sábado, 28 de fevereiro de 2026

Renúncia de que resultou uma lufada de ar fresco para a Igreja

 

Foi a 28 de fevereiro (há 16 anos) de 2013 que Bento XVI renunciou ao Sumo Pontificado, em consequência de uma sua declaração, datada de 10 de fevereiro, mas lida, em Latim, aos cardeais, no dia 11, com total surpresa para a Igreja e para o Mundo. Eis o texto da declaração:

Caríssimos Irmãos,

“Convoquei-vos para este Consistório, não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado, repetidamente, a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer, adequadamente, o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido, não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor, quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo, em mim, que tenho de reconhecer a minha incapacidade para  administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.

“Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração, vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora, confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente, no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.

“Vaticano, 10 de Fevereiro de 2013. Benedictus PP XVI”

***

A decisão de Bento XVI surpreendeu o mundo ao anunciar sua renúncia ao papado, um evento raro na História recente da Igreja Católica. Porém, ele não tinha forças para continuar. Aliás, mais tarde, confessaria ao seu biógrafo que mal dormia, desde a Jornada Mundial da Juventude, em Colónia, na Alemanha, em agosto de 2005, poucos meses depois de suceder a São João Paulo II como Papa.

Quase ao mesmo tempo que tornou pública a histórica renúncia, começaram as especulações sobre as suas causas últimas, pois sempre houve um crédulo círculo de teorias da conspiração que viam nessa decisão cuidadosamente pensada motivações obscuras, se não tramas, que continuariam durante o pontificado de Francisco.

Entretanto, em agosto de 2025, veio a público uma carta datada de 2014, na qual o papa alemão, falecido em 2022, escrevera ao teólogo italiano Nicola Bux, que interrogou Joseph Ratzinger sobre as dúvidas e incertezas pendentes, após a sua renúncia.

E nessa carta, relatada por “Katholisch”, “o Papa Emérito rejeita, firmemente, a especulação de que nunca renunciou ou que permaneceu no cargo como uma espécie de ‘antipapa’. Tais ideias são ‘absurdas’ e contradizem o ‘claro ensinamento dogmático-canónico’ da Igreja. Qualquer um que afirme o contrário ‘não é um verdadeiro historiador, nem um verdadeiro teólogo’. O Papa Emérito também considera infundadas as advertências de um cisma eclesiástico progressivo contidas na carta”. Aliás, penso eu, não é crível que Bento XVI tivesse sido tão claro, nas suas asserções públicas, e estivesse, nos bastidores, a tramar o inverso do que proclamara.

“A afirmação de que, com a minha renúncia, ‘renunciei apenas ao exercício do cargo e não também ao múnus’ contradiz a clara doutrina dogmática e canónica [...]. Quando alguns jornalistas falam de ‘cisma progressista’, não merecem atenção”, escreveu Ratzinger.

Embora a existência da carta já fosse conhecida, Bux publicou- a, em 2025 como apêndice, incluindo uma fotocópia do original, no livro “Realidade e Utopia da Igreja”, relata o Kath.net.

No mandato de Francisco (2013-2025), a legitimidade do seu pontificado foi, repetidamente, questionada, na Itália, especialmente, por grupos conservadores e tradicionalistas, como aponta o “Katholisch”, alegando alguns que Bento XVI não renunciou, voluntariamente, em 2013, mas pressionado ou impedido de exercer seu cargo.

Segundo essa teoria, o papado não estava realmente vago e Francisco não era o chefe legítimo da Igreja. Agora, tudo foi esclarecido, mas, para alguns, não será suficiente.

Quando Bento XVI renunciou ao cargo de Sumo Pontífice, acrescentou nova dimensão ao papado, disse o seu secretário pessoal Georg Gänswein, que permaneceu como prefeito da Casa Pontifícia, trabalhando diretamente com Bento XVI e com o Papa Francisco.

O arcebispo falou sobre o pontificado de Bento e das suas decorrências, na sua apresentação, de 20 de maio, do livro “Oltre la crisi della Chiesa” (“Além da Crise da Igreja”), do padre Roberto Regoli, historiador e professor da Pontifícia Universidade Gregoriana. O livro pretende ser a primeira avaliação do pontificado de Bento XVI baseada na História.

Gänswein ressaltou que havia apenas um Papa legítimo – Francisco. No entanto, durante os últimos três anos, os católicos têm vivido “com dois sucessores de Pedro vivos, entre nós”. Porém, disse que Bento e Francisco “não estão em concorrência um com o outro, por mais que ambos tenham uma presença extraordinária”. Para Gänswein, o anúncio da renúncia de Bento XVI, em 11 de fevereiro de 2013, marcou a introdução de nova instituição na Igreja Católica: o Papa emérito.

O Papa Bento usou uma frase-chave no seu discurso de renúncia: “Munus Petrinum”. Esta frase é, usualmente, traduzida como “ministério petrino”. De acordo com o arcebispo, a palavra latina “múnus” tem muitos significados: serviço, compromisso, guia, presente, até mesmo admiração. Assim, “Bento XVI considerou o seu comprometimento como uma participação nesse ministério petrino”, opinou o arcebispo, sustentando que “isso significa que deixou o sólio papal, mas não abandonou este ministério”.

Bento XVI, desde a renúncia, atuava “numa dimensão colegial e sinodal” e num “ministério comum” que parece ecoar seu lema episcopal e papal: “cooperatores veritatis” (“cooperadores da verdade”). Assim, desde a eleição de Francisco, não passou a haver dois papas, mas “um ministério, de facto, ampliado, com um membro ativo e outro contemplativo”.

Segundo o arcebispo, foi por isso que Bento não renunciou ao nome papal, nem abriu mão da batina branca, e é a razão pela qual o tratamento correto, para ele, era de ‘Vossa Santidade’. “Esta é, finalmente, a razão pela qual ele não se retirou para um mosteiro isolado”, mas permaneceu “dentro dos muros do Vaticano, como se, simplesmente, desse um passo ao lado, para dar espaço ao seu sucessor e a uma nova etapa na História do papado”, vincou Gänswein, sustentando que “esta é a forma como Bento XVI transformou, de maneira profunda e duradoura”, o ministério papal, durante o seu “pontificado excecional”.

Gänswein  refletiu sobre o significado da eleição de Bento XVI, alegando que a eleição foi, “certamente, o resultado de um choque”, cuja interpretação-chave havia sido feita pelo próprio cardeal Ratzinger, na sua homilia da missa pré-conclave, a 18 de abril de 2005. O então cardeal Ratzinger, refletindo sobre o choque de duas forças, criticou uma possível “ditadura do relativismo”, que não reconhece nada como definitivo e cujo objetivo final consiste, unicamente, no ego e no desejo de alguém”. Com isso, disse Gänswein , Ratzinger pôs em relevo os objetivos cristãos de Jesus Cristo, o Filho de Deus, e “o homem de verdade”, sendo esta “a medida do verdadeiro humanismo”.

O confronto entre o relativismo e o verdadeiro humanismo é sintetizado no que Gänswein chama “a luta dramática” entre dois partidos no conclave: um, o “Sal da Terra”, nome dado a partir do título de uma entrevista do tamanho de um livro feita com Ratzinger, reunindo os cardeais Lopez Trujillo, Ruini, Herranz, Rouco Varela e Medina Estevez; o outro,  o “grupo de São Galo”, reunido em torno dos cardeais Daneels, Martini, Silvestrini e Murphy-O’Connor. O segundo é o grupo, observou Gänswein, que o próprio Daneels, divertidamente, descreveu como ‘uma espécie de clube da máfia’. E Gänswein disse que “a ditadura do relativismo” está a ser divulgada, através de novos media, que mal poderiam ser imaginadas em 2005.

De uma vez por todas, Gänswein rejeitou a ideia de que Bento XVI tenha renunciado por causa dos escândalos ou do “ano negro” de 2010, que foi marcado por novos escândalos de abuso sexual do clero europeu, e em que houve controvérsias, como a do bispo lefebvrista Richard Williamson, cuja excomunhão foi levantada, sem o conhecimento das suas observações que minimizam o número de mortes de judeus no Holocausto.

Gänswein disse que havia, de facto, mais razões pessoais para o Papa considerar 2010 como “um ano negro”. Foi o ano da morte de Manuela Camagni, uma das quatro mulheres leigas consagradas pertencentes a Memores Domini e membro do grande movimento de Comunhão e Libertação, que faziam parte da Casa Pontifícia. Ela morreu, depois de ter sido atingida por um carro. “O sensacionalismo dos media desses anos, desde o caso Williamson até a onda de ataques crescentes contra o Papa, não o abateram tanto como a morte de Manuela”, disse Gänswein.

O mordomo papal, Paolo Gabriele, foi então exposto como a fonte de informações confidenciais sobre o papado, nomeadas pelas notícias de “Vatileaks”. E o arcebispo sublinhou como o Papa, chocado com a morte repentina de Manuela Camagni, acabou sofrer, também muito, com a traição de Paolo Gabriele.

Porém, Bento não renunciou, devido a esses fatores ou a outras “notícias picantes”. Em vez disso, como o ex-pontífice disse, no seu anúncio de renúncia, a decisão foi baseada na sua idade avançada e na diminuição da sua força, o que o levou a acreditar que não podia mais exercer o ministério que lhe fora confiado. “Nenhum traidor ou qualquer jornalista poderia pressionar o Papa a essa decisão”, salientou Gänswein , pois “o escândalo era muito pequeno”, em comparação com o “passo histórico bem ponderado” de Bento XVI, na sua renúncia.

***

Contudo, a renúncia papal são se ficou com o facto em si. Deu, sobretudo, ensejo a uma nova forma de expressão do Sumo Pontificado, com outra personagem de estilo diferente.

Com Francisco, a palavra “misericórdia” ganhou força. Ele insistiu que a Igreja não devia apontar erros, mas acolher. Enfrentou temas difíceis com coragem: abusos sexuais, migração, meio ambiente, desigualdade. Publicou encíclicas que desafiaram o poder económico dominante e chamou os fiéis a assumirem responsabilidades sociais concretas. O seu legado vai muito além das palavras: trata-se de transformação profunda em temas sociais, eclesiais e ambientais, com impactos duradouros.

Um dos conceitos centrais do pontificado de Francisco é o tema da “Igreja em saída”, apresentado na exortação apostólica Evangelii Gaudium (2013). Convocou a Igreja a sair de si mesma, a ir às periferias e a estar próxima dos que sofrem. A Igreja não pode ser autorreferencial; deve ser missionária, acolhedora e misericordiosa.

A opção preferencial pelos pobres é revitalizada com força e com constância. E Francisco enfatizou, com palavras e gestos, que os pobres não devem ser apenas objeto de caridade, mas protagonistas da sua própria História. Em 2016, instituiu o Dia Mundial dos Pobres, a celebrar, anualmente, como apelo à solidariedade e à ação concreta dos cristãos.

Francisco procurou reformar a própria estrutura eclesial. Deu ênfase à sinodalidade, ou seja, à escuta e à participação de todos os membros da Igreja – leigos, religiosos, bispos – nos processos decisórios. O Sínodo da Sinodalidade (2021-2024) representa um dos eventos mais emblemáticos da eclesiologia de Francisco, com ampla escuta e repercussão em todo Mundo católico.

Um dos legados mais inovadores de Francisco é a contribuição à ecologia integral, expressa na encíclica Laudato Si (2015), que não é apenas uma defesa ao meio ambiente, mas uma chamada à conversão ecológica, articulando justiça social e o cuidado com o planeta.

Em 2023, Francisco reforçou esse compromisso com a exortação apostólica Laudate Deum, que retoma os apelos da Laudato Si e desafia os lideres mundiais a agirem com urgência, ante a crise climática.

Francisco também se destacou no compromisso com o diálogo inter-religioso. Marco importante foi a visita aos Emirados Árabes Unidos, em 2019, onde assinou, com o grande imã de Al-Azhar, Ahmed el-Tayeb, o Documento sobre A Fraternidade Humana, em defesa da paz, do respeito mútuo e da convivência entre as religiões. As viagens a países, como o Iraque, Marrocos e Bahrein evidenciam diplomacia espiritual, baseada na escuta, no respeito e na dignidade humana.

Outro traço distintivo de Francisco foi a abordagem pastoral. Procurou acolher, antes de condenar, compreender, antes de julgar, o que é patente, por exemplo, na postura ante as pessoas LGBTQI, os divorciados recasados e outras situações consideradas irregulares pela tradição católica. Francisco introduziu nova linguagem e atitude, marcadas pela misericórdia.

A exortação Apostólica Amoris Laetitia (2016), resultado do Sínodo sobre a Família, abre espaço a discernimentos pastorais nos casos complexos, valorizando a consciência individual e o acompanhamento espiritual. Essa abordagem gerou tensões com setores mais conservadores, que o acusavam  de ambiguidade doutrinal. Porém, Francisco defendia que a fé não é uma ideologia, nem um conjunto de normas rígidas, mas experiência viva de encontro com Deus e com o próximo. Essas tensões revelam que a sua herança não é unanimidade, mas também que ele representa um ponto de inflexão na história da Igreja.

O legado de Francisco é múltiplo, complexo e profundamente humano. Revitalizou a centralidade do Evangelho como boa nova para os pobres, para os marginalizados e para a criação. O seu pontificado marcou um retorno às origens da fé cristã, com uma linguagem contemporânea, próxima e profética. Os seus gestos e palavras ressoaram como convite à conversão, não só moral ou doutrinal, mas existencial. Convidou a Igreja a ser menos rígida e mais compassiva, menos preocupada com estruturas e mais atenta às pessoas.

A História julgará o impacto duradouro de suas reformas, mas já é possível afirmar que Francisco deixou como herança uma nova forma de ser Igreja no mundo: mais sinodal, mais ecológica, mais aberta, mais fiel ao Evangelho. Tudo, fruto positivo de renúncia que parecia fuga!

2026.02.28 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário