sábado, 25 de abril de 2026

Presidente da República dá conteúdo à magistratura de influência

 

Sói dizer-se que o grande instrumento de poder do chefe de Estado, no atual sistema político-constitucional, é a palavra, deve ser gerida de acordo com a adequada proximidade das pessoas (o poder não pode existir numa redoma, nem pode matraquear os cidadãos), com a solenidade que os atos do Estado requerem e com a necessidade de o Presidente da República (PR) dar pleno cumprimento às suas competências constitucionais, mas nunca a devendo fragilizar, através de comentários desnecessários ou desadequados.

Brada-se, a plenos pulmões, que o PR não colegisla, não governa, nem lhe cabe a iniciativa legislativa ou governativa. Contudo, se é o garante do cumprimento da Constituição da República Portuguesa (CRP), que jurou cumprir e fazer cumprir (cf. CRP, artigo 127.º, n.º 3), sempre que lhe surjam dúvidas consistentes sobre a constitucionalidade de quaisquer normas legais ou sobre a inconstitucionalidade por omissão (cf. CRP, artigos 136.º, 278.º, 279.º e 283.º), deverá suscitar a intervenção do Tribunal Constitucional (TC); se, nos termos da CRP (artigo 120.º) é o garante da unidade nacional, deverá esforçar-se por concitar consensos em torno das matérias mais importantes e por tentar o estabelecimento de pactos de regime em matérias essenciais; se é o garante do regular funcionamento das instituições democráticas, não pode contemporizar com o que se passa com a falta de provimento dos juízes do TC, dos conselheiros de Estado que eleitos pela Assembleia da República (AR), nem como na designação de outros elementos pela AR noutros órgãos externos, como é o caso do provedor de Justiça; e, se é o comandante supremo das Forças Armadas, não pode compactuar com o seu desprestígio, nem com a exiguidade de efetivos ou de meios.

Não pode interferir no tempo e na dinâmica dos demais órgãos de soberania, mas não deve, nem pode, como órgão do topo do poder político, deixar andar na corda bamba serviços fundamentais, como o Serviço Nacional de Saúde (SNS), a política da habitação, a escola pública, a defesa e a segurança, a proteção civil, a segurança social, a justiça, as finanças públicas, a economia e as leis laborais, entre outros setores. Tem ao seu dispor a prerrogativa de envio de mensagens à AR e o veto político sobre diplomas da AR e do governo, se tiver discordâncias políticas graves sobre a sua natureza ou sobre a sanidade do seu processo de consecução.

Isto não significa que se presuma que concorde sempre com o teor dos diplomas que promulga, pelo que resvalará para terreno perigoso, ao optar por fazer comentários limitativos do mérito de diplomas que promulga ou ao apontar-lhes algum demérito.

Tem-se falado, amiúde, da magistratura de influência do supremo magistrado da nação, mas é difícil reconhecer-lhe conteúdo. Até quando se pronuncia, com vigor, sobre determinados temas ou concita pública discussão sobre outros, advertem que não são matérias da sua competência. Ou seja, querem fazer do PR simples notário de serviço, mero árbitro ou polícia que adverte, mas cuja advertência não tem de levar a mudança de atitudes.

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Pelos vistos, António José Seguro não partilha de limites ultraconstitucionais dos seus poderes. Logo o seu primeiro Conselho de Estado, a 17 de abril, versou no tema “segurança e defesa”. E a nota informativa divulgada no final da reunião é bem elucidativa, ao explicitar que o Conselho de Estado se reuniu, “para proceder a uma reflexão aprofundada sobre matérias relativas à segurança interna, à proteção civil, à cibersegurança, à proteção de infraestruturas críticas e à defesa nacional”; que “foi efetuada uma avaliação da situação atual, tendo sido identificados os principais riscos e desafios que se colocam ao país, tanto no plano interno como no contexto internacional”; que se vincou “a importância de reforçar a preparação nacional, face a fenómenos atmosféricos severos, a ameaças híbridas e a riscos emergentes, bem como de assegurar a proteção eficaz de infraestruturas críticas e o regular funcionamento dos serviços essenciais”; que “foi destacada a necessidade de continuar a promover a articulação entre as diferentes entidades com responsabilidades nestas áreas, reforçando a capacidade de prevenção, resposta e recuperação em situações de crise”; que, no plano externo, se abordou “o enquadramento geopolítico atual, sublinhando a relevância da cooperação internacional, do cumprimento dos compromissos assumidos por Portugal no âmbito das suas alianças e do respeito pela Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional”; e que o PR “valorizou os contributos apresentados pelos Conselheiros de Estado, que enriqueceram a reflexão estratégica sobre estas matérias, reafirmando a importância de garantir a estabilidade, a segurança e a confiança dos cidadãos”.

Não se trata de transformar o Conselho de Estado em segunda câmara parlamentar ou em órgão de pressão, mas em instância de respaldo das preocupações do chefe de Estado, quando este o convocar, por forma que a AR, o governo ou grupos de cidadãos possam ou não tomar iniciativas legislativas (respetivamente, projetos de lei, propostas de lei e petições) a partir destas reflexões.

Também António José Seguro dedicou a sua primeira Presidência Aberta ao tema das tempestades e reuniu, no dia 16, um grupo de especialistas para apurar o que falhou e como pode o país preparar-se melhor para situações futuras. Daí sairá um relatório com algumas conclusões, que está a ser preparado por João Miguel Coelho, assessor económico da sua Casa Civil, no mesmo espírito com que funcionou o Conselho de Estado. Isto não quer dizer que presidências abertas (com esta ou com outras designações) de seus antecessores não tenham surtido o seu efeito, mas ao atual PR cabe o mérito de tentar a sistematização dos seus conteúdos e de a colocar ao serviço dos cidadãos e, mesmo, dos demais órgãos de soberania.

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Durante a ronda de audiências com os parceiros sociais, em Belém, a 23 de abril, o Presidente da República escolheu dois consultores da sua Casa Civil (que parece ainda não estar completa) para estarem ao seu lado: Jorge Marrão, economista e fundador do Movimento Europa e Liberdade (MEL), como consultor económico, nas quatro reuniões com as confederações patronais; e Gustavo Cardoso, professor, especialista em Comunicação e antigo consultor do Presidente Jorge Sampaio, nas duas audiências com as centrais sindicais, a União Geral de Trabalhadores (UGT) e a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP).

Gustavo Cardoso, que fará parte da equipa política do PR, esteve nas reuniões na qualidade de consultor para a área da “política estratégica”. A reforma laboral, que está a ser negociada de forma tripartida com o governo e os parceiros sociais, era o tópico mais sensível daquelas reuniões, mas a Presidência da República sublinha que não era tema único.

No final da ronda de audiências, o PR divulgou uma nota onde se lê que “o objetivo das reuniões foi abordar os novos desafios para a economia e o funcionamento do mercado de trabalho”. Entre os desafios identificados, destaca-se “o desajustamento das qualificações dos jovens, face ao mercado de trabalho; a transformação motivada pela inteligência artificial [IA]; a plataformização do trabalho à escala global; a fixação e atração de jovens portugueses; a desigualdade salarial entre homens e mulheres; o aumento da competitividade das empresas portuguesas, num mercado internacional em constante mutação e o crescimento salarial” – temas que, na campanha eleitoral, o candidato dizia que não eram atendidos na proposta inicial de reforma laboral.

O chefe de Estado assumiu, desde o início a aposta numa mudança de cultura política, mais virada para o diálogo do que para as ruturas (“não falo de apagar diferenças ideológicas, falo de maturidade democrática”, disse na tomada de posse), e é nesse patamar que está a investir, tentando não chocar de frente com o governo na reforma laboral.

Apesar de, em campanha, ter criticado a versão inicial da proposta do governo, admitindo que só tenderia a promulgar o diploma, se resultasse de negociação e de acordo na concertação social, agora tem vindo a pressionar os vários interlocutores a partirem pedra, até chegarem a um “chão comum”. Se não houver acordo, decidirá o que fazer depois de ver que diploma lhe chega às mãos. O foco da reforma laboral tem de estar, em sua opinião, no aumento da competitividade, na produtividade, na igualdade salarial entre homens e mulheres e na forma de empresas e trabalhadores lidarem com os desafios da tecnologia e IA.

Além das duas personalidades referidas, António José Seguro nomeou Luís Aguiar Conraria, professor universitário e colunista do Expresso para a equipa económica. Como assessor económico, que está um grau acima dos consultores, escolheu João Miguel Coelho, ex-vice-presidente da Anacom e antigo coordenador da Unidade Técnica de Apoio Orçamental do Parlamento UTAO, que acompanhou o Presidente em toda a semana da Presidência Aberta na Zona Centro e que ficou encarregado do relatório sobre o que correu mal e sobre o que falta fazer, nas tempestades deste inverno.

Na assessoria jurídica, o chefe de Estado nomeou já Gonçalo Carrilho, que foi técnico especialista do gabinete do primeiro-ministro António Costa, desde 2019, tendo sido consultor jurídico do Centro Jurídico da Presidência do Conselho de Ministros (CEJUR), de 2016 a 2018, e que, no último governo socialista exercia assessoria jurídica na JurisAPP, o Centro de Competências Jurídicas do Estado. Além destes nomes, o PR nomeou ainda o ex-jornalista Rui Gomes, que escreveu o livro biográfico de Seguro apresentado na pré-campanha eleitoral, como consultor político, que deverá estar na equipa que colabora na preparação de discursos e em temas especiais; Francisco José Viegas, editor e antigo secretário de Estado da Cultura, como consultor para a área da Cultura; e Luís de Sousa, como consultor para a transparência e combate à corrupção.

É de frisar que o PR não faz qualquer ultimato, como o governo está a fazer à UGT, nem aduz que a CGTP não tem assento nas reuniões por votar contra. A discussão faz-se com todos. Também não alinha na obtusa alegação de que os sindicatos não representam os trabalhadores.

Efetivamente, por causa do voto contra, tão legítimo como outras posições, ninguém expulsa da AR os partidos que que votam contra, nem os que se abstêm (não estamos do tempo do partido único); sobre o facto de os sindicatos terem cada vez menos filiados (por motivos vários, entre os quais, as quotas e o medo de retaliação da parte do patronato), é caso para dizer que ninguém sustenta que os partidos políticos, também com poucos militantes com as quotas em dia, não representam a sociedade. Mais: nem a AR deixa de representar o povo, pelo facto de abstenção eleitoral ser bastante expressiva, como o atual PR, o cidadão português mais votado de todos os tempos, não deixa de representar todos os cidadãos, apesar de muitos se terem abstido e de mais de 30% terem votado no seu adversário.

Enfim, algum discurso de cidadãos afetos ao governo ou a partidos seus aliados parecem estar a afastar-se do discurso e das atitudes democráticas.         

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Também na área da saúde, o PR escolheu Adalberto Campos Fernandes, médico e antigo ministro da Saúde, para coordenar a construção de um Pacto Estratégico para a Saúde, que propôs na campanha eleitoral para um setor que considera prioritário para o primeiro ano de mandato. No discurso da tomada de posse, António José Seguro anunciou que iria ouvir, “em breve”, todos os partidos políticos para dar início a esse pacto “interpartidário”.

O chefe de Estado afirma que “a capacidade e o percurso do professor Adalberto Campos Fernandes”, médico especialista em saúde pública, que foi ministro da Saúde entre 2015 e 2018, no primeiro governo de António Costa, “são garantia bastante de que estará à altura do desafio”.

Teve uma posição crítica da revisão da Lei de Bases da Saúde (LBS) da lavra da sua sucessora, Marta Temido, sobretudo, pelas limitações às parcerias público-privadas (PPP). O governo pretende rever essa lei, para fazer o que considera ser um necessário e melhor equilíbrio entre os setores público, privado e social. É um trabalho que já terá sido iniciado pela ministra Ana Paula Martins e que tem sido anunciado para a primavera.

“Como definido em campanha eleitoral, e tendo presente a magistratura de influência do Presidente da República e a sua capacidade de mobilização de atores políticos e sociais, a Saúde é uma área prioritária do atual mandato presidencial, uma vez que constitui fundamento estruturante do contrato social português, consagrado na Constituição da República Portuguesa como direito universal e tendencialmente gratuito”, lê-se, em nota da Presidência, que acrescenta: “O percurso do professor Adalberto Campos Fernandes combina, de forma consistente, atividade académica, produção científica, experiência governativa e gestão de organizações de saúde, com intervenção continuada nos domínios da governação, da organização e do desenvolvimento dos sistemas de saúde em contexto nacional e internacional.”

O PR enquadra o direito à proteção da saúde como “uma responsabilidade indeclinável do Estado”, que “não se limita à prestação de cuidados”, mas que “significa assegurar que nenhum cidadão é deixado para trás”, tal como defende que se vá além do recurso a “respostas avulsas ou de curto prazo”. Assim, impõe-se “uma abordagem assente na estabilidade, na previsibilidade e na continuidade das políticas públicas, que coloque as pessoas no centro das decisões, valorize os profissionais de saúde e reforce a proximidade dos cuidados, garantindo que o sistema responde de forma integrada, eficiente e justa às necessidades da população”.

Já no discurso da tomada de posse, dizia pretender “um compromisso que ultrapasse ciclos governativos, com o envolvimento de todos os atores da área da saúde”, e “com metas, políticas, medidas, orçamentos plurianuais e avaliação de resultados”, pelo que se torna “indispensável afirmar uma visão clara e de longo prazo, sustentada num compromisso coletivo que assegure não apenas a resposta aos desafios do presente, mas também a preparação do futuro, preservando a saúde como um dos pilares mais sólidos da democracia portuguesa e como expressão concreta da confiança entre o Estado e os cidadãos”.

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No último dia da Presidência Aberta, o chefe de Estado visitou casas modulares na freguesia de Pousos, Leiria, onde a câmara realojou, provisoriamente, pessoas que ficaram sem as suas casas na sequência da tempestade Kristin, e declarou-se “muito atento a essa situação, porque, de facto os salários não chegam para pagar as rendas exorbitantes que existem ou para comprar uma casa” e porque é preciso ter um salário justo, para que seja possível “ pagar uma renda, porque as rendas estão pela hora da morte”.

Depois, assentiu na necessidade de ser revista a “questão da habitação em Portugal”, lembrando que, na última intervenção que fez na AR, chamou “a atenção para essa situação”.

Segundo o chefe de Estado, “todos os meses surgem novos sinais de alerta sobre o acesso à habitação”, setor no qual se estão “a bater recordes históricos nos custos” e com taxas de esforço no arrendamento que “esmagam o orçamento familiar”. “O Estado despertou tarde e é lento nas respostas. Sejamos honestos, para termos crédito na esperança que devemos aos nossos jovens são urgentes respostas e resultados concretos”, vincou.

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Aguardamos o que fará em torno de uma reforma da Justiça e da Coesão Territorial. Para já, os augúrios são bons.

2026.03.24 – Louro de Carvalho

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