quinta-feira, 16 de abril de 2026

Um ano depois do apagão, país continua vulnerável e Lisboa em risco

 

Desde janeiro de 2026, novas centrais hidroelétricas – as do Alqueva, no distrito de Évora, e do Baixo Sabor, no distrito de Bragança – juntaram-se à rede (liderada pelas centrais de Castelo de Bode, no distrito de Santarém, e da Tapada do Outeiro, no distrito do Porto) com capacidade de “blackstart” (isto é, capacidade para arrancar do zero, sem recorrer à rede elétrica externa), permitindo recuperação mais rápida, em caso de falha total do sistema elétrico.

Assim, um ano depois do apagão que deixou Portugal às escuras, durante cerca de 12 horas, a capacidade de resposta do país melhorou, mas está longe de garantir segurança total, sobretudo, na Grande Lisboa, devido à ausência de uma fonte próxima da capital.

A análise, avançada pela revista “Sábado”, a 15 de abril, mostra avanços, nomeadamente, no reforço de centrais de “blackstart”, mas também a persistência de fragilidades críticas em setores essenciais, como saúde, prisões, telecomunicações e abastecimento de água. E o engenheiro Gonçalo Aguiar, especialista que trabalhou nas Redes Nacionais de Energia (REN) e colaborou na realização de planos de contingência para momentos de crise, avisou que, “geograficamente, continuamos mais ou menos na mesma” e sublinhou que a capital poderá voltar a ser uma das últimas regiões a recuperar energia, num novo apagão.

Na área da saúde, algumas unidades reforçaram a capacidade dos geradores, como a Maternidade Alfredo da Costa (abrangida pela Unidade Local de Saúde de São José), que aumentou, quatro vezes, a sua autonomia, após ter estado perto do colapso, a 28 de abril de 2025.

No entanto, não existe um levantamento nacional claro e há centros de saúde que continuam sem geradores próprios, apesar do investimento de alguns municípios neste âmbito. O problema central, para os hospitais, são os geradores e o combustível. E os administradores, que admitem falhas, apontam a ausência de coordenação central como um dos maiores problemas.

O sistema prisional continua a apresentar fragilidades graves: seis estabelecimentos, em 49, não têm qualquer fonte alternativa de energia. Estão articulados com a Proteção Civil para a disponibilidade de equipamentos. Porém, em caso de falha elétrica, os sistemas de vigilância, os sistemas de telefones e de rádios, que não têm pilhas, ficam sem funcionar.  

Segundo Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP), não há geradores nas escolas, os quais não são bens supérfluos. Ora, “ se houvesse outro apagão, ficaríamos menos admirados, mas as escolas não estão mais bem preparadas, garante.   

Duarte Caldeira, presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil, sustenta que “não basta classificar as estruturas críticas”, mas que “é preciso dotar o país destas redundâncias e ter, sobretudo, uma visão integrada da matéria”. Para o especialista, a palavra-chave é “fiscalização” e há muitas dúvidas sobre o reforço dos instrumentos de redundância, em hospitais, em escolas, em estações ferroviárias, etc.  

Num cenário de apagão, sistemas essenciais, como videovigilância e comunicações, ficam inoperacionais, levantando riscos de segurança.

O abastecimento de água tem sido objeto de investimentos, designadamente, pelo desenvolvimento de planos de reforço da capacidade de combustível e da testagem periódica, mas  continua sem autonomia prolongada e com investimentos estruturais ainda dependentes de autorizações governamentais.

Já nas telecomunicações, as operadoras reforçaram sistemas de backup, investindo em geradores e em baterias, mas admitem limitações. Em muitos casos, a autonomia varia entre poucas horas (entre quatro e 12 horas), ficando dependente do acesso a combustível para geradores.

Mantém-se um dos problemas mais visíveis: os semáforos. Em Lisboa, apenas 5% da rede está a ser testada com sistemas de energia de emergência e, mesmo assim, com autonomia de cerca de uma hora. A EMEL, empresa de mobilidade e estacionamento de Lisboa, responsável pelos semáforos, não se compromete com a extensão da solução aos restantes 95% da rede.

Também os sistemas de pagamento eletrónico e multibanco se mantêm vulneráveis, com falta de garantias sobre o funcionamento em caso de falha prolongada. A Sociedade Interbancária de Serviços (SIBS), à questão “se fosse hoje”, respondeu que os seus “serviços  estiveram sempre operacionais e a funcionar ininterruptamente, durante todo o dia” do apagão.

Outro setor prioritário numa crise energética é o das forças armadas. No entanto, as perguntas da “Sábado” ficaram sem resposta, por motivos de seguranças, de acordo com o porta-voz do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), mas há garantia de que os seus equipamentos estão todos a funcionar e são alvo de vistorias periódicas.

