quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

ONU declarou 2026 Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores

 

A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2026 o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, para salientar a importância das pastagens na criação de um ambiente sustentável, de crescimento económico e de meios de subsistência resilientes para as comunidades, em todo o Mundo. Assim, a iniciativa tem em vista sensibilizar para o valor das pastagens ​​e do pastoreio sustentável e promover esta atividade, bem como defender a necessidade de fortalecer mais a capacidade da pecuária pastoril e de aumentar o investimento responsável no setor.
Tal objetivo postula a adoção de práticas sustentáveis ​​de maneio da terra, a melhoria ou a restauração de ecossistemas, o acesso equitativo aos mercados e a saúde e a reprodução do gado. Como agência líder, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) é responsável pela organização do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores.
Por conseguinte, as celebrações da FAO mobilizarão ações e parcerias, a nível global, ao longo de 2026, para destacar dois dos pilares vitais dos sistemas agroalimentares: a gestão sustentável das pastagens e os contributos, muitas vezes invisíveis, das mulheres agricultoras. Com efeito, 2026 foi designado, por resoluções da Assembleia Geral da ONU, Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores (IYRP 2026) e Ano Internacional da Mulher Agricultora (AMIA 2026).
Teresa Silveira, em artigo intitulado “FAO declara 2026 o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores e o ​​​​Ano Internacional da Mulher Agricultora”, publicado, a 3 de dezembro de 2025, na “Meteored Portugal”, referiu que a FAO agendara o início das duas comemorações das Nações Unidas para 2026, com eventos de lançamento de alto nível, na sua sede, nos dias 2 e 4 de dezembro de 2025, à margem do Conselho da FAO (1 a 5 de dezembro).
Durante o ano, a FAO quer mobilizar várias ações e parcerias, em múltiplos países, com vista a sublinhar os dois pilares vitais dos sistemas agroalimentares: a gestão sustentável das pastagens e os contributos, muitas vezes invisíveis, das mulheres agricultoras de todo o Mundo.
As pastagens cobrem, aproximadamente, metade da superfície terrestre e albergam uma biodiversidade única, assim como serviços de ecossistema, que são essenciais para milhões de famílias de pastores por todo o Mundo.
Os pastores gerem os recursos naturais, através da mobilidade, do conhecimento tradicional e de práticas adaptativas que promovem a coesão territorial e contribuem para a mitigação das alterações climáticas, para a fertilidade do solo e para a obtenção de meios de subsistência resilientes. Todavia, nem tudo funciona bem, no mundo rural. Por um lado, há pastagens de origem desastrosa, como as da floresta amazónica, por via dos incêndios, da desflorestação ao serviço dos grandes interesses privados e do aquecimento global. Por outro, a pastorícia enfrenta crescentes pressões decorrentes da conversão de terras, dos choques climáticos e da degradação ambiental, como relata a FAO, no comunicado que emitiu, ao anunciar 2026 como Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores.
Em Portugal, por exemplo, as pastagens são componente crucial da agricultura, ocupando cerca de 60% da superfície agrícola utilizada (SAU), sobretudo, com pastagens permanentes. E, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), de 2020, a área de pastagens permanentes, em Portugal, cresceu 14%, face ao último recenseamento agrícola (de 2009).
O evento de lançamento, pela FAO, do IYRP 2026 contou com o discurso de abertura, em 2 de dezembro, do diretor-Geral da FAO, QU Dongyu, seguido de declarações de alto nível, por parte de Khurelsukh Ukhnaa, presidente da Mongólia, e de Matías Carambula, vice-Ministro da pecuária, Agricultura e Pescas do Uruguai.
O programa incluiu dois painéis de debate com representantes de instituições de investigação, com organizações de pastores e com redes internacionais. Houve ainda uma exposição conjunta, que estará patente, durante quatro dias, no átrio da sede da FAO, em Roma (Itália).
No dia 4 de dezembro, a FAO promoveu a cerimónia de lançamento do Ano Internacional da Mulher Agricultora, que também é assinalado em 2026.
O evento, coorganizado pela Jordânia, pela Irlanda e pela FAO, incluiu o discurso de abertura do economista-chefe da FAO, Máximo Torero, declarações de alto nível de representantes do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e do Programa Alimentar Mundial (PAM), um discurso da Princesa Basma bint Ali, embaixadora regional da Boa Vontade da FAO, e uma palestra de Sinéad McPhillips, secretária-geral do departamento de Agricultura, Alimentação e Marinha da Irlanda.
Tratou-se de um conjunto de palestras que pretendeu destacar as mulheres líderes de empresas rurais, de redes de agricultores e de órgãos parlamentares regionais. “As mulheres agricultoras são indispensáveis para os sistemas agroalimentares globais, contribuindo significativamente para a produção de alimentos, [para a] nutrição e [para as] economias rurais”, diz a FAO.
O evento inaugurou também uma exposição conjunta com o IYRP 2026, no átrio da FAO, em Roma, apresentando produtos, fotografias e performances de mulheres agricultoras e comunidades pastoris.
Para a FAO não há dúvidas: “As mulheres agricultoras são indispensáveis para os sistemas agroalimentares globais, contribuindo, significativamente, para a produção de alimentos, para a nutrição e para as economias rurais.” Apesar disso, a organização liderada por QU Dongyu sustenta que elas “continuam a enfrentar grandes barreiras no acesso à terra, ao financiamento, à tecnologia, à formação e aos espaços de decisão”.
O AMIA 2026 convoca, assim, os vários países do Mundo para ações transformadoras a fim de reduzir as desigualdades de género e de promover a liderança e o empoderamento das mulheres, em todos os sistemas agroalimentares.
Em Portugal, as mulheres estão a assumir um papel cada vez mais relevante na agricultura e na vitalidade das zonas rurais. Os dados divulgados pela Corteva Agriscience e pela Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), em novembro de 2025, dão conta que “33,3% das explorações agrícolas do país são, atualmente, geridas por mulheres”, uma proporção “um pouco acima da média europeia, que se situa nos 30,1%”.

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Como era de esperar, num país com forte apetência para o ruralismo, o ano em curso, ficará marcado por muitas iniciativas ligadas à Pastorícia e à Agropecuária. Destacam-se algumas.

O Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores será assinalado, em Castro Daire, com um conjunto de iniciativas dedicadas à valorização da transumância, das pastagens serranas e do modo de vida pastoril. Sob o tema “Nos Caminhos da Transumância, o Legado dos Pastores do Montemuro”, e no âmbito do evento “A Última Rota da Transumância”, o município promoverá, ao longo de 2026, atividades culturais, turísticas, gastronómicas e educativas, reforçando a ligação à Serra do Montemuro e às suas comunidades. Pretende, deste modo, valorizar os pastores, os produtos locais e o património imaterial, afirmando Castro Daire como um território autêntico, sustentável e profundamente ligado à sua identidade serrana.
De acordo com o comunicado oficial, o município já se tem afirmado como território de referência nacional, pela forma como preserva o seu património natural, cultural e imaterial, profundamente ligado à Serra do Montemuro e às comunidades que nela vivem e trabalham. Na verdade,  “aqui, a serra é mais do que paisagem – é identidade, tradição e memória coletiva, transmitida de geração em geração, através da sabedoria dos pastores e das práticas da vida rural.”
Em coerência com esta visão da realidade local e regional, o ano de 2026 constitui uma oportunidade para