Mostrar mensagens com a etiqueta Língua Portuguesa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Língua Portuguesa. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Indicações de Aquilino sobre a Língua Portuguesa (II)

Já vimos, a 28 de abril, alguns dos pertinentes registos que Vasco Botelho do Amaral faz, em Estudos de Apoio ao Português (Almedina: 1976), de excertos da lição que Aquilino publicou no jornal O Século, de 25 de maio de 1949, sobre a Língua Portuguesa. Fizemos o levantamento de algumas das questões que o escritor levantou e que agora vamos retomar.
Em termos da corruptibilidade, mestre Aquilino considera que a Língua, enquanto organismo vivo em permanente mutação, se vê sujeita a corruptelas de diversos matizes de que urge preservá-la. E a vacina contra as corruptelas passa pela leitura assídua, recreativa e metódica dos grandes escritores, para o que se afigura pertinente a organização e a publicação de boas antologias ou florilégios de textos representativos da obra literária dos mais diversos e dos melhores prosadores e poetas, sob critérios de imparcialidade, estética e adequação aos objetivos definidos e com os oportunos comentários críticos. Por outro lado, impõe-se o contacto com o povo (cuja alma pulsa no mais imo do país profundo), que redunde na recolha de expressões, adágios, lendas e cantigas ou que materialize em viagens, ações de campo, celebração de efemérides, participação em festejos, utilização de bibliotecas e salas de leitura. Pode ainda promover-se o turismo da Língua, facultando a permuta de saberes e linguajares e a pesquisa bibliográfica e documental. Se na leitura dos grandes, se alcança a mestria do manejo linguístico, com a imersão no coração do povo ganha-se seguramente a genuinidade e conquista-se a autenticidade.
Quanto ao abastardamento pela via dos barbarismos e solecismos (oriundo da ignorância dos que fazem da língua o ganha-pão e da pretensa incapacidade de a língua exprimir o vocabulário técnico-científico), entende-se que a crítica deverá levar os manejadores do instrumento linguístico – palavra e texto – à conveniente demora inicial e estudo afincado rumo à obtenção da disciplina e paciência que tornem a obra literária fluente, natural e interiorizante da personalidade do escriba como se fora o fruto suado da boa técnica manual, longe da mecanização impertinente que ameaça todos os ramos e setores da atividade. Por outro lado, se é certo que, tal como Lucrécio se queixava, o Latim não era apto para exteriorizar as categorias da filosofia, esta língua dotou todo o Império das estruturas jurídico-políticas (que se fundam em categorias cognitivas e de pensamento) e, na Idade Média, herdando as estruturas linguísticas do classicismo, conseguiu, embora ajudada pela patrologia latina, fixar e reordenar as grandes consecuções da filosofia do Ocidente. Depois, nos séculos XVI e XVII, também o Latim serviu para corporizar as categorizações científicas, mormente nos domínios da Química, da Zoologia e da Botânica. Ora, no atinente ao Português, tem de se reconhecer que, com o andar do tempo e a mobilização das vontades, se encontram formas de arrumação e de expressão satisfatórias – assim o queiram as academias e os cientistas da Língua. Todos se lembram de como o desporto-rei de servido quase exclusivamente por termos ingleses passou a utilizar vocábulos e expressões bem portuguesas. Basta que se trave o pedantismo de quem só se sente bem com o estrangeirismo ou pensa que “a ciência se escreve em Inglês”. O Português é bem capaz de digerir o arrevesado termo estrangeiro através do aportuguesamento, isto é, da suave “amoldação” aos balizamentos lexicais, fonológicos e morfológicos estipulados pela Gramática da Língua Portuguesa. A informática tem vindo a dar o exemplo.
Em contraponto, à sobranceria dos perigos que espreitam do exterior, Aquilino inscreve os internos, bem mais nefastos, que se sintetizam em dois: a imperícia dos maus escribas e o pechisbeque dos iconoclastas. Os inimigos internos são mais perigosos que os externos, pois, enquanto estes nos escoltam vigiando as brechas por onde nos possam invadir (para o que pode ser montada uma prevenção eficiente), aqueles dormem e crescem connosco e, conhecendo nossas fragilidades, matam mais discretamente e sepultam com menor solenidade – sem resistências!
***
Vem, a seguir, o sermão das virtualidade do Português, ultrapassando as singelas asserções de que o idioma é um poderoso instrumento de expressão do pensamento e da emoção, um seguro veículo de aquisição e transmissão de cultura e de acompanhamento da marcha da civilização e uma fonte inesgotável de inúmeros recursos ou, com já se disse, um organismo vivo em constante transformação. Vai muito mais longe ao considerá-lo o mais lídimo e precioso de todos os patrimónios. Garante mesmo a perenidade da Língua e até a sua eternidade, graças à capacidade, inerente a si própria, de resistência a todas as vicissitudes. E, exemplificando:
Se acabaram a Hélade com a sua graça e o Império Romano com a sua força militar e jurídica, mas restaram o grego e o latim como referências, modelos e veículos de ideias e artes; e, se a Alemanha todo-poderosa com ganas de hegemonia mundial se deixou ensanguentar por duas vezes e, por duas vezes, correu o risco de perecer, mas ficou com maiores musculatura e pujança a língua de Schiler, de Goethe e de Kant a inspirar pensamentos, linhas políticas e a testemunhar documentalmente realizações e a possibilitar a comunicação em termos de maior urgência de reconstrução em moldes de dramatismos ou de otimismos – é porque a língua não morre assim!
Quanto ao Português, interroga-se:
Demais, podemos nós ora questionar: que outro mais valioso tesouro deixámos nós, além da língua, em territórios como o Brasil ou a Índia, Angola ou Moçambique, Guiné ou Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, em Macau ou em Timor-Leste? [E acrescente-se: e agora, nas diversas comunidades da diáspora?]
E deve responder-se:
É a Língua Portuguesa a única garantia de que se perpetua nesses territórios a portugalidade que emana do génio luso, seja através dos falantes que sobrem, seja através dos testemunhos de natureza documental e monumental e que continuem a solicitar a presença dialogante de estudiosos provenientes deste “jardim à beira-mar plantado”, no dizer de Tomás Ribeiro.
Com sobrada razão – continua o Mestre da Língua – a obra escrita hoje oferece, seja pela natureza dos materiais mobilizados, seja pelos esquemas montados de divulgação, e até difusão, uma possibilidade de maior resistência quer aos atropelos ditados pela ignorância ou pelo pedantismo quer ao desgaste provocado pelos estragos do tempo, que a escrita de outrora, encostada às telas de pergaminho ou de papiro ou passada às lisas superfícies das tégulas, tabuinhas e lousas, cuja utilização era solicitada pela necessidade de imediata aplicação.
E conclui com a pertinente asserção de que a Língua é uma vestidura do pensamento, mas uma vestidura especial, já que não se limita a envolvê-lo e a mostrá-lo, mas também é capaz de o arquitetar e estruturar para depois o espelhar de forma eloquente e determinada, assumindo mesmo um estatuto de caprichoso matiz comunicativo. “Quem escreve corretamente pensa com mais justeza!” – avisa o Mestre com um saber de leitura e experiência feito, ele que se sujeitou, como escritor, ao longo da vida e pela produção literária, às mais diversas críticas e a algumas perseguições.
***
Estamos indubitavelmente a tanger os fundamentos sobre os quais se pode erigir com a necessária solidez o edifício inabalável que dentro de si contenha as bases eficientes da preservação, cuidado e apreciação da Língua Portuguesa com vista à sua manipulação fecunda e sadia. E não foi em vão que o poderoso prosador e estilista lançou o desafio do alto daquele púlpito eloquente, aliás comum a tantos outros mestres e cultores da língua e das belas letras, entre os quais é lícito destacar um Sá de Miranda e um Camões, um Rodrigues Lobo e um António Vieira, um Luís António Verney e um Du Bocage, um Camilo Castelo Branco e um Eça de Queirós, um Fernando Pessoa e um Miguel Torga, uma Marquesa de Alorna e uma Florbela Espanca, um Vergílio Ferreira e um José Saramago, uma Natália Correia e uma Sophia de Mello Breyner. Porém, o artista da prosa, profissional da palavra e amante da Língua Portuguesa explicita de forma inequívoca, no prefácio-dedicatória a Terras do Demo (endereçado a Carlos malheiro Dias), as bases da preservação da língua, que se passam a sintetizar:
- Abstrair da linguagem erudita forjada pelos árcades, pregadores e gongóricos de má morte (abominar a verborreia cultista e a justaposição concetista, bem como renunciar ao espírito demasiado seletivista e truncante do arcadismo e ao endeusamento da palavra, a qual é afinal um instrumento da comunicação e da estética);
- Recorrer às aquisições da ciência no tocante às enfermidades da alma e do corpo e à utilização de técnicas não severas (com a noção de que a dureza e a agressividade da linguagem não são boas conselheiras neste domínio, mas sim a doçura e a afabilidade de trato, tirando partido da melodia do fraseado);
- Escrever com pena de aço e não de pato (em apoio da musculatura discursiva, da precisão, da vernaculidade, da têmpera e da rijeza, com a exclusão determinada do solecismo e do barbarismo, do puritanismo, do balofismo e da fatuidade);
- Renovar o veio da língua picando na nascente (ir à matriz essencial da formação da língua – o grego e o latim, como se fez na era de Quinhentos);
- Ir à aldeia onde pulsa o coração do povo (o grande construtor da língua e onde mergulha o discurso genuíno dos mestres) em contraponto com a esquisitice um tanto caprichosa da urbe (é certo que na urbe também há povo, a ter em conta na locupletação do património linguístico; todavia, é na aldeia, na vila ou na pequena cidade que o linguajar é mais autêntico, porque a vida e as relações humanas são mais naturais).
***
E, a par dos atropelos – permitidos pela mediocridade campeante nas inovações de alguns e na incompetência de tantos ou solicitados pela pressa e irreflexão de outros ou, ainda, instados pela moda e pressão do uso quase permanente e absorvente dos modernos aparelhos e mecanismos de comunicação e entretenimento (telemóvel, ipad, chat, sms, e-mail, facebook, etc.) – pululam em abundância suficiente os especialistas que ensinam a prevenir, a preservar e promover o tesouro da língua e a utilizá-lo de forma correta ao serviço da expressão humana e do culto dos valores estético-artísticos, sugerindo a aposta forte numa política audaz da Língua Portuguesa quer a nível interno quer a nível externo. Mais do que atender à anarquia linguística e à mediocridade de conteúdos espelhada em muita da rasteira comunicação social, importa atender a quem ensina, a quem promove, a quem aprecia – tirando do tesouro comum coisas novas e velhas para realizar o homem de pensamento, expressão e comunicação e para construir solidamente o devir dialógico da comunidade justa, eficaz, relacional e solidária. Assim ajam os políticos (condutores de pátrias lusófonas ou acompanhantes de pátrias lusíadas na diáspora) e o entendam os potenciais clientes, os autóctones e os estrangeiros. Assim o tenham em conta, escolas, academias, instituições culturais, meios de comunicação, autarquias, Igrejas, partidos e todos os utilizadores da Língua!

2016.05.11 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Dia da Língua Portuguesa 2016

Celebra-se hoje, dia 5 de maio, o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP, com a realização de atividades em mais de 5 dezenas de países (58), com o apoio ou por iniciativa da rede do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, IP. Em várias cidades do mundo onde a efeméride se assinala, as celebrações, materializadas em expressões diversas, são organizadas conjuntamente pelas embaixadas e representantes dos países da CPLP aí presentes e o seu horizonte temporal não se confina o dia 5 de maio.
Esta data comemorativa foi instituída a 20 de julho de 2009, por resolução da XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da organização, realizada na Cidade da Praia, Cabo Verde. E o fundamento para a decisão reside no facto de a língua portuguesa constituir, entre os povos da comunidade, “um vínculo histórico e um património comum resultantes de uma convivência multissecular que deve ser valorizada”.
É certo que a Língua Portuguesa é falada apenas nos nove países da lusofonia, contudo é falada também em Macau (hoje, região administrativa especial da República da China), há imensos núcleos de comunidades portuguesas na diáspora mundial e a própria Guiné-Equatorial tem o Português como uma das suas línguas oficiais, desde a sua adesão à CPLP (Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa).
***
A página web do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, IP dá-nos a panorâmica da posição da Língua Portuguesa no concerto das demais. Assim:
Atualmente é de 261 milhões o número de pessoas que falam português nos 5 continentes, mas, em 2050, serão 380 milhões. O português é a 4.ª língua mais falada no mundo; a primeira é, sem dúvida, o chinês, mais propriamente o mandarim (com 1382 milhões de falantes); a segunda é o espanhol, mais propriamente o castelhano (com 427 milhões de falantes); e a terceira é o inglês (com 339 milhões de falantes). A seguir ao português, vem o hindi (com 260 milhões de falantes). Mas não se pode esquecer que o português é a 1.ª língua mais falda no hemisfério sul; é a 5.ª língua com maior número de utilizadores na internet; é a 3.ª língua mais utilizada no Facebook; e é língua oficial ou de trabalho em 32 organizações internacionais (designadamente União Europeia, União Africana, Organismos Ibero-Americanos, agências e organismos das Nações Unidas).
A Rede Camões atua em 84 países, sendo que, em 23 desses países, é ministrado o ensino básico e o ensino secundário do português a 70 mil alunos por 815 professores. E ao nível do ensino superior intervêm 357 instituições internacionais com 644 docentes atingindo 90 mil alunos. São 40 Cátedras em estudos portugueses, 69 Centros de Língua Portuguesa com mais de 100.000 utilizadores, 19 Centros Culturais Portugueses e 1.200 ações, em 2015, de promoção da cultura portuguesa.
Quanto ao impacto ecoeconómico da Língua Portuguesa, os seus falantes ocupam 10,8 milhões de km2, em 7,25% da superfície continental da terra; representam 3,8% da população mundial; e produzem e gerem 4% da riqueza total do globo.
De acordo com o que referiu o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, na apresentação das iniciativas, a 3 de maio, o objetivo da comemoração do Dia da Língua Portuguesa é “afirmar internacionalmente a Língua Portuguesa tal como ela é”. E Santos Silva, que já foi Ministro da Educação e Ministro da Cultura (governos de Guterres), sustentou que o português “é uma língua com múltiplas variedades, todas de igual valor” e sublinhou que “a força da Língua Portuguesa está na sua vivacidade, na sua natureza viva e dinâmica e nas múltiplas variedades, todas de igual valor que a constituem”. Segundo o Ministro, as iniciativas pretendem ainda promover o ensino do português “como língua materna, de herança, segunda, estrangeira” e o seu uso, quer como “língua de falantes nativos ou que aprendemos a usar”.
Por outro lado, este dia, estabelecido em 2009 pela CPLP, prossegue também, na ótica do Ministro, rumo ao objetivo de acentuar as culturas que se exprimem em português: “É uma língua em que se exprimem múltiplas culturas, todas de igual valor”. 
Por fim, outro objetivo é “promover, através da língua, o diálogo e a cooperação entre os países da CPLP, com as diásporas e com os restantes países, outras instituições e agentes locais”.
As atividades incluem conferências, encontros com escritores, palestras, saraus literários e poéticos, recitais, exibição de filmes e documentários, festivais de cinema, peças de teatro, mostras gastronómicas e provas de vinho. Para os mais novos, há jogos e caça ao tesouro.
Por seu turno, o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, recordando que, enquanto embaixador, testemunhou “a importância estratégica da Língua Portuguesa”, declarou que “a Língua Portuguesa é uma das mais fortes expressões da cultura no Mundo” e que ela “não nos pertence, pertence a todos os falantes, mas nós temos uma especial e grande responsabilidade por ela”. E, referindo-se ao seu peso estratégico, sublinhou:
“Estamos conscientes da grande importância estratégica em todos os planos: cultural, económico. Tem muito mais projeção do que aquela que muitas vezes aqui em Portugal pensamos.”.
**Fazendo jus à aludida resolução do Conselho de Ministros da CPLP, Santos Silva publicou hoje, 5 de maio, um artigo de opinião no JN, em que recorda a recomendação, expressamente contida nessa resolução, “aos estados-membros, às instituições da CPLP, aos Observadores Associados e Consultivos e às diásporas dos países da CPLP”, no sentido de promoverem “a comemoração do Dia da Língua Portuguesa, tendo em vista a sua afirmação crescente nos Estados-Membros e na Comunidade internacional”.
Verificando que “esta afirmação não tem cessado de aumentar”, faz uma súmula das últimas estimativas do Instituto Camões” em tudo parecidas com o que vem afirmado acima. Porém, encarece as caraterísticas inerentes à língua, aos falantes e ao peso estratégico deste património comum:
“Esta língua global, que é o português, é uma realidade viva e dinâmica. Pertence a todos os seus cultores. É uma língua policêntrica e pluricontinental, que integra múltiplas variedades, todas de igual valor. Essa é a sua maior riqueza e a maior força. Essa é a base mais sólida do seu imenso valor cultural, comunicacional, económico e geoestratégico.”.
No concernente ao posicionamento de Portugal, ao cumprimento que lhe cabe da resolução de 2009 e à sua peculiar responsabilidade sobre a Língua Portuguesa, o Ministro assegura o que Portugal está a fazer:
“Promove, apoia ou participa em muitas atividades que se desenrolam, por estes dias, em torno da nossa língua comum. Fá-lo através do Instituto Camões, das embaixadas e consulados, e também das escolas portuguesas no estrangeiro, das universidades e politécnicos. Este ano, são cerca de 200 atividades, em 58 países, de todos os continentes.”
De entre as atividades programadas, destacou:
“As que se dirigem a públicos escolares, do Ensino Secundário ou do Superior; as que assumem a forma de encontros com escritores, artistas e investigadores; as que proporcionam o contacto com as obras de cultura em português, da literatura ao cinema; e as que aproveitam as novas plataformas e linguagens mediáticas e digitais, para levarem a língua a todos a quantos ela possa interessar”.
Depois, explicita o que, do seu ponto de vista significa “promover a Língua Portuguesa”:
“É promover a sua afirmação como língua internacional, de comunicação e de negócios. É promover o seu ensino, em todos os níveis. É promover o seu uso, quotidiano e cultural. É promover a criação que se exprime em português. E é promover o diálogo e a cooperação entre todos os seus falantes, e as comunidades, nações e países que eles formam.”.
E, citando António Ferreira, o poeta do período de Quinhentos – que escreveu: “Floresça, fale, cante, ouça-se e viva / a portuguesa língua” – assegura que é disto que se trata: “de usar a nossa língua viva, para que ela continue a florescer”.
***
Pelas palavras de Santos Silva e pelo painel da página do Instituto Camões, parece que Portugal e a CPLP estão a trilhar o rumo certo da política da Língua Portuguesa. Ao invés, o Dia da Língua Portuguesa de 2016 ficará marcado pela postura errática do Presidente da República, que, ao contrário do que fez crer, não saberá gerir os afetos e conflitos em torno da Língua. E duvido de que, se o não consegue em termos deste património comum, muito menos o conseguirá em objetivos nacionais geoestratégicos como o europeísmo, o transatlantismo ou, a prazo, a cooperação estável e profícua entre os diversos órgãos de soberania.
Pensa o ilustre académico que, através da suprema magistratura da República, melhorará a política da Língua reabrindo o debate sobre o acordo ortográfico, interferindo numa área que institucionalmente não é da sua competência (apenas lhe cabe a ratificação de acordo internacional), ignorando o estado de pacificação da aprendizagem da nova ortografia, o investimento já feito, o tempo ainda não suficiente de vigência para se proceder à sua avaliação. Depois, Marcelo esquece que a ortografia não é a valência mais importante da língua, mas apenas instrumental. E está mal informado. Efetivamente, Moçambique não tem o acordo ratificado, porque espera pelo “sim” do Parlamento, e Angola, porque ainda não tem um vocabulário ortográfico nacional e está à espera de serem atendidas algumas reivindicações específicas. De resto, a questão ortográfica sempre dividiu linguistas, escritores e políticos. É por isso que, tratadas as questões nas competentes academias compete ao Estado exercer o seu poder político – o que aconteceu, embora com a possibilidade de acertos futuros e tempo de maturação da experiência. Dizem que a Constituição só prevê como diplomas legislativos a lei e o decreto-lei: esquecem que os tratados internacionais são objeto negociação entre governos, resolução parlamentar e decreto de ratificação presidencial. Não, nesta matéria, não haverá consenso. E pouco importa, porque a Língua vale muito mais do que a sua representação gráfica.
Espero que Marcelo não cometa o erro de, à semelhança do que fez com a ortografia, querer mediar diretamente o conflito de democracia e beligerância em Moçambique. Poderes de Estado relacionam-se com poderes de Estado. Não cabe a outro Estado mediar conflitos internos: as autoridades estatais devem torcer nos bastidores, pôr em campo canais diplomáticos e outros (sobretudo não comprometidos com qualquer das partes) e vir aplaudir o coroar das negociações.
Lembram-se do fracasso dos acordos de Bicesse (mediados por Durão Barroso, em 1991)?   
2016.05.05 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O 18.º aniversário do Ciberdúvidas

Bernardino Soares, antigo deputado à AR pelo PCP e agora Presidente da Câmara Municipal de Loures, selecionou o facto referenciado em epígrafe para seu minuto inicial no programa “Frente a Frente”, da SIC Notícias, de ontem, 14 de janeiro. E salientou a sua utilidade para todos aqueles que utilizam diariamente a palavra em termos de respeito e culto pela Língua Portuguesa e o seu suporte técnico-científico.
Com efeito não é fácil criar e manter um serviço de consulta que se paute pelo rigor, clareza e agilidade. Habitualmente ou somos rigorosos cientificamente, mas complicados; ou claros, mas superficiais.
Mas, afinal, o que é o Ciberdúvidas?
O “Ciberdúvidas da Língua Portuguesa”, que faz 18 anos hoje, está instalado num “sítio” na Internet e foi criado para “responder a dúvidas e discutir temas relacionados com a língua portuguesa”, configurando um espaço de debate e polémica.
Resultante de um projeto inovador e sem fins lucrativos e fundado pelos jornalistas José Mário Costa e João Carreira Bom (já falecido), define-se como “um espaço de esclarecimento, informação, debate e promoção da língua portuguesa, numa perspetiva de afirmação dos valores culturais dos oito países de língua oficial portuguesa”.
Trata-se de um consultório, de acesso gratuito, em que trabalha um corpo de colaboradores que, se segunda a sexta-feira, respondem a todas as dúvidas que lhes sejam apresentadas do ponto de vista da fonética, da ortografia, da etimologia, da sintaxe, da semântica e da pragmática, tendo sempre em conta as particularidades linguísticas regionais e nacionais que moldam, hoje, a sexta língua mais falada no mundo. É tudo isto que faz com que este portal se diferencie de outros de consulta da língua, que ou não têm uma abrangência tão alargada, ou se perfilam com um certo hermetismo em nome da tecnicidade e cientificidade ou, em alternativa, abordam as questões de forma um tanto aligeirada. 
Segundo o que refere o Público de hoje, José Mário Costa adiantou que sempre quiseram “trazer para a discussão textos, temas e palavras da atualidade”. Todavia, há dúvidas que sempre se repetem, como algumas concordâncias verbais, de que é exemplo recorrente o verbo haver (e mesmo erros morfológicos: “hadem” por “hão de” e “hades” por “hás de”).
Ora foi para cobrir todas as necessidades mais recorrentes de polémica e debate que o Ciberdúvidas se foi estruturando em vários “departamentos” (por comodidade, denomino assim os seus serviços): perguntar (com espaço para o consulente lançar uma questão, não sem antes verificar se ela já obteve alguma resposta); respostas (em duas secções: denúncia de erros frequentes; e correio); antologia (de textos de autores lusófonos sobre língua portuguesa, de diferentes épocas e períodos); atualidades (com a montra de livros e as notícias); diversidades (com textos que versam aspetos atinentes às variedades nacionais e regionais do português); e português na 1.ª pessoa (em que se abordam questões respeitantes ao novo acordo ortográfico; temas de controvérsia; temas concernentes ao ensino do português como língua materna e como língua estrangeira; a secção de lusofonia, atinente ao meios de comunicação e à política da língua; a da reflexão e investigação sobre o nosso idioma; e o pelourinho, como espaço de notação crítica de maus usos da língua nos órgãos de informação e noutros espaços de exposição pública).
O Ciberdúvidas preenche o vazio resultante da não existência de uma autoridade do português, à semelhança da existente, por exemplo, para o castelhano, com a finalidade de aconselhamento-guia dos utentes da língua, o que bem poderia fazer a Academia Portuguesa das Ciências através da sua secção de letras (se o quisesse fazer). Sobretudo os jornalistas bem precisavam de ser alertados para a enxurrada de novas palavras e expressões emprestadas à pressa sobretudo do inglês.
Entre os principais utilizadores do site contam-se: jornalistas, publicitários, informáticos, economistas, médicos, arquitetos, juristas, professores e alunos de vários níveis de ensino. Também já o consultei e fiz, em tempo, um pequeno reparo.
***
Sobre a vida deste consultório da língua, José Mário Costa, coautor (com Maria Regina Rocha) do livro Cuidado com a Língua! (RTP) e cofundador do Ciberdúvidas, acentua no aniversário, o que acontece com “dificuldades” e “sobressaltos de percurso, relacionados com o financiamento de um projeto desta natureza”. O projeto já teve meia centena de colaboradores, ainda que não fossem mais de 20 os que respondiam regularmente. Os demais eram e são consultores a quem se recorria e recorre para pareceres. Atualmente, apenas cinco continuam a responder, mas pro bono, e contam com a colaboração do diretor executivo do projeto Carlos Rocha, professor destacado para o efeito pelo Ministério da Educação e Ciência.
O projeto contara com o patrocínio dos CTT (Correios de Portugal), até outubro de 2012, e da Fundação Vodafone Portugal, até outubro de 2013. Recebe ainda o apoio logístico da Universidade Lusófona, em cujas instalações sem Lisboa funciona, mais precisamente na Escola Superior de Educação Almeida Garrett, bem como do Ministério da Educação e Ciência, que destacou, além do diretor, a professora Ana Martins. Também, em 2012, A Secretaria de Estado da Cultura, titulada então por Francisco José Viegas, atribuiu a este consultório da língua um pequeno subsídio.
Os parcos apoios atuais são ainda o da Câmara Municipal de Lisboa, que cedeu um espaço para a biblioteca, e o esforço pecuniário auferido com base nos donativos decorrentes da campanha SOS Ciberdúvidas, iniciativa “dos consulentes mais dedicados”, que tiveram a ideia em razão da falta de apoios financeiros oficiais permanentes e consistentes.
Entretanto, uma parceria estabelecida com o ISCTE-IUL, neste novo ano de 2015, permitirá a melhoria substancial da consulta do portal, com um arquivo de mais de 40 mil conteúdos (que integram “opinião pura, fonética, acordo ortográfico, etc.), entre respostas e os textos mais diversificados sobre a língua portuguesa ao longo dos seus 18 anos de funcionamento.
Segundo José Mário Costa, “o Ciberdúvidas apoia-se nos dicionários mais vai sempre mais além”.
***
Ao Ciberdúvidas está associado o projeto da Ciberescola da Língua Portuguesa, também de acesso gratuito e especialmente dirigido a alunos e professores do sistema educativo português dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário.
Atualmente, a Ciberescola já apoia 70 alunos, filhos de imigrantes, com dificuldades no domínio do português, envolvendo cinco agrupamentos de escolas em Lisboa, Porto e Algarve. Além da vertente de apoio casuístico, a Ciberescola ministra cursos de língua portuguesa, via Internet, para estrangeiros.
***
O Público de hoje traz dois registos, que se transcrevem por curiosidade: o registo da primeira pergunta recebida pelo Ciberdúvidas; e o registo da mais recente.
Sobre a primeira, diz-se que foram várias numa só: “Glicemia ou glicémia?/ Acromegália ou acromegalia?/ Leucémia ou leucemia?/ (...).
Quanto à mais recente, o registo refere: “Qual o género gramatical do termo ‘relé’ [electroíman]”?
E o resumo da resposta: “(...) é um substantivo do género masculino. (...) As fontes consultadas também registam relé no género feminino, mas trata-se de uma variante de ralé, ‘gente considerada de baixa condição moral, cultural e social’ (...)”.

Ora, ao contrário do que usualmente acontece em Portugal – o que é bom, dura pouco tempo – espera-se que o Ciberdúvidas tenha longa vida.