quarta-feira, 22 de abril de 2026

Arpão alargou “opções táticas” para combate subaquático no Ártico

 

O presidente dos Estados Unidos América (EUA), Donald Trump tem-se preocupado com a defesa e com a monitorização do Ártico, pelo que chegou a pretender o controlo político-estratégico do Canadá e a ocupação da Gronelândia (pela compra ou pela intervenção militar), a pretexto de que a Rússia estava a ultrapassar o Ocidente, nesta matéria, até porque possui várias dezenas de navios quebra-gelos, que facilitam a navegação naquele oceano.   

Entretanto, sabe-se que os quebra-gelos não são o único instrumento de defesa e de monitorização do Ártico, como o demonstra João Azevedo no artigo intitulado “Como Portugal moldou os novos submarinos do Canadá e afinou a defesa do Ártico”, publicado pela Euronews, a 22 de abril, frisando que “Portugal é o primeiro país, na História recente, a operar um submarino convencional sob o gelo do Ártico” e que o Canadá estuda as adaptações da Marinha a esta missão, devendo incorporá-las na sua nova frota.

De acordo com o Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo (NSIDC) dos EUA, o gelo marinho do Ártico, que começou, em 1978, a ser monitorizado por satélites, vem recuando nas últimas décadas (mais de 12%, em cada década, 80 mil quilómetros quadrados, por ano). A 22 de março, findo o inverno, período de maior acumulação, terá sido atingida a extensão máxima para 2026, isto é, 14,33 milhões de quilómetros quadrados – “o pico mais baixo, desde que há registos”, o que se verifica pelo segundo ano consecutivo.

Com a região a sobreaquecer quase quatro vezes mais rápido do que o resto do planeta, abrem-se novas rotas marítimas e oportunidades de negócio para países que, há séculos, têm a mira no Extremo Norte da Terra, atraídos pelo isolamento do local, pelas condições climáticas, propícias à investigação científica, e pela riqueza natural aí depositada, do petróleo e gás aos minerais estratégicos. Recente relatório do Conselho do Ártico regista o aumento de 40% no número de navios únicos a operar nesta área, nos últimos 12 anos, tendo a distância percorrida disparado 95%, de 6,1 milhões para 11,9 milhões de milhas náuticas. Trata-se, sobretudo, de embarcações dos oito Estados árticos (os EUA, o Canadá, a Islândia, a Noruega, a Suécia, a Finlândia, a Dinamarca e a Rússia) e das que entram na zona delimitada por este Código Polar sob bandeira dos Estados Observadores do Conselho do Ártico.

Embora o degelo decorrente das alterações climáticas torne atrativa a incursão de navios militares, de carga e de cruzeiro, a navegação a altas latitudes não é fácil, nem pacífica.

Ekaterina Uryupova, investigadora no Instituto do Ártico, admite que “ir para o espaço é mais fácil do que pilotar e operar navios nas regiões polares”. Além dos desafios da intensificação do tráfego marítimo, o aquecimento global deixa o gelo mais fino, aumentando a fragmentação de glaciares e a formação de icebergs. No verão, acentua-se o derretimento, mercê das temperaturas elevadas. As placas de gelo à deriva na água, que são imprevisíveis, acumulam-se, quando colidem, empurradas por ventos e por correntes oceânicas, evoluindo para uma espécie de cadeias montanhosas à superfície (cristas) e debaixo de água (quilhas), atingindo as formações subaquáticas dezenas de metros. Este é um dos grandes perigos para as missões em submarino no Ártico. E no submersível convencional (com autonomia limitada em imersão), há maior risco, porque, em zonas de cobertura densa, será difícil ou impossível subir à superfície.

Além disso, pode haver inundações e incêndios. Eric Moreno, veterano da Marinha dos EUA e submarinista, entre 2001 e 2008, explicou ao The War Zone, website especializado em assuntos de defesa, que, quanto mais espaço tiver o submarino, “maior é a atmosfera disponível para ‘absorver’ um incêndio”, o que confere à tripulação “mais tempo para reagir adequadamente”. Ao invés, a margem de manobra é mais estreita num submarino tradicional, que tem propensão para mais rápida acumulação do calor e do fumo.

Dadas as condições extremas de operação, desde o final da década de 1950, a navegação sob o gelo no Ártico tem sido reservada a submersíveis nucleares, a maioria com mais de 100 metros de comprimento, de alta velocidade e com autonomia praticamente irrestrita. Contudo, a Marinha portuguesa venceu todos os receios, inclusive dos aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), e levou o NRP Arpão, entre abril e junho de 2024, às profundezas das águas glaciais, sendo a primeira a fazê-lo em submarino convencional na História recente.

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O NRP Arpão (S161) é um submarino convencional de ataque da Classe Tridente ao serviço da Marinha portuguesa, desde 2010, conhecido pela elevada capacidade de furtividade (baixa emissão de ruído), pela capacidade de transportar 16 torpedos e por ter sido o primeiro submarino português a navegar sob o gelo do Ártico e a cruzar a linha do Equador.

A guarnição, composta por 30 elementos e comandada pelo capitão de fragata Taveira Pinto, ficou sob a placa de gelo, na zona da Gronelândia, durante quatro dias, em missão inédita, pela mestria operacional e pelo esbatimento de fronteiras julgadas inultrapassáveis, o que levou Portugal a juntar-se aos EUA, ao Reino Unido e à Rússia, um leque restrito de países que operam sob a calota polar, mas dispondo de submarinos movidos por reatores nucleares.

O NRP Arpão largou da Base Naval de Lisboa, a 3 de abril de 2024, no âmbito da operação da NATO Brilliant Shield, para uma missão de 78 dias, apoiada pelas marinhas dos EUA, do Canadá e da Dinamarca, e incluiu várias etapas, com 1800 horas de navegação, das quais 1500 em imersão. Finalizada a primeira patrulha de 22 dias, de teste dos novos procedimentos e das alterações feitas, a embarcação atracou no porto de Nuuk, na Gronelândia, onde se reabasteceu de combustível e de comida. A viagem prosseguiu para Norte, passando o paralelo 66º33’N, que estabelece a fronteira do Círculo Polar Ártico, seguindo a bordo o então chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), almirante Gouveia e Melo que tinha idealizado a expedição, há mais de 10 anos. E, após 39 horas e 30 minutos em imersão profunda sob gelo, procedeu-se à exploração da placa, o que implicou fazer aberturas naturais, para hipotética subida de emergência e a monitorização da largura e da densidade da cobertura congelada.

Este feito foi suportado pela tecnologia de propulsão independente do ar ou AIP (Air Independent Propulsion) que o Arpão possui – um sistema de células de combustível, que, munido de depósitos de hidrogénio e de oxigénio, não exige ar fresco para o carregamento das baterias, assegurando a produção de energia debaixo de água, o que permite a estes submarinos diesel-elétricos ou convencionais ampliar o tempo de submersão, até duas a três semanas.

Segundo a Marinha portuguesa, a confiança para a missão partiu da “avaliação técnica rigorosa de que a plataforma tinha caraterísticas intrínsecas compatíveis com este tipo de ambiente”, mas não teria sucesso sem a “preparação exigente”, de sete meses, com o “estudo aprofundado da área” e de “adaptações materiais concretas”, após revisão dos sistemas do navio.

A guarnição encontrou montanhas de gelo que se prolongavam “90 metros para baixo” da superfície. Estes obstáculos são parte da “combinação complexa de desafios”, desde “gelo fixo, gelo solto, icebergs” às “condições acústicas muito diferentes das do mar aberto” e à “forte limitação das opções, em caso de ocorrência de uma emergência a bordo”.

Uma das medidas de mitigação de risco foi a instalação de um sonar de alta frequência, com apoio do Instituto Hidrográfico, e de sensores específicos, de forma a detetar gelo, a medir a sua espessura e a reforçar a segurança da navegação. Foram também montadas proteções na torre, para impedir que os mastros mais sensíveis, nomeadamente, o periscópio e o mastro optrónico, colidissem com placas de gelo.

A navegação em imersão, a profundidade que permite posicionar os mastros acima da linha de água (cota periscópica), na Marginal Ice Zone ou Zona de Gelo Marginal (MIZ), deixou vincados os méritos da missão portuguesa. Foi uma manobra que causou geral espanto entre os aliados, confessa o comandante Taveira Pinto, elegendo-a como o ponto alto da operação. A MIZ é a zona de confluência entre a placa de gelo rígida e as águas abertas, na qual, pela exposição a tempestades violentas e a ondas gigantes, os blocos de gelo se partem mais rapidamente e ganham trajetórias imprevisíveis.

Desde a II Guerra Mundial, nenhum submarino do Ocidente se atrevera a operar nesta área “altamente problemática” e de grande “incerteza”, onde a deteção e a manobra se tornam mais complexas, pelo “gelo fragmentado, pelas placas de dimensão variável, pelo ruído ambiental muito elevado e pela presença de vida marinha, que degrada a normal utilização do sonar como sensor principal de segurança”. O uso dos instrumentos, neste contexto caótico, é tarefa de especial sensibilidade, devido ao “risco físico associado”. As placas de gelo podem apresentar uma dimensão que provoque danos estruturais, se entrarem em contacto com a embarcação. “Foi por isso que a técnica desenvolvida pelo NRP Arpão para regressar à cota periscópica fez a diferença e permitiu transformar uma área tradicionalmente evitada num espaço onde passou a ser possível operar com segurança aceitável”, sustenta a Marinha, vincando que o exercício proporcionou liberdade de ação e flexibilizou as operações submarinos no Ártico.

O Arpão trouxe “inovação tática em ambiente real”, com “capacidade de adaptação” a “teatro em que o acesso, a sobrevivência e a discrição dependem de decisões muito finas”. Assim, Portugal “produziu conhecimento operacionalmente relevante para os aliados”, plasmado num manual de navegação no Ártico – uma base abrangente que facilita o trabalho de quem decidir lançar-se, no futuro, em incursões na região – e sistematizou saberes que são “ferramenta de doutrina”, que ilustra lições colhidas a partir da experiência real. São ensinamentos tidos em conta pelo Canadá, aliado de Portugal na NATO, para os ajustamentos necessários à sua nova frota de submarinos e para assegurar a aptidão dos mesmos para operações no Ártico canadiano, que ocupa 40% do território e mais de 70% da linha costeira do país.

A observação do Arpão em operações perto, por cima e debaixo do gelo, segundo o vice-comandante da Força Submarina do Canadá, ajudará Otava na modernização dos seus submersíveis, tanto mais que “um dos principais requisitos” do programa de aquisição em curso é a “capacidade de operar no ambiente do Ártico”. Este projeto foi lançado, em 2021, para estudar os ambientes operacionais e, depois, definir as caraterísticas e a tecnologia dos futuros submarinos da Marinha canadiana, substitutos da atual frota (quatro embarcações), pertencente à classe Victoria, adquirida ao Reino Unido, em segunda mão, em 1998, e programada para sair de serviço, no final da década de 2030.

O ex-primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, não excluiu a hipótese de propulsão nuclear, o que as autoridades de defesa do país rejeitaram, por causa do elevado custo. Porém, em agosto de 2025, o governo canadiano, liderado por Mark Carney, confirmou a intenção de comprar até 12 submarinos, “com alcance e autonomia alargados que proporcionarão discrição, persistência e letalidade como capacidades-chave”. Efetivamente, o Canadá, que tem a costa mais extensa do Mundo (mais de 202 mil quilómetros) precisa de condições de “detetar, rastrear, dissuadir e, se necessário, derrotar adversários” nos “três oceanos” do país.

Mesmo com submarinos convencionais, a aposta implica enorme despesa. Há quem aponte para 60 mil milhões de dólares, mas analistas do campo da defesa preveem um custo total na ordem dos 100 mil milhões de dólares, como reportou o jornal canadiano Ottawa Citizen, segundo o qual pode ser a maior aquisição militar de sempre na História do Canadá. O governo quer acelerar o processo e o contrato pode ser assinado neste ano, mas a Marinha canadiana estimou, em 2025, que o primeiro submarino só ficaria operacional em 2037.

Os novos submersíveis não possuirão todas as capacidades para navegação sob o gelo ártico, revelou Angus Topshee, vice-almirante da Marinha do Canadá, citado pelo jornal The Globe and Mail. É aqui que entra Portugal: as modificações e acrescentos do Arpão orientarão o trabalho de apetrechamento, a fazer após a entrega, a nível da estrutura e do equipamento especializado. A colocação de proteções para abrigar os mastros e aumentar a resistência das torres, uma das adaptações portuguesas, surge como exigência (a segurança é a prioridade) para evitar danos estruturais, acautelando eventual cenário de emergência que implique romper o gelo. E outro aspeto crucial é a eficácia, garantida, em grande parte, pelo sonar especializado no topo da torre, que foi útil para mapear o gelo, na parte de cima, e para detetar águas abertas.

A mistura de águas doces com águas salgadas também pode influir na transmissão e análise do som. As gravações dos Portugueses serão, pois, importante recurso de apoio, para que, por exemplo, haja noção dos ecos falsos próximos do gelo e seja aprimorada a deteção.

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De momento, não há planos para novas missões de submarinos portugueses no Ártico, em função de outras prioridades operacionais e estratégicas, mas Portugal continua atento ao que acontece na região, onde se intensifica a disputa geopolítica. De facto, o Ártico está cada vez mais militarizado. A Rússia tem, na península de Kola, que faz fronteira com a Noruega e com a Finlândia, uma das maiores concentrações de armas nucleares do Mundo, operando, aí, submarinos com capacidade para transportar dezenas de ogivas, cada um. E assiste-se ao aumento da presença submarina russa perto da passagem de GIUK, ponto estratégico no Atlântico Norte, entre a Gronelândia, a Islândia e o Reino Unido, de crucial importância para o acesso às águas atlânticas a partir do Ártico.

Por sua vez, a China, autoproclamou-se, em 2018, “Estado quase ártico” e continua a investir na “Rota da Seda Polar”, isto é, o plano de criação de percursos marítimos comerciais pelo oceano Ártico, para reduzir o tempo de viagem entre a Ásia e a Europa para 18 dias.

Perante esta escalada de cobiça, a Marinha portuguesa diz-se empenhada no esforço coletivo da estabilidade do Extremo Norte, mas realça que “a dissuasão e a defesa da área euroatlântica não se fazem de forma abstrata”. E o que a missão levada a cabo pelo Arpão também revela é que Portugal e outros países, apesar das restrições dos submarinos convencionais, têm potencial para desempenhar papel ativo no combate subaquático, inclusive sob o gelo.

Politicamente, Portugal provou ser ator credível na defesa da NATO, com um raio de atuação muito além da sua área imediata, em espaços geográficos distantes do seu território continental, mas ligados à segurança do Atlântico. E, num momento em que a NATO reforça a atenção ao High North, países que já provaram capacidade de operar nesse ambiente tornam-se parceiros valiosos. E a relevância estratégica de um país da dimensão de Portugal não reside só na escala de meios, mas também “na capacidade de oferecer competências diferenciadas e úteis à Aliança”. Por isso, a Marinha acompanhará os desenvolvimentos no Ártico e está preparada para contribuir em cenários semelhantes, especialmente, no âmbito da NATO.

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E, se o Ártico – de mais de 16 milhões de quilómetros quadrados –, não tiver gelo, no final do verão de 2027, como estará o clima, a navegação, as pessoas e os ursos polares?

2026.04.22 – Louro de Carvalho

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