Em
artigo intitulado, “Achado sensacional: arqueólogos subaquáticos recuperam
carga de navio com 2000 anos num lago na Suíça” publicado a 12 de abril, Kirste
Ripper e a Euronews revelam que arqueólogos subaquáticos
recuperaram, no lago Neuchâtel, na Suíça, “um carregamento de mais de mil
artefactos de cerâmica” e de “espadas muito bem conservados, datados de 20 a 50
d.C.” e que, “para evitar pilhagens, a espetacular descoberta”, que aconteceu
no final de novembro de 2024, “foi inicialmente mantida em segredo”.
Mergulhando
no lago de Neuchâtel, Fabien Langenegger e Julien Pfyffer fizeram uma
descoberta espetacular do Império Romano. No início, aproximaram-se,
cautelosamente, de um monte de círculos, um suposto depósito de minas deixado
para trás na II Guerra Mundial, mas, quando Julien Pfyffer ligou a luz da sua
câmara, apareceu a cor caraterística da terracota. E, olhando para alguns
pratos partidos, aperceberam-se ambos de que o achado era extraordinário.
Foi
assim que Julien Pfyffer, em entrevista à Euronews, descreveu
a descoberta de carga particularmente bem preservada de um navio que terá
naufragado entre 20 e 50 d.C. Até os restos de comida encontrados nos
recipientes de cerâmica estão agora a ser analisados.
O
momento da descoberta foi impressionante para os dois arqueólogos. “Ficámos
agarrados ao local por cima desta carga, durante vários minutos. Naquele
momento, enquanto observava Fabien, apercebi-me de que estávamos numa situação
muito especial.”
Foram
as imagens de drone que mostravam uma mancha escura na água do Lago Neuchâtel,
mais clara, há vários anos, que deram início ao mergulho, em busca por um
naufrágio. Durante as campanhas de escavação – que duraram duas semanas, em
2025, e quase um mês, em 2026 – os arqueólogos subaquáticos da Fundação Octopus
(fundação suíça dedicada à exploração marinha e ao conhecimento universal) desenterraram
mais de mil objetos.
Presume-se
que se trata da carga de um navio de carga que deveria levar utensílios de
cozinha fabricados na Suíça para um acampamento romano. Um dos caixotes foi
datado do ano 17 d.C. Os destroços do cargueiro ainda não foram encontrados no
lago de Neuchâtel. Porém, nas últimas décadas, foram escavados navios romanos
no Reno, na Alemanha, e no Ródano, na França.
Não
obstante, foram encontrados objetos que pertenciam ao equipamento dos
legionários, nomeadamente, duas espadas de gladiadores, um punhal, uma fivela
de cinto e um perónio. De acordo com a equipa de arqueólogos, estes objetos
sugerem que os legionários escoltavam o navio. Dada a quantidade de artefactos
encontrados, a carga poderia ter sido destinada a uma legião de cerca de seis
mil homens.
Foi
também descoberto um cesto de vime que, segundo os arqueólogos, “foi
milagrosamente preservado na giz do lago – ou craie lacustre, camada de
sedimentos de calcário fino e solto que se deposita no fundo – e contém um
grupo de seis objetos de cerâmica que diferem, no seu fabrico, do resto da
carga”, dizem os arqueólogos, sustentando que se trata de louça e de alimentos
menos elaborados dos marinheiros do navio. “Recuperámos da água todos os
artefactos – pouco mais de mil – que estavam em risco de serem danificados por
âncoras ou [por] redes ou roubados por saqueadores. Estes artefactos
encontram-se, agora, na fase de limpeza e estão a ser processados pela equipa
de restauro em terra. Uma vez concluída esta fase, os restauradores podem
discutir com os arqueólogos o que observaram e o que nos escapa completamente
durante a fase de escavação, uma vez que estamos muitas vezes no meio de uma
nuvem de sedimentos”, explica Julien Pfyffer, explicitando que os restauradores
poderão reconhecer pormenores (como selos de fabrico, vestígios de alimentos,
elementos de proteção, como a palha entre os pratos), “que nos são muito
difíceis de ver na água”.
A
equipa Fundação Octopus está a preparar um livro e um documentário
que serão publicados em 2027. Será realizada no Laténium, o maior museu
arqueológico da Suíça, em Neuchâtel, uma exposição dos achados espetaculares, cuja
data ainda não foi fixada. E ainda há muito para descobrir: segundo a equipa
Octopus, há mais artefactos históricos nos oceanos do que em todos os museus do
Mundo.
***
De
acordo com o artigo de Éric Moreira intitulado “Naufrágio romano raro de dois
mil anos é descoberto em lago na Suíça”, publicado, a 26 de março, pela revista
“Aventuras na História”, a descoberta é considerada de grande relevância
arqueológica, pois o sítio submerso reúne um conjunto expressivo de artefactos
e oferece novas perspetivas das rotas comerciais, da logística e da presença
militar, no início do Império Romano.
Ainda
de acordo com a mesma revista, o achado foi localizado em novembro de 2024, a
partir de imagens aéreas utilizadas para monitorização do leito do lago, no
âmbito de um projeto voltado à proteção do património subaquático. A
identificação de uma anomalia levou à realização de mergulhos exploratórios,
que confirmaram a presença de vestígios de uma embarcação. Embora a
estrutura do barco não tenha resistido ao tempo, a carga permaneceu amplamente
preservada, ao longo dos séculos.
As
análises iniciais indicam que o naufrágio ocorreu entre os anos 20 e 50 d.C.,
período de transição entre o final da República e o início do Império
Romano. Todavia, exames de datação por carbono-14, realizados em fragmentos de
madeira, sugerem um intervalo mais amplo, entre 50 a.C. e 50 d.C., reforçando a
antiguidade do conjunto, segundo o comunicado oficial do cantão de
Neuchâtel. A escavação é conduzida pela Fundação Octopus em parceria com o
Departamento de Arqueologia do Cantão de Neuchâtel.
O
referido comunicado releva que, em novembro de 2024, no fundo do Lago Neuchâtel,
foi descoberto um naufrágio excecional, cujo espólio era um tesouro
milagrosamente preservado de cerâmica, de armas, de ferramentas e de peças de
arreios relacionados com o transporte puxado por cavalos. E lança a hipótese de
se, datando do início do Império Romano, essa carga poderia estar ligada ao
destacamento das legiões romanas, ao longo do Reno, enfrentando a perigosa
Germânia.
Mais
refere que, no quadro do projeto “Naufrágios vulneráveis do Lago Neuchâtel”,
iniciado em 2018, o último deles foi descoberto por drone, em 21 de novembro de
2024, por Fabien Droz, colaborador externo do Departamento de Arqueologia do
Cantão de Neuchâtel (OARC).
A
primeira confirmação e a avaliação subaquática foi realizada, em 24 de novembro
de 2024, pelo arqueólogo responsável pela área lacustre do cantão de Neuchâtel,
Fabien Langenegger, e por Julien Pfyffer, presidente da Fundação Octopus.
Durante
esse mergulho extraordinário, determinou-se que se tratava de vasta carga de
cerâmica antiga. Diversas peças foram recolhidas para análise rápida por
especialistas. Além disso, uma amostra de madeira da carga foi extraída para
datação por carbono-14. Os resultados dessa análise estabeleceram um período
entre 50 a.C. e 50 d.C. Essa descoberta inicial situa a carga no período entre
o fim da República Romana e o início do Império Romano.
Graças
à diversidade dos objetos e ao seu excecional estado de conservação, este
conjunto representa um raro vislumbre da antiguidade, provavelmente, enterrado
sob sedimentos, durante várias centenas de anos. Porém, na sequência de dois
projetos de correção das águas do Jura (nos séculos XIX e XX), realizados para
estabilizar os níveis do lago, foi erodida a camada de sedimentos que cobria
estes vestígios. Estes artefactos, de inestimável valor histórico, encontravam-se
expostos às correntes do lago e a potenciais saqueadores. Decidiu-se, pois,
realizar escavações para proteger e para estabilizar estas peças, tornando-as
acessíveis ao público.
O
material recuperado chama atenção pela diversidade. Centenas de peças de
cerâmica – entre pratos, tigelas, copos e travessas – compõem a maior parte da
carga. Esses itens foram produzidos em oficinas do Planalto Suíço, indicando
uma forte base produtiva local integrada a redes comerciais mais amplas, como
repercute a “Revista Galileu”.
***
Também
a revista “Oeste Geral”, refere, a 11 de abril, que foi encontrada intacta “carga
de navio romano naufragado, há dois mil anos, no lago de Neuchâtel”, com
espadas, ânforas e rodas de madeira, que permaneceu submersa, durante cerca
de dois mil anos, sem que ninguém soubesse da sua existência. A
descoberta, anunciada oficialmente em março, é considerada única não
apenas na Suíça, mas em toda a região de águas interiores ao Norte dos Alpes.
Também
cita o comunicado oficial do cantão de Neuchâtel, para dizer que o achado
começou em novembro de 2024, durante uma monitoração sanitária de
rotina do leito do lago, e que uma fotografia aérea obtida pelo Serviço de
Arqueologia Cantonal de Neuchâtel (OARC) revelou objetos anómalos no fundo
das águas, levando ao acionamento imediato de mergulhadores.
A
primeira campanha de escavação foi realizada em março de 2025, conduzida
em parceria entre o OARC, a Fundação Octopus e o Serviço
Arqueológico do Estado de Friburgo (SAEF). A urgência era real: erosão,
embarcações de recreio e risco de pilhagem ameaçavam o sítio, a cada semana de
espera.
Diz
a “Oeste Geral” que a carga romana recuperada é combinação excecional
de produtos regionais e de longa distância, preservados em estado raramente
visto em sítios subaquáticos de água doce. Entre os itens identificados,
contam-se: centenas de recipientes de cerâmica, entre pratos, travessas,
xícaras e tigelas, produzidos em ateliês da planície suíça, preservados quase
intactos; ânforas ibéricas importadas da Península Ibérica, contendo
azeite de oliva e atestando a integração da região nas redes comerciais
do Império Romano; utensílios e ferramentas ligados à vida quotidiana da
tripulação; quatro rodas de madeira e de metal em estado de
conservação extraordinário, os únicos exemplares romanos desse tipo encontrados
na Suíça; e gladii (espadas curtas romanas), sugerindo que a
embarcação mercante viajava com escolta armada.
A carga de navio romano reconstrói a rota comercial
entre Yverdon e Vindonissa. Com efeito, a combinação de itens a bordo permitiu
aos arqueólogos reconstruírem o trajeto provável da embarcação. As mercadorias iam
de carroça até ao porto de Yverdon (a antiga Eburodunum), no extremo Sul do lago, onde eram embarcadas
rumo ao Norte, em direção ao acampamento militar de Vindonissa, nas margens do rio Aare.
A
presença simultânea de carga civil e de gladii indica que a
embarcação não era um navio estritamente militar, mas um cargueiro comercial
com proteção armada. Dada a quantidade de objetos, os pesquisadores avaliam que
o carregamento pode ter sido destinado a uma legião de aproximadamente seis
mil homens estacionada na fronteira do Reno.
Os
motivos de as rodas de madeira serem o achado mais raro entre os itens do
naufrágio têm a ver com o facto de a madeira raramente sobreviver a milénios e
com o facto de a sua preservação, em
ambiente subaquático, depender de condições muito específicas: baixa
oxigenação, sedimento fino e ausência de organismos que acelerem a
decomposição. No lago de Neuchâtel, essas condições combinaram-se com a
raridade suficiente para conservar algo que os arqueólogos nunca haviam visto,
antes, em solo suíço.
As quatro
rodas de madeira e de metal recuperadas são os únicos exemplares
romanos desse tipo já encontrados na Suíça. Provavelmente, pertenciam
às próprias carroças que transportaram a carga até Yverdon e foram
embarcadas junto com os demais itens para o trecho aquático da rota.
Os
itens recuperados serão objeto de tratamento de conservação antes de serem
expostos no Laténium, o parque e museu de arqueologia de Neuchâtel.
Materiais, como madeira e metal, que passaram séculos submersos deterioram-se,
rapidamente, ao contacto com o ar, se não forem estabilizados com cuidado.
Prevê-se
que estudos futuros avancem em, pelo menos, três frentes: identificação
dos ateliês específicos que produziram a cerâmica regional encontrada
no porão; mapeamento mais detalhado dos circuitos de distribuição de
mercadorias romanas ao norte dos Alpes; e análise das ânforas ibéricas para
determinar a origem precisa do azeite e os portos de embarque na Península
Ibérica,
A datação do naufrágio, há dois mil anos entre
os anos 20 e 50 da nossa era (ou entre 50 a.C. e 50 d.C.) situa o evento
num momento em que o Império Romano firmava a sua presença
na Helvécia, construindo estradas, acampamentos e rotas de
abastecimento, numa região recém-incorporada. O que afundou no lago era, ao
tempo, uma operação logística comum: era parte da engrenagem quotidiana do
império, que precisava de alimentar e de armar legiões, a centenas de quilómetros
de distância. Não era tesouro de general, nem carga de navio de Estado, mas
registo de um dia de trabalho que não chegou ao destino, preservado no fundo
frio do lago de Neuchâtel, enquanto o Império
Romano nascia, se expandia e desaparecia acima da superfície da
água.
***
Enquanto
prosseguem estes estudos, soube-se que a Ucrânia pediu, a 23 de dezembro, ao
Ministério Público (MP) de Varsóvia a extradição do arqueólogo russo Oleksandr
Butyagin, sob a acusação de ter participado em escavações ilegais na Crimeia,
que fora detido na Polónia, 4 de dezembro, a pedido da Ucrânia, e colocado em
prisão preventiva durante 40 dias.
Funcionário
do Museu Estatal Hermitage, em que dirige o setor de arqueologia antiga da Costa
Norte do Mar Negro, no departamento do Mundo Antigo, deslocara-se à capital da
Polónia para dar uma conferência. Porém, na Ucrânia, Butyagin é conhecido como “o
arqueólogo de Putin”. Em 2024, os serviços secretos ucranianos (SBU) recolheram
provas, com a Polícia Nacional e com o MP, de que a sua expedição arqueológica
danificara o património cultural no complexo arqueológico da Cidade Antiga de
Mirmekiy, no distrito de Kerch, na Crimeia anexada.
Segundo
o SBU, após as escavações ilegais, os invasores removeram a chamada camada
cultural da península ucraniana até à profundidade de quase dois metros,
danificaram um sítio histórico ucraniano e causaram danos no valor de mais de
200 milhões de hryvnias.
O
arqueólogo foi acusado, ao abrigo do n.º 4 do artigo 298.º do Código Penal da
Ucrânia, por operações de busca ilegais em sítio do património arqueológico, de
destruição ou danificação de sítios do património cultural, feitas para
procurar objetos móveis provenientes de sítios do património arqueológico. E, se
for extraditado para a Ucrânia, poderá ser condenado a pena de prisão até cinco
anos. A decisão de extradição cabe ao tribunal.
O
porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, classificou a detenção com “arbitrariedade
jurídica”. E os colegas de Butyagin na Academia Russa de Ciências sustentam que
a detenção é “absurda nas suas motivações”.
***
A
Arqueologia é uma poderosa ciência auxiliar da História e, como é óbvio, deve
ser exercida na legalidade, mas esta não pode ser encarada por olhar político
enviesado. É facto que a Crimeia foi anexada pela Rússia. Não se vê que um
arqueólogo que ali trabalhe sofra a penalização que o invasor não sofre. A Ciência
não conhece fronteiras, como reconhece a Confederação Helvética.
2026.04.12
– Louro de Carvalho
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