segunda-feira, 20 de abril de 2026

Exposição “Florestas Submersas” deixa Oceanário de Lisboa

 

A exposição “Florestas Submersas by Takashi Amano” deixa o Oceanário de Lisboa, 11 anos após a inauguração. É o fim de um ciclo, para visitantes e para funcionários, que dizem adeus a inúmeras oportunidades de excecional fruição e conhecimento e a milhares de horas de trabalho debaixo de água, para manter intacta a visão do fotógrafo e designer japonês.

Pensada para três anos, a exposição temporária superou, largamente, o tempo estimado de vida. “Isto foi acontecendo, porque o aquário, ao longo do tempo, foi conseguindo sempre cumprir e manter o seu objetivo, que era criar algo nas pessoas”, explica Tiago Reis, aquarista e coordenador de espécies no Oceanário de Lisboa.

O planeamento para a criação da exposição foi iniciado em meados de 2013 e levou dois anos. Foi então que Hugo Batista, diretor de Biologia do Oceanário, e outros elementos da equipa do Oceanário passaram a trabalhar de perto com Takashi Amano, inclusive, com idas ao Japão. “Isto começou com uma ideia, um conceito, fomos claramente em busca da pessoa que mais visão tinha sobre este tipo de aquário, que era o Sr. Takashi Amano”, recorda Hugo Batista.

Um dos desafios, na origem do projeto, era a diferença de técnicas necessárias para a sua manutenção, sendo um equipamento que utiliza água doce. “Aprendemos todas as técnicas para manter este tipo de aquário, porque é completamente diferente do que fazemos, atualmente, na exposição que nós temos de procura de água salgada”, destaca Hugo Batista.

Apesar de ter já data para o fim, é possível ainda visitar a icónica exposição. Quem já a conhece, pode, no âmbito da redescoberta das “Florestas Submersas”, redescobrir a visão de Takashi Amano, de novas formas. Mediante marcação, é possível visitar os bastidores do aquário, onde durante cerca de 60 minutos, acompanhado por um educador marinho, o visitante poderá ficar a conhecer os cuidados diários e outras curiosidades sobre o aquário. “Temos visitas guiadas aos bastidores, onde é possível ver todas as ferramentas que usamos, as ferramentas que equipas japonesas também usaram, em colaboração com o Oceanário. Ver a nossa forma de trabalhar porque, realmente, mais ninguém, em todo o Mundo, nenhum outro aquário ousou fazer algo igual”, enfatiza Tiago Reis, segundo o qual, além disso, também se pode, em dias específicos, assistir às podas ao vivo, durante o horário de visita.

Ao fim de 11 anos e mais de dez milhões de visitantes, o ciclo de Takashi Amano no Oceanário chegou ao fim. “Acreditamos que, se estivéssemos a prolongar este aquário mais tempo, poderíamos estar a transgredir a visão do próprio autor, porque, ao longo do tempo, este aquário vai-se modificando e seria um pouco desrespeitoso, se nós quiséssemos estendê-lo por tempo indeterminado”, vinca Tiago Reis.

A partir de 30 de junho, a exposição deixará de estar disponível para o público: o fim de um ciclo, tal como Takashi Amano idealizou. “Aceitamos este encerramento, até porque há uma filosofia japonesa por trás da criação deste aquário, que é a filosofia wabi-sabi, que nos diz que nada é eterno. O próprio Takashi Amano dizia que o aquário teria um fim e nós teremos que aceitar, porque é o acontecimento natural deste ecossistema”, considera o coordenador de espécies no Oceanário de Lisboa.

Esta é uma exposição viva, que dará nova vida às espécies que ali se encontram. Estes animais serão “cedidos a outras instituições que cumpram os requisitos de bem-estar animal pelo qual o Oceanário se rege”, indica Tiago Reis, salientando que, após o encerramento, o aquário ficará, obviamente, a funcionar, até termos instituições dedicadas para os receber”.

No aquário habitam cerca de 40 espécies de peixes tropicais de água doce, 46 espécies de plantas aquáticas, totalizando mais de 10 mil organismos vivos. Segundo informação do Oceanário, o layout da estrutura integra 12 toneladas de areia, 25 toneladas de rocha vulcânica dos Açores e 78 troncos de árvores.

O trabalho requer precisão de régua e esquadro. Com detalhe e cuidado, uma aquarista do Oceanário de Lisboa alisa a areia existente no aquário da exposição “Florestas Submersas”. A função exige um mergulho prolongado. Alisar o fundo do aquário, eliminando os vestígios de qualquer disrupção ou presença humana naquele ambiente, é a última tarefa, depois da poda das plantas que o compõem. Cortes leves, mas precisos, desenham a vegetação presente neste aquário com 40 metros de comprimento, que leva, ao todo, 160 mil litros de água doce. Foi idealizado pelo japonês Takashi Amano, há mais de 13 anos.

Todos os dias, antes da abertura de portas, os aquaristas responsáveis pela estrutura mergulham para trabalhos de manutenção e limpeza. Desde 2015, quando foi inaugurada, a exposição contabiliza cerca de 11 mil horas de mergulho especializado. O objetivo passa por manter a visão do criador. “É algo quase impensável. Nenhum outro aquário tem esta quantidade de horas de trabalho dentro de água e ele é extremamente necessário, porque é um aquário de 40 metros [de comprimento], não nos podemos esquecer disso. […] É, ainda, o maior ‘nature aquarium’ do Mundo e, portanto, nós temos de o dividir por zonas. Temos uma escala de mergulho e temos cerca de três a quatro pessoas, todos os dias, a mergulhar para manter, exatamente, tudo como o criador, Takashi Amano, idealizou”, desenvolve Tiago Reis.

Fotógrafo de paisagem e um dos mais influentes aquariofilistas e aquapaisagistas do Mundo, Takashi Amano faleceu quatro meses após a inauguração da exposição. Idealizou este aquário que é considerado o maior “nature aquarium” do Mundo, um conceito que lhe é atribuído, e que consiste na recriação da estrutura de um ecossistema, em que as plantas e os organismos interagem e coexistem num aquário, inspirando-se nos métodos da Natureza.

Para guia e inspiração, Takashi Amano teve uma vida inteira na qual percorreu florestas, em vários continentes, trabalhando para promover uma maior consciência ambiental e a importância da preservação dos ecossistemas. O aquário é considerado uma das partes mais importantes do legado deixado pelo fotógrafo paisagista japonês.

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A 3 de abril, Caroline Ribeiro retrata, no Diário de Notícias (DN), um dia de trabalho no aquário.

Sem o glamour das luzes a emoldurar a experiência, sem a banda sonora, vê-se o que os visitantes nunca veem: o cuidado de toda a equipa com esta floresta. Dois mergulhadores trabalham, desde as 6h00, dentro do aquário, numa missão que é realizada, diariamente, desde a inauguração desta instalação, em abril de 2015, para garantia da qualidade da água e da segurança das espécies que a habitam. Como os caçadores, os mergulhadores usam vários equipamentos, sendo um semelhante a um aspirador de pó, com longos tubos ligados a caixas fora do aquário. Na ponta de cada tubo, funciona como bocal uma garrafa plástica cortada. Com movimentos delicados, os mergulhadores “sifonam”, a areia que é aspirada por aqueles bocais, para a remoção de quaisquer resíduos que possam tornar-se problema para o equilíbrio do aquário. Podem não ser objetos estranhos, pois nenhum visitante deita lixo na água, mas serão alguns tipos de algas e outras formações naturais que acabam por crescer e podem transformar-se em pragas.

Como explicou ao DN Hugo Batista, todos os dias, uma equipa começa a trabalhar às 6h00 da manhã, pois “o aquário é muito grande e tem muitos detalhes a que só conseguimos chegar através do mergulho”. Começam as verificações iniciais: ver se o sistema está todo a funcionar, ler os gráficos, verificar a qualidade da água. Depois, define-se o trabalho desenvolver, vê-se como estão as plantas e os animais. A partir daí, inicia-se a rotina: limpa-se o fundo do aquário, começa-se a sifonar (limpar os detritos que estão na areia) e limpam-se os acrílicos.

Hugo Batista retira, de uma das caixas para onde escoa o material “sifonado” do aquário, um tipo de novelo verde, que parece um bocadinho de relva enrolada. “Isto é um exemplo do que começa por se formar e pode acabar por roubar o oxigénio da água”, explicou.

Outra parte da manutenção faz os mergulhadores irem tronco a tronco e escová-los, com uma escova de dentes comum, para retirar pequeníssimas bolinhas, que são sinais de degradação. E Hugo Batista sublinha a criatividade dos profissionais para adaptarem materiais diversos às necessidades das funções. “É aquilo que ninguém vê”, enfatizou.

Um outro procedimento executado, diariamente, é um género de poda das plantas, uma das mais difíceis e importantes tarefas do aquário. “O corte desta poda [de uma plantinha de folhas castanhas] não descarta absolutamente nenhuma folha que seja aparada e garante que esta floresta submersa, mesmo passados 11 anos, desde a sua inauguração, tenha, ainda, as plantas originais”, diz ao DN o aquarista Tiago Reis, frisando a obrigação de fidelidade ao aquascaping que o criador deste aquário idealizou. “Portanto, ao longo do tempo, as plantas vão crescendo e nós vamos podando para fazer as formas. Mas chegamos a um ponto em que temos de remover, realmente, as plantas, para as plantarmos mais baixas e recomeçarmos de novo. Todas estas plantas são, exatamente, as mesmas, desde 2015, são as próprias plantas que Takashi Amano plantou. Nós vamos sempre replantando e, exatamente, todas no mesmo sítio, para sermos sempre fiéis ao que ele criou”, explicou o aquarista.

A exposição “Florestas Submersas” está contida num aquário que é considerado o maior nature aquarium do Mundo, ou seja, um aquário que recria um ecossistema completo da Natureza, com plantas, peixes e outros pequenos animais, além de micro-organismos. A obra foi idealizada como uma réplica submersa de um paraíso tropical. Possui 40 metros de comprimento, comporta 160 mil litros de água doce, quatro toneladas de areia e 25 toneladas de rocha vulcânica dos Açores. Há cerca de 78 troncos de árvores, provenientes da Escócia e da Malásia, a compor esta paisagem de floresta, que tem mais de 10 mil organismos vivos no seu ecossistema, entre eles cerca de 40 espécies de peixes tropicais e 46 espécies de plantas aquáticas.

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Takashi Amano mano, como fotógrafo, visitou três das principais florestas tropicais do Mundo, a Amazónia, a da Ilha Bornéu (no Sudeste Asiático) e a da zona ocidental da África. Além de fotógrafo, era designer e desenvolveu um gosto pessoal pelo aquariofilia, levando-o a fundar uma empresa para atuar na combinação destas duas paixões. Foi assim que começou os projetos de “nature aquarium” e que ganhou notoriedade pelas suas criações.

O aquário levou três meses para ser construído, trabalho que envolveu mais de 90 pessoas, de seis países diferentes. A exposição foi concebida para estar patente durante três anos, já lá vão 11, tornando-se um elemento emblemático do Oceanário de Lisboa, visto, até ao momento, por mais de dez milhões de pessoas.

Além do impacto local, “Florestas Submersas” foi a última criação de Takashi Amano, que morreu apenas três meses depois da sua inauguração. A decisão de encerrar esta obra, o que vai acontecer, no final de junho, também passa por preservar o legado do seu criador. “Isto é uma obra de arte viva e, portanto, segue o seu ciclo. Foi projetada para três ou quatro anos, porque é o tempo também que prevíamos [a] duração de algumas caraterísticas, por exemplo, os troncos que temos nesta exposição, a própria qualidade expositiva. Aliás, este não é só o maior ‘nature aquarium’ que existe, como é talvez o mais antigo que existe, sem ter sofrido grandes remodelações”, observa Hugo Batista, sublinhando: “Para mantermos a qualidade deste aquário, para o futuro, teríamos de o renovar. Ao fazermos isso, é como pegar numa tela, numa obra de arte, remover a tela e colocar [outra] na mesma moldura – já não tem a assinatura do seu criador – e iria acontecer isso. Portanto, não nos é correto fazê-lo.”

Este é, em meu entender, o aspeto mais controverso do encerramento da exposição. Se nenhum país – Portugal será o que tem maior responsabilidade na matéria – mantiver a obra do criador, renovando-a, porque não quer ou porque não tem dinheiro, como é que pode dizer-se que mantém e respeita o legado de Takashi Amano? Restarão fotos, vídeos, microfilmes? E por que não reconstituições físicas?

Sem dar mais pistas do que vai ocupar o recinto, em seguida, embora admita que o plano está em andamento, a equipa deixa o convite para um último “mergulho” dos visitantes. “Queremos encerrar esse ciclo por respeito também à criação que ele fez e deixar o legado e a imagem a quem nos visita. Convidamos a virem visitar-nos, para reverem, uma vez mais, esta exposição, enquanto ainda está aberta”, finaliza Hugo Batista.

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Floresta submersa é um ecossistema florestal inundado, por fenómenos naturais, como o aumento do nível do mar (por exemplo, o Lago Kaindy, no Cazaquistão), ou por inundações sazonais de rios, criando habitats aquáticos únicos. Também se aplica a designação a instalações artísticas, como o aquário natural de Takashi Amano, que replicam florestas tropicais debaixo de água. Também se designam por aquário natural (nature aquarium), paisagismo aquático (aquascaping), várzea (igapó, na Venezuela) ou ecossistema aquático. As mais incríveis do planeta são facilmente encontradas na costa da Grã-Bretanha e no Noroeste da Dinamarca, na Índia, na França, na Roménia e no Cazaquistão. Eis algumas:

* Com profundidade que pode ir a 30 metros, em alguns pontos, a floresta do Lago Kaindy, no Cazaquistão, possui árvores do tipo Spruce e Schrenk que surgem do fundo até à superfície do lago. No inverno, a floresta submersa ganha aspeto especial com o congelamento do lago, ao passo que, no verão, a água ganha coloração turquesa e sobe a temperatura. O que provocou a submersão da floresta foi grande deslizamento de terra calcária, criando a represa natural.

* Localizado na região da Transilvânia, na Roménia, o Lago Bezid tem uma floresta submersa e uma aldeia. Telhados de casas e de igrejas confundem-se com galhos retorcidos, criando incrível e sombrio cenário. Havia ali uma barreira para evitar o avanço da água, mas, após um grande desastre, a cidade toda foi inundada.

* Com a área total de 55 quilómetros quadrados, o lago Periyar, na Índia, é ótimo exemplo de floresta submersa. As águas chegam ali pelo rio Periyar e seguem para o Rio Vigai e Tamil Nadu, alimentando um ecossistema único que existe desde 1895. Há um reservatório natural onde a vida surgiu após a construção da barragem Mullaperiyar, porém já havia uma floresta, na região, antes da presença humana.

* É possível conferir exemplares de árvores da floresta que havia no reservatório Udawalawe, no Sri Lanka. O abastecimento fica a cargo do Rio Walawe e podem ser catalogados alguns animais, como elefantes, diversas espécies de aves aquáticas e incontáveis tipos de peixes.

* Com superfície maior do que qualquer outro reservatório no planeta, o Lago Volta surgiu após a construção da hidrelétrica Akosomba. Porém, ficam submersas árvores com madeiras tropicais de grande valor que sofrem a falta de oxigénio, devido à pela presença de água.

Também na Floresta Amazónica (Igapó/Várzea), áreas florestais que ficam, temporariamente, debaixo de água, durante as cheias, criando habitats altamente produtivos.

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Enfim, caprichos da Natureza e/ou da paciência humana!

2026.04.20 – Louro de Carvalho

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