Com
a Ucrânia a assinalar o 40.º aniversário da catástrofe da central nuclear de
Chernobyl, o presidente Volodmyr Zelenskyy acusou a Rússia de, sobrevoando o
local com drones de ataque, cometer “terrorismo nuclear”. Zelenskyy, que
utilizou as redes sociais para assinalar a data, afirmou que, com a invasão da
Ucrânia, a Rússia coloca, novamente, “o Mundo à beira de uma catástrofe
provocada pelo homem”. De facto, os drones sobrevoam, regularmente, aquela
central nuclear, tendo um deles atingido, em 2025, a sua estrutura protetora. “O
Mundo não pode permitir que este terrorismo nuclear continue, e a melhor forma
de o fazer é forçar a Rússia a parar os seus ataques imprudentes”, vincou o
líder ucraniano.
Entretanto,
os Ucranianos reuniram-se em homenagem aos mortos do acidente e às centenas de
milhares de pessoas que limparam o local, após o desastre, expondo-se a
elevados níveis de radiação. Assim, na cidade de Slavutych, no Norte da
Ucrânia, muitas pessoas reuniram-se para assinalar a data, na meia-noite de 25
de abril, e para homenagear aqueles cuja missão era limpar o local, após o
desastre, bem como para recordar os mortos no acidente. E colocaram velas sobre
um grande símbolo de radiação, para assinalar este 40.º aniversário.
Na
sequência do desastre de 1986, foram convocados soldados, bombeiros, mineiros,
médicos e engenheiros de toda a União Soviética. Ao longo de quatro anos, 600
mil pessoas juntaram-se aos trabalhos de limpeza, expondo-se a elevados níveis
de radiação.
A
explosão na central nuclear de Chernobyl, à 01h23 de 26 de abril de 1986, que provocou
o pior desastre nuclear civil da História, ocorreu por erro humano durante um
teste de segurança, que levou à explosão do reator número quatro da central
nuclear no norte da Ucrânia, então parte da União Soviética, lançando fumo
radioativo para a atmosfera, e o combustível nuclear ardeu durante mais de 10
dias. A Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA) determinou que a
principal causa da catástrofe foram “graves deficiências na conceção do reator
e do sistema de encerramento”, combinadas com a violação dos procedimentos
operacionais. Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), de 2005,
estimava em quatro mil o número de mortos, por exposição à radiação, nos três
países mais afetados. Um relatório, de 2006, da Greenpeace apontava para cerca
de 100 mil mortes. Em consequência, a Ucrânia, a Bielorrússia e a Rússia foram,
logo, contaminadas, antes de a pluma radioativa se espalhar pela Europa. A
Suécia detetou um pico de radiação, dois dias após o acidente. Porém, o então
líder soviético Mikhail Gorbachev só reconheceu, publicamente, o acidente, a 14
de maio.
No
entanto, os ataques russos contra a Ucrânia continuaram durante o aniversário
de Chernobyl. Pelo menos, três pessoas foram mortas e quatro ficaram feridas em
ataques noturnos, quando Moscovo lançou uma barragem de 144 drones. De acordo
com as autoridades ucranianas, 124 deles foram abatidos. Duas daquelas vítimas
mortais foram mortas na região Nordeste de Sumy, na linha da frente, de acordo
com informação da administração militar da região. Em Dnipro, um dia depois de
um ataque aéreo ter provocado a morte de, pelo menos, oito pessoas, mais uma
pessoa foi morta e quatro ficaram feridas em ataques com drones e com artilharia.
***
O
maior desastre nuclear civil da História aconteceu, há 40 anos, em Chernobyl, e
causou medo e horror em toda a Europa. Porém, só a geração mais velha se lembra
dessa catástrofe, o pior cenário possível numa das maiores centrais nucleares
do Mundo. A central chama-se Chornobyl em Ucraniano, mas o nome russo Chernobyl
prevalece e, embora seja esse o nome por que é conhecida, a cidade mais próxima
da central, hoje completamente deserta, é Pripyat. Foi uma espécie de “11 de
setembro” na Europa, mas, ao invés do ataque terrorista em Nova Iorque, em
2001, as pessoas não assistiram ao desastre, em direto, nos ecrãs de televisão.
As autoridades soviéticas – incluindo os serviços secretos KGB – mantiveram o
máximo segredo sobre o sucedido. Nem os empregados no local foram informados dos
incidentes ocorridos, antes de 1986, com os reatores RBMK, na Rússia. E o
número de vítimas mortais ainda hoje é contestado. Segundo os dados oficiais,
morreram 31 trabalhadores e bombeiros da central nuclear. A AIEA calcula que
tenham morrido quatro mil pessoas. Não se sabe, ao certo, quantos casos de
cancro e de outras doenças podem ser atribuídos à exposição à radiação.
As
reações dos governos, nas semanas e nos meses subsequentes ao desastre, foram
muito diferentes. A incerteza era enorme na Europa. Na França, dizia-se que as
nuvens radioativas não tinham atravessado a fronteira. O cientista político
Alfred Grosser (1925-2024) explicou o pânico na Alemanha, onde foi substituída a
areia dos parques infantis, graças à relação especial dos alemães com a
floresta. E Kathrin Angerer, do Ministério Federal da Agricultura, Florestas,
Clima e Proteção do Ambiente, Regiões e Gestão da Água, em Viena, considerou
que a contaminação após o acidente do reator de Chernobyl variou muito de
região para região, na Europa, e dependeu, em parte, da precipitação durante a
passagem das massas de ar radioativas. Enquanto a Áustria e o Sul da Alemanha eram
das regiões mais contaminadas da Europa Ocidental, a deposição média, na França,
permaneceu mais baixa, embora espacialmente desigual.
Após
o acidente, os legumes de folha, como a alface e os espinafres, estavam muito
contaminados com radioatividade, devido à deposição direta de substâncias radioativas,
sobretudo, pela chuva dos primeiros dias. A Áustria, a 6 de maio, proibiu a
venda de produtos hortícolas de exterior produzidos no país. A Alemanha alertou
contra o consumo de alface e de legumes de folha. O leite estaria contaminado,
se as vacas tivessem comido erva contaminada. No tempo da Guerra Fria, a República
Democrática Alemã (RDA), de Erich Honecker, reagiu de forma diferente da República
Federal Alemã (RFA), do chanceler Helmut Kohl. A alface, que se destinava à
exportação para o Ocidente, foi oferecida aos habitantes do Leste. Porém, os
habitantes da RDA que viam canais de televisão do Ocidente não a compravam.
Fabian
Holzheid, diretor político do Instituto do Ambiente de Munique, considera
desastrosa a política de informação das autoridades da RFA: no início, diziam
não haver perigo agudo, mas, pouco depois, publicaram avisos sobre cogumelos, sobre
carne de caça ou sobre espinafres. A comunicação dos estados federados também
não foi igual: enquanto uns desaconselhavam o consumo de leite ou de legumes de
folha, outros davam luz verde. O Serviço Federal de Proteção contra as
Radiações sustenta que a RDA considerava os relatórios ocidentais exagerados e,
mesmo, alarmistas. E os jornalistas ocidentais deixaram os canapés, numa
receção, porque tudo, no Leste, supostamente, estava contaminado.
Devido
à sua longa meia-vida de cerca de 30 anos, o césio-137 derramado durante a
catástrofe de Chernobyl pode, ainda hoje, ser detetado no solo e nas cadeias
alimentares. E Holzheid observa que, “embora o césio-137 tenha sido lavado dos
prados e dos terrenos agrícolas, ao longo dos anos, ou deslocado para camadas
mais profundas do solo, acumula-se na camada superior de húmus das florestas,
durante mais tempo, onde a substância radioativa é absorvida, de forma
particularmente eficaz, pelo micélio amplamente ramificado de alguns tipos de
fungos”. Como os javalis comem estes cogumelos e vários tipos de trufas do chão
da floresta, a radioatividade pode concentrar-se neles. Na Saxónia, em 2025,
foram registados 109 javalis com contaminação radioativa superior ao
valor-limite. E provinha da Baviera quase 80% dos animais contaminados, para os
quais o Serviço Federal de Administração pagou um reembolso aos caçadores,
porque a caça não podia ser vendida, devido aos níveis de radiação. Em 2025, na
Alemanha, foram abatidos 2927 javalis contaminados, 2308 dos quais na Baviera.
No
atinente aos cogumelos, Holzheid afirma que alguns, como as boletes de castanha
ou os cogumelos-pão, estão particularmente contaminados, enquanto os cogumelos
porcini e os cantarelos apresentam níveis baixos. Uma pessoa que, ocasionalmente,
coma cogumelos silvestres está dentro do intervalo de flutuação da exposição
natural à radiação. Porém, como não há valor limite abaixo do qual a
radioatividade é completamente inofensiva, recomenda-se que se evite exposição
adicional, sobretudo para grávidas e para mães a amamentar.
De
acordo com sondagens recentes, a maioria dos alemães é a favor da energia
nuclear. Numa sondagem dos institutos de pesquisa de opinião YouGov e Sinus, a
pedido da Agência Alemã de Imprensa, 53% é contra o encerramento das últimas
centrais nucleares, enquanto 40% é a favor. Cerca de um terço (32%) considera
que o encerramento gradual é errado.
A
AfD (Alternativa para a Alemanha) não partilha as preocupações sobre os perigos
da energia nuclear. Rainer Kraft, do grupo parlamentar da AfD no Bundestag, não
vê problemas, na Alemanha, após o acidente. As centrais nucleares podem ser
classificadas como a fonte de energia mais sustentável, pois nenhuma outra
cumpre o sétimo objetivo de sustentabilidade da ONU – energia limpa e acessível
–, de forma tão abrangente como a energia nuclear. E os políticos da CDU (União
Democrata-Cristã) e da CSU (União Social-Cristã na Baviera) apelam ao regresso
à energia nuclear e à reativação dos reatores encerrados.
Segundo
o jornal Rheinische Post, o chefe do grupo parlamentar da CDU, Jens
Spahn, disse, num congresso de inovação, organizado pelo seu grupo parlamentar:
“Há estudos que dizem que os reatores desativados, nos últimos anos, poderiam
ser reativados com um custo de cerca de nove ou dez mil milhões de euros”. Em
março, o dirigente da CSU e ministro-presidente da Baviera, Markus Söder – que
não quer instalações de armazenamento final na Baviera –, proferiu, no Bild am
Sonntag: “É tempo de nova era da energia nuclear. A energia nuclear 2.0 não
significa um regresso à velha tecnologia, mas um novo capítulo, sem os perigos
anteriores. Isto inclui novos pequenos reatores modulares e a fusão nuclear.”
O
ministro alemão do Ambiente, Carsten Schneider, do SPD (Partido
Social-Democrata), com opinião diferente, defende o abandono progressivo da
energia nuclear, por ser extremamente dispendiosa, por as novas centrais
nucleares demorarem décadas a ser concluídas e por não ajudarem “a resolver os atuais
problemas energéticos”.
Para
Harald Ebner, relator para a política nuclear e presidente da Comissão do
Ambiente do Grupo dos Verdes no Parlamento Europeu (PE), o 40.º aniversário da
catástrofe de Chernobyl recorda-nos “o perigo que esta tecnologia de alto risco
e os seus resíduos eternos representam para as pessoas e para a Natureza”; a
energia nuclear não contribui para a proteção do clima e, porque “imobiliza
fundos de investimento de que necessitamos, urgentemente, para a expansão das
redes e das instalações de armazenamento, está dependente de subsídios estatais;
“Chernobyl ensinou-nos, enfaticamente, que a radiação não para nas fronteiras”;
e “a atual situação de guerra na Ucrânia é também um risco nuclear permanente
para a Europa”.
Também
a Áustria se opõe à classificação da energia nuclear como amiga do ambiente,
verde ou sustentável, como explica o Ministério do Ambiente de Viena. E o facto
de a União Europeia (UE) estar em reviravolta, quanto à energia nuclear, não é
criticado apenas pelo governo austríaco. Holzheid, do Instituto do Ambiente de
Munique, já citado, afirma: “Descrevemos a categorização na taxonomia da UE
como greenwashing. A energia nuclear não é sustentável: produz
resíduos altamente radioativos, para os quais ainda não existe uma solução
segura de armazenamento final, a nível mundial, e continua, fundamentalmente,
associada ao risco de acidentes graves. Chernobyl e Fukushima [desastres civis]
demonstraram-no claramente.”
***
O
físico nuclear Bernard Laponche, um dos mais ativos opositores do átomo
pacífico (produzido para fins pacíficos, como energia e medicina, em vez de
armamentos), em França, disse que os Russos, apesar de Chernobyl não ser crucial,
a tomaram, por o risco ter aumentado quando um drone russo penetrou na
contenção e libertou uma pequena quantidade de radioatividade, mas nada comparável
ao sucedido em 1986.
Segundo
o físico nuclear, não houve uma grande guerra num país que produz energia através
de centrais nucleares. Porém, visto que os drones são utilizados em guerras, as
instalações nucleares, como as centrais elétricas, as fábricas de combustível
ou as instalações de reprocessamento como a central de Haia, tornam-se
potenciais alvos. Por isso, defende o abandono da energia nuclear, pois todas
estas instalações são perigosas, por si próprias, já que os acidentes nucleares
podem ocorrer independentemente da intervenção militar. Com efeito, todas as
instalações referidas são inerentemente perigosas. Por conseguinte, por razões
de segurança e de risco nuclear, a utilização da energia nuclear deve ser
suspensa, em caso de conflito.
Não
concorda com a produção de energia, utilizando o “átomo pacífico”. Com efeito,
a produção de eletricidade mundial produzida a partir da energia nuclear era de
18%, em 1986, e está, hoje, em 8%. Portanto, encerrando todas as centrais
nucleares do Mundo, “reduziríamos a produção de eletricidade em 8%, mas
eliminaríamos um risco significativo”, sustenta.
Por
outro lado, lembra que os resíduos nucleares – armazenados em piscinas ou em
tanques, localizados perto dos reatores – são o combustível usado pelos
reatores.
Refere
que o Cazaquistão é o maior produtor de urânio natural do Mundo. Parte do
urânio enriquecido é produzido pela Rússia. Assim, a França utiliza combustível
para o qual o urânio natural vem do Cazaquistão, mas parte do enriquecimento é
feito na Rússia. Portanto, no domínio nuclear, ainda hoje há laços
internacionais com a Rússia, apesar da guerra. Rejeita-se o petróleo e o gás da
Rússia, mas compra-se-lhe o urânio enriquecido
O
físico nuclear não aceita que a guerra no Médio Oriente e o bloqueio do
Estreito de Ormuz deem novos argumentos aos defensores da energia nuclear,
porque, a nível mundial, as energias renováveis estão a desenvolver-se no
domínio da produção de eletricidade, especialmente, na China; a quota-parte da
energia solar e eólica aumentou significativamente; e este tipo de energia está
a ser muito mais utilizado do que a energia nuclear, e começa a ultrapassar a
produção de energia a partir de combustíveis fósseis. Por isso, a Humanidade terá
de abandonar a energia nuclear, não só pela questão dos riscos, mas por ser
cada vez mais cara. É possível, no dizer de Bernard Laponche, que, em 2050, já
não haja praticamente energia nuclear.
***
Todas
as centrais – centrais elétricas, centrais de produção de processamentos ou de armazenamento
de combustíveis, centrais nucleares, barragens, pontes – estão expostas a
desastres de natureza civil ou de natureza militar e podem ser utilizadas como instrumentos
de destruição e de morte. Quem não se lembra da morte em cadeira elétrica, por
afogamento, por queda de pontes, por dinamitação de prédios ou de outras
estruturas (Ora, Alfred Nobel não imaginou que o seu invento poderia destruir e
matar)? Todavia, os riscos da expansão descontrolada do nuclear são muito mais
silenciosos e muito mais perigosos. Se não se deve brincar com o fogo, muito
menos de deve brincar às armas atómicas e aos perigos do nuclear. Devemos
aprender alguma coisa com a História!
2026.04.26
– Louro de Carvalho
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