Em julho de 2025, o governo anunciou um pacote de 400 milhões de euros, após o apagão, incluindo investimento em baterias e em redundância energética. Apesar disso, especialistas consideram que o ritmo de execução é lento e que o país continua atrasado, o que é agravado por instabilidade política e por constantes mudanças de estratégia. Um ano depois, a conclusão é: Portugal está mais preparado do que em 2025, mas não o suficiente. A falta de coordenação, o investimento desigual e a ausência de fiscalização eficaz deixam o país exposto a novo apagão, com impactos potencialmente semelhantes.

As centrais de “blackstart” são ponto principal da resposta um apagão, mas, enquanto se tenta repor a energia, há uma série de setores a tentar sobreviver sem luz. Há mudanças, mas não são as mais animadoras.

Gonçalo Aguiar conhece projetos antiapagão (nomeadamente baterias) a avançar no terreno, mas sustenta que ficam aquém da potencialidade máxima destes instrumentos, pois estas baterias estão a ser usadas apenas com a função de gerador, quando já podem ter a função de “blackstart”, isto é, serem elas próprias minicentrais.

***

A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, a 15 de abril, na Assembleia da República (AR), na audição na Comissão de Ambiente e Energia, no âmbito do grupo de trabalho sobre o apagão de 28 de abril de 2025, disse que estão em cima da mesa “cerca de quatro mil milhões de euros para a rede”, entre investimento em distribuição, transmissão e reforços extraordinários após o apagão. E afirmou que tal montante corresponde ao esforço que o governo pretende autorizar, para reforçar a resiliência do sistema elétrico nacional e tornar menos provável nova falha de grande dimensão. “Nós vamos autorizar, o que está em cima da mesa, mas ainda não é decisão final, cerca de quatro mil milhões de euros para a rede, tanto [de] transmissão como [de] distribuição”, adiantou.

Segundo especificou, desse total, 3040 milhões de euros dizem respeito à distribuição, 497 milhões a projetos base à rede de transporte, 775 milhões a projetos complementares e 133 milhões a uma aprovação extraordinária já autorizada. Este esforço financeiro enquadra-se na resposta ao apagão, sendo o objetivo reforçar a robustez do sistema elétrico e acelerar a capacidade de recuperação, em caso de nova falha.

A governante esclareceu que, se voltar a acontecer um incidente, a prioridade é garantir uma recuperação mais rápida do sistema e maior autonomia das infraestruturas críticas, apontando para o reforço dos “blackstarts” e para a realização de mais testes. Porém, sustentou que “nenhum país está preparado” para eliminar, totalmente, o risco de um tal evento, mas defendeu que é possível reduzir a probabilidade e melhorar a resposta operacional. “Como vimos o que aconteceu nos Estados Unidos da América [EUA] ou na Itália, [um país] pode estar mais bem preparado, mas nenhum está completamente preparado”, afirmou.

No conjunto de medidas adotadas após o apagão, a ministra recordou que o governo anunciou, a 28 de junho, “31 medidas”, entre as quais o investimento de 137 milhões de euros para “melhorar a operação e o controlo da capacidade de rede elétrica”.

Outra das linhas de atuação passa pelo armazenamento com baterias. Segundo a governante, o concurso em curso foi prolongado até 23 de abril, após o reforço de verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), passando o montante total disponível a 180 milhões de euros. “Nós temos, neste momento, do PRR, 180 milhões de euros para baterias”, observou.

A ministra referiu que o governo prevê destinar 25 milhões de euros, financiados pelo programa Sustentável 2030, a projetos-piloto com baterias e com energias renováveis para autoconsumo em infraestruturas críticas, como unidades de saúde, lares, bombeiros e outros serviços essenciais. Além disso, explicou que foi decidido manter quatro centrais com capacidade de “blackstart”, em vez de apenas duas, como estava previsto no processo conduzido pela REN.

Segundo explicou, antes do apagão, a REN já tinha lançado um concurso para substituir os dois “blackstarts” existentes por dois novos. Mas, após o incidente, o governo decidiu manter as quatro infraestruturas em simultâneo. Além da Tapada do Outeiro e de Castelo de Bode, houve o reforço com o Baixo Sabor e com o Alqueva.

A governante defendeu que o reforço dos “blackstarts”, a expansão do armazenamento e o investimento em rede devem ser vistos como um seguro de resiliência, mas admitiu que todas estas opções têm impacto económico e tarifário. E sublinhou que uma das prioridades é garantir, durante futuros incidentes, maior autonomia às infraestruturas críticas, nomeadamente, hospitais, centros de saúde, lares, bombeiros e estruturas de socorro e emergência.

A ministra do Ambiente e Energia assegurou que o governo não recebeu nenhum aviso prévio (nem era possível avisar: “Vai haver apagão!”) sobre o apagão de eletricidade e que está convicta de que “nem o governo espanhol estaria alertado para o perigo”.

Na audição, a governante reiterou que o relatório da ENTSO-E (Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade) confirma que “o apagão teve origem em Espanha, e não em Portugal, e propagou-se a uma pequena região da França”.

Segundo Maria da Graça Carvalho, o incidente teve origem “numa sucessão de falhas técnicas iniciadas no território espanhol”, começando em Granada, depois, em Badajoz e, depois, em Sevilha, “associadas essencialmente ao controlo de tensão insuficiente”.

A governante detalhou que o primeiro incidente, em Espanha, ocorreu às 11:32:57; o ‘blackout’ geral, no país vizinho, às 11:33:17; e, em Portugal, às 11:33:23, sustentando que, “em seis segundos”, não era possível evitar os efeitos do apagão e que “os impactos sentidos no nosso país foram inevitáveis”. E, questionada sobre a comunicação entre Lisboa e Madrid, disse que Portugal não recebeu qualquer alerta prévio das autoridades espanholas. “Não fomos avisados”, afirmou, acrescentando tratar-se, agora, de matéria a avaliar à luz dos dados disponíveis.

Todavia, disse acreditar que o executivo espanhol não teria percecionado a gravidade da situação, antes do colapso. “Estou convencida que nem o governo espanhol estaria alertado para o perigo”, afirmou, sustentando que, se tivesse percebido o risco, “teriam feito qualquer coisa e teriam dito”.

Maria da Graça Carvalho disse que a resposta nacional ao apagão foi “imediata e feita em articulação entre o governo e as entidades competentes”, o que permitiu restaurar o normal funcionamento do sistema elétrico nacional, “em menos de 15 horas”. Além disso, considerou, na AR, que Portugal tem um “mecanismo de estabilidade e [de] proteção do sistema muito melhor [do] que Espanha” e defendeu que uma das conclusões mais importantes do relatório ENTSO-E é a de que Portugal tinha em funcionamento mecanismos de proteção que faltavam no sistema espanhol. “Ficou bem claro, nesse relatório, e é uma das recomendações, que temos um mecanismo de estabilidade e proteção do sistema muito melhor que em Espanha”, afirmou.

Como exemplo, a ministra disse que Portugal implementou, em 2020, a exigência de que todas as novas centrais eólicas e solares tenham “um mecanismo de controlo de tensão”, sistema que “a Espanha não tinha”. “Acho que este é um grande ponto de proteção nossa e foi uma falha de Espanha”, porque, “principalmente, no solar, não tinham este mecanismo de controlo de tensão nas centrais”, sustentou.

A ministra referiu, ainda, uma diferença nos limites de tensão aplicados nos dois países, dizendo que “o limite de tensão a nível europeu é, geralmente, 420 kV (quilovolts) e nós temos esse limite”, enquanto Espanha beneficiou de uma derrogação da Comissão Europeia que lhe permite operar até aos 435 kV. Como afirmou, esse trabalho no limite, somado à ausência de mecanismos de controlo de tensão em centrais solares, esteve na origem da falha que desencadeou o apagão. “Isto estava dito nas entrelinhas no relatório da ENTSO-E. Este foi o real motivo, na minha opinião, e que está lá no relatório”, declarou.

A tecnologia de 420 kV representa o nível de ultra-alta tensão utilizado em redes de transporte de energia, focado, atualmente, na substituição do SF6 (gás de efeito estufa) por alternativas ecológicas. Equipamentos como disjuntores e subestações isoladas a gás (GIS) de 420 kV são essenciais para a proteção da rede, com inovações da Hitachi Energy e Siemens Energy a permitir emissões reduzidas.

A governante acrescentou que esta é uma das 23 recomendações formuladas no relatório europeu e que, no caso português, 90% já estão implementadas ou em curso.

Entre as recomendações, ainda a reforçar, apontou a necessidade de mais partilha de dados, de atualização periódica dos planos de deslastre, de realização mais frequente de testes aos sistemas de “blackstart” e de maior cooperação com Espanha, na criação de cenários de reposição. E destacou uma recomendação relativa à autonomia dos sistemas críticos, vincando a necessidade de garantir, pelo menos, 24 horas de funcionamento autónomo em serviços essenciais.

Segundo disse, isso já foi sendo reforçado “nos hospitais”, embora tenha admitido que “pequenas unidades ainda faltam”, defendendo a mesma lógica para lares, para bombeiros e para outras estruturas de socorro e de emergência.

Na mesma audição, a ministra rejeitou que o apagão de abril possa ser explicado pela presença de produção renovável no sistema elétrico. “Esta questão não foi das renováveis, aliás, o problema foi em Espanha e Espanha tem centrais nucleares a funcionar”, declarou, mas reconheceu que a transformação do sistema elétrico europeu, com mais autoconsumo, comunidades de energia e produção distribuída, tornou a rede mais complexa e exigente, a nível da gestão.

***

Segundo Gonçalo Aguiar, a governante vem fazendo “um bom jogo de cintura entre a energia e a parte ambiental”, mas “o processo energético não avança como a principal prioridade”. E penso que REN, E-REDES, produtoras energéticas e telefónicas, capturadas pelo setor privado têm em mira o lucro, em vez do serviço público, que incumbe ao Estado prestá-lo, diretamente, ou pagá-lo a quem o preste e fiscalizar tal prestação.

2026.04.16 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário