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quinta-feira, 25 de julho de 2019

Foi preciso o épico entrar na prova para reconhecerem que ela é difícil


Alunos que se submeteram a exame na 2.ª fase confessaram-se surpreendidos por estâncias do poema épico de Camões que nunca viram e questão de Matemática “sem resposta”.
Trata-se, num caso, da prova de exame de Português do 12.º ano, código 639, na 2.ª fase em que foram surpreendidos por um excerto de canto dos Lusíadas que não tinha sido lecionado e, no outro caso, da prova de MACS (Matemática Aplicada às Ciências Sociais), código 835, que tinha uma questão que supostamente não tinha resposta.
Foi alegadamente, pela primeira vez, pedido aos alunos, num exame nacional de Português do 12.º ano, que interpretassem um excerto da obra Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, que não tinha sido lecionado durante as aulas. O Público noticiou que foi uma professora que alertou o IAVE, IP (Instituto de Avaliação Educativa, Instituto Público), que justificou essa decisão com a necessidade de avaliar a capacidade dos alunos de demonstração de capacidades de interpretação em vez da mera reprodução de conhecimentos. O que não fica explicado é o facto de só neste exame, de 2.ª fase, é que se tomou essa decisão, já que nos anos anteriores e, também, no exame da 1.ª fase os alunos foram desafiados com a análise de estâncias d’Os Lusíadas que tinham sido analisadas em aula. Ora, esta última parte da informação não está correta, pois na 1.ª fase, em 2019, o enunciado não contém nem manda fazer qualquer abordagem a esta epopeia.
Além do caso de Português, o Público acrescenta que há, também, um problema com o exame MACS, disciplina curricular de alunos de Línguas e Humanidades. Com efeito, uma das questões continha um “erro grave”, segundo um professor que detetou o caso e garante que a questão, na forma como foi formulada, “não tem resposta”.
Na verdade, o presidente da SPM (Sociedade Portuguesa de Matemática), Filipe Oliveira, alertou o IAVE para um “problema” nesta pergunta. E a dirigente da APM (Associação de Professores de Matemática), Teresa Moreira, considera que “existe uma imprecisão na formulação da questão referida, que pode gerar respostas diferentes e que devem ser consideradas corretas”.
No caso de MACS, o IAVE, depois de garantir ao professor que a tal pergunta tinha sido “caucionada por peritos”, respondeu ao Público que existe uma “fragilidade” na formulação da pergunta, mas garantiu que esta não terá, “previsivelmente, qualquer impacto na resolução nem terá na sua classificação”.
No caso do exame do Português, em que os alunos ficaram surpreendidos com as estâncias 26 a 29 do Canto VI d’Os Lusíadas, a professora que detetou a situação, também é classificadora de exames, manifestou “perplexidade e indignação” por, em sua opinião, ser “absolutamente inacreditável que os alunos tenham de ler e compreender quatro estâncias de Os Lusíadas que não correspondem a nenhuma das indicadas nos programas de Português”, mesmo tendo sido sempre dito que as provas podem “incluir suportes textuais diferentes dos indicados”.
A professora defende que “as estâncias analisadas em aula já são suficientemente difíceis” e considera que “não era preciso aumentar o grau de dificuldade”, sobretudo tendo em conta que “esta obra é particularmente complexa e que os alunos têm grande dificuldade” no seu estudo.
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Não me pronuncio sobre o caso de MACS, a não ser no sentido de uns falarem em erro e outros falarem em formulação ambígua com possibilidade de várias respostas que devem ser consideradas corretas. Há uma diferença significativa entre uma denúncia e outra. Se se verifica a primeira, a questão deve ser anulada e as cotações no grupo devem ser redistribuídas; a verificar-se a segunda, é só afinar os critérios e os corretores validarem as respostas que forem certas. Vir o IAVE, sem o explicar, que esta não terá, “previsivelmente, qualquer impacto na resolução nem terá na sua classificação” é muito pouco.
Quanto ao exame de Português, há que desmentir que a 1.ª fase tenha qualquer texto d’Os Lusíadas ou qualquer tarefa sobre a mesma obra, quer sobre textos dados em aula quer sobre outros, porquanto o Grupo I suscita a leitura, na Parte A, de um texto poético de Pessoa ortónimo, do programa, mas que muito bem pode não ter sido dado em aula (os programas mandam escolher poemas do ortónimo, obviamente não todos) e a resposta a 3 perguntas sobre o mesmo; na Parte B, leitura de um excerto do Sermão de Santo António, do Padre António Vieira, e a resposta a 3 questões sobre o mesmo; e, na Parte C, a escrita de uma breve exposição orientada sobre o diálogo de José Saramago com o ‘passado’, de que “emerge, em romances como Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, uma visão crítica sobre o tempo histórico representado e sobre a sociedade desse tempo”. No Grupo II consta um texto de Alberto Manguel, Uma História da Curiosidade, em que se solicita a resposta a 5 questões de resposta fechada de escolha múltipla e duas de resposta direta e curta. E o Grupo III concita a realização de um texto de opinião que defenda uma perspetiva pessoal sobre o seguinte tema:
Se algumas pessoas consideram que o acesso rápido e livre à informação é uma mais-valia na sociedade atual, outras defendem que esta facilidade pode ter um impacto negativo, tanto em termos pessoais como sociais”.
A informação do IAVE, atempadamente distribuída pelas escolas, no âmbito do objeto de avaliação, referia que “a prova tem por referência o Programa e Metas Curriculares de Português do Ensino Secundário, privilegiando-se, em todos os domínios, os conteúdos comuns ao Programa supracitado e aos Programas de Português de 10.º, 11.º e 12.º anos de escolaridade, homologados em 2001 e 2002, independentemente do ano de lecionação desses conteúdos em cada um dos referidos referenciais”. Por outro lado, “a prova permite avaliar a aprendizagem passível de avaliação numa prova escrita de duração limitada, incidindo sobre os domínios da Leitura, da Escrita, da Educação Literária e da Gramática”.
Repare-se que, no domínio da leitura, o programa de Português do 10.º ano contém referência ao relato de viagem, que também pode ser abordado através do texto literário, como é o caso das estâncias d’Os Lusíadas nas estâncias do Canto VI em causa.
No que diz respeito ao domínio da Educação Literária – refere a predita informação do IAVE –“sempre que, no Programa, se apresenta uma lista de autores ou de textos em alternativa, a prova pode incluir suportes textuais diferentes dos indicados (outros textos do mesmo autor, outros excertos da mesma obra ou textos de outros autores, mas pertencentes ao mesmo género textual), privilegiando-se, nestes casos, a interpretação do texto apresentado na prova.
Ora, não percebo como se alega que o referido Canto VI não foi dado em aula por supostamente não ser do programa e se esquece que o texto de Manuel Alegre, “A grande subversão”, in O Homem do País Azul (6.ª ed., Alfragide, Publicações Dom Quixote, 2008, pp. 51-53) também não o é. Manuel Alegre consta no Programa do 12.º ano no quadro dos “poetas do século XX” (escolher de 3 autores 4 poemas). O texto que integra a Parte A do Grupo I da prova é o 3.º conto de um conjunto de 10 sob o título O Homem do País Azul. No mesmo ano, no âmbito dos contos, devia escolher-se 2 ou de Manuel da Fonseca, “Sempre é uma companhia” ou de Maria Judite de Carvalho, “George” ou de Mário de Carvalho, “Famílias desavindas”. Mas Camões não está cá para reivindicar os seus direitos! Mas, pensando melhor, vejo que Manuel da Fonseca e Maria Judite de Carvalho também não estão por cá! Que se passa, professora de Português?
Não me digam que, através das estâncias referenciadas do Canto VI, não se consegue avaliar se o aluno conhece a índole e a força do texto argumentativo que faz parte do programa do 12.º ano, nos domínios da compreensão do oral e da expressão oral. Veja-se o teor da primeira questão formulada sobre o texto:
Explicite as estratégias argumentativas utilizadas por Baco (estâncias 27 e 28) para convencer Neptuno, Oceano e os outros deuses marinhos a serem seus aliados”.    
Por outro lado, as preditas estâncias respondem bem a tópicos de conteúdos conexos com Os Lusíadas e as estâncias expressamente mencionadas no programa do 10.º ano:
Imaginário épico: matéria épica; feitos históricos e viagem; sublimidade do canto; mitificação do herói. Reflexões do poeta; Linguagem, estilo e estrutura. A epopeia: natureza e estrutura da obra; o conteúdo de cada canto. Os quatro planos: viagem, mitologia, História de Portugal e reflexões do poeta. Sua interdependência. Estrofe e métrica. Recursos expressivos: a anáfora, a anástrofe, a apóstrofe, a comparação, a enumeração, a hipérbole, a interrogação retórica, a metáfora, a metonímia e a personificação.
Atente-se na segunda questão formulada sobre o texto, para o caso da mitificação do herói:
Apresente dois aspetos distintos que, na estância 29, evidenciem a mitificação do herói, fundamentando cada um deles com uma transcrição pertinente”.
E veja-se se na terceira questão não se tem em conta o quadro dos recursos estilísticos:
Complete as afirmações abaixo apresentadas, selecionando da tabela a opção adequada a cada espaço. Na folha de respostas, registe apenas as letras e o número que corresponde à opção selecionada em cada um dos casos. Nestas estâncias, são utilizados alguns recursos expressivos frequentes em Os Lusíadas. Na expressão “peito oculto” (v. 3), está presente uma ______a)____; a apóstrofe ocorre, por exemplo, em ______b)____.
a) 1. personificação, 2. anástrofe, 3. metáfora, 4. comparação; b) 1. ‘o mar irado’ (v. 10), 2. ‘padre Oceano’ (v. 13), 3. ‘fracos e atrevidos’ (v. 24), 4. ‘humanos’ (v. 32).”.
A este respeito, não me inibo de continuar a citar a informação sobre o exame de Português divulgada pelo IAVE:
A organização diacrónica dos conteúdos da Educação Literária pressupõe a leitura dos textos em contexto, indissociável da reflexão sincrónica, e não deverá traduzir-se em leituras meramente reprodutivas ou destituídas de sentido crítico, já que, parafraseando Aguiar e Silva (2010, 239), contexto algum obriga a dizer, muito menos de modo único. Mais do que insistir no uso de vocabulário técnico específico dos estudos literários, o Programa privilegia o contacto direto com os textos e a construção de leituras fundamentadas, combinando reflexão e fruição, como é de esperar em quem termina a escolaridade obrigatória.”.
Porém, para que não restem dúvidas os programas deverão, ao indicar excertos, deverão apor a explicitação “a título de exemplo” – isto para não perderem a sua “vis” programática.
Não contesto a validade das questões para resposta sobre o texto de Manuel Alegre. Só contesto a dualidade de critérios dos críticos a reagir quanto a Camões e a ficar silentes sobre Alegre.
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Tenho dito que, nos últimos anos a prova é demasiado extensa. O Grupo I, que dantes tinha um texto para ler com 5 questões para resposta orientada de média extensão e um segmento textual para comentar (comentário não muito extenso – com indicação de um mínimo e um máximo de palavras a utilizar), abrangia seis questões; agora, mantendo-se a estrutura do Grupo II e do Grupo III como dantes, o Grupo I tem a extensão do enunciado aumentada, o que implica mais tempo para a leitura de texto e questões, que faz alta para o aluno pensar.
Não precisei de ver Camões na prova para concluir que ela e longa ou difícil. Das duas uma ou se volta à antiga forma no Grupo I ou se deve cortar o Grupo II. E esta segunda hipótese também é viável para conseguir o objetivo do atual Grupo II porquanto a isto o texto literário também responde, sobretudo se for em prosa, como o demonstra a questão 6 do Grupo I, acima transcrita. Com efeito, a informação de Exame, difundida pelo IAVE, explicita:
No elenco dos textos complexos, o texto literário ocupa um lugar relevante porque nele convergem todas as hipóteses discursivas de realização da língua. Ao contemplar um conjunto de fatores que implicam a sedimentação da compreensão histórica, cultural e estética, o texto literário permite o estudo da rede de relações (semânticas, poéticas e simbólicas), da riqueza conceptual e formal, da estrutura, do estilo, do vocabulário e dos objetivos que definem um texto complexo (cf ACT,2006). Para tal, pressupõe o Programa também uma adequada contextualização das obras a estudar, para que elas não surjam aos olhos dos alunos “como ilhas sonâmbulas num lago preguiçoso; ou como acidentes num percurso de lógica dificilmente apreensível” (Gusmão 2011,188).”.
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Soube-se mais tarde que há mais um erro nos exames nacionais. Desta feita é na prova de Física e Química A, código 715, do 11.º ano.
O secretário-geral da SPQ (Sociedade Portuguesa de Química), Adelino Galvão, disse que o erro “não devia ter acontecido”, mas, como aconteceu, “nenhum aluno será prejudicado”.
Em causa está a questão 1.2 do Grupo II, que tem na base o relato duma experiência química. Só que o resultado apresentado para a experiência está errado, confirmou Adelino Galvão. No enunciado afirma-se que “arrefecendo uma solução contendo iões [FeSCN]2+ (aq), observa-se que a cor vermelha da solução vai ficando menos intensa”. Ora, acontece exatamente o contrário, ou seja, ao arrefecer esta solução, a cor vermelha vai ficando “mais intensa”.
Questionado, o IAVE não reconhece explicitamente a existência do erro, optando por indicar que a pergunta em causa “descreve o resultado hipotético de uma atividade experimental” e que, deste modo, “a única interpretação possível é a que consta nos critérios de classificação” elaborados por aquele organismo para serem seguidos pelos professores classificadores.
Nos critérios de correção/classificação, pode ler-se:
A resposta deve apresentar os seguintes elementos:
A)  O arrefecimento da solução provoca uma diminuição da concentração do ião [FeSCN]2+ (aq ), o que traduz um favorecimento da reação inversa.
B)  A reação inversa será exotérmica, pelo que se pode concluir que a variação de entalpia associada à reação de formação do ião [FeSCN]2+ (aq ) é positiva.”.
Adelino Galvão refere que a SPQ já tinha alertado o IAVE para esta questão, que teve “resposta em menos de 24 horas” com a confirmação de que o erro “não terá repercussão nos resultados”.
Sem mais explicação, parece haver contradição em que refere o IAVE (a única interpretação possível é a…) e o que Galvão diz que IAVE lhe disse (não terá repercussão nos resultados). Não terá repercussão nos resultados, como?
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Refere o secretário-geral da SPQ que “os exames são feitos por humanos e, por vezes, há erros” e que aquilo que o preocupa mais neste caso é que o erro se possa propagar no futuro, já que os alunos treinam para exames com base nos enunciados de provas anteriores”.
A isto devo dizer que o professor deve ter em conta a ambiguidade na aula (como faz se a editora tem erros no manual ou nas atividades) e não se cingir ao treino dos testes de exame.
Depois, que são monstruosamente hiperbólicas as exigências feitas aos professores vigilantes (não podem estar sentados, têm de vigiar se há na prova escritos a lápis e mandar passar a tinta, têm os dois de rubricar os cabeçalhos, não podem ler nem conversar nem ir à casa de banho, etc.), o quebra-cabeças para os professores corretores é crescente, estabelece-se o anonimato do aluno e da escola, o funcionário que embala um pacote de provas deixa lá um cartão com o seu n.º para eventual reclamação. Mas, face a erro ou inexatidão em provas, o IAVE faz ouvidos moucos, escudando-se nos peritos, nos critérios e na previsível falta de consequências! Dois pesos e duas medidas…
2019.07.24 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Que flexibilização curricular resultará do propalado perfil do aluno?

Como é sabido, um grupo de trabalho coordenado por Guilherme d’Oliveira Martins fez um trabalho sobre o perfil do aluno que se pretende construir ao longo dos 12 anos de escolaridade e com reflexos determinantes na disponibilidade para a aprendizagem ao longo da vida.
O predito perfil selecionou um complexo coerente de competências-chave de desenvolvimento cíclico e progressivo e cuja marca de eleição é a transversalidade e a interdisciplinaridade, bem como a recuperação da educação para a cidadania eclipsada pelos conteúdos que enformavam as metas curriculares de Nuno Crato, rígida e milimetricamente entendidas.
O aludido trabalho foi elogiado e apoiado por várias entidades de utilidade pública, tal como foi encarado com muitas reservas por outras, como a SPM (Sociedade Portuguesa de Matemática. Não confundir com a APM, Associação de Professores de Matemática) e Rodrigo Queiroz de Melo, Diretor Executivo da AEEP (Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo). E o CNE (Conselho Nacional de Educação) elaborou um estudo em que levanta várias questões sobre conceção curricular e sua operacionalização.  
Às asserções de que as escolas decidirão 25% do currículo e que poderão decidir como organizar matérias repetidas entre disciplinas o CNE avisa que o esforço pode ser em vão, se não se incluir uma reorganização dos horários. Porém, aos diretores dos agrupamentos agrada a possibilidade de aprofundar a autonomia, nesta matéria, talvez porque, na prática, não têm encontrado grande margem de manobra para planeamento, organização, gestão e avaliação fora do figurino imposto pela administração educativa central, que é fiscalizada, às vezes para lá das instruções, por uma inspeção deveras intrometediça.
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Seguem-se de perto, por comodidade, alguns passos de Andreia Lobo, em seu artigo no educare.pt a 31 de março pp.
A tendência informativa vem no sentido de, no 1.º ciclo do ensino básico, 5 das 25 horas letivas passarem a ser atribuídas às Expressões, sendo que a Educação Física deixa de integrar o grupo das Expressões na matriz curricular, ganhando um tempo próprio. A disciplina de Inglês passou a integrar o currículo, no 3.º ano e no 4.º – o que já vem sendo praticado. Já no 2.º ciclo, a Educação Cívica será integrada nos tempos das Ciências Sociais e Humanas, bem como as Tecnologias para a Informação e Comunicação. No ensino secundário, os alunos vão poder inscrever-se em opções de outros cursos, inclusivamente de vias profissionais. 
Porém, a grande novidade será a autonomia dada às escolas para decidirem sobre a fusão de disciplinas, realização de semanas temáticas, projetos interdisciplinares ou disciplinas semestrais. Ora, a grande objeção é que, apesar das mudanças, os tempos e os programas das disciplinas não vão ser alterados, segundo o que garante o ME (Ministério da Educação). Sendo assim, a flexibilização curricular será a redefinição das “aprendizagens essenciais”. 
Como é de ver, já de si é difícil definir as aprendizagens essenciais e, por outro lado, pergunto-me como se compatibiliza isso com a bateria de exames que se verifica no 11.º e no 12.º ano ou, no caso de Português e de Matemática, no 9.º ano.
As escolas podem intervir nos conteúdos que se repetem em várias disciplinas, como acontece, por exemplo, entre História e Geografia ou entre Biologia e Física e Química. Neste caso, a flexibilização curricular poderá passar pela melhor organização do tempo dispensado em cada disciplina a tratar o mesmo tema. Isto é o que defende Manuel Pereira, presidente da ANDE (Associação Nacional de Dirigentes Escolares), quando diz ao JN que, “se os conselhos de turma conseguirem racionalizar em termos de tempo e matérias, poder-se-á ganhar tempo”. No entanto, ele próprio levanta a questão de a instabilidade do corpo docente poder causar entraves ao processo, ao interrogar-se como poderá garantir a continuidade do projeto se no ano seguinte tiver metade de professores novos na escola. Sendo essa uma hipótese residual nos tempos que correm, talvez o professor Pereira esteja esquecido de outra realidade diferente: a importância da abordagem multidisciplinar de determinados conteúdos.
Por sua vez, Filinto Lima, presidente da ANDAEP (Associação Nacional de Diretores), vê na flexibilização um passo para mais autonomia nas escolas, dizendo que foi boa notícia a confirmação de que o processo avançará no 1.º ano de cada ciclo – 1.°, 5.°, 7.° e 10.° anos –, embora  apenas em algumas escolas. E porque não avança já em todas? – pergunto-me.
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No estudo “Organização Escolar: O Tempo”, o CNE adverte que a flexibilização curricular pode ser um esforço sem resultado, caso não haja uma nova organização de horários e atividades escolares. No documento cuja introdução é assinada pelo seu Presidente, o ex-Ministro da Educação David Justino, pode ler-se que, “se hoje existe uma maior preocupação com a ‘flexibilização’ e a ‘diferenciação’ curricular e pedagógica, seria positivo que se atendesse à forma como se organiza o tempo escolar”. E explicita:
“Flexibilizar e diferenciar o desenvolvimento curricular, sem que exista capacidade de inovação e organização dos horários e do planeamento das atividades letivas e não letivas ao longo do ano, poderá ser um esforço cujos efeitos esperados poderão ser anulados pela forma como se afeta a multiplicidade dos tempos às aprendizagens”. 
Os autores do supracitado estudo acautelam que mais tempo na escola não significa melhor tempo. E, do mesmo modo, um curriculum mais denso de conteúdos poderá não significar uma melhor aprendizagem. Depois, com razão põem o dedo na ferida, quando sustentam:
“Cargas horárias concentradas em alguns dias da semana, blocos extensos da mesma disciplina, má afetação ou limitação dos tempos de recreio, poderão ter incidência relevante no comportamento dos alunos, na sua capacidade de concentração, na disponibilidade para aprender ou mesmo na sua saturação pelo cansaço”.
Por outro lado, o estudo faz um levantamento de dados recolhidos pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), que evidenciam que o tempo mínimo obrigatório nos primeiros anos de escolaridade coloca o país acima da média da OCDE (4932 horas, contra as 4621 horas da OCDE), ao passo que nos ciclos seguintes o país (com 2675 horas) fica aquém da média da OCDE (2919 horas). É verificação que leva a sugerir a existência de “algum desequilíbrio na distribuição dos tempos letivos com uma carga horária excessiva em comparação com os restantes países, nos primeiros ciclos de escolaridade, e deficitária, nos ciclos seguintes”. Parece que tal desequilíbrio se deve à carga horária de ensino não obrigatório no 1.º ciclo (1303 horas) que nos coloca entre os países com maior número total de horas neste ciclo de ensino. 
Também o predito estudo identifica “algum desequilíbrio” entre disciplinas que exigem maior ou menor esforço cognitivo e de concentração, ou seja: “à desejável alternância entre estes dois tipos de disciplinas, opõe-se a recorrente concentração em alguns períodos do dia ou em alguns dias da semana”. 
Já na introdução, David Justino adverte para os perigos da chamada “escola a tempo inteiro”:
“Mesmo que a ideia possa corresponder a uma necessidade social a que a escola não poderá ficar indiferente, tal não pode transformar-se em ‘sala de aula a tempo inteiro’, situação que poderá ter como consequência menos bem-estar, ambientes adversos à missão da escola, mais indisciplina, numa palavra, mais insucesso escolar”. 
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E, sobre a organização do tempo escolar, o estudo faz referências à extensão do calendário, à distribuição do tempo letivo pelas diversas disciplinas e à duração de cada tempo letivo.
Quanto à extensão do calendário escolar, o CNE diz que o número médio de dias de aulas ao longo do ano, no conjunto dos países da OCDE, é de 185 dias para os alunos do 1.º e 2.º ciclos e de 184 para os do 3.º ciclo – ao passo que os números relativos a Portugal são, respetivamente, 180 e 178, um pouco abaixo da média da OCDE. Mas, importa sobretudo o modo como esses dias são distribuídos ao longo do ano letivo, nomeadamente a duração das pausas e do período de férias de verão. Portugal está entre os países com maior duração das férias de verão, mas com pausas letivas em menor número e de duração mais diminuta. 
Uma das peculiaridades do caso português é a apresentação de maior número de dias de aulas nos primeiros ciclos de escolaridade e menor número nos ciclos seguintes. Esta peculiaridade contraria “o princípio generalizado de que o número de dias de aulas deverá aumentar à medida que se progride na idade e nos trajetos escolares”. Nem serve a putativa justificação de que os alunos mais adiantados estudam em casa. A escola deve organizar o estudo de forma que os alunos possam ser cada vez mais autónomos, mas sem os dispensar do acompanhamento escolar. O que parece estar a suceder é que as crianças de mais tenra idade tenham de ser mais guardadas na escola, dada a indisponibilidade dos pais. Mas então deveriam ser mobilizados mais técnicos superiores para acompanhar a estada dos alunos na escola em tempo não letivo. No atinente à distribuição do tempo letivo pelas diversas disciplinas, Portugal evidencia uma elevada concentração do tempo de ensino em domínios considerados estruturantes (leitura, escrita e literatura; matemática; e estudo do meio), integrando o terço de países considerados com maior concentração no 1.º e 2.º ciclo, mas aproxima-se da média da OCDE quando se falamos do ciclo seguinte (3.º ciclo). Como fator distintivo, Portugal é o único país que faz idêntica distribuição das cargas horárias da leitura, escrita e literatura e da matemática nos 1.º, 2.º e 3.º ciclos. 
No concernente à duração de cada tempo letivo, cerca de 73% das escolas e agrupamentos da rede escolar pública recorrem aos tempos letivos de 45 minutos, acoplando-os em blocos de 90 minutos. A média de tempo diário de permanência na escola varia entre 5 horas e 26 minutos e 6 horas e 19 minutos nas turmas do 5.º ano, e 4 horas e 55 minutos e 5 horas e 57 minutos nas turmas de 9.º ano, consoante os dias da semana. Em ambos os anos de escolaridade os alunos poderão permanecer na escola mais de oito horas num só dia, não contando com o tempo que os alunos passam na escola e que não faz parte do seu horário letivo. 
É de referir que o estudo se estriba numa amostra de 1264 horários do 5.º ano de escolaridade e de 1119 do 9.º ano, selecionados entre 231 unidades orgânicas públicas (escolas e agrupamentos).
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Só vejo como viável e eficaz a aprendizagem com base na definição do aludido perfil do aluno e subsequente flexibilização curricular – e a manterem-se os programas, mas sem as famigeradas metas curriculares – com a possibilidade de os grupos disciplinares e os conselhos de turma selecionarem os conteúdos das diversas disciplinas e desenvolverem a lecionação em termos da metodologia do trabalho de projeto, com as óbvias abordagens multidisciplinares, na dinâmica de interdisciplinaridade. E, a haver provas finais, que se façam a nível de escola. Mas não interessa ao ensino superior nem ao ensino privado. Só o saber académico, de exames…

2017.04.03 – Louro de Carvalho