No
dia 13 de fevereiro, durante o programa “Expresso da Meia-Noite” da SIC
Notícias, o ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro
Almeida, afirmou que o governo está disponível para entrar em défice
orçamental, se essa for a única forma de garantir os apoios às populações
afetadas pelas tempestades.
Neste aspeto, o governante foi assertivo, quando discorreu: “Se houver necessidade de fazer défice, para garantir condições de conforto e [de] bem-estar mínimo das pessoas, para garantir o relançamento da economia, para garantir que as empresas não vão fechar e que não vamos perder a capacidade exportadora que hoje temos. Se for necessário, teremos de chegar a isso. As contas certas são um objetivo que tem de estar ao serviço das pessoas.”
Neste aspeto, o governante foi assertivo, quando discorreu: “Se houver necessidade de fazer défice, para garantir condições de conforto e [de] bem-estar mínimo das pessoas, para garantir o relançamento da economia, para garantir que as empresas não vão fechar e que não vamos perder a capacidade exportadora que hoje temos. Se for necessário, teremos de chegar a isso. As contas certas são um objetivo que tem de estar ao serviço das pessoas.”
No
mesmo programa, Manuel Castro Almeida anunciou ainda, sem pormenores, novo apoio
às empresas em zonas de calamidade. “Vamos lançar um concurso só para as
empresas em zonas de calamidade, para que possam faze um ‘upgrade’, para que
possam ser mais fortes nos investimentos de recuperação”, explicitou.
O
primeiro-ministro, Luís Montenegro tinha garantido que o Plano de Recuperação e
Resiliência exclusivamente português (PTRR)
chegaria às contas dos afetados. Mais de oito mil famílias já pediram o cheque
de até 10 mil euros para a reconstrução das casas e duas mil submeteram pedidos
de ajuda à Segurança Social. A este respeito, Castro Almeida disse: “Ao fim de
15 dias, já havia pessoas que tinham dinheiro na conta. Foi uma rapidez nunca
vista.”
Entretanto,
o ministro de Estado e das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, em entrevista à RTP,
a 6 de fevereiro, admitia que os danos causados pelo mau tempo iriam ter um
“custo orçamental significativo”, mas assegurou que o governo tudo faria para
evitar o regresso ao défice.
Lembrando
que o Orçamento do Estado para 2026 (OE2026) foi delineado para ter um “pequeno
superavit”, realçou que a “tragédia [que se regista] um pouco por todo o país”
terá “um custo orçamental significativo, no lado da despesa”, e apontou
os apoios à população, a reconstrução de equipamentos públicos, como
estradas e ferrovias, e a perda de receita, com menos imposto sobre o valor
acrescentado (IVA), com menos imposto sobre o rendimento das pessoas singulares
(IRS) e com decréscimo de exportações. “Vamos ter um impacto orçamental
significativo, ainda não é possível estimá-lo. O caminho orçamental para o
equilíbrio das contas públicas era estreito, neste ano de 2026”, considerou
o governante, frisando que, apesar do resultado orçamental de 2025 ter sido “melhor
do que se previa, o caminho voltou a ficar bastante estreito” com o
cenário causado pelo mau tempo, mas garantindo que o governo tudo fará para
evitar o regresso ao défice e para manter contas públicas equilibradas.
Depois, falou da grande responsabilidade do governo e dos restantes atores políticos em
o país manter “o equilíbrio das contas públicas” e em “continuar a reduzir a dívida
pública”. E defendeu que os “bons resultados”, em 2024 e em 2025, dos governos
liderados por Luís Montenegro dão “confiança e credibilidade”, mas lembrou
que sempre antecipou que 2026 seria um ano “difícil do ponto de vista
orçamental”, por ter de executar 2,5 mil milhões de euros de empréstimos do Plano
de Recuperação e Resiliência (PRR).
Na
verdade, o comboio de tempestades causou mais da dezena e meia de mortos,
muitas centenas de ferimentos, desalojamento, deslocação e alojamento
provisório de milhares de pessoas, a destruição total ou parcial de casas, de empresas
e de equipamentos, queda de inúmeras árvores e de estruturas, o fecho de
estradas e de vias férreas, de escolas, e a supressão de serviços de transporte
e o corte de energia, de água e de comunicações.
As
regiões Centro, Grande Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O
governo prolongou a situação de calamidade (que foi, inicialmente, decretada,
entre 28 de janeiro e 1 de fevereiro, para 60 concelhos; e, depois, estendida
até ao dia 8, para cerca de 60 concelhos) até ao dia 15 de fevereiro, para 68
concelhos, que beneficiarão de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
***
Contudo,
a 16 de fevereiro, ao contrário do ministro da Economia e da Coesão
Territorial, embora sem estimativas sobre a dimensão do impacto orçamental
causado pelas tempestades, o ministro do
Estado e das Finanças não quis falar em défice e manteve o propósito do governo
de tudo fazer para manter as contas certas. A este respeito, declarou aos
jornalistas, em Bruxelas, à entrada para a reunião de ministros das Finanças da
Zona Euro: “Nós tudo faremos, dentro daquilo que é o apoio necessário de
emergência e de reconstrução, para manter o equilíbrio das contas públicas e a
redução da dívida pública, sabendo, agora, que temos mais um desafio pela
frente, mas é muito importante para o país que esse equilíbrio se mantenha.”
Miranda Sarmento recusa antecipar cenários de défice e diz continuar a “trajetória de equilíbrio orçamental”, remetendo para março respostas sobre a dimensão do impacto das tempestades nas contas públicas e advertindo para a necessidade de se fazerem escolhas. “Em função dessa dimensão, naturalmente o país tem de fazer escolhas. É muito importante manter o equilíbrio das contas públicas e a redução da dívida pública, mas também é muito importante acudir a estas pessoas na emergência e, depois, na sua reconstrução e na sua recuperação da atividade económica. Esse equilíbrio tem de ser feito a cada momento”, afirmou.
Miranda Sarmento recusa antecipar cenários de défice e diz continuar a “trajetória de equilíbrio orçamental”, remetendo para março respostas sobre a dimensão do impacto das tempestades nas contas públicas e advertindo para a necessidade de se fazerem escolhas. “Em função dessa dimensão, naturalmente o país tem de fazer escolhas. É muito importante manter o equilíbrio das contas públicas e a redução da dívida pública, mas também é muito importante acudir a estas pessoas na emergência e, depois, na sua reconstrução e na sua recuperação da atividade económica. Esse equilíbrio tem de ser feito a cada momento”, afirmou.
O
discurso dos dois governantes mostra a tendência usual de um interventivo
ministro da Economia e da Coesão Territorial, que vê a necessidade (no caso
vertente, a urgência) de “puxar” pelo país, cuja população está, em parte, na
penúria, e cujas infraestruturas precisam de reconstrução e de um paradigma
diferente de construções em, praticamente, todas as áreas. A situação não se
compadece com o habitual fecho da bolsa das despesas públicas.
Contudo,
a esta postura, necessariamente, despesista contrapõe-se o zelo crasso do
ministro das Finanças pelas contas certas, num difícil equilíbrio entre a
compaixão por quem sofre e a necessidades de controlar a despesa. E a insistência
em que o país tem de fazer escolhas (errática), em explicitar em que termos, é
inadequada, no mínimo, num contexto económico e social como este. É lícito
optar entre responder à crise ou salvar as finanças?
***
O
ministro das Finanças aduz, com razão, que ainda não é possível saber quanto
custará a resposta à crise. “Ninguém pode dizer, com certeza absoluta ou, pelo
menos, com uma elevada certeza, qual é o impacto económico e orçamental destas
tempestades. Isso só se saberá dentro de algumas semanas”, justificou aos
jornalistas, em Bruxelas, antecipando que, a 10 de março, quando voltar para a
reunião de Ministros das Finanças da Zona Euro, já haverá mais informação.
Até lá, o governo irá perceber o efeito na receita, com a diminuição da atividade económica nas regiões afetadas, a que se juntam as despesas com os apoios de lay-off, com os apoios às famílias e todos os custos de reconstrução dos equipamentos públicos, das estradas, da ferrovia, dos equipamentos municipais e das escolas.
Até lá, o governo irá perceber o efeito na receita, com a diminuição da atividade económica nas regiões afetadas, a que se juntam as despesas com os apoios de lay-off, com os apoios às famílias e todos os custos de reconstrução dos equipamentos públicos, das estradas, da ferrovia, dos equipamentos municipais e das escolas.
Questionado
sobre se a escolha é entre défice e apoios às regiões afetadas, respondeu que “as
escolhas nunca são binárias”, e que “há um impacto orçamental que tem de ser
considerado”.
Quanto ao montante e à dimensão do PTRR – o programa de recuperação e resiliência com
fundos portugueses – também não fala em números; e não quer para falar em
orçamentos retificativo. Admite, contudo, que foi a Bruxelas sensibilizar os
colegas para o impacto que fenómenos climáticos extremos tiveram em Portugal, em
fevereiro, e para a necessidade de a União Europeia (UE ) apoiar e garantir
flexibilidade ao país. No entanto, não especificou em que mecanismos Portugal
vai pedir flexibilidade.
Bruxelas
já mostrou disponibilidade para rever a utilização das verbas do PRR e para
negociar com a reprogramação dos fundos de coesão; e as regras orçamentais
permitem flexibilidade em situações extraordinárias (por exemplo, aumentar
investimento em defesa) e de crise.
***
Ainda
estão por fazer as contas dos efeitos das tempestades, mas o governo já prepara
o discurso: o impacto na economia será enorme e tudo indica, segundo alguns
analistas, que atirará as contas públicas para o vermelho. Por outras palavras,
2026 já seria muito exigente, mas
fica muito mais difícil o equilíbrio orçamental, dado o impacto na receita e na
despesa.
A 6 de fevereiro, o primeiro-ministro apontou uma estimativa de prejuízos causados pelo mau tempo, num montante que ultrapassa os quatro mil milhões de euros Luís Montenegro, garantindo que o governo recorrerá a “todos os instrumentos financeiros” possíveis.
A 6 de fevereiro, o primeiro-ministro apontou uma estimativa de prejuízos causados pelo mau tempo, num montante que ultrapassa os quatro mil milhões de euros Luís Montenegro, garantindo que o governo recorrerá a “todos os instrumentos financeiros” possíveis.
Além
da quebra de receita fiscal e contributiva das empresas que pararam a atividade
e das afetadas por falta de fornecimento, o governo prevê “forte quebra na
receita de IVA e de IRS, bem como IRC [imposto sobre o rendimento das pessoas
coletivas] nos pagamentos por conta”. Além disso, as famílias terão quebra
de rendimento, pelo que vão consumir menos. Por isso, o mote é “Vamos fazer todo o esforço para
manter as contas públicas equilibradas, mas o caminho está muito estreito: Isto
vai custar muito dinheiro.”
Em
dezembro, o Banco de Portugal (BdP) estimava um défice orçamental de 0,4%, em
2026, enquanto o governo previa o saldo positivo de 0,1%, antecipando possível
derrapagem.
As
contas de 2025 devem fechar com um superavit de 0,3% – que era a
previsão inicial do Executivo – e uma dívida de 90% do produto interno bruto (PIB).
Em contraponto, o ano de 2026 tem sido descrito, pelo governo como pelo
Presidente da República, como “o ano de todos os perigos”, a nível
orçamental, com a execução da componente de empréstimos do PRR – cujo impacto o
Conselho das Finanças Públicas calculava nos 0,6% do PIB – a pesar nas contas
públicas. Além disso, não são quantificadas, no OE206, outras rubricas de
despesa potencial, como a despesa em defesa ou em medidas de habitação, que já
enegrecem o panorama.
Sem
refletir algumas medidas de despesa, mas reconhecendo o impacto negativo do
PRR, o governo inscreveu, no cenário-base do OE2026, um saldo positivo de 0,1%
do PIB para 2026. E, recentemente, em entrevista à Rádio Renascença e ao
jornal Público, o ministro das Finanças reiterou que este seria sempre
um ano complicado e preparou o terreno para se abandonar a ideia de que haverá
novo superavit, ao fim do ano.
Para
justificar tal mudança de rumo, o governante recordou que o impacto das
tempestades se fará sentir do lado da despesa pública, com o custo da
reconstrução e dos apoios financeiros às famílias e às empresas, e do lado da
receita pública, com o abrandamento da atividade económica decorrente de
empresas com capacidade produtiva aniquilada pelas intempéries e impedidas de
laborar, durante semanas ou meses. E recordou, para ilustrar a dimensão do
risco, que os distritos de Leiria e de Coimbra significam quase 10% da receita
fiscal e contributiva.
Mesmo
assim, não afastou, por completo, a possibilidade de novo excedente, mas preferiu
falar de saldo equilibrado. Na verdade, Miranda Sarmento está a contar com um
“bónus” orçamental não previsto no OE2026, pois dados recentes da Entidade
Orçamental sugerem que a execução orçamental de 2025 superará o saldo positivo,
em contabilidade nacional, de 0,3% do PIB originalmente antecipado pelo
Ministério das Finanças. Isso não é surpresa, visto que o próprio ministro tem
admitido, em várias intervenções públicas, um superavit de, pelo menos, 0,3%.
Por outro lado, alguns analistas apontam para um saldo de montante superior ao
estimado pelo governo. Porém, a avaliação final caberá ao Instituto Nacional de
Estatística (INE) e ao Eurostat que, em março, anunciarão os números preliminares
para 2025.
***
Prevendo
crises futuras, o governo diz que tenciona criar um fundo para catástrofes
naturais e sismos. A revelação surgiu, no dia 5 de fevereiro, pela mão do
ministro das Finanças, na referida em entrevista à Rádio Renascença e ao
jornal Público. A ideia é que esse fundo seja criado em breve e
financiado através da cobrança de taxa extra sobre os seguros para a
habitação e para equipamentos que cubra este tipo de riscos que não
estejam cobertos.
Miranda Sarmento, sustentando que “o país precisa deste fundo”, porque estas catástrofes (antes, raras), estão a acontecer “com alguma regularidade e, provavelmente, vão acontecer mais e com mais severidade”, adiantou que este é um tema que já conversou com o presidente da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões e lembrou que já existe, na Espanha, desde os anos 1960. Será resposta à sugestão do chefe do Estado de “um fundo de calamidade?
Miranda Sarmento, sustentando que “o país precisa deste fundo”, porque estas catástrofes (antes, raras), estão a acontecer “com alguma regularidade e, provavelmente, vão acontecer mais e com mais severidade”, adiantou que este é um tema que já conversou com o presidente da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões e lembrou que já existe, na Espanha, desde os anos 1960. Será resposta à sugestão do chefe do Estado de “um fundo de calamidade?
Considerando
que, na primeira fase, o fundo contará com valor muito reduzido, mas que deverá
engordar, ao longo do tempo, discorreu que, se tivesse sido criado, há 40 anos,
“hoje, estaria bem capitalizado e permitir-nos-ia ter um poder de fogo, de
intervenção, nesta tragédia”.
Paralelamente,
os líderes do setor segurador entregaram declaração conjunta ao governo
“saudando o anúncio da criação de um Sistema Nacional Integrado de
Proteção em caso de Catástrofes Naturais” e apelam ao poder político para
que a matéria seja assumida como uma prioridade estratégica de interesse
público. Esta declaração surgiu na sequência da referida entrevista de Miranda
Sarmento, em que defendeu a criação do Fundo de Catástrofes Naturais, uma
extensão do muito estudado Fundo Sísmico, iniciativa em gestação, há 15 anos,
que foi entregue ao ministro das Finanças em 2025.
Segundo
um comunicado da Associação Portuguesa de Seguradores (APS), “nos últimos 20
anos, o setor segurador português pagou mais de mil milhões de euros em
indemnizações associadas a eventos climáticos extremos”, tendo mais de 60%
desse valor sido atribuído na última década, evidenciando a tendência de
agravamento. Porém, segundo a APS, os montantes indemnizados representam apenas
uma pequena fração das perdas, “revelando a lacuna de proteção que expõe a
sociedade portuguesa à crescente severidade das catástrofes naturais”.
Por
conseguinte, a APS manifesta total disponibilidade para colaborar com o
Estado e com as entidades competentes na definição de um modelo nacional de
proteção robusto e sustentável, “assente em princípios de solidariedade,
prevenção e partilha de riscos”.
***
É
de ver que PTRR, Fundo de Catástrofes e outras coisas mais cairão na conta dos
contribuintes (nomeadamente, clientes da banca e das seguradoras), mas é
preciso reconstruir o presente e acautelar o futuro. Seja como for, só não
haverá défice, nem aumento da dívida pública, se todas as despesas de resposta
à crise ficarem fora do OE2026 e de anos subsequentes.
Porém, resta uma questão: Por que não é a banca chamada a contribuir para a reconstrução do país, quando o Estado se atravessou para a salvar, na crise de 2011, impondo sacrifícios colossais aos cidadãos? Bastará alguns bancos terem anunciado umas migalhas?
Porém, resta uma questão: Por que não é a banca chamada a contribuir para a reconstrução do país, quando o Estado se atravessou para a salvar, na crise de 2011, impondo sacrifícios colossais aos cidadãos? Bastará alguns bancos terem anunciado umas migalhas?
2026.02.16
– Louro de Carvalho
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