ajustado dos agregados familiares pela população total. Ou seja, mostra-se o dinheiro disponível dos agregados familiares para gastarem ou para pouparem. Mede-se deduzindo os impostos sobre o rendimento e as contribuições para pensões. Inclui, como é óbvio, o valor de serviços, como educação e saúde, que os agregados recebem, gratuitamente, dos governos e de organizações sem fins lucrativos. E é rendimento real, pois é o valor nominal corrigido da inflação, usando o deflator da despesa final efetiva de consumo das famílias.

A Croácia registou o crescimento mais forte do rendimento real dos agregados familiares, nestes cinco anos, com 26%. Malta registou 24%, a Hungria 20%, a Roménia 19% e a Polónia 16%, colocando-se estes países entre os maiores incrementos, todos acima de 15%. Com exceção de Malta, estes países estão fora da Zona Euro e o crescimento reflete também alterações nas moedas nacionais. Não é o caso da Suécia e da Dinamarca.

Os três países nórdicos surgem no fim da tabela: a Suécia, com 1%, a Finlândia, com 2%, e a Dinamarca, com 3%, registaram crescimentos modestos. No auge da covid-19, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), as taxas de desemprego subiram mais nos países nórdicos do que em outros países europeus; as quatro maiores economias da UE também ficam abaixo da média europeia. A França e a Espanha (6%, cada) estão abaixo da média da UE;  a Itália e a Alemanha (4%, cada) aproximam-se dos níveis nórdicos.

Em geral, os países fora da Zona Euro registaram crescimentos mais fortes, entre 2014 e 2024, com a Roménia a alcançar 76%. Entre os sete países com maior crescimento, Malta é o único membro da Zona Euro, com 55%. A Turquia (68%), a Hungria (55%), a Croácia (51%), a Bulgária (45%) e a Polónia (42%) também registaram aumentos significativos (a Croácia e a Bulgária aderiram, mais tarde, à Zona Euro). E o Eurostat assinala que o crescimento do produto interno bruto (PIB) real, na Zona Euro, foi mais fraco do que no conjunto da UE, nos últimos 10 anos.

A Suécia registou o crescimento mais baixo deste período. Os outros dois países nórdicos também ficam abaixo da média da UE, de 17%, com a Finlândia, nos 10%, e a Dinamarca, nos 14%. A Espanha está apenas dois pontos acima da média europeia, enquanto as outras três principais economias ficam abaixo deste patamar.

As taxas de crescimento são importantes, mas não mostram o nível efetivo de rendimento dos agregados familiares, em cada país. Para essa comparação, recorre-se ao rendimento disponível bruto ajustado dos agregados familiares por pessoa, em PPS. Em 2024, ano dos dados mais recentes, o Luxemburgo apresentou o rendimento, por pessoa, mais elevado, com 41,552 PPS, entre 32 países europeus. A Alemanha (37,098) a Áustria (34,443), os Países Baixos (34,406) e a Suíça (33,971) completam o top cinco. O rendimento, por pessoa, dos agregados familiares ultrapassa os 30,000 PPS na Bélgica, na França, na Islândia e na Noruega.

A Bulgária apresenta o rendimento por pessoa mais baixo, com 7,802 PPS, com base em dados de 2022. Países da Europa de Leste e dos Balcãs, incluindo candidatos à adesão à UE, registam, igualmente, rendimentos mais reduzidos, em termos de PPS.

A Sérvia situa-se nos 13,311 PPS, enquanto outros países, incluindo a Grécia, a Turquia, a Eslováquia, a Roménia e a Hungria se posicionam, sobretudo, entre 20,000 e 25,000 PPS.

Os três primeiros lugares no ranking em PPS mantiveram-se inalterados, em 2014, em 2019 e em 2024. Ao invés, a Grécia e a Suécia perderam posições, neste período, entre 30 países. A Suécia ocupava o sexto lugar, em 2014, o oitavo, em 2019l e o décimo, em 2024. A Grécia desceu do vigésimo terceiro para o  vigésimo oitavo lugar, na última década. Em contraponto, os Países Baixos subiram do sétimo para o quarto lugar. A Hungria passou do vigésimo sexto para o vigésimo segundo e a Roménia subiu do vigésimo nono para o vigésimo quatro.

***

Para enfrentar a crise da habitação em Portugal, a OCDE (vincando que o nosso é um dos países onde o acesso à casa mais se degradou, na última década) lançou, em janeiro de 2026, o relatório “OECD Economic Survey: Portugal 2026”, com recomendações que focam, sobretudo a reforma fiscal e o aumento da oferta.

Em termos de reforma fiscal e de impostos, propõe o agravamento do imposto municipal sobre imóveis (IMI) para casas vazias, com aperto fiscal e com aplicação efetiva de taxas mais altas para os cerca de 730 mil imóveis desocupados ou subutilizados, especialmente, em zonas de elevada procura; preconiza a redução (ou a eliminação progressiva) do imposto municipal sobre as transmissões onerosas de imóveis (IMT), para facilitar a mobilidade residencial; recomenda a limitação de isenções do imposto sobre as mais-valias, na venda de residência própria, mesmo quando o valor é reinvestido, para evitar pressões inflacionárias no mercado; e sugere a atualização de avaliações, baseando o valor patrimonial dos imóveis em dados recentes de mercado, para tornar a tributação mais justa e eficiente. 

A nível do aumento da oferta e do investimento, sugere a simplificação de licenciamentos, acelerando os processos administrativos e eliminando barreiras regulatórias que travam a construção de novos edifícios; a expansão da habitação pública, reforçando o investimento no parque de habitação social e pública, para apoiar as famílias mais vulneráveis; e o arrendamento de longo prazo, equilibrando a regulamentação para incentivar os proprietários a porem casas no mercado de arrendamento de longa duração, com maior segurança jurídica. 

E, no âmbito de outras medidas estruturais, recomenda o alívio do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS), sugerindo que o aumento da receita vinda de impostos imobiliários (como o IMI) se use para baixar os impostos sobre o trabalho, especialmente, para rendimentos mais baixos; e propõe  o apoio aos jovens, monitorizando o impacto das medidas de apoio a jovens compradores, para garantir que não levam à subida artificial de preços.

***

Do exposto é legítimo questionar por que se apregoa a vantagem da pertença à Zona Euro, se, nos países que a integram, o aumento do rendimento é menor; e por que motivo a OCDE não sugere medidas de políticas públicas que obstem à especulação imobiliária e do arrendamento. Uma renda de 2300 euros mensais, em Portugal, em que os salários são muito baixos, não é moderada e o senhorio não merece apoio estatal.

2026.04.11 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário