A
28 de abril, um ano após o apagão elétrico e passados três meses do início
do comboio de tempestades, o governo apresentou o “Portugal Transformação,
Recuperação e Resiliência” (PTRR), de apoio a populações e a empresas, no
contexto dos prejuízos que ascendem a 5,3 mil milhões de euros, contemplando 96
medidas, em que se destaca o fundo de catástrofes, com seguro obrigatório para
habitações.
Como
anunciou o primeiro-ministro (PM), na cerimónia pública de apresentação, no
Pavilhão de Portugal, em Lisboa, o PTRR, a executar até 2034,
mobiliza 22,6 mil milhões de euros, repartidos por financiamento
público (37%) e privado (34%), maioritariamente nacional, mas com parte de
fundos europeus (19%) – já não é totalmente português – e será gerido pelo
ministro da Economia e da Coesão Territorial, Castro Almeida, com
o auxílio de uma agência pública. Os fundos estão distribuídos
por três pilares, servindo o primeiro “Recuperar”, para obviar
aos prejuízos. O segundo pilar “Proteger” aloca cerca de 15 mil
milhões de euros a infraestruturas essenciais, nomeadamente, da energia e da
água, prevendo-se a construção de quatro barragens (Girabolhos,
Ocreza, Alportel e Foupana), entre outras, e 400 charcas e minialbufeiras,
sendo prioridade crucial o reforço das redes de distribuição de
eletricidade e de gás, que merece o investimento de quatro mil milhões de
euros. E o terceiro pilar “Responder”, com 2,3 mil milhões de euros, inclui uma
das principais medidas do PTRR, a criação do fundo de catástrofes naturais
e sísmicas com seguro obrigatório para habitações e instalações das empresas.
“Além
da resposta que estamos a dar, não podemos secundarizar nem amolecer a
exigência com o setor segurador para que este assuma a sua
responsabilidade. O Estado não se vai substituir aos seguros”, frisou o PM,
assegurando que o governo ajudará “os que têm maior dificuldade financeira”, com
o contributo do sistema social e das organizações privadas.
Está
prevista a entrega às juntas de freguesia de telefones satélite, de terminais
SIRESP e de ligações pelo sistema Starlink. São “meios de comunicação
robustos para funcionarem em quaisquer cenários de catástrofe”, o que
“contribuirá para a tranquilização dos cidadãos”, referiu o PM, advertindo que
não se pode transmitir à sociedade a capacidade de o Estado pagar tudo a todos,
pois não é sustentável e “comprime o nosso potencial de crescimento”.
O
governo, face às calamidades de janeiro e de fevereiro que induzem deterioração
do saldo orçamental em 2026 e em 2027, adianta que, dos danos causados, o
Estado assumirá 3162 milhões de euros. E antecipa uma redução da receita
fiscal e contributiva, “na ordem dos mil milhões de euros”, mercê do
abrandamento da atividade económica ditada pelo temporal.
Com
o horizonte temporal de nove anos, o PTRR implica o esforço de várias
legislaturas. Serão feitas reavaliações semestrais e há espaço
para alterações em função das exigências que surgirem. “Este não é um
programa fechado”, afirmou Luís Montenegro, insistindo em que, apesar de
concebido para responder a uma emergência, visa transformar o país, pois, não
bastando “voltar à normalidade depois das crises”, é preciso fazer melhor e “este
é um investimento na vida das pessoas, na continuidade das empresas e no
funcionamento do país”.
***
O
documento coloca sobre o setor privado boa parte do investimento necessário, mas
deixa para mais tarde a definição das fontes de financiamento de cada
projeto.
Dos
22,6 mil milhões de euros do PTRR, cerca de um terço (7,6 mil milhões) são
assumidos como investimento privado, em parcerias público-privadas (PPP) ou em concessões.
São investimentos previstos para esta legislatura ou para depois dela,
assumindo o governo o essencial da resposta às tempestades e às cheias do
início do ano. Os restantes dois terços (15 mil milhões) serão verbas
públicas: 8,4 mil milhões vêm das Administrações Públicas (AP), incluindo 6,2
mil milhões diretamente do Orçamento do Estado (OE) e cerca de 2,4 mil milhões
de empresas públicas como a Global Parques e o grupo Águas de Portugal, e 4,2
mil milhões são fundos europeus – Portugal 2030, Plano de Recuperação e
Resiliência (PRR), próximo quadro financeiro e outros instrumentos. Ou seja, o
plano é uma grelha de programação que junta várias fontes e prevê linhas de
crédito, garantias, instrumentos de capital e quase‑capital, um mecanismo
financeiro nacional multi‑instrumento e a emissão de obrigações de catástrofe
pelo IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública), para partilhar
com investidores o risco.
O
Estado assume a reconstrução e a proteção estrutural, desde estradas e
barragens até proteção civil, saúde, água, florestas, comunicações críticas e
rede elétrica, e conta com privados para investir em setores, como redes
comerciais de telecomunicações, energia, portos, zonas empresariais ou projetos
industriais, sob novos enquadramentos regulatórios e eventual partilha de
risco. O envelope que espera dos privados, das PPP e das concessões é
apresentado como bloco agregado, sem desagregação por projeto ou por
instrumento financeiro.
O
PTRR explicita que, durante o ano de 2026, cada medida deverá ter ficha
própria, com calendário, com fontes de financiamento e com métrica de execução,
isto é, o detalhe se o dinheiro vem como subvenção a fundo perdido, empréstimo
bonificado, garantia ou capital de risco fica remetido para fase posterior.
Assim, os investimentos previstos no PTRR são:
*
Medidas do Pilar A – Recuperar:
Recuperação,
a curto prazo, de infraestruturas e serviços públicos críticos, tais como estradas,
pontes, ferrovia, portos, transporte público, escolas, hospitais, justiça,
defesa, segurança interna, água, saneamento, resíduos e património cultural.
Recuperação,
a curto e médio prazo, da capacidade produtiva de empresas, com linhas de apoio
à reconstrução e à liquidez, pelo Banco Português de Fomento (BPF), com apoio à
reindustrialização, com medidas excecionais de energia, de moratórias de
crédito, de isenções de contribuições, de layoff simplificado e de incentivos
à manutenção do emprego.
Condições
de habitabilidade, com apoio, a curto prazo, à reconstrução de habitação
própria e permanente das famílias afetadas, cobrindo 100% da despesa elegível
após seguros, até 10 mil euros, por casa, incluindo despesas de realojamento
temporário.
Regeneração
ambiental e florestal pós-tempestades, com intervenção, a médio e longo prazo, em
dunas, arribas, rios, ribeiras, diques, linhas de água e áreas protegidas,
removendo entulhos, combatendo invasoras e reforçando a estabilidade ecológica.
*
Medidas do Pilar B – Proteger:
Regime‑quadro
integrado de gestão de calamidades (domínio pessoas): criação, a curto prazo,
de um regime jurídico único para prevenir, gerir e recuperar de catástrofes
naturais, falhas sistémicas e emergências sanitárias, incluindo estados de
prontidão, mecanismos de apoio a famílias e empresas e a Carta dos Direitos dos
Consumidores em Catástrofe.
Reforma
da emergência médica e das infraestruturas de saúde: recentrar, a curto prazo,
o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) na emergência, modernizar
comunicações e despacho; e, a longo prazo, criar salas de gestão integrada,
reforçar a frota de evacuação e autonomia energética de hospitais, com microdatacenters
e redundância de comunicações.
Capacitação
da Instituições Privadas de Solidariedade Social (IPSS) para funcionarem em emergência:
elaborar o programa de longo prazo para dotar IPSS e entidades sociais de
autonomia energética, de equipamentos críticos, de planos de contingência e
formação, garantindo continuidade de serviços a populações vulneráveis em
crise.
Reservas
estratégicas alimentares e rede de logística base, criando, a médio e longo
prazo, capacidade de armazenagem estratégica e apoiando a indústria de
alimentos conservados, o mercado abastecedor na Península de Setúbal e centros
de consolidação urbana.
Sistema
nacional de alojamento de emergência, pela criação, a médio prazo, da rede de
unidades de alojamento temporário para realojar rapidamente desalojados por
catástrofes.
Agenda
para territórios de baixa densidade, a médio prazo, com regime integrado de
discriminação positiva do investimento público e privado no interior, com
majorações em fundos, avisos dedicados e prioridade a projetos de emprego,
infraestrutura e serviços.
Mobilidade
habitacional para territórios de baixa densidade, a médio prazo, com incentivos
à fixação de população nesses territórios, em termos habitacionais e laborais.
Mitigação
do risco agrícola, a longo prazo, com grande pacote para agricultura de
precisão, gestão eficiente da água, reforço fitossanitário e sanidade animal,
vigilância de pragas e zoonoses, com instrumentos de proteção do rendimento e
da produção.
Defesa
costeira e radares de agitação marítima, a médio prazo, operacionalizando o Programa
de Ação para a Resiliência do Litoral.
Gestão
do risco habitacional e mapeamento de zonas perigosas, a médio prazo, através do
sistema nacional de identificação e de monitorização de habitações em risco.
Investigação,
inovação e ciência para a resiliência e adaptação climática, a longo prazo, com
contratos de missão, através da nova Agência AI2, de redes de monitorização
ambiental, ferramentas de IA, de reforço de observação da Terra e de modernização
da monitorização sismovulcânica, incluindo living labs de soluções de
resiliência.
Instituições
de ensino superior como âncoras territoriais, a médio prazo, pela criação da
Universidade de Leiria e do Oeste e da Universidade Técnica do Porto.
Desenvolvimento
de áreas empresariais e de parques tecnológicos, a médio e longo prazo, com a rede
nacional de zonas de acolhimento, com planeamento antecipado, licenciamento pré‑aprovado
e infraestruturas para atrair investimento produtivo no interior.
Energia:
redes, armazenamento e autoconsumo, a médio e longo prazo, com reforço e
modernização das redes elétricas e de gás (incluindo hidrogénio), com aceleração
do autoconsumo e comunidades de energia, com investimento em armazenamento
hídrico e eletroquímico e com desenvolvimento de domínios estratégicos para
autonomia energética.
Comunicações:
cibersegurança, redundância e rádio de emergência, a curto e médio prazo, com reforço
da cibersegurança do Estado, cloud soberana, centros de operações de
segurança, formação de pequenas e médias empresas (PME) e do setor social,
corredores de redundância geográfica de fibra/5G, garantia da cobertura de
rádio hertziana e criação de rede crítica de reserva de energia para
emergência.
Barragens,
regadio, rios, digitalização e infraestruturas, a longo prazo, pela construção
de novas barragens estruturantes, pela modernização de aproveitamentos
hidroagrícolas, pela gestão integrada de bacias hidrográficas, pela reabilitação
de rios e ribeiras, pela digitalização do ciclo da água e pelo reforço das
infraestruturas de abastecimento, saneamento e resíduos.
Florestas:
gestão ativa, agregação e vigilância, médio e longo prazo, com reforço do
Programa Floresta Ativa, instrumentos de gestão agrupada, parcerias de gestão
em escala de paisagem, redução da carga combustível, vigilância, biomassa e
monitorização digital.
Infraestruturas
críticas: transporte, soberania, justiça, faróis, etc., a médio prazo, pela Estratégia
Nacional para Infraestruturas Críticas, com apoios a projetos que reforcem a
resiliência física, energética e de comunicações de infraestruturas soberanas.
*
Medidas do Pilar C – Responder:
Segurança
de pessoas e infraestruturas (Proteção Civil e Forças Armadas), a curto e médio
prazo, pela reforma da Proteção Civil, pelo reforço da capacidade técnica e
operacional e pelo emprego das Forças Armadas em cenários de crise.
Conectividade
e mobilidade em crise, a médio prazo, com o reforço da mobilidade crítica
em cenários de catástrofe, assegurando continuidade de ligações rodoviárias,
ferroviárias e portuárias essenciais e redundância nas ligações estratégicas.
Sistema
de emergência e Proteção Civil (comando e coordenação), a médio prazo, com
fortalecimento do comando e controlo em crise (CORGOV), integração de sistemas
de alerta, melhoria da comunicação com a população, formação e exercícios
anuais de gestão de crises.
Fundo
de Emergência Municipal reforçado, a médio prazo, com alargamento e
reforço do Fundo de Emergência Municipal, para apoiar autarquias em resposta
rápida a danos locais, com novos critérios de elegibilidade e maior dotação.
Seguros
de catástrofe e Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas, a médio prazo,
com revisão do regime de seguros, criando o seguro obrigatório para habitação
(catástrofes naturais e sismos), o Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas e o
Sistema Integrado de Proteção contra Catástrofes, com mutualismo e
diferenciação positiva para mais vulneráveis.
Capacitação
em literacia do risco e preparação comunitária, a médio prazo, com agenda
nacional de capacitação em situações de catástrofe, com campanhas públicas,
conteúdos escolares, formação de autarcas, técnicos e estruturas locais.
***
A
oposição não crê na capacidade de o governo executar o PTRR e denuncia
problemas com o lay off a 100%, moratórias no crédito, a burocracia e os
prémios dos seguros a aumentar. Enfim, trata-se de “propaganda” ou de “marketing”.
Para
Eurico Brilhante Dias, do Partido Socialista (PS), o PTRR “empacotou de forma
diferente muitas coisas já conhecidas” e o problema central deste governo é
executar.
Mariana
Leitão, líder da Iniciativa Liberal (IL), falou de “evento cheio de pompa e
circunstância, com todos os governantes e secretários de Estado, em Lisboa”.
Para
André Ventura, líder do Chega, a apresentação do plano resumiu-se à
apresentação de “PowerPoint”, valendo, no final, “pouco mais do que uma folha
de papel que não traz nenhuma prioridade estratégica, que era o que o país
precisava agora”.
Patrícia
Gonçalves, do Livre, apreciando o facto de o governo criar uma agência e de não
apenas estar só a confiar numa unidade de missão para gerir 22,6 mil milhões de
euros, durante oito anos, congratulou-se pelo facto de o pacote incluir
propostas do Livre, como a valorização da rádio “para avisar a população em
caso de eventos extremos”. Porém, sustenta que as medidas sobre os seguros podem
sobrecarregar as pessoas sem disponibilidade financeira.
Pelo
Partido Comunista Português (PCP), Alfredo Maia disse que o seu partido
“exigirá o cumprimento das promessas feitas pelo governo de responder, de
imediato, às pessoas, [às] empresas e [às] autarquias”.
Fabian
Figueiredo, do Bloco de Esquerda (BE), disse que a verba global é só “mais
um número de propaganda”, frisou a urgência entrar em vigor a medida
aprovada no Parlamento, a do lay off a 100%, e criticou o governo por se
dedicar à “propaganda, em vez da boa política”, pelo que se lhe exige que faculte
ao Parlamento todos os elementos necessários, para se perceber se a agência
de coordenação do PTRR não será uma “mega-agência de comunicação”, quando nós
precisamos de “uma mega-agência para a reconstrução do país”.
***
Para
mim, o PTRR, com perto de 100 medidas, lembra-me o adágio “muita parra, pouca
uva”.
2026.04.29
– Louro de Carvalho
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