Desde
janeiro de 2026, novas centrais hidroelétricas – as do Alqueva, no distrito de
Évora, e do Baixo Sabor, no distrito de Bragança – juntaram-se à rede (liderada
pelas centrais de Castelo de Bode, no distrito de Santarém, e da Tapada do
Outeiro, no distrito do Porto) com capacidade de “blackstart” (isto é, capacidade
para arrancar do zero, sem recorrer à rede elétrica externa), permitindo
recuperação mais rápida, em caso de falha total do sistema elétrico.
Assim,
um ano depois do apagão que deixou Portugal às escuras, durante cerca de 12
horas, a capacidade de resposta do país melhorou, mas está longe de garantir
segurança total, sobretudo, na Grande Lisboa, devido à ausência de uma fonte
próxima da capital.
A
análise, avançada pela revista “Sábado”, a 15 de abril, mostra avanços,
nomeadamente, no reforço de centrais de “blackstart”, mas também a persistência
de fragilidades críticas em setores essenciais, como saúde, prisões,
telecomunicações e abastecimento de água. E o engenheiro Gonçalo Aguiar,
especialista que trabalhou nas Redes Nacionais de Energia (REN) e colaborou na realização
de planos de contingência para momentos de crise, avisou que, “geograficamente,
continuamos mais ou menos na mesma” e sublinhou que a capital poderá voltar a
ser uma das últimas regiões a recuperar energia, num novo apagão.
Na
área da saúde, algumas unidades reforçaram a capacidade dos geradores, como a
Maternidade Alfredo da Costa (abrangida pela Unidade Local de Saúde de São José),
que aumentou, quatro vezes, a sua autonomia, após ter estado perto do colapso, a
28 de abril de 2025.
No
entanto, não existe um levantamento nacional claro e há centros de saúde que
continuam sem geradores próprios, apesar do investimento de alguns municípios
neste âmbito. O problema central, para os hospitais, são os geradores e o combustível.
E os administradores, que admitem falhas, apontam a ausência de coordenação
central como um dos maiores problemas.
O
sistema prisional continua a apresentar fragilidades graves: seis
estabelecimentos, em 49, não têm qualquer fonte alternativa de energia. Estão
articulados com a Proteção Civil para a disponibilidade de equipamentos. Porém,
em caso de falha elétrica, os sistemas de vigilância, os sistemas de telefones
e de rádios, que não têm pilhas, ficam sem funcionar.
Segundo
Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de
Escolas Públicas (ANDAEP), não há geradores nas escolas, os quais não são bens supérfluos.
Ora, “ se houvesse outro apagão, ficaríamos menos admirados, mas as escolas não
estão mais bem preparadas, garante.
Duarte
Caldeira, presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil, sustenta
que “não basta classificar as estruturas críticas”, mas que “é preciso dotar o
país destas redundâncias e ter, sobretudo, uma visão integrada da matéria”. Para
o especialista, a palavra-chave é “fiscalização” e há muitas dúvidas sobre o
reforço dos instrumentos de redundância, em hospitais, em escolas, em estações
ferroviárias, etc.
Num
cenário de apagão, sistemas essenciais, como videovigilância e comunicações,
ficam inoperacionais, levantando riscos de segurança.
O
abastecimento de água tem sido objeto de investimentos, designadamente, pelo desenvolvimento
de planos de reforço da capacidade de combustível e da testagem periódica, mas continua sem autonomia prolongada e com
investimentos estruturais ainda dependentes de autorizações governamentais.
Já
nas telecomunicações, as operadoras reforçaram sistemas de backup, investindo
em geradores e em baterias, mas admitem limitações. Em muitos casos, a
autonomia varia entre poucas horas (entre quatro e 12 horas), ficando
dependente do acesso a combustível para geradores.
Mantém-se
um dos problemas mais visíveis: os semáforos. Em Lisboa, apenas 5% da rede está
a ser testada com sistemas de energia de emergência e, mesmo assim, com
autonomia de cerca de uma hora. A EMEL, empresa de mobilidade e estacionamento
de Lisboa, responsável pelos semáforos, não se compromete com a extensão da
solução aos restantes 95% da rede.
Também
os sistemas de pagamento eletrónico e multibanco se mantêm vulneráveis, com
falta de garantias sobre o funcionamento em caso de falha prolongada. A
Sociedade Interbancária de Serviços (SIBS), à questão “se fosse hoje”, respondeu
que os seus “serviços estiveram sempre
operacionais e a funcionar ininterruptamente, durante todo o dia” do apagão.
Outro
setor prioritário numa crise energética é o das forças armadas. No entanto, as
perguntas da “Sábado” ficaram sem resposta, por motivos de seguranças, de acordo
com o porta-voz do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), mas há garantia
de que os seus equipamentos estão todos a funcionar e são alvo de vistorias
periódicas.
Em
julho de 2025, o governo anunciou um pacote de 400 milhões de euros, após o
apagão, incluindo investimento em baterias e em redundância energética. Apesar
disso, especialistas consideram que o ritmo de execução é lento e que o país
continua atrasado, o que é agravado por instabilidade política e por constantes
mudanças de estratégia. Um ano depois, a conclusão é: Portugal está mais
preparado do que em 2025, mas não o suficiente. A falta de coordenação, o investimento
desigual e a ausência de fiscalização eficaz deixam o país exposto a novo
apagão, com impactos potencialmente semelhantes.
As
centrais de “blackstart” são ponto principal da resposta um apagão, mas, enquanto
se tenta repor a energia, há uma série de setores a tentar sobreviver sem luz. Há
mudanças, mas não são as mais animadoras.
Gonçalo
Aguiar conhece projetos antiapagão (nomeadamente baterias) a avançar no terreno,
mas sustenta que ficam aquém da potencialidade máxima destes instrumentos, pois
estas baterias estão a ser usadas apenas com a função de gerador, quando já
podem ter a função de “blackstart”, isto é, serem elas próprias minicentrais.
***
A
ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, a 15 de abril, na Assembleia
da República (AR), na audição na Comissão de Ambiente e Energia, no âmbito do
grupo de trabalho sobre o apagão de 28 de abril de 2025, disse que estão em
cima da mesa “cerca de quatro mil milhões de euros para a rede”, entre
investimento em distribuição, transmissão e reforços extraordinários após o
apagão. E afirmou que tal montante corresponde ao esforço que o governo
pretende autorizar, para reforçar a resiliência do sistema elétrico
nacional e tornar menos provável nova falha de grande dimensão. “Nós vamos
autorizar, o que está em cima da mesa, mas ainda não é decisão final, cerca de quatro
mil milhões de euros para a rede, tanto [de] transmissão como [de] distribuição”,
adiantou.
Segundo
especificou, desse total, 3040 milhões de euros dizem respeito à
distribuição, 497 milhões a projetos base à rede de transporte, 775 milhões a
projetos complementares e 133 milhões a uma aprovação extraordinária já
autorizada. Este esforço financeiro enquadra-se na resposta ao apagão, sendo o
objetivo reforçar a robustez do sistema elétrico e acelerar a capacidade
de recuperação, em caso de nova falha.
A
governante esclareceu que, se voltar a acontecer um incidente, a prioridade
é garantir uma recuperação mais rápida do sistema e maior autonomia das
infraestruturas críticas, apontando para o reforço dos “blackstarts” e
para a realização de mais testes. Porém, sustentou que “nenhum país está
preparado” para eliminar, totalmente, o risco de um tal evento, mas defendeu
que é possível reduzir a probabilidade e melhorar a resposta operacional. “Como
vimos o que aconteceu nos Estados Unidos da América [EUA] ou na Itália, [um
país] pode estar mais bem preparado, mas nenhum está completamente preparado”,
afirmou.
No
conjunto de medidas adotadas após o apagão, a ministra recordou que o governo
anunciou, a 28 de junho, “31 medidas”, entre as quais o investimento de 137
milhões de euros para “melhorar a operação e o controlo da capacidade de rede
elétrica”.
Outra
das linhas de atuação passa pelo armazenamento com baterias. Segundo a
governante, o concurso em curso foi prolongado até 23 de abril, após o reforço
de verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), passando o montante
total disponível a 180 milhões de euros. “Nós temos, neste momento, do PRR, 180
milhões de euros para baterias”, observou.
A
ministra referiu que o governo prevê destinar 25 milhões de euros,
financiados pelo programa Sustentável 2030, a projetos-piloto com baterias e com
energias renováveis para autoconsumo em infraestruturas críticas, como unidades
de saúde, lares, bombeiros e outros serviços essenciais. Além disso, explicou
que foi decidido manter quatro centrais com capacidade de “blackstart”, em vez
de apenas duas, como estava previsto no processo conduzido pela REN.
Segundo
explicou, antes do apagão, a REN já tinha lançado um concurso para substituir
os dois “blackstarts” existentes por dois novos. Mas, após o
incidente, o governo decidiu manter as quatro infraestruturas em simultâneo.
Além da Tapada do Outeiro e de Castelo de Bode, houve o reforço com o Baixo
Sabor e com o Alqueva.
A
governante defendeu que o reforço dos “blackstarts”, a expansão do
armazenamento e o investimento em rede devem ser vistos como um seguro de
resiliência, mas admitiu que todas estas opções têm impacto económico e
tarifário. E sublinhou que uma das prioridades é garantir, durante futuros
incidentes, maior autonomia às infraestruturas críticas, nomeadamente,
hospitais, centros de saúde, lares, bombeiros e estruturas de socorro e
emergência.
A
ministra do Ambiente e Energia assegurou que o governo não recebeu nenhum
aviso prévio (nem era possível avisar: “Vai haver apagão!”) sobre o apagão de
eletricidade e que está convicta de que “nem o governo espanhol estaria
alertado para o perigo”.
Na
audição, a governante reiterou que o relatório da ENTSO-E (Rede Europeia
de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade) confirma que “o apagão teve
origem em Espanha, e não em Portugal, e propagou-se a uma pequena região da
França”.
Segundo
Maria da Graça Carvalho, o incidente teve origem “numa sucessão de falhas
técnicas iniciadas no território espanhol”, começando em Granada, depois, em
Badajoz e, depois, em Sevilha, “associadas essencialmente ao controlo de
tensão insuficiente”.
A
governante detalhou que o primeiro incidente, em Espanha, ocorreu às
11:32:57; o ‘blackout’ geral, no país vizinho, às 11:33:17; e, em Portugal, às
11:33:23, sustentando que, “em seis segundos”, não era possível evitar os
efeitos do apagão e que “os impactos sentidos no nosso país foram
inevitáveis”. E, questionada sobre a comunicação entre Lisboa e Madrid, disse
que Portugal não recebeu qualquer alerta prévio das autoridades
espanholas. “Não fomos avisados”, afirmou, acrescentando tratar-se, agora,
de matéria a avaliar à luz dos dados disponíveis.
Todavia,
disse acreditar que o executivo espanhol não teria percecionado a gravidade da
situação, antes do colapso. “Estou convencida que nem o governo espanhol
estaria alertado para o perigo”, afirmou, sustentando que, se tivesse
percebido o risco, “teriam feito qualquer coisa e teriam dito”.
Maria
da Graça Carvalho disse que a resposta nacional ao apagão foi “imediata e feita
em articulação entre o governo e as entidades competentes”, o que permitiu
restaurar o normal funcionamento do sistema elétrico nacional, “em menos de 15
horas”. Além disso, considerou, na AR, que Portugal tem um “mecanismo de
estabilidade e [de] proteção do sistema muito melhor [do] que Espanha” e
defendeu que uma das conclusões mais importantes do relatório ENTSO-E é a de
que Portugal tinha em funcionamento mecanismos de proteção que faltavam no
sistema espanhol. “Ficou bem claro, nesse relatório, e é uma das recomendações,
que temos um mecanismo de estabilidade e proteção do sistema muito melhor
que em Espanha”, afirmou.
Como
exemplo, a ministra disse que Portugal implementou, em 2020, a exigência de que
todas as novas centrais eólicas e solares tenham “um mecanismo de controlo de
tensão”, sistema que “a Espanha não tinha”. “Acho que este é um grande ponto de
proteção nossa e foi uma falha de Espanha”, porque, “principalmente, no solar,
não tinham este mecanismo de controlo de tensão nas centrais”, sustentou.
A
ministra referiu, ainda, uma diferença nos limites de tensão aplicados nos dois
países, dizendo que “o limite de tensão a nível europeu é, geralmente, 420 kV (quilovolts)
e nós temos esse limite”, enquanto Espanha beneficiou de uma derrogação da
Comissão Europeia que lhe permite operar até aos 435 kV. Como afirmou, esse
trabalho no limite, somado à ausência de mecanismos de controlo de tensão em
centrais solares, esteve na origem da falha que desencadeou o apagão. “Isto
estava dito nas entrelinhas no relatório da ENTSO-E. Este foi o real motivo, na
minha opinião, e que está lá no relatório”, declarou.
A
tecnologia de 420 kV representa o nível de ultra-alta
tensão utilizado em redes de transporte de energia, focado, atualmente, na
substituição do SF6 (gás de efeito estufa) por alternativas
ecológicas. Equipamentos como disjuntores e subestações isoladas a gás (GIS)
de 420 kV
são essenciais para a proteção da
rede, com inovações da Hitachi Energy e Siemens Energy a permitir
emissões reduzidas.
A
governante acrescentou que esta é uma das 23 recomendações formuladas no
relatório europeu e que, no caso português, 90% já estão implementadas ou em
curso.
Entre
as recomendações, ainda a reforçar, apontou a necessidade de mais partilha de
dados, de atualização periódica dos planos de deslastre, de realização mais
frequente de testes aos sistemas de “blackstart” e de maior cooperação com
Espanha, na criação de cenários de reposição. E destacou uma recomendação
relativa à autonomia dos sistemas críticos, vincando a necessidade de garantir,
pelo menos, 24 horas de funcionamento autónomo em serviços essenciais.
Segundo
disse, isso já foi sendo reforçado “nos hospitais”, embora tenha admitido que
“pequenas unidades ainda faltam”, defendendo a mesma lógica para lares, para bombeiros
e para outras estruturas de socorro e de emergência.
Na
mesma audição, a ministra rejeitou que o apagão de abril possa ser
explicado pela presença de produção renovável no sistema elétrico. “Esta
questão não foi das renováveis, aliás, o problema foi em Espanha e Espanha tem
centrais nucleares a funcionar”, declarou, mas reconheceu que a transformação
do sistema elétrico europeu, com mais autoconsumo, comunidades de energia e
produção distribuída, tornou a rede mais complexa e exigente, a nível da
gestão.
***
Segundo
Gonçalo Aguiar, a governante vem fazendo “um bom jogo de cintura entre a energia
e a parte ambiental”, mas “o processo energético não avança como a principal
prioridade”. E penso que REN, E-REDES, produtoras energéticas e telefónicas,
capturadas pelo setor privado têm em mira o lucro, em vez do serviço público, que
incumbe ao Estado prestá-lo, diretamente, ou pagá-lo a quem o preste e
fiscalizar tal prestação.
2026.04.16
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário