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domingo, 14 de julho de 2019

Ao solidarizar-se com o maltratado, achou Deus e a verdadeira religião


O Santo Padre, antes da recitação do Angelus com os peregrinos concentrados na Praça de São Pedro, apresentou a compaixão como a chave da vida cristã.
Comentando a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), recordou o elo indissolúvel que existe entre o amor a Deus e o amor concreto e generoso pelos irmãos. Para o Papa, esta parábola tornou-se paradigmática da vida cristã ou, por outras palavras, “tornou-se o modelo do modo de ação do cristão”. Por isso, convidou os fiéis a lerem o “tesouro” contido no Evangelho de Lucas.
A história do homem reto passa por duas questões: “Que fazer para ter a vida eterna como herança?”; e “Quem é o meu próximo?”.  
Porém, apesar de se tratar de um dos pontos basilares da condição do discipulado, Jesus não dá definições exatas. Põe o interlocutor a pensar no que diz a Lei e na forma como ela a lê, em relação à primeira questão, e conta um episódio elucidativo em que estão em confronto (e mesmo em conflito) o dever de cumprir os códigos e o dever de socorrer um homem marginalizado pela maldade de outros, um homem às portas da morte, um homem que tinha o direito de viver.
Em Mateus, quem aparece a fazer a pergunta é um fariseu e doutor da lei (eîs ex autôn [pharisaíôn] nomicós), que pretende saber qual é o maior mandamento da Lei, e, em Marcos é um dos escribas (eîs tôn grammatéôn), que deseja saber o mesmo. Já em Lucas, cujos leitores são cristãos provindos do paganismo, nada preocupados com a Lei, quem surge a fazer a pergunta é um legista ou doutor da Lei (nomicós tis), que se mostra preocupado com a vida eterna. Jesus devolve-lhe a questão (o que não sucede em Mt e MC, em que Jesus diz expressamente o que diz a Lei), perguntando o que diz a Lei e como a lê. E o legista diz de cor a resposta citando a Escritura (Dt 6,4; Lv 19,18). E Jesus responde: “Respondeste bem. Faz isso e viverás.”. É uma resposta respaldada no AT (Lv 18,5) e assumida claramente no NT (cf Gl 3,12; Rm 10,5).
Na verdade, o livro do Deuteronómio (cf Dt 30,10-14) fala-nos da maravilha que é possuir uma lei feita por Deus – que está impregnada no âmago do nosso ser – e que, por isso, leva à Vida. Com efeito, ela “está ao seu alcance: está na sua boca e no seu coração”. Isso significa que não deveremos ficar presos a um código de regras, de prescrições, mas que nos entreguemos, sem reservas, à promoção da Vida. E pouco importa que a Lei exista, se ela não for praticada ou se for mal entendida e de prática distorcida. A prática da Lei tem de estar ao serviço da vida.
Mas o legista não ficou satisfeito na sua curiosidade ou na sua provocação e atirou: “Quem é o meu próximo”? Aqui, Jesus não se limitou a devolver a pergunta; teve, antes, a paciência de ilustrar a curiosidade do legista ou aniquilar a sua atitude provocatória com uma lição de seriedade e de vida, mostrando que a letra da lei sem o espírito vivificante pode levar à morte.
O doutor da lei quis saber o que é necessário para herdar a vida eterna. Jesus convidou-o a achar a resposta nas Escrituras: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, e ao teu próximo como a ti mesmo!”. Havia, porém, diferentes interpretações sobre quem seria o “próximo”. E Jesus conta a parábola do samaritano, que recorre a um caso-limite.
O protagonista é um samaritano, à época desprezado pelos judeus. Portanto, não é casual a escolha do tido como herege para personagem positiva da parábola. Ao longo duma estrada, o samaritano encontra um homem roubado e agredido por assaltantes. Antes dele, por aquela estrada, haviam passado um sacerdote e um levita, isto é, pessoas que se dedicavam ao culto de Deus. Mas não pararam, fizeram de conta que não viram, pois supostamente não podiam contaminar-se com sangue sob pena de o culto e o demais serviço do Templo poder ficar inquinado e eventualmente desagradar a Deus: ritualismo versus atenção ao próximo.
O único que lhe presta socorro é justamente o samaritano, quem alegadamente “não tinha fé”.
Os caminhantes referidos na parábola (o assaltado, o sacerdote, o levita e o samaritano) “baixavam de Jerusalém para Jericó”. De facto, Jerusalém está a 760 metros acima do nível do mar, ao passo que Jericó está a 250 metros abaixo do nível do mar. O termo aplicado por Lucas para denominar os assaltantes ou bandidos é “lêstês, oû”, o mesmo que se aplica a Barrabás (Jo 18,40) e aos dois malfeitores crucificados com Jesus (Mc 15,27). O sacerdote, pessoa consagrada, representante dos dirigentes religiosos do povo, e o levita, um assistente do Templo, receavam a aproximação ao homem caído na berma por pensarem que estava morto, o que lhes poderia ser causa de impureza ritual. E o samaritano era uma das pessoas com quem Jesus habitualmente não se relacionava (cf Jo 4,9), mas aqui é a chave da lição.      
Jesus denuncia o fracasso dos ministros de Deus em confronto com a atitude do odiado samaritano, que se esqueceu de si mesmo para a acudir ao estranho debilitado. Assim, os ouvintes do discurso de Jesus puderam compreender que o mandamento do amor não conhece limites. E o Papa Francisco comentou:
Também nós pensamos em tantas pessoas que conhecemos, talvez agnósticas, que fazem o bem. Jesus escolhe como modelo alguém que não era homem de fé. E este homem, amando o irmão como a si mesmo, demonstra que ama a Deus com todo o coração e com todas as forças – o Deus que não conhecia! – e expressa ao mesmo tempo verdadeira religiosidade e plena humanidade.”.
Diz o texto evangélico:
O samaritano chegou ao pé dele (do marginado) e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar’.”.
São estas as ações que servem de bitola para a ação em prol do próximo: chegar ao pé, ver, compadecer-se ao máximo, aproximar-se, tratar as feridas, colocar no meio de transporte, levar a sítio de acolhimento, cuidar e implicar outrem no cuidado. Uma só pessoa é insuficiente para cuidar. Não vale a pena procurar protagonismo, que é descabido e iníquo.
Enfim, quem tinha o segredo da vida eterna era um estrangeiro que não tinha conhecimento da Lei nem preocupações com a sua própria segurança, como o legista, nem tinha a dignidade ou a categoria do estado sacerdotal e levítico. Movido pela compaixão, mostra um amor espontâneo sem as malhas da Lei, desinteressado, terno, pessoal e eficaz.    
Depois de contar a parábola, Jesus dirige-se novamente ao doutor da lei e pergunta-lhe: “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”. Ao que ele respondeu: “Aquele que se mostrou misericordioso para com ele”. Esta é, na verdade, a definição existencial de “próximo”. Anote-se que, mesmo depois da parábola, o legista não conseguiu pronunciar a palavra “samaritano”. Estaria mesmo interessado na vida eterna?
Porém, Jesus ultrapassou esse persistente gelo interior do legista e receitou:
Vai e faz tu também o mesmo”.
Para o Papa, Jesus inverteu a pergunta do seu interlocutor e também a lógica de todos nós:
Ele faz-nos entender que não somos nós, com base nos nossos critérios, que definimos quem é o próximo e quem não é, mas é a pessoa em situação de necessidade que deve poder reconhecer quem é o seu próximo, isto é, quem usou de misericórdia para com ele”.
 A isto o Santo Padre acrescentou elucidando, não em nome da filosofia, mas da vida:
Ser capazes de sentir compaixão: esta é a chave. Esta é a nossa chave. Se diante de uma pessoa necessitada, tu não sentes compaixão, o teu coração não se comove, significa que algo não funciona. Fica atento, estejamos atentos. Não nos deixemos levar pela insensibilidade egoística. A capacidade de compaixão tornou-se a medida do cristão, ou melhor, do ensinamento de Jesus.”.
O Pontífice exemplificou com o caso dos moradores de rua e com o modo como nos comportamos diante de alguém caído no chão. E desafiou: 
Pergunta-te se o teu coração não endureceu, se não se tornou gelo. (...) A misericórdia diante de uma vida humana na situação de necessidade é a verdadeira face do amor.”.
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Podemos apreender o ensinamento eficaz ao jeito de Jesus. Se, para alguns, a salvação está no cumprimento das leis e, para outros, nos atos realizados dentro dum templo, para o samaritano, está em assumir a Vida e colocar-se a caminho dos que estão a ser privados dela. A opção válida é seguir a lógica existencial do samaritano. Leia-se Mt 25,31-46 e tenha-se em conta o que diz o apóstolo Tiago:
A religião pura e sem mácula diante daquele que é Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” (Tg 1,27).
A misericórdia promove a Vida, pois não faz rodeios para salvar o ser humano. A Vida está em primeiro lugar. Salvaguardar a Vida, seja de quem for, é a Lei Máxima. E Vida não é só a vida física, mas também a moral, a psíquica, a espiritual. Fala-se da Vida do Homem. Tudo deve estar subordinado a esse valor, porque Deus é Vida e Ele quis que assim fosse. Por isso, atentar física ou moralmente contra a vida de alguém é pecado grave. Por outro lado, qualquer atitude que demonstre falta de misericórdia significa desconhecimento da revelação do Amor de Deus, pois está escrito: “Quero a misericórdia e não o sacrifício” (Os 6,6; Mt 9,13).
Jesus coloca um samaritano a praticar a misericórdia na parábola, não para incomodar os judeus, embora tenha a intenção e o desejo de alertar os seus concidadãos, mas para estabelecer o contraste entre aqueles que têm conhecimento da Lei – mas a observam só no atinente ao que lhes interessa, criando receios e inventando pretextos para a não cumprirem em aspetos fundamentais – e quem, desconhecendo os códigos vigentes, se deixa mover pela misericórdia ditada pela lucidez da inteligência e pela força humana do coração.  De facto, a Lei de Deus está inscrita no coração humano e alegra-o. Para isso, é necessário estar atento.
Jesus quer destacar que o homem nascido na Samaria agiu somente por causa do seu coração. Teve a sensibilidade de perceber a situação de miséria em que se encontrava o homem assaltado. Ajudou muito, para que tivesse compaixão, a origem samaritana, de marginalizado. Identificou-se com o pobre coitado e agiu como Deus, isto é, teve compaixão.
Segundo Lucas, só Jesus tem verdadeira compaixão. É Ele o verdadeiro bom samaritano, embora o não diga. A misericórdia é um gesto eminentemente divino e pode exprimir-se num aforismo divino como o seguinte: “O que é meu é teu – quero que tu tenhas vida”.   
Ao solidarizar-se com o marginalizado, o samaritano encontrou Deus e a verdadeira religião.
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Se calhar, é mesmo salutar e positivo seguir o Papa Francisco na sua profunda e insistente devoção mariana e rezar para “que a Virgem Maria nos ajude a compreender e, sobretudo, a viver sempre mais o elo indissolúvel que existe entre o amor a Deus, nosso Pai, e o amor concreto e generoso pelos nossos irmãos e nos dê a graça de ter e crescer na compaixão”.
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2019.07.14 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Ignorar os pobres é uma fraude moral

Quem o diz, como se pode ler no site da Rádio Vaticano, é o Papa Francisco em mensagem enviada, a 17 de fevereiro, aos participantes do encontro dos Movimentos Populares que decorreu na cidade de Modesto, na Califórnia (EUA) de 16 a 18 deste mês. 
O Pontífice, escudado nos textos bíblicos, quer do Antigo Testamento, quer do Novo Testamento (sobretudo, do Evangelho de Lucas e das cartas de João e de Tiago), afirma:
“As feridas sociais causadas por um sistema económico desumano e difundido podem ser tratadas e curadas com o comportamento do bom samaritano, fazendo-se próximo de quem precisa”. 
Na ótica de Francisco, “os bons samaritanos”, dotados da “capacidade autêntica de estar próximo de quem sofre” é que salvarão o mundo”, ao invés daqueles hipócritas que “enchem os bolsos ignorando, com estilo, as chagas sociais, para depois manipularem as consciências quando as feridas são evidentes e não se pode mais fingir não as ver”.
Obviamente que o Papa gosta de ter como interlocutores todas as pessoas e grupos. Porém, quando os seus interlocutores são os porta-vozes das periferias existenciais – no caso vertente, os movimentos sociais –, encontra expressões fortes para evidenciar a nudez e crueza das falhas do que denomina “paradigma imperante”, um “sistema económico que causa sofrimentos enormes à família humana”, porque estribado no lucro em vez da solidariedade.
Aos participantes do encontro de Modesto o Papa apresenta a Parábola do Bom Samaritano (vd Lc 10,25-37), que evidencia a antítese entre o leigo “estrangeiro, pagão e impuro”, que se debruça sobre um moribundo agredido por assaltantes e cuida dele, e a indiferença dos mui cultos e mui religiosos sacerdote e levita, intimamente conexos com o Templo, que voltam as costas ao homem ferido e à lei de Deus que exigia a prestação de socorro em casos como este. Não sabemos se desandaram por receio de se contaminarem com as feridas e o sangue derramado, se por medo de serem considerados suspeitos de ato violento, se por convicção desviante sobre a prioridade do serviço do Templo, secundarizando o auxílio ao necessitado.
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O sistema económico, ao colocar no centro o deus dinheiro e ao agir, às vezes, com a mesma brutalidade dos assaltantes da parábola, causa feridas vivas que dificilmente são saradas, visto que outras prioridades se constroem aos olhos circunstantes, dos decisores políticos, dos operadores económicos e, ainda, dos modernos discípulos de Cristo – que tantas vezes preferem ser o sacerdote ou o levita que viram as costas ao sofrimento e fogem a correr par o Templo, em vez de se aproximarem dos necessitados, se debruçarem sobre eles e tratar eficazmente das suas mazelas, implicando os outros nesta ação de solidariedade. É o grito da Justiça em prol dos sofredores da pobreza e da doença! E o Papa denuncia o facto de tais feridas serem a cada passo “transcuradas culposamente”, censurando o “estilo elegante usado para desviar o olhar de forma recorrente”. Com efeito, sob a aparência do politicamente correto ou do bem alinhado com as modas ideológicas, olha-se para quem sofre “sem tocá-lo, distante, vendo-o na televisão”, e adota-se “um discurso de aparência tolerante e cheio de eufemismos, mas nada se faz de sistemático para curar as feridas sociais e enfrentar as estruturas que deixam muitos irmãos ao longo da estrada”. Criam-se muitas fundações, sociedades e associações alegadamente para a solidariedade social, quando o verdadeiro escopo é engrossar o prestígio dos protagonistas e até diminuir os encargos fiscais de empresa e de empresário.
É precisamente este discurso eufemístico e hipócrita e esta postura de desmazelo atento que o Bispo de Roma aponta como “fraude moral, que antes ou depois se descobre e se dissipa como uma miragem”. Na verdade, os feridos existem e são uma realidade; e o desemprego é real, tal como a violência, a corrupção, a crise de identidade, o esvaziamento das democracias, a crise ecológica”. Diante desta crise ecológica concomitante da crise sociomoral, Francisco exorta os povos indígenas, os pastores e os governantes a “defenderem a criação”, confiando na ciência, mas sem crerem na existência de uma “ciência neutra”.
Na perspetiva papal, vertida para a mensagem referenciada supra, “a gangrena de um sistema não pode ser camuflada eternamente porque antes ou depois se sente o mau cheiro e quando não pode ser mais negada pelo próprio poder que criou este estado de coisas, nasce a manipulação do medo, a insegurança, a raiva, incluindo a indignação das pessoas, e transfere-se a responsabilidade de todos os males para alguém que não está próximo”. Sendo esta uma grande tentação que engorda “este processo social em andamento em muitas partes do mundo”, constitui “uma ameaça séria para a humanidade”. Não é, assim, lícito “classificar as pessoas em próximas ou não” e “aquelas que podem se tornar vizinhas de casa ou não”.
A este cenário atitudinal do mundo o Papa contrapõe o ensino de Jesus. Jesus ensina a “tornar-se próximo dos que precisam”, o que é possível se no próprio coração existir “compaixão e capacidade de sofrer com o outro”. E a Igreja explicita dever ser “como o dono da hospedaria ao qual o samaritano confia, no final da parábola, a pessoa que sofre” (releia-se o Auto da Alma, de Gil Vicente). Assim, “os cristãos e  todos os homens de boa vontade devem viver e agir agora, porque muito tempo precioso foi perdido sem resolver essas realidades destruidoras”.
É, segundo Francisco, “da participação ativa das pessoas, em grande parte realizada pelos movimentos populares”, que “depende a maneira como se pode resolver essa crise profunda”. E o Papa reiterou o que disse no último encontro com os Movimentos Populares:
“Nenhum povo é criminoso e nenhuma religião é terrorista; não existe o terrorismo cristão, nem o judeu ou muçulmano; enfrentando o terror com amor trabalhamos pela paz; e nisso se encontra a humanidade verdadeira que resiste à desumanização manifestada em forma de indiferença, hipocrisia e intolerância”.  
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Também no passado dia 16 de fevereiro, o arcebispo emérito de Barcelona, Cardeal Lluís Martínez Sistach, apresentou a Francisco, em audiência privada, o programa do II Congresso internacional das grandes cidades dedicado à “Laudato si”, encíclica sobre o cuidado da casa comum – evento que ocorrerá no Rio de Janeiro, de 13 a 15 de julho próximo.
O purpurado assegura o grande interesse do Papa pelo tema da pastoral nas cidades desde o seu tempo de arcebispo de Buenos Aires. Efetivamente, em discurso aos participantes do I Congresso, em 2014, em Barcelona, o Sumo Pontífice acenara as dificuldades que, como arcebispo duma megalópole como Buenos Aires, teve que enfrentar e convidou os bispos a aprofundar “desafios e possíveis horizontes de uma pastoral urbana”. Entre estes, destacou: uma “pastoral evangelizadora audaz e sem temores”, o “diálogo com realidades multiculturais”, a força da “religiosidade popular” e a atenção “aos pobres, aos excluídos, aos descartados”.
O II Congresso – promovido pela fundação “Antoni Gaudí para as Grandes Cidades”, presidida pelo próprio Cardeal Sistach, com a colaboração do Arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta – é “estritamente dedicado ao mundo latino-americano” e centrará os trabalhos nos ensinamentos papais sobre ecologia, à luz da encíclica “Laudato si”.
Cá está, mais uma vez, a preocupação com os pobres, os excluídos, os descartados, que ficam esquecidos tantas vezes no anonimato das grandes cidades e na exploração abusiva e destruidora do Planeta. Nestes termos, virão a propósito os pronunciamentos sobre ecologia por parte de especialistas do mundo inteiro, líderes religiosos, reitores de universidades e prefeitos de grandes cidades, que servirão de base a debates a fazer em mesas-redondas e simpósios. As reflexões serão feitas a partir de três temas ecológicos: o problema da água, as questões relacionadas à poluição dos grandes conglomerados urbanos e a gestão dos resíduos e detritos.
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Porém, em tão pouco tempo, o Papa não fala dos pobres apenas a Movimentos Populares ou a congressistas. Foi também a uma universidade. Na verdade, deixou o Vaticano, na manhã do passado dia 17, para uma visita à Universidade “Roma Tre”, a mais nova da Cidade.
Depois de afirmar que a instrução e a formação académica das novas gerações são uma exigência primordial para a vida e para o desenvolvimento da sociedade, passou a discorrer em resposta a questões levantadas por alguns alunos. Assim, reconheceu haver “uma onda de violência nas nossas cidades” e que “a violência é um processo que nos torna anónimos”. No entanto, sublinhou a riqueza que a sociedade detém:
“A nossa sociedade é rica de bens, de atos de solidariedade e de amor com o próximo. Tantas pessoas e tantos jovens, certamente também muitos entre vós, estão comprometidos no voluntariado e no serviço aos mais necessitados. Vós deveis ser gratos e orgulhosos por estes valores.”.
Porém, recordou que, no mundo, “há tantos sinais de inimizade e de violência, de ações violentas”. E, evocando o teor da sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano, que propõe a não violência como estilo de vida e de ação política, reiterou que, de facto, estamos a viver uma “verdadeira guerra mundial em pedaços”, que a Comunidade internacional não consegue travar. E acrescentou:
“A universidade é um universo, um lugar onde se pode dialogar. Uma universidade deve fazer um trabalho artesanal de diálogo, onde se formam as consciências, com um profundo confronto entre as exigências do bem, do verdadeiro e do belo, e a realidade com as suas contradições. Por exemplo, a indústria das armas, que, ao invés de diminuírem, aumentam. Diante desta dramática realidade, os jovens jamais devem perder a esperança. As bombas destroem os corpos e as dependências destroem os corpos, mas também as mentes e as almas.”.
Neste sentido, sugeriu à universidade o comprometimento com projetos de partilha e de serviço aos últimos, sobretudo na Cidade de Roma, “onde reinam urgências sociais, pobreza, migrantes, gente que dorme pelas ruas e passa fome”. E disse:
“Vós deveis ser protagonistas de ações construtivas, de combate à cultura do hedonismo e do descarte, baseados em ídolos do dinheiro e do prazer”.
E, partindo da sua experiência pessoal, apelando:
“Não tenhais medo de vos abrirdes aos horizontes do espírito, mediante o dom da fé. Não tenhais medo de vos abrirdes ao encontro com Cristo e aprofundar a vossa relação com Ele. Vós podeis tornar-vos ‘agentes da caridade intelectual’. Assim, a universidade pode dar a sua contribuição para a renovação da sociedade; pode e deve ser lugar onde se elabora a cultura do encontro e do acolhimento de pessoas, culturas e religiões diferentes”.
Por fim, encorajou docentes e estudantes a viverem a universidade como ambiente de verdadeiro diálogo e de confronto construtivo, pois a solidariedade, vivida concretamente e não com palavras, gera paz e esperança. Com efeito, a universidade tem de encontrar espaço para cuidar das pessoas todas e do seu mundo. Se não, para que serve a ciência que produz?
De facto, como dizia o Bispo do Porto, “os pobres não podem esperar” e o Ano da Misericórdia tinha de repor e reforçar a prática das obras por força da fé e da justiça, à luz da caridade.

2017.02.19 – Louro de Carvalho