terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Na penúria e de estômagos vazios, não se vê a luz a brilhar

 

A Palavra de Deus do 5.º domingo do Tempo Comum no Ano A desafia-nos a ser a “luz” que brilha e que ilumina o Mundo com as cores de Deus, sendo deste modo que devemos marcar a nossa passagem pela Terra.

***

Na primeira leitura (Is 58,7-10), um profeta do século VI a.C. insta os habitantes de Jerusalém a serem uma luz de Deus que ilumina a noite do Mundo. Para tanto, não podem oferecer a Deus o espetáculo de uma religião feita de rituais vazios e desligados da vida, porque ser luz de Deus requer a partilha do pão com os famintos, a proximidade com os injustiçados, o cuidado daqueles de que ninguém cuida, o testemunho da misericórdia e da bondade de Deus junto de quem sofre.

O jejum é, no universo veterotestamentário, um ato religioso. Pela sua prática, o crente exprime a Deus, a humildade, a entrega, o amor. Privar-se de alimento significa a disponibilidade do fiel para renunciar ao egoísmo, para se humilhar, para se purificar e converter a Deus, para Lhe obedecer, para se entregar-se nas suas mãos, para acolher a sua ação e o seu dom.

Os habitantes de Jerusalém esperavam, com repetidos jejuns, agradar a Deus e obter a intervenção de Deus para que tudo lhes corresse bem. Todavia, ante a falta de resposta de Deus, insurgiam-se e que perguntavam para que servia o jejum e a humilhação, se Deus não lhes prestava atenção.

Deus, através do profeta, explica-Se: “No dia do vosso jejum, só cuidais dos vossos negócios e oprimis todos os vossos empregados. Jejuais entre rixas e disputas, dando bofetadas, sem dó nem piedade. Não jejueis como tendes feito até hoje, se quereis que a vossa voz seja ouvida no alto.”

Isto significa que o jejum, misturado com a exploração dos pobres e com violências, se torna um mero ato exterior sem significado, uma farsa que proclama o que não se sente, nem se vive. Tal jejum não agrada a Deus, não chega ao céu, ao coração de Deus, porque é uma mentira.

O jejum que Deus aceita e que Lhe agrada é o cumprimento dos deveres morais e humanos, para a libertação dos oprimidos, para a eliminação da injustiça, da violência e dos gestos de ameaça.

O trecho em apreço, que define o jejum autêntico, o que agrada a Deis, postula que se reparta o pão com os pobres e que se elimine a opressão, a injustiça, a violência, os gestos de ameaça. Trata-se de viver segundo os compromissos do âmbito da Aliança, obedecendo aos mandamentos de Deus. Só então o culto fará sentido e será expressão de amor a Deus e Deus voltará o coração e o rosto para o povo, virá ao encontro de Judá e caminhará com o povo (“então, se chamares, o Senhor responderá, se o invocares, dir-te-á: ‘aqui estou’.”). Vivendo de acordo com as indicações de Deus, Judá será uma luz que brilha no meio do Mundo; e as feridas do Exílio e do pecado ficarão definitivamente curadas.

Deus não está interessado numa religião feita de liturgias solenes, de gestos teatrais vazios de significado. Javé chamou Israel, libertou-o da escravidão, fez com ele uma Aliança, enviou-lhe os profetas para que fosse luz de Deus a brilhar entre as nações. Ora, com gestos concretos, sinceros, justos, compassivos, saídos do coração que ama Deus e obedecem aos seus mandamentos, que o povo de Deus testemunhará, no Mundo a bondade, a misericórdia e o amor de Deus. Porém, na penúria e de estômago vazio, não se vê qualquer luz.

***

No Evangelho (Mt 5,13-16), Jesus recorre a duas metáforas para definir os contornos da missão a confiar aos discípulos. Os que integram a comunidade do Reino de Deus devem ser “sal da Terra” e “luz do Mundo”. Com as suas boas obras, devem dar sabor à vida e fazer desaparecer as sombras que trazem sofrimento à vida dos irmãos.

O grupo dos discípulos, gente pobre e pouco influente, que aceita viver o espírito das bem-aventuranças não se irá diluindo, irremediavelmente, no meio do vasto império romano, sem conseguir contagiar o Mundo com a proposta que recebeu de Jesus. Jesus acredita que, apesar da grandeza da tarefa e da hostilidade do Mundo, os membros da comunidade do Reino farão a diferença. Di-lo através de duas metáforas simples, audazes e surpreendentes: “Vós sois o sal da Terra”, “vós sois a luz do Mundo”.

O sal tornou-se, para nós, elemento tão normal que não o valorizamos convenientemente. Até o dispensamos por fazer mal à saúde. Porém, na Antiguidade, era algo bem precioso, de tal modo que os soldados romanos chegavam a receber o seu soldo pago em sal (o “salário”). Servia para dar sabor aos alimentos, transformando alimentos insípidos em alimentos saborosos, e era usado para a conservação dos alimentos, assegurando-lhes incorruptibilidade. Nesse sentido, usava-se a imagem do sal para significar o valor durável de um contrato: “aliança de sal” queria dizer “contrato duradouro”, imperecível, não afetado pela corrupção dos elementos. Também era habitual colocar-se uma placa de sal nos fornos de terra, como substância capaz de catalisar o calor. Com o tempo, a placa ia perdendo a capacidade catalisadora, ficando esse sal inutilizado. Jesus estaria a referir-se a isto, quando falou do sal que se desvirtua e deixa de ser utilizado para o fim em vista, mas também à perda da capacidade de salgar, por via da saturação pela acumulação de alimentos, ao longo do tempo. Era por isso que tinha de se substituir o sal de vez em quando. Já os discípulos não são substituíveis, devendo ser fiéis até ao fim.

Com a imagem do sal, Jesus queria dizer que os discípulos são chamados a trazer ao Mundo algo que este não tem e que dá sabor à vida humana; e pretendia dizer que, da fidelidade ao programa das bem-aventuranças, depende a perenidade da Aliança entre Deus e os homens e a permanência do desígnio salvador e libertador de Deus no Mundo, e que os discípulos têm como missão iluminar e aquecer o Mundo com a verdade do Evangelho.

Se, porém, os discípulos se recusarem a ser sal, demitindo-se das suas responsabilidades, o Mundo ficará privado dos dons de Deus, continuará a conduzir-se por critérios de egoísmo, de injustiça, de violência, de perversidade, e estará cada vez mais distante da realidade do Reino que Jesus veio inaugurar. Então, os discípulos, com o seu desleixo, com a sua preguiça, com a sua recusa em cumprir a missão que lhes foi confiada, terão defraudado, gravemente, o desígnio de Deus e as esperanças dos homens.

Por seu turno, a metáfora da luz era notória no judaísmo. Jesus explicita-a em duas imagens.

A imagem da cidade situada sobre um monte, que não se pode ocultar, leva-nos a Is 60,1-3, onde se fala da luz de Deus que devia brilhar sobre Jerusalém e, a partir de lá, iluminar todos os povos. A interpretação judaica do segmento textual “as nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora” aplicava a frase a Israel, o Povo de Deus que devia ser o reflexo da luz libertadora e salvadora de Javé diante de todos os povos da Terra. A imagem da lâmpada colocada sobre o candelabro, para alumiar a todos os que estão em casa, repete e explicita a mensagem da primeira, mas sublinha que esconder a luz de Deus priva o Mundo da referência de que os homens precisam. Teremos uma alusão ao “Servo de Javé” de Is 42,6 e 49,6, cuja missão consiste em ser, com a sua entrega e com o seu testemunho, a “luz das nações”.

No Evangelho de João, quem é apresentado como “a luz” é Jesus (“Eu sou a luz do Mundo. Quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”). Então, os discípulos – os que aderem a Jesus e são iluminados pela luz de Jesus – participam da missão de Jesus. Os que vivem o espírito das bem-aventuranças e aderem ao Reino de Deus são, como Jesus, luz que ilumina o Mundo e aponta caminhos aos homens. De acordo com Mateus, a luz recebida de Jesus deve manifestar-se, não só em belas palavras, mas também nas boas obras que praticam e que testemunham o amor, a bondade, a ternura, a misericórdia de Deus. Essas boas obras são as que Mateus apresenta na segunda parte das bem-aventuranças: a misericórdia, a pureza de coração, a construção da paz, a luta pela justiça.

Dessa forma, a comunidade do Reino, o novo povo de Deus, será a “nova Jerusalém”, a “cidade santa”, a partir da qual a luz de Deus brilha sobre as nações, elimina as sombras do Mundo e faz irradiar sobre todos os povos a salvação de Deus. Contudo, a visibilidade que Jesus pede aos discípulos não postula que procurem lugares privilegiados, onde podem exibir-se ante o Mundo e concitar aplausos, benefícios e recompensas; significa, apenas, que devem desempenhar a sua missão profética sem interrupção, deixando, a cada momento, ao Mundo e aos homens as interpelações e os desafios de Deus. De resto, a vida de Deus manifesta-se na fraqueza, na humildade, na simplicidade, na pequenez.

Vivendo como “sal da Terra” e “luz do Mundo”, os discípulos de Jesus serão fermento da nova Humanidade. Com as boas obras, anunciarão o Mundo que há de vir, o Mundo de Deus, novo de vida e de felicidade sem fim, que espera todos os que acolhem a salvação.

***

Na segunda leitura (1Cor 2,1-5), o apóstolo convida os Coríntios a agarrarem-se à “sabedoria de Deus” e a prescindirem da “sabedoria do Mundo”. A salvação não vem de belas palavras, de sistemas filosóficos bem elaborados ou de qualidades humanas dos arautos da mensagem salvífica, mas do amor de Deus, expresso na cruz onde o Filho de Deus ofereceu a vida e nos deixou a lição do amor até ao extremo. Paulo é testemunha privilegiada dessa mensagem: viver a partir da loucura da cruz dá pleno sentido à vida do homem.

Paulo foi enviado por Deus a anunciar o Evangelho de Jesus na cidade de Corinto. Porém, seja como evangelizador, seja como ser humano, desenvolveu a missão que lhe foi confiada, apoiando-se apenas em Deus, sabendo que não podia contar muito com as suas próprias forças e com as suas poucas qualidades. Como evangelizador, não se apresentou com palavras grandiosas, com discursos sublimes, com filosofias elaboradas e coerentes, mas com toda a simplicidade para anunciar o paradoxo de um Deus frágil, que morreu numa cruz, rejeitado por todos. Ora, apesar das poucas qualidades humanas do evangelizador, em Corinto nasceu uma comunidade cristã motivada e comprometida, cheia de força e de fé. E, como homem, apresentou-se cônscio da sua fraqueza, assustado e cheio de temor.

Não foi pela sedução da sua personalidade arrebatadora, pelas suas brilhantes qualidades de orador, nem pelo brilho e coerência da sua exposição ou do seu pensamento que os Coríntios se sentiram atraídos por Jesus e pelo Evangelho. Abraçaram a fé – difícil de digerir, visto que se baseia no estranho caso de um Deus que morre na cruz para dar vida aos homens – porque a força de Deus se impõe, muito além dos limites do homem que apresenta a proposta ou do ouvinte que a escuta. O Espírito de Deus está presente e age no coração dos crentes, de modo que eles não se fiquem pelos esquemas da sabedoria humana, mas se deixem tocar pela sabedoria de Deus.

Os Coríntios devem ter claro que a salvação não vem da sabedoria do homem, das palavras bonitas do homem, ou das qualidades do homem; a salvação vem de Deus, vem do amor de Deus mostrado aos homens na cruz onde Jesus ofereceu a vida. A loucura da cruz manifesta a “sabedoria de Deus”. É nessa loucura e nessa sabedoria que os Coríntios devem apostar, pois é aí que está a chave da salvação e da plena realização do ser humano.

***

Também Leão XIV comentou esta Liturgia da Palavra, nos ternos seguintes:

“Proclamadas as bem-aventuranças, Jesus dirige-se aos que as vivem, dizendo que, graças a eles, a Terra já não é a mesma e o Mundo já não está na escuridão. ‘Vós sois o sal da Terra. […] Vós sois a luz do Mundo’ (Mt 5,13-14). É a verdadeira alegria que dá sabor à vida e traz à luz o que antes não existia. Esta alegria irradia de um estilo de vida, de um modo de habitar a Terra e de as pessoas viverem juntas que deve ser desejado e escolhido. É a vida que resplandece em Jesus, o novo sabor dos seus gestos e das suas palavras. Tendo-o encontrado, ‘parece insípido e opaco’ tudo o que se afasta da sua pobreza de espírito, da sua mansidão e simplicidade de coração, da sua fome e sede de justiça, que despertam misericórdia e paz como dinâmicas de transformação e reconciliação.

“O profeta apresenta uma lista de gestos concretos que põem fim à injustiça: partilhar o pão com o faminto, acolher em casa os miseráveis, os sem-abrigo, vestir quem vemos nu, sem esquecer os vizinhos e as pessoas da nossa casa. ‘Então – continua o profeta – a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se’. E vemos a luz, a que não se pode esconder, porque é grande como o sol que todas as manhãs afugenta as trevas; e uma ferida que, antes, ardia e, agora, está a cicatrizar.

“É doloroso perder o sabor e renunciar à alegria, mas é possível ter esta ferida no coração. Jesus parece avisar quem O escuta, que não renuncie à alegria. O sal que perdeu o sabor, diz ele, ‘não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens’. Quantas pessoas – e talvez já tenha acontecido também connosco – se sentem descartáveis, imperfeitas. É como se a sua luz tivesse sido escondida. Jesus, porém, anuncia-nos um Deus que nunca nos descartará, um Pai que guarda o nosso nome, a nossa singularidade. Qualquer ferida será curada ao acolhermos a palavra das Bem-aventuranças e ao voltarmos a caminhar pela via do Evangelho.

“São os gestos de abertura aos outros e de atenção que reacendem a alegria. Com certeza que, na sua simplicidade, colocam-nos em contracorrente. O próprio Jesus, no deserto, foi tentado por outros caminhos: afirmar a sua identidade, exibi-la, ter o Mundo a seus pés. Todavia, rejeitou os caminhos em que perderia o verdadeiro sabor, o qual encontramos todos os domingos no Pão partido: a vida doada, o amor que não faz barulho.

“Deixemo-nos alimentar e iluminar pela comunhão com Jesus. Sem qualquer tipo de ostentação, seremos como a cidade no monte, visível, convidativa e hospitaleira: a cidade de Deus, onde todos desejam habitar e encontrar a paz. A Maria, Porta do Céu, dirijamos o nosso olhar e oração, para que nos ajude a tornarmo-nos e a permanecermos discípulos do seu Filho.”

***

Por tudo, é bom louvar com o salmista e proclamar com o evangelista:

“Para o homem reto nascerá uma luz no meio das trevas.”

“Brilha aos homens retos, como luz nas trevas, / o homem misericordioso, compassivo e justo. / Ditoso o homem que se compadece e empresta / e dispõe das suas coisas com justiça.

“Este jamais será abalado; / o justo deixará memória eterna. / Ele não receia más notícias: /seu coração está firme, confiado no Senhor.

“O seu coração é inabalável, nada teme; / reparte com largueza pelos pobres, / a sua generosidade permanece para sempre / e pode levantar a cabeça com altivez.”

“Aleluia. Aleluia.”

“Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor: quem Me segue terá a luz da vida.”

2026.02.09 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário