terça-feira, 21 de abril de 2026

Criação de entidade para coordenar a segurança de cabos submarinos

 

De acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), conhecido e entregue, a31 de março na Assembleia da República (AR), em 2025, os crimes conexos com terrorismo caíram 29,4%, face a 2024. Tal descida refere-se a crimes de “organizações terroristas e terrorismo nacional” e de “organizações terroristas e terrorismo internacional”.

No atinente a ameaças externas, o terrorismo de matriz islamita e o risco de ataques da Rússia a cabos submarinos estiveram na mira das autoridades. No total, foram efetuadas 2441 comunicações pela Unidade de Coordenação Antiterrorismo (UCAT), integrada no Sistema de Segurança Interna (SSI), no âmbito da prevenção e combate ao terrorismo e da radicalização. Destas comunicações, houve “1841 respostas a entidades nacionais, 365 pedidos de entidades nacionais e estrangeiras e 235 partilhas de informações entre entidades nacionais e estrangeiras”.

Portugal não foi alvo de nenhum atentado, mas as autoridades estiveram atentas, não tendo detetado, em 2025, nenhum recrutamento de indivíduos para organizações terroristas, nem a preparação de nenhum ataque. Porém, foram “sinalizadas, acompanhadas e avaliadas as ligações a Portugal de indivíduos com perfil islamista, alguns dos quais sujeitos a medidas internacionais por suspeitas de ligações ao terrorismo”. Alguns planeavam viajar até Portugal e havia perfis que partilham conteúdos islamitas em língua portuguesa na Internet e jovens residentes em Portugal adeptos de “narrativas religiosas ultraortodoxas”.

Além do risco de terrorismo de células da Al-Qaeda e do Autoproclamado Estado Islâmico, o Ísis, as autoridades estiveram especialmente atentas, quanto a ameaças de Moscovo, nomeadamente, a atos de sabotagem a infraestruturas críticas, como os cabos submarinos de comunicações. Na verdade, Portugal constitui um ponto de passagem e de amarração de importantes estruturas deste tipo, pelo que foi ponderada a ameaça russa e adotado um esforço conjunto de prevenção da parte de várias autoridades nacionais, tendo a Marinha reforçado, a vigilância, em 2025, quando se tratava de embarcações russas a navegar em águas nacionais.

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Entretanto, a 13 de abril, John Joseph Arrigo, embaixador dos Estados Unidos da América (EUA) em Lisboa, disse que Portugal “não pode comprometer as infraestruturas de comunicações”, até porque estão em causa investimentos de gigantes tecnológicos e porque os cabos submarinos transportam 95% dos dados da Internet.

São longos esparguetes de tecnologia intercontinental, quase invisíveis, nas profundezas do oceano, mas as nossas socie­dades podem colapsar, se estas infraestruturas forem atacadas e se não houver sistemas redundantes fiáveis e garantias de soberania digital, pois um corte implica o fim da Internet, da comunicação de dados, de transferências bancárias, do funcionamento de mercados, de hospitais, etc. Por isso, o diplomata dos EUA deixou forte mensagem nesse sentido, na conferência organizada com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), em Lisboa: “Isto só funciona com uma infraestrutura segura e [com]uma segurança económica mais ampla. Enquanto Portugal investe em investigação de segurança, não pode comprometer as infraestruturas de comunicações”, afirmou, observando que o governo não definiu uma estratégia de proteção às infraestruturas críticas e aos cabos submarinos.

Para o sistema de cabos submarinos ser mais seguro e resiliente, há que “melhorar a coordenação governamental”, disse, na conferência, Kenny Huang, presidente da Taiwan Network Information Center, responsável pelos registos de domínio de Internet na Ásia-Pacífico e conselheiro do presidente de Taiwan, na área da segurança e da proteção de infraestruturas críticas, que tem a China como ameaça próxima. E a norte-americana Olivia Negus, do Information Technology Industry Council (ITI), com sede em Washington, que junta 80 grandes empresas tecnológicas, sustenta que, além da coordenação dentro dos governos, a política para os cabos submarinos exige cooperação internacional e forte colaboração do Estado com os privados.

O contra-almirante Nuno Bragança, coordenador do Centro do Atlântico, garantiu “Portugal está a investir e a aumentar a vigilância marítima”, referindo o acompanhamento da Marinha aos navios russos em águas territoriais e sob jurisdição portuguesa, bem como a Constelação do Atlântico, um projeto de satélites de alta definição que a Força Aérea está a desenvolver, que melhorará “o conhecimento e a informação” sobre as ameaças aos cabos submarinos. E explicitou como as condições naturais favorecem a segurança dos cabos que passam ou amarram em Portugal, onde “a profundidade média das águas territoriais é de 1200 metros”, em comparação aos 62 e aos 120 metros, no Mar Báltico e no Mar do Norte, respetivamente.  

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O RASI identifica as preocupações com a preparação de ações de sabotagem, particularmente, visando infraestruturas críticas, como os cabos submarinos. Não obstante, Portugal não aprovou a Estratégia Nacio­nal para a Resiliência das Infraestruturas Críticas, que devia ter entrado em vigor em janeiro, e cuja elaboração é da responsabilidade da Secretaria-Geral do SSI, que está na dependência do primeiro-ministro.

Os cabos submarinos que amarram em Portugal ou que passam por águas sob jurisdição portuguesa – vitais para as comunicações por transportarem 95% do tráfego de dados e da Internet – não estão classificados como “entidades críticas”. O gabinete da secretária-geral do SSI não assume o atraso, alegando que “a Estratégia Nacional para a Resiliência de Entidades Críticas é aprovada por Resolução do Conselho de Ministros” e cita a legislação publicada em março de 2025, que resulta da transposição de uma diretiva europeia com atraso de 17 meses, para dizer que as “entidades críticas” para a segurança nacional devem ser designadas até 17 de julho de 2026”. Porém, o diploma em causa, o Decreto-Lei n.º 22/2025, de 19 de março, apontou janeiro como data limite para a estratégia nacional ser aprovada.

Apesar dos atrasos, o SSI garante que estão em curso os procedimentos tendentes à identificação das infraestruturas críticas, cuja competência é do Conselho Nacional de Planeamento Civil de Emergência, outro organismo na dependência do primeiro-ministro. No anexo da legislação onde se apontam os setores e os subsetores que devem ser considerados “críticos”, os cabos submarinos não são mencionados, especificamente, por pertencerem ao subsetor identificado como das “infraestruturas de comunicações eletrónicas”. O SSI afirma que os cabos submarinos “são passíveis de vir a ser classificados com infraestrutura crítica” ou “entidade essencial” no prazo definido, ou seja, até 17 de julho. Com efeito, devido à posição geográfica de Portugal e à profundidade das águas, o país é um dos principais pontos para a amarração e passagem de cabos submarinos – 75% dos cabos atlânticos passam pelo mar português –, atraindo operadores mundiais, como a Google, a Meta ou a Amazon. A importância destas estruturas coloca Portugal no foco de países que dependem destas ligações com a Europa, como os EUA.

A crescente importância do país neste domínio leva à necessidade de aumentar a segurança destas infraestruturas, sobretudo desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, como o RASI dava nota: “Considerando que Portugal constitui um ponto de passagem e de amarração de importantes estruturas deste tipo, a amea­ça russa foi ponderada e, em resultado, foi adotado um esforço conjunto de prevenção por parte de várias autoridades nacionais. Salienta-se que foi dispensada especial atenção a atividades de reconhecimento no mar português, sobretudo quando levadas a cabo por navios russos.” E gabinete da secretária-geral do SSI informou que “os cabos submarinos de telecomunicações são, desde há alguns anos a esta parte, objeto de atenção no âmbito da segurança interna do Estado.”

Apesar de não haver estratégia nem classificação oficial, a Marinha tem intensificado as ações de monitorização de navios suspeitos. Entre eles, encontram-se submarinos e o navio de investigação científica “Yantar”, capaz de lançar na água os minissubmarinos “Gugi”, que operam a grande profundidade, até seis mil metros. O Reino Unido detetou dois destes submarinos, acompanhados por um submarino nuclear, suspeitos de estarem a mapear os cabos submarinos britânicos. E os especialistas militares estão cônscios de que a Rússia sabe onde estão os cabos e que os pode mapear ao milímetro, mas asseguram que a informação sobre o trânsito de navios suspeitos é objeto de partilha entre os países aliados, que vão monitorizando as embarcações e avisando as Marinhas amigas, para efeitos de vigilância contínua.

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Também o comunicado do primeiro Conselho de Estado do novo Presidente da República (PR), põe a tónica no reforço da proteção de infraestruturas críticas. “O Conselho sublinhou a importância de reforçar a preparação nacional, face a fenómenos atmosféricos severos, a ameaças híbridas e a riscos emergentes, bem como de assegurar a proteção eficaz de infraestruturas críticas e o regular funcionamento dos serviços essenciais”, lê-se no comunicado.

António José Seguro anunciou, na campanha eleitoral, que dedicaria o seu primeiro Conselho de Estado, logo em março, aos temas da segurança e defesa e às falhas do Estado em catástrofes. A reunião atrasou para abril, devido ao impasse na eleição dos conselheiros na AR, mas procedeu a “reflexão aprofundada sobre matérias relativas à segurança interna, à proteção civil, à cibersegurança, à proteção de infraestruturas críticas e à defesa nacional”. E foi destacada a “necessidade de continuar a promover a articulação entre as diferentes entidades com responsabilidades nestas áreas, reforçando a capacidade de prevenção, [de] resposta e [de] recuperação em situações de crise”.

A esse propósito, Seguro dedicou a sua primeira Presidência Aberta ao tema das tempestades e reuniu, no dia 16, um grupo de especialistas para apurar o que falhou e como pode o país preparar-se melhor para situações futuras. Daí sairá um relatório com algumas conclusões, que está a ser preparado pelo assessor económico da Casa Civil João Miguel Coelho.

Quanto à guerra com o Irão, o Conselho abordou o enquadramento geopolítico atual, vincando a relevância da cooperação internacional, do cumprimento dos compromissos de Portugal, no âmbito das suas alianças e do respeito pela Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional”. Seguro, que não tem estado totalmente alinhado com a política do governo na relação com os EUA, marcou o 10 de junho para a ilha Terceira, onde se localiza a Base das Lajes, que Portugal tem autorizado os EUA a usar na guerra, e “reafirma a importância de garantir a estabilidade, a segurança e a confiança dos cidadãos”.

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Na sequência do desenvolvimento desta problemática, Observatório dos Ecossistemas e Infraestruturas Digitais (OEID) – que reúne entidades e pessoas do setor – vincou a “necessidade de existência duma entidade que efetue a coordenação de todas as entidades que, em espaço nacional, contribuem para a segurança das infraestruturas de telecomunicação (telecom) críticas, nas quais é premente a inclusão dos cabos submarinos.

A proteção, regulação e enquadramento dos cabos submarinos estão sob a responsabilidade de várias entidades públicas, como a Autoridade Nacional das Comunicações (ANACOM), a Infraestruturas de Portugal (IP), o SSI a Marinha e a Força Aérea, o Conselho Nacional de Planeamento Civil de Emergência, ou a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), entre outros. Porém, o OEID, presidido por Luís Bernardino, diz que “o aumento da resiliência das redes submarinas é tarefa a ser participada por todos os países.

Para o OEID, a segurança dos cabos submarinos que atravessam as nossas águas (águas territoriais e ZEE – Zona Económica Exclusiva), amarrando ou não em Portugal, vem merecendo a atenção de variadas entidades públicas e autoridades nacionais. Porém, as atenções, não são exclusivas dos Portugueses. Assim, a 21 de abril, realizou-se, na AR, um workshp sobre “Cabos Submarinos – Conetividade Doméstica e Internacional”, com a participação de Luís Bernardino, do contra-almirante Nuno de Noronha Bragança e de outros especialistas.

A preocupação com os cabos que atravessam o mar português abrangem vários países aliados. E, frisando que é um setor em que a cooperação internacional entre Estados e privados é fundamental, o OEID sustenta que “o aumento da resiliência das redes submarinas ‘telecom’ é tarefa a ser participada por todos os países e por todas as partes interessadas do setor, pois o esforço isolado de um país ou de uma entidade, não garante a segurança de um cabo submarino. Por outro lado, refere que Portugal tem sido “pioneiro, em variadas situações”, chamando “a atenção para a importância dos cabos submarinos e para a necessidade de se prestar atenção à sua segurança”, já antes de 2022, e tem sido muito ativo, nos organismos e nas organizações internacionais que integra, “sejam elas de natureza civil, de natureza militar ou mesmo de natureza científica”.

No documento “Como aumentar a Resiliência dos Cabos Submarinos nas Águas Portuguesas”, de fevereiro de 2025, o OEID constata que “a interrupção dos cabos submarinos pode ter impactos económicos significativos, para Portugal e para o Mundo”, e faz 25 recomendações para melhorar a proteção e a resiliência dos cabos submarinos, como a realização de exercícios navais de proteção de cabos submarinos, envolvendo as Forças Armadas e demais agentes de proteção das infraestruturas críticas”, o reforço a formação técnica de equipas de reparação e, entre outras, o estabelecimento de parcerias com a Marinha, autoridades, academia e com a indústria dos cabos submarinos para a criação de um cluster R&D, para a inovação no desenvolvimento tecnológico para proteção de cabos submarinos”.

Está prevista “para o segundo semestre de 2027” a entrada em exploração do Anel CAM, cabo submarino que substituirá as atuais ligações entre o Continente, os Açores e a Madeira. A execução é da responsabilidade da Infraestruturas de Portugal e da Alcatel Submarine Networks. Trata-se de “um anel de telecomunicações que incorpora tecnologia ‘smart cable’, que é inovadora e está virada para a monitorização ambiental, oceânica e deteção precoce de sismos e tsunamis, sem prejuízo de outras funcionalidades”. Proporcionará maior capacidade e qualidade de serviço para acomodar o incremento de consumo de dados. O objetivo é ter o país preparado para a nova realidade “com a intensificação da utilização da inteligência artificial e crescente volume de dados”, suportando “conteúdos de maior complexidade e volume”.

Segundo o Ministério das Infraestruturas, a configuração em anel proporciona redundância, de modo que, falhando uma secção do cabo, o tráfego pode ser redirecionado e minimizará as interrupções do serviço. É infraestrutura crucial para a comunicação diária entre os cidadãos e o Estado, para as operações empresariais e para “a segurança e a gestão de emergências”.

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Em suma, porque o tema se reveste de especial melindre, o OEID, sem esquecer o trabalho feito e em projeto, pretende a criação de uma entidade que coordene todo o sistema, apoiada pelos vários países e pelos setores interessados e servida por um poderoso cluster de investigação e desenvolvimento.

2026.04.21 – Louro de Carvalho

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