domingo, 12 de abril de 2026

Recuperada carga de navio bimilenar no lago Neuchâtel, na Suíça

 

 

Em artigo intitulado, “Achado sensacional: arqueólogos subaquáticos recuperam carga de navio com 2000 anos num lago na Suíça” publicado a 12 de abril, Kirste Ripper e a Euronews revelam que arqueólogos subaquáticos recuperaram, no lago Neuchâtel, na Suíça, “um carregamento de mais de mil artefactos de cerâmica” e de “espadas muito bem conservados, datados de 20 a 50 d.C.” e que, “para evitar pilhagens, a espetacular descoberta”, que aconteceu no final de novembro de 2024, “foi inicialmente mantida em segredo”.

Mergulhando no lago de Neuchâtel, Fabien Langenegger e Julien Pfyffer fizeram uma descoberta espetacular do Império Romano. No início, aproximaram-se, cautelosamente, de um monte de círculos, um suposto depósito de minas deixado para trás na II Guerra Mundial, mas, quando Julien Pfyffer ligou a luz da sua câmara, apareceu a cor caraterística da terracota. E, olhando para alguns pratos partidos, aperceberam-se ambos de que o achado era extraordinário.

Foi assim que Julien Pfyffer, em entrevista à Euronews, descreveu a descoberta de carga particularmente bem preservada de um navio que terá naufragado entre 20 e 50 d.C. Até os restos de comida encontrados nos recipientes de cerâmica estão agora a ser analisados.

O momento da descoberta foi impressionante para os dois arqueólogos. “Ficámos agarrados ao local por cima desta carga, durante vários minutos. Naquele momento, enquanto observava Fabien, apercebi-me de que estávamos numa situação muito especial.”

Foram as imagens de drone que mostravam uma mancha escura na água do Lago Neuchâtel, mais clara, há vários anos, que deram início ao mergulho, em busca por um naufrágio. Durante as campanhas de escavação – que duraram duas semanas, em 2025, e quase um mês, em 2026 – os arqueólogos subaquáticos da Fundação Octopus (fundação suíça dedicada à exploração marinha e ao conhecimento universal) desenterraram mais de mil objetos.

Presume-se que se trata da carga de um navio de carga que deveria levar utensílios de cozinha fabricados na Suíça para um acampamento romano. Um dos caixotes foi datado do ano 17 d.C. Os destroços do cargueiro ainda não foram encontrados no lago de Neuchâtel. Porém, nas últimas décadas, foram escavados navios romanos no Reno, na Alemanha, e no Ródano, na França.

Não obstante, foram encontrados objetos que pertenciam ao equipamento dos legionários, nomeadamente, duas espadas de gladiadores, um punhal, uma fivela de cinto e um perónio. De acordo com a equipa de arqueólogos, estes objetos sugerem que os legionários escoltavam o navio. Dada a quantidade de artefactos encontrados, a carga poderia ter sido destinada a uma legião de cerca de seis mil homens.

Foi também descoberto um cesto de vime que, segundo os arqueólogos, “foi milagrosamente preservado na giz do lago – ou craie lacustre, camada de sedimentos de calcário fino e solto que se deposita no fundo – e contém um grupo de seis objetos de cerâmica que diferem, no seu fabrico, do resto da carga”, dizem os arqueólogos, sustentando que se trata de louça e de alimentos menos elaborados dos marinheiros do navio. “Recuperámos da água todos os artefactos – pouco mais de mil – que estavam em risco de serem danificados por âncoras ou [por] redes ou roubados por saqueadores. Estes artefactos encontram-se, agora, na fase de limpeza e estão a ser processados pela equipa de restauro em terra. Uma vez concluída esta fase, os restauradores podem discutir com os arqueólogos o que observaram e o que nos escapa completamente durante a fase de escavação, uma vez que estamos muitas vezes no meio de uma nuvem de sedimentos”, explica Julien Pfyffer, explicitando que os restauradores poderão reconhecer pormenores (como selos de fabrico, vestígios de alimentos, elementos de proteção, como a palha entre os pratos), “que nos são muito difíceis de ver na água”.

A equipa Fundação Octopus está a preparar um livro e um documentário que serão publicados em 2027. Será realizada no Laténium, o maior museu arqueológico da Suíça, em Neuchâtel, uma exposição dos achados espetaculares, cuja data ainda não foi fixada. E ainda há muito para descobrir: segundo a equipa Octopus, há mais artefactos históricos nos oceanos do que em todos os museus do Mundo.

***

De acordo com o artigo de Éric Moreira intitulado “Naufrágio romano raro de dois mil anos é descoberto em lago na Suíça”, publicado, a 26 de março, pela revista “Aventuras na História”, a descoberta é considerada de grande relevância arqueológica, pois o sítio submerso reúne um conjunto expressivo de artefactos e oferece novas perspetivas das rotas comerciais, da logística e da presença militar, no início do Império Romano.

Ainda de acordo com a mesma revista, o achado foi localizado em novembro de 2024, a partir de imagens aéreas utilizadas para monitorização do leito do lago, no âmbito de um projeto voltado à proteção do património subaquático. A identificação de uma anomalia levou à realização de mergulhos exploratórios, que confirmaram a presença de vestígios de uma embarcação. Embora a estrutura do barco não tenha resistido ao tempo, a carga permaneceu amplamente preservada, ao longo dos séculos.

As análises iniciais indicam que o naufrágio ocorreu entre os anos 20 e 50 d.C., período de transição entre o final da República e o início do Império Romano. Todavia, exames de datação por carbono-14, realizados em fragmentos de madeira, sugerem um intervalo mais amplo, entre 50 a.C. e 50 d.C., reforçando a antiguidade do conjunto, segundo o comunicado oficial do cantão de Neuchâtel. A escavação é conduzida pela Fundação Octopus em parceria com o Departamento de Arqueologia do Cantão de Neuchâtel.

O referido comunicado releva que, em novembro de 2024, no fundo do Lago Neuchâtel, foi descoberto um naufrágio excecional, cujo espólio era um tesouro milagrosamente preservado de cerâmica, de armas, de ferramentas e de peças de arreios relacionados com o transporte puxado por cavalos. E lança a hipótese de se, datando do início do Império Romano, essa carga poderia estar ligada ao destacamento das legiões romanas, ao longo do Reno, enfrentando a perigosa Germânia.

Mais refere que, no quadro do projeto “Naufrágios vulneráveis ​​do Lago Neuchâtel”, iniciado em 2018, o último deles foi descoberto por drone, em 21 de novembro de 2024, por Fabien Droz, colaborador externo do Departamento de Arqueologia do Cantão de Neuchâtel (OARC).

A primeira confirmação e a avaliação subaquática foi realizada, em 24 de novembro de 2024, pelo arqueólogo responsável pela área lacustre do cantão de Neuchâtel, Fabien Langenegger, e por Julien Pfyffer, presidente da Fundação Octopus.

Durante esse mergulho extraordinário, determinou-se que se tratava de vasta carga de cerâmica antiga. Diversas peças foram recolhidas para análise rápida por especialistas. Além disso, uma amostra de madeira da carga foi extraída para datação por carbono-14. Os resultados dessa análise estabeleceram um período entre 50 a.C. e 50 d.C. Essa descoberta inicial situa a carga no período entre o fim da República Romana e o início do Império Romano.

Graças à diversidade dos objetos e ao seu excecional estado de conservação, este conjunto representa um raro vislumbre da antiguidade, provavelmente, enterrado sob sedimentos, durante várias centenas de anos. Porém, na sequência de dois projetos de correção das águas do Jura (nos séculos XIX e XX), realizados para estabilizar os níveis do lago, foi erodida a camada de sedimentos que cobria estes vestígios. Estes artefactos, de inestimável valor histórico, encontravam-se expostos às correntes do lago e a potenciais saqueadores. Decidiu-se, pois, realizar escavações para proteger e para estabilizar estas peças, tornando-as acessíveis ao público.

O material recuperado chama atenção pela diversidade. Centenas de peças de cerâmica – entre pratos, tigelas, copos e travessas – compõem a maior parte da carga. Esses itens foram produzidos em oficinas do Planalto Suíço, indicando uma forte base produtiva local integrada a redes comerciais mais amplas, como repercute a “Revista Galileu”.

***

Também a revista “Oeste Geral”, refere, a 11 de abril, que foi encontrada intacta “carga de navio romano naufragado, há dois mil anos, no lago de Neuchâtel”, com espadas, ânforas e rodas de madeira, que permaneceu submersa, durante cerca de dois mil anos, sem que ninguém soubesse da sua existência. A descoberta, anunciada oficialmente em março, é considerada única não apenas na Suíça, mas em toda a região de águas interiores ao Norte dos Alpes.

Também cita o comunicado oficial do cantão de Neuchâtel, para dizer que o achado começou em novembro de 2024, durante uma monitoração sanitária de rotina do leito do lago, e que uma fotografia aérea obtida pelo Serviço de Arqueologia Cantonal de Neuchâtel (OARC) revelou objetos anómalos no fundo das águas, levando ao acionamento imediato de mergulhadores.

A primeira campanha de escavação foi realizada em março de 2025, conduzida em parceria entre o OARC, a Fundação Octopus e o Serviço Arqueológico do Estado de Friburgo (SAEF). A urgência era real: erosão, embarcações de recreio e risco de pilhagem ameaçavam o sítio, a cada semana de espera.

Diz a “Oeste Geral” que a carga romana recuperada é combinação excecional de produtos regionais e de longa distância, preservados em estado raramente visto em sítios subaquáticos de água doce. Entre os itens identificados, contam-se: centenas de recipientes de cerâmica, entre pratos, travessas, xícaras e tigelas, produzidos em ateliês da planície suíça, preservados quase intactos; ânforas ibéricas importadas da Península Ibérica, contendo azeite de oliva e atestando a integração da região nas redes comerciais do Império Romano; utensílios e ferramentas ligados à vida quotidiana da tripulação; quatro rodas de madeira e de metal em estado de conservação extraordinário, os únicos exemplares romanos desse tipo encontrados na Suíça; e gladii (espadas curtas romanas), sugerindo que a embarcação mercante viajava com escolta armada.

A carga de navio romano reconstrói a rota comercial entre Yverdon e Vindonissa. Com efeito, a combinação de itens a bordo permitiu aos arqueólogos reconstruírem o trajeto provável da embarcação. As mercadorias iam de carroça até ao porto de Yverdon (a antiga Eburodunum), no extremo Sul do lago, onde eram embarcadas rumo ao Norte, em direção ao acampamento militar de Vindonissa, nas margens do rio Aare.

A presença simultânea de carga civil e de gladii indica que a embarcação não era um navio estritamente militar, mas um cargueiro comercial com proteção armada. Dada a quantidade de objetos, os pesquisadores avaliam que o carregamento pode ter sido destinado a uma legião de aproximadamente seis mil homens estacionada na fronteira do Reno.

Os motivos de as rodas de madeira serem o achado mais raro entre os itens do naufrágio têm a ver com o facto de a madeira raramente sobreviver a milénios e com o facto  de a sua preservação, em ambiente subaquático, depender de condições muito específicas: baixa oxigenação, sedimento fino e ausência de organismos que acelerem a decomposição. No lago de Neuchâtel, essas condições combinaram-se com a raridade suficiente para conservar algo que os arqueólogos nunca haviam visto, antes, em solo suíço.

As quatro rodas de madeira e de metal recuperadas são os únicos exemplares romanos desse tipo já encontrados na Suíça. Provavelmente, pertenciam às próprias carroças que transportaram a carga até Yverdon e foram embarcadas junto com os demais itens para o trecho aquático da rota.

Os itens recuperados serão objeto de tratamento de conservação antes de serem expostos no Laténium, o parque e museu de arqueologia de Neuchâtel. Materiais, como madeira e metal, que passaram séculos submersos deterioram-se, rapidamente, ao contacto com o ar, se não forem estabilizados com cuidado.

Prevê-se que estudos futuros avancem em, pelo menos, três frentes: identificação dos ateliês específicos que produziram a cerâmica regional encontrada no porão; mapeamento mais detalhado dos circuitos de distribuição de mercadorias romanas ao norte dos Alpes; e análise das ânforas ibéricas para determinar a origem precisa do azeite e os portos de embarque na Península Ibérica,

A datação do naufrágio, há dois mil anos entre os anos 20 e 50 da nossa era (ou entre 50 a.C. e 50 d.C.) situa o evento num momento em que o Império Romano firmava a sua presença na Helvécia, construindo estradas, acampamentos e rotas de abastecimento, numa região recém-incorporada. O que afundou no lago era, ao tempo, uma operação logística comum: era parte da engrenagem quotidiana do império, que precisava de alimentar e de armar legiões, a centenas de quilómetros de distância. Não era tesouro de general, nem carga de navio de Estado, mas registo de um dia de trabalho que não chegou ao destino, preservado no fundo frio do lago de Neuchâtel, enquanto o Império Romano nascia, se expandia e desaparecia acima da superfície da água.

***

Enquanto prosseguem estes estudos, soube-se que a Ucrânia pediu, a 23 de dezembro, ao Ministério Público (MP) de Varsóvia a extradição do arqueólogo russo Oleksandr Butyagin, sob a acusação de ter participado em escavações ilegais na Crimeia, que fora detido na Polónia, 4 de dezembro, a pedido da Ucrânia, e colocado em prisão preventiva durante 40 dias.

Funcionário do Museu Estatal Hermitage, em que dirige o setor de arqueologia antiga da Costa Norte do Mar Negro, no departamento do Mundo Antigo, deslocara-se à capital da Polónia para dar uma conferência. Porém, na Ucrânia, Butyagin é conhecido como “o arqueólogo de Putin”. Em 2024, os serviços secretos ucranianos (SBU) recolheram provas, com a Polícia Nacional e com o MP, de que a sua expedição arqueológica danificara o património cultural no complexo arqueológico da Cidade Antiga de Mirmekiy, no distrito de Kerch, na Crimeia anexada.

Segundo o SBU, após as escavações ilegais, os invasores removeram a chamada camada cultural da península ucraniana até à profundidade de quase dois metros, danificaram um sítio histórico ucraniano e causaram danos no valor de mais de 200 milhões de hryvnias.

O arqueólogo foi acusado, ao abrigo do n.º 4 do artigo 298.º do Código Penal da Ucrânia, por operações de busca ilegais em sítio do património arqueológico, de destruição ou danificação de sítios do património cultural, feitas para procurar objetos móveis provenientes de sítios do património arqueológico. E, se for extraditado para a Ucrânia, poderá ser condenado a pena de prisão até cinco anos. A decisão de extradição cabe ao tribunal.

O porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, classificou a detenção com “arbitrariedade jurídica”. E os colegas de Butyagin na Academia Russa de Ciências sustentam que a detenção é “absurda nas suas motivações”.

***

A Arqueologia é uma poderosa ciência auxiliar da História e, como é óbvio, deve ser exercida na legalidade, mas esta não pode ser encarada por olhar político enviesado. É facto que a Crimeia foi anexada pela Rússia. Não se vê que um arqueólogo que ali trabalhe sofra a penalização que o invasor não sofre. A Ciência não conhece fronteiras, como reconhece a Confederação Helvética.

2026.04.12 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário