No
terceiro domingo de Páscoa, no Ano A, componente deste grande domingo que é o
tempo pascal, continua a ressoar, em cada hora, a certeza da vitória de Jesus
sobre a morte. Porém, a liturgia desta dominga lembra-nos, especificamente, que
podemos experienciar a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, nos caminhos que
todos os dias percorremos, experiência que nos transforma, renova santifica e nos
faz vivas testemunhas do Ressuscitado.
***
A primeira
leitura (At 2,14.22-33) é um extrato do discurso de Pedro na manhã
de Pentecostes, em que anuncia aos habitantes de Jerusalém e ao Mundo que o
Jesus assassinado pelas autoridades judaicas, derrotou a maldade, a injustiça,
a violência e a morte. Com ousadia profética, Pedro garante: “Disso todos nós
somos testemunhas”. É esta Boa Notícia que os discípulos de Jesus de todas as
épocas anunciam ao Mundo.
Invocado,
o testemunho das Escrituras, Pedro expõe o “kérigma”, o núcleo fundamental da mensagem
cristã: Jesus, creditado por Deus, veio ter com os homens e passou pelo Mundo
realizando gestos poderosos que testemunham o amor de Deus e anunciam a sua
salvação. A proposta de Jesus colidiu com a recusa do Mundo e Ele foi morto na
cruz “pela mão de gente perversa”. Porém, Deus ficou do lado d’Ele,
ressuscitou-O, fê-Lo triunfar sobre a injustiça, a mentira, a violência e a
morte. Ao ressuscitar Jesus, Deus disse aos que recusaram escutá-Lo que Jesus
estava certo, pois uma vida ao serviço do desígnio de Deus não pode terminar no
fracasso, mas conduz à vida plena. Pedro é o porta-voz da comunidade que
testemunhou a oferta de salvação que Jesus veio trazer, que acreditou nela e
que recebeu de Jesus a missão de a propor aos homens de toda a Terra.
O
anúncio petrino é dirigido a judeus que conhecem as Escrituras e as promessas
de Deus. Por isso, Lucas põe na boca de Pedro argumentos tirados da própria
Escritura para fundamentar o que pretende anunciar. Em concreto, Pedro refere o
salmo 16,8-11, atribuído a David: “O Senhor está sempre na minha presença, com
Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma
exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. Tu não abandonarás a minha alma na
mansão dos mortos, nem deixarás o teu Santo sofrer a corrupção. Deste-me a
conhecer os caminhos da vida, a alegria plena em tua presença.”
É
um dos raros textos do veterotestamentários onde se vislumbra a vitória da vida
sobre a morte. O raciocínio do compositor deste discurso é: David refere, no
salmo que a tradição lhe atribui, um “amigo de Deus” que haveria de vencer a
morte; não se trata, de David pois, como todos sabem, morreu na primeira metade
do século X a.C. (“o patriarca David morreu e foi sepultado e o seu túmulo
encontra-se, ainda hoje, entre nós”). Sendo assim, o “amigo de Deus” de que
David fala será, com certeza, o descendente de David que, segundo a promessa de
Deus, haveria de herdar o trono do seu pai e estabelecer um reino eterno. Era a
esse rei, da descendência de David, que os judeus chamavam Messias ou Cristo
(“ungido”); era esse rei, da descendência de David, que alimentava a esperança
de Israel e que era aguardado ansiosamente. Jesus é, pois, esse “amigo de
Deus”, anunciado por David, que Deus não abandonou na habitação dos mortos e
cuja carne não conheceu a corrupção do túmulo. Portanto, Jesus está vivo: uma
vez ressuscitado dos mortos, foi elevado à glória pelo poder de Deus, recebeu o
Espírito Santo e derramou-O sobre os discípulos que deixou na Terra para serem
testemunhas do Evangelho da salvação. Resta que os habitantes de Jerusalém estejam
disponíveis para O acolherem.
Temos,
aqui, o testemunho da comunidade cristã sobre Jesus, o Messias, enviado ao Mundo
para cumprir o plano de Deus. A vitória de Jesus sobre a morte e a sua
exaltação atestam que Ele é o Messias enviado por Deus com a salvação. Os
discípulos de Jesus são as testemunhas disto diante de todo o Mundo (“disso
todos nós somos testemunhas”). Para já, o testemunho é dado em Jerusalém, mas
Lucas descreverá, ao longo do livro dos Atos, a forma como o anúncio sobre
Jesus irá conquistando o Mundo, até atingir Roma, o coração do império.
***
No Evangelho
(Lc 24,13-35), Lucas convida-nos a acompanhar dois discípulos que,
abalados pela suposta falência do projeto de Jesus, desistem da comunidade e se
põem a caminho de uma outra vida. Porém, Jesus, sem Se identificar, surge, acompanha-os
no caminho, ajuda-os a encontrar respostas, incute-lhes a esperança. E eles,
admirados por o suposto forasteiro não saber o que se passou em Jerusalém, só
reconhecem Jesus quando, à mesa, Ele parte e reparte o pão. O relato – com sabor
eucarístico – é a parábola dos nossos desencontros e encontros com Jesus
ressuscitado: Ele nunca deixará de nos acompanhar no caminho, de nos explicar o
sentido da vida e de nos alimentar com a sua Palavra e com o seu Pão.
No
primeiro dia da semana – Lucas começa relato com a expressão “naquele mesmo
dia”, o que nos remete para o relato anterior – em que descreve como, na manhã
de Páscoa, algumas mulheres vão ao túmulo levando os perfumes que preparam para
tratarem o corpo de Jesus e se deparam com “dois homens com vestes refulgentes”
que lhes anunciam a ressurreição –, dois discípulos saem de Jerusalém e põem-se
a caminho de um lugar chamado Emaús. Um deles é Cléofas; o outro não é
identificado. Alguns identificam-no com Pedro, outros com Natanael, com Simão e
até com a mulher de Cléofas. Lucas, ao não identificar esse discípulo, talvez sugira
que podia ser “qualquer um” dos crentes que tomam conhecimento do relato.
Percebe-se,
das palavras que os dois viajantes trocam enquanto caminham, o motivo por que se
afastam de Jerusalém: desilusão, pois os seus sonhos de triunfo e de glória ao
lado de Jesus ruíram aos pés da cruz. O poderoso Messias, capaz de derrotar os
opressores, de restaurar o grandioso reino de David (“nós esperávamos que fosse
Ele quem havia de libertar Israel”) e de distribuir benesses aos colaboradores
revelou-se um rotundo fracasso. Em vez de triunfar, deixou-Se matar na cruz; e
a sua morte é facto consumado, pois “é já o terceiro dia depois que isto
aconteceu” (o “terceiro dia” após a morte é o dia da morte definitiva, do não
regresso do túmulo). Portanto, os dois abandonam a comunidade – que já não
parece fazer sentido – e afastam-se de Jerusalém, dispostos a esquecer o sonho,
a pôr os pés na terra e a enfrentar uma vida dura e sem esperança. A discussão
entre eles, a propósito de “tudo o que tinha acontecido”, deve entender-se
neste enquadramento: é essa partilha solidária dos sonhos desfeitos que torna o
desencanto menos doloroso.
Entretanto,
o narrador introduz no quadro uma nova personagem: Jesus. Ele alcança Cléofas e
o companheiro e põe-se a caminhar ao lado deles; mas eles, ocupados a lamber as
feridas da desilusão, não O reconhecem, tal como sucedeu com Maria Madalena,
quando, na manhã de Páscoa, confundiu Jesus ressuscitado com o jardineiro.
Jesus, solícito, questiona-os sobre o que os inquieta tanto; e eles,
estranhando que o viajante não conheça “o que se passou, nestes dias”, em
Jerusalém, contam-lhe a saga do “profeta poderoso em obras e palavras” que os
príncipes dos sacerdotes e os chefes entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram”.
Para eles, a História de Jesus terminou e ficou sepultada num túmulo, em
Jerusalém, onde colocaram o Seu corpo morto. Falta-lhes a fé no Senhor
ressuscitado, embora conheçam a tradição do túmulo vazio e o testemunho das
mulheres.
Para
sossegar os dois e para lhes mostrar que tudo se encaixa na lógica do plano de
Deus, Jesus, “começando por Moisés e passando pelos profetas, explicou-lhes, em
todas as Escrituras, o que Lhe dizia respeito”. Lucas não refere os textos veterotestamentários
que Jesus terá citado, mas talvez pense em Dt 18,18 (“suscitar-lhes-ei
um profeta como tu, de entre os seus irmãos; porei as minhas palavras na sua
boca e ele lhes dirá tudo o que Eu ordenar”), nos cânticos do “Servo de Javé” e
em alguns salmos que enquadram o sofrimento e a glorificação do justo no
contexto do projeto salvador de Deus. Aqueles discípulos percebem que “o
messias tinha de sofrer tudo isso para entrar na glória”. E Lucas parece
sugerir aos discípulos de todas as épocas e lugares que é na escuta e na
partilha da Palavra que o plano salvador de Deus ganha sentido e que, só pela
Palavra de Deus – explicada, meditada e acolhida – o crente perceberá que o
amor até às últimas consequências e o dom de si próprio não levam ao fracasso,
mas geram vida nova.
Os
três (Jesus, Cléofas e o discípulo não identificado) chegam a Emaús. Os
discípulos ainda não reconhecem Jesus, mas oferecem-lhe hospitalidade: é de
noite e não é seguro continuar a viagem. Aquele desconhecido encanta-os e eles
não querem vê-lo partir. Jesus aceita o convite, entra com eles em casa e
senta-se com eles à mesa. Enquanto comem, Jesus, assumindo o papel do dono da
casa, “tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho”. As palavras
usadas por Lucas referem os gestos que Jesus tinha feito na multiplicação dos
pães e dos peixes e na inesquecível ceia de despedida que celebrou com os
discípulos na véspera da Sua morte. E são as palavras que a Igreja primitiva
repetia sempre que se reunia à volta da mesa eucarística. É então que os olhos
dos dois discípulos se abrem e eles reconhecem, no companheiro de viagem, o
próprio Jesus. Na linguagem brejeira de alguns grupos, “foi preciso Jesus
fazer-lhes um desenho para O reconhecerem”, apesar de Ele ter desaparecido,
entretanto.
A
última cena do relato põe os discípulos a retomar o caminho, a regressar a
Jerusalém e a apresentar-se, novamente, à comunidade que abandonaram horas
antes. Não os inquieta a noite, a distância, nem a comida que ficou na mesa. O que
lhes interessa é testemunhar que Jesus venceu a morte, está vivo e caminha, de
novo, com os discípulos.
Por
trás desta construção lucana, há forte intenção catequética. Quando Lucas
escreve o seu Evangelho (década de 80 do século I), a comunidade cristã deparava-se
com dificuldades. Tinham decorrido cerca de 50 anos depois da morte de Jesus,
em Jerusalém. A catequese dizia que Ele estava vivo, mas o quotidiano da vida
monótona e cansativa tornava difícil fazer essa experiência. As testemunhas
oculares de Jesus tinham desaparecido e os acontecimentos da paixão, morte e
ressurreição pareciam distantes, ilógicos e irreais. Os crentes das comunidades
lucanas perguntavam se Jesus ressuscitou e está vivo, como pode ser encontrado,
onde e como se pode fazer verdadeira experiência de encontro real com esse
Jesus que a morte não conseguiu vencer e por que motivo não aparece de forma
gloriosa e não instaura um reino de glória e de poder que faça triunfar sobre
os nossos adversários e detratores.
É
a isto que Lucas procura responder. A sua mensagem dirige-se aos crentes que
caminham pela vida, desanimados e sem rumo, cujos sonhos parecem desfazer-se em
contacto com a realidade monótona e difícil do dia a dia. Lucas garante que
Jesus está vivo e caminha ao nosso lado, nos caminhos do Mundo. Às vezes, não
conseguimos reconhecê-Lo, pois os nossos corações estão ocupados com as preocupações
pessoais, com os interesses egoístas, com os preconceitos enraizados, com as
visões estreitas. Ficamos incapazes de olhar mais longe e de compreender o desígnio
de Deus. Contudo, Jesus faz-Se nosso companheiro de viagem, caminha connosco,
alimenta a nossa caminhada com a esperança que brota da sua Palavra, faz-Se
encontrar quando nos sentamos à mesa da comunidade para partilhar o pão
eucarístico.
Na
catequese lucana aparece a ideia de que é na celebração comunitária da
Eucaristia que os crentes experienciam o encontro com Jesus vivo e
ressuscitado. A narração sugere o esquema da celebração eucarística: a liturgia
da Palavra (a “explicação das Escrituras”, que permite aos discípulos
entenderem a lógica do plano de Deus em relação a Jesus) e o “partir do pão”
(que faz com que os discípulos entrem em comunhão com Jesus, recebam d’Ele
vida, O reconheçam nesses gestos que são o “memorial” da sua entrega até ao
extremo por amor).
Por
fim, Lucas, em modo de catequista, ensina que, depois de fazer a experiência do
encontro com Cristo vivo e ressuscitado na celebração eucarística, o crente é
impelido a voltar à estrada, a dirigir-se ao encontro dos irmãos e a
testemunhar que Jesus está vivo e presente na História e na caminhada dos
homens.
Na segunda
leitura (1Pe 1,17-21), um autor cristão do século I lembra aos batizados
a vocação fundamental a que são chamados: a santidade. Para dar força ao apelo
a uma vida santa, recorda-lhes que foram resgatados por um preço bem alto: pelo
sangue precioso de Cristo. Ao ressuscitar e glorificar o seu Filho Jesus, Deus
caucionou a proposta de vida que Ele oferece. Dirigindo-se aos batizados, o
autor da carta exorta-os a viverem como filhos de Deus, ou seja, a abandonarem,
por completo, os “desejos antigos” e optarem pela santidade. Citando a
Escritura, lembra-lhes o pedido de Deus: “Sede santos, porque Eu sou santo”. Os
chamados à santidade e que invocam a Deus como Pai devem, segundo a Carta,
viver “com temor, durante o tempo de exílio neste Mundo”. O temor traduz, na
linguagem veterotestamentária, a obediência, a confiança, a entrega a Deus, a
total conformação com a vontade de Deus.
Para
imprimir força à sua exortação, o epistológrafo lembra aos batizados que não
têm o direito de voltar atrás, pois Deus pagou alto preço para os resgatar da
antiga maneira de viver; e esse preço não foi pago com bens corruptíveis, como
ouro ou prata, mas com algo precioso: o sangue de Cristo, derramado na cruz.
Foi preço bem alto que Deus não hesitou em pagar, um enorme investimento de
Deus que não pode ser malbaratado e desprezado pela ingratidão.
O
verbo “resgatar” (“lytróô”), utilizado pelo epistológrafo para falar da ação
salvífica de Deus em favor do homem, é usado no grego profano para designar a
libertação de uma pessoa (nomeadamente, um escravo), mediante o pagamento de
determinada quantia. Contudo, no Antigo Testamento, tem alcance eminentemente
teológico e refere-se à atuação salvífica de Deus, que intervém para salvar o
seu povo do cativeiro egípcio, do exílio babilónico ou do pecado. Em algumas
passagens, o verbo inclui o sentido de “adquirir”: Javé resgata Israel para que
ele passe a ser o povo de Deus, a tribo da sua herança, a comunidade que
pertence a Deus e que está ao serviço de Deus. Dizer que Deus resgata quer dizer
que Deus, no seu amor, liberta Israel da escravidão e do pecado, a fim de fazer
dele um Povo consagrado ao seu serviço.
Será
neste contexto que devemos entender a afirmação da Primeira Carta de Pedro. A
referência a Cristo como “cordeiro sem defeito e sem mancha” leva-nos ao
cordeiro pascal (“cordeiro pascal” em Ex 12,5, o cordeiro que os
escravos hebreus sacrificaram e comeram na noite em que fugiram da escravidão)
e, portanto, à tipologia do Êxodo. Assim como o “cordeiro pascal” marcou a
libertação dos Hebreus da escravidão do Egito e marcou o nascimento de um povo
dedicado ao serviço de Deus, também a morte de Cristo resgatou o homem da
escravidão do pecado e fez nascer o povo novo e santo, cuja vocação é servir a
Deus e Nele pôr a sua fé e esperança.
Os
batizados são convidados a contemplar o plano de salvação que Deus quer
concretizar em favor do homem, que passa pela entrega de Jesus (o “Cordeiro sem
mancha nem defeito” na cruz. Constatando a grandeza do amor de Deus e a sua
vontade salvífica, os batizados – apesar das dificuldades – aceitam
comprometer-se com Deus e renascer para uma vida nova e santa. Dessa forma,
nascerá um Povo novo, consagrado ao serviço de Deus.
***
Por
tudo, é salutar seguir o cantar do salmista e pedir ao Senhor a abertura do coração
para entendermos as Escrituras.
“Mostrai
me, Senhor, o caminho da vida.”
“Bendigo
o Senhor por me ter aconselhado, / até de noite me inspira interiormente. / O
Senhor está sempre na minha presença, / com Ele a meu lado não vacilarei.
“Por
isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta / e até o meu corpo descansa
tranquilo. / Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, / nem
deixareis o vosso fiel conhecer a corrupção.
“Dar-me-eis
a conhecer os caminhos da vida, / alegria plena em Vossa presença, / delícias
eternas à Vossa direita.”
***
“Aleluia.
Aleluia. Senhor Jesus, abri-nos as Escrituras, falai-nos e inflamai o nosso
coração.”
2026.03.19 – Louro de Carvalho
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