A liturgia da “Missa
do Dia”, a missa principal da Solenidade do Natal do Senhor (há mais três missas:
a vespertina, a da meia-noite e a da aurora) constitui, toda ela, um poderoso
hino ao amor de Deus, um cantar à iniciativa de Deus que, por amor, se revestiu
da nossa condição humana e “estabeleceu a sua tenda entre nós”. De facto, na
pessoa de Jesus, o menino nascido em Belém, veio ter connosco e falou-nos, com
palavras e gestos humanos, para nos oferecer a Vida e para nos elevar à
dignidade de “filhos de Deus”. E é o Emanuel, o “Deus-connosco”.
***
Na primeira
leitura (Is 52,7-10), Isaías
proclama a chegada do Deus libertador, o rei que traz a paz e a salvação, oferecendo
ao Povo a era de felicidade infinda, pelo que se impõe a substituição da
tristeza pela alegria, do desalento pela esperança.
Para restaurar e revitalizar a esperança dos Judeus exilados,
o profeta coloca-nos perante um quadro sugestivo em termos do significado: a
Jerusalém, desolada e em ruínas, chega um mensageiro com a boa notícia da paz
(“shalom”: bem-estar, harmonia, paz, felicidade), proclama a salvação e promete
o reinado de Deus. Deus assume-Se, pois, como rei de Judá, mas não reinará como
os reis que guiaram o Povo por vias de egoísmo e de morte, de desgraça em
desgraça, até à catástrofe do Exílio. Javé exercerá a realeza de modo a proporcionar
a salvação ao Povo, inaugurando, assim, uma era de paz e de felicidade.
O profeta/poeta põe as sentinelas da cidade, alertadas
pelo anúncio do mensageiro, a olhar na direção em que chegará o Senhor. De
repente, soa o brado das sentinelas, não é brado de alarme, mas grito de
alegria contagiante. As sentinelas veem Javé chegar e apresentar-se às portas
da cidade, prestes a entrar. Com Ele, Jerusalém voltará a ser a cidade bela e
harmoniosa, cheia de alegria e de festa. Depois, profeta/poeta convida as pedras
da cidade em ruínas a cantar em coro, porque a libertação chegou. E a salvação
que Deus oferece à cidade e ao Povo será testemunhada Urbi et Orbi, com o Mundo de olhos postos na ação de Deus em favor
de Judá. Por tudo isto, são proclamados formosos os pés do mensageiro que passa
pelas montanhas a apregoar a paz.
Entre 586 e 539 a.C., o Povo experimentou a dureza do
Exílio na Babilónia. À frustração pela humilhação nacional juntavam-se as
saudades de Jerusalém e o desespero por a cidade de Deus – orgulho dos Israelitas
– estar reduzida a cinzas. Parecia que Deus abandonara o Povo para sempre.
Alguns duvidavam de que Javé fosse o Deus libertador, como asseguravam os teólogos
de Israel, sendo, antes, incapaz de proteger o Povo e de salvar Judá. Rodeado
de inimigos e com a sua identidade e fé em risco, Judá não via saída para a sua
triste situação.
Quando, na fase final do Exílio, as vitórias de Ciro,
rei dos Persas, anunciam o fim do cativeiro na Babilónia, os exilados divisam
uma pequena luz ao fundo do túnel, mas a libertação aparece-lhes como resultado
da ação de rei estrangeiro e não da intervenção libertadora de Deu, o que agrava
a crise de confiança em Javé por parte dos exilados. Neste contexto, surge a
profecia do Deuteroisaías, que nunca abandona o tom da consolação e da
esperança (os capítulos desta onda profética – Is 40-55 – formam o “Livro da Consolação”) garantindo aos exilados
que a libertação está próxima e é obra de Javé.
O trecho em apreço integra a segunda parte do “Livro
da Consolação” (Is 49-55), com o
profeta a porfiar que Deus não esqueceu a sua cidade em ruínas e voltará a
fazer dela a cidade bela e cheia de vida, como noiva em dia de casamento. Com
efeito, a libertação do cativeiro origina o novo êxodo do Povo para Terra
Prometida, com vista à reconstrução e à restauração de Jerusalém.
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A segunda
leitura (Heb 1,1-6) sintetiza o
plano salvador de Deus, culminando no envio de Jesus, a Palavra de Deus que os
homens devem escutar e acolher. Estão aqui as coordenadas fundamentais da
História da salvação, cujo protagonista é Deus.
O desígnio salvador de Deus manifestou-se, numa
primeira etapa, através dos porta-vozes de Deus, os patriarcas e os profetas,
que transmitiram aos homens a proposta libertadora de Deus.
Numa segunda e última etapa da História da salvação – “nestes
dias que são os últimos” –, Deus manifestou-Se através do próprio Filho, Jesus
Cristo, o menino de Belém, a Palavra plena, definitiva, perfeita, através da
qual Deus vem ao nosso encontro para nos ensinar o caminho da salvação e da
vida nova. O trecho em causa reflete sobre a relação de Jesus com o Pai, com os
homens e com os anjos (dá a entender que a comunidade dava significativa importância
ao culto dos anjos e que lhes concedia preponderante papel na salvação do
homem).
Para o autor da Carta aos Hebreus, o Filho, identifica-Se
plenamente com o Pai. É o esplendor da glória do Pai, a imagem exata e perfeita
do ser do Pai. Assim, para o autor da carta, Jesus procede do Pai e é igual ao
Pai. N’Ele manifesta-Se o Pai; quem olha para Ele, encontra o Pai.
A seguir, vem um apontamento sobre a relação de Jesus
com o Mundo. O Filho está na origem do universo e, portanto, homem. Por isso, tem
pleno senhorio sobre toda a criação. Esse senhorio (ou soberania) exprime-se,
inclusive, na incarnação e na redenção: o Filho de Deus veio ao encontro do
homem e purificou-o do pecado, completando e recriando a obra iniciada pela
Palavra criadora de Deus, no princípio. É como o Senhor (ou seja, Aquele que
possui a soberania sobre os homens e sobre o Mundo) que os homens devem ver e
acolher Jesus. A igualdade fundamental do Filho com o Pai fá-lo superior aos
anjos: os anjos não são filhos, mas Jesus é o Filho e o próprio Deus proclamou
esta relação de filiação plena. Não são os anjos que salvam, mas o Filho.
Sendo a Palavra última e definitiva de Deus, o Filho
deve ser escutado pelos homens como o caminho mais seguro para chegar à Vida
nova que o Pai nos propõe com amor. É na consciência deste facto que devemos
acolher o menino de Belém, Jesus.
A Carta aos Hebreus é um escrito de autor anónimo e
cujo destinatário concreto se desconhece. A referência “aos hebreus” no título provém
das suas múltiplas referências ao Antigo Testamento (AT) e ao ritual dos sacrifícios.
Ter-se-á dirigido a uma comunidade, maioritariamente de cristãos vindos do
judaísmo, mas isso é seguro, pois o AT era um património comum, assumido por
todos os cristãos, os vindos do judaísmo e os vindos do paganismo. São, em todo
o caso, cristãos em situação difícil, expostos a perseguições, vivendo em
ambiente hostil à fé, pelo que, desalentados, perderam o fervor inicial e cedem
às seduções de doutrinas não muito coerentes com a doutrina dos apóstolos. Por
isso, o autor quer estimular a vivência do compromisso cristão e levar os crentes
a crescer na fé. Para tanto, expõe o mistério de Cristo, sobretudo, do ângulo
do sacerdote da Nova Aliança, e recorda a fé da Igreja.
O trecho em referência pertence ao prólogo do sermão,
em que o pregador apresenta a visão global e as coordenadas fundamentais que vai
desenvolver ao longo da obra.
***
O Evangelho
(Jo 1,1-18), aprofundando o tema glosado
no prólogo da Carta aos Hebreus, com recurso a um primitivo hino litúrgico, apresenta
a Palavra viva de Deus, tornada pessoa em Jesus, sugerindo que a missão do
Filho, Palavra viva de Deus, é completar a criação primeira, eliminando tudo o
que se opõe à vida e criando condições para que nasça o Homem Novo, o homem da
vida em plenitude, o homem que vive a relação filial com Deus.
O prólogo do 4.º Evangelho inicia-se com a expressão
“no princípio”. Assim, João enlaça o Evangelho com o relato da criação (cf Gn 1,1), oferecendo, desde logo, a chave
de interpretação para o seu escrito. O que vai narrar sobre Jesus relaciona-se
com a obra criadora de Deus: em Jesus acontece a definitiva intervenção
criadora de Deus para dar a vida ao homem e ao Mundo. A atividade de Jesus,
enviado do Pai, é fazer nascer um homem novo, coroando, com a sua ação, a obra
criadora iniciada por Deus “no princípio”.
A seguir, vem a Palavra (“Lógos”), uma realidade
anterior ao céu e à terra, implicada na primeira criação. Esta Palavra tem as
caraterísticas que o Livro dos Provérbios
atribui à sabedoria: pré-existência e colaboração com Deus na obra da criação.
Todavia, a Palavra não só estava junto de Deus e colaborava com Deus, mas “era
Deus”. Identifica-se, pois, totalmente com Deus, com o ser de Deus e com a sua
obra criadora. O projeto íntimo de Deus (o seu desígnio) expressa-se e comunica-se
como Palavra, através da qual Deus Se faz inteligível. Esta Palavra é geradora
de vida para o homem e para o Mundo, concretizando o projeto de Deus.
Esta Palavra veio ao encontro dos homens e fez-se carne
(pessoa). João identifica a Palavra com Jesus, o “Filho único cheio de amor e
de verdade”, que veio ao encontro do homem. Nesta pessoa (Jesus), podemos
contemplar o projeto ideal de homem, o homem que nos é proposto como modelo, a
meta final da criação de Deus.
Esta Palavra “estabeleceu a sua tenda entre nós”. O
verbo “skênéô” (“montar a tenda”) aqui alude à “tenda do encontro” que, na
caminhada pelo deserto, os Israelitas montavam no meio ou ao lado do
acampamento, o local onde Deus residia no meio do seu Povo. Agora, a “tenda de
Deus”, o local onde Ele habita no meio dos homens é o Homem/Jesus. Quem quiser
encontrar Deus e receber d’Ele vida em plenitude (a salvação) é para Jesus que
se tem de voltar. A função desta Palavra está ligada ao binómio vida/luz:
comunicar ao homem a vida ou acender a luz que ilumina o caminho do homem, possibilitando-lhe
encontrar a vida verdadeira.
Jesus Cristo vai, no entanto, deparar-Se com a
oposição à vida/luz que Ele traz. Ao longo do Evangelho, João irá contando a
história do confronto da “vida/luz” com o sistema injusto e opressor que
insiste em manter os homens cativos do egoísmo e do pecado e que João
identifica com a Lei; os dirigentes judeus que enfrentam Jesus e O condenam à
morte são o rosto dessa Lei. Recusar a “vida/luz” significa preferir caminhar
nas trevas, que se identificam com a mentira e com a opressão, à margem de
Deus; significa recusar chegar a ser homem pleno, livre, criação acabada e
elevada à sua máxima potencialidade.
Ao invés, acolher a Palavra implica participar na vida
de Deus. Acolher a Palavra significa tornar-se filho de Deus. Começa, para quem
acolhe a Palavra/Jesus, uma nova relação entre o homem e Deus, aqui expressa em
termos de filiação: Deus dá vida ao homem, dando-lhe a qualidade de vida que lhe
potencia o ser e o crescer até à dimensão do homem novo, acabado e perfeito. É
a nova criação, o novo nascimento, que não provém da carne e do sangue, mas de
Deus.
Portanto, a encarnação é Deus a oferecer à Humanidade
a possibilidade de se realizar plenamente, de chegar à vida plena. Sempre o
homem teve o anseio da vida plena, conforme o projeto original de Deus, mas tal
anseio fica, muitas vezes, frustrado pelo domínio que o egoísmo, a injustiça, a
mentira – enfim, o pecado – exercem sobre o homem. E a obra de Jesus consiste
em capacitar o homem para a Vida, a fim de que realize em si o projeto de Deus:
a semelhança com o Pai.
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Graças à encarnação da Palavra, com vista à redenção,
que manifesta o imenso e indizível amor de Deus, os crentes, em Igreja, cantam
com o salmista
“Cantai ao
Senhor um cântico novo pelas maravilhas que Ele operou.
A sua mão e o seu santo braço Lhe deram a vitória.
O Senhor deu a conhecer a salvação, revelou aos olhos
das nações a sua justiça. Recordou-Se da sua bondade e fidelidade em favor da
casa de Israel.
Os confins da terra puderam ver a salvação do nosso
Deus. Aclamai o Senhor, terra inteira, exultai de alegria e cantai.
Cantai ao Senhor ao som da cítara, ao som da cítara e
da lira; ao som da tuba e da trombeta, aclamai o Senhor, nosso Rei.”
E, na plenitude do Natal, irrompe em júbilo: “Aleluia,
aleluia. Santo é o dia que nos trouxe a luz.
Vinde adorar o Senhor. Hoje, uma grande luz desceu sobre a terra.”
Na verdade, somos filhos de Deus, por Jesus, e irmãos.
2023.12.25 – Louro de Carvalho
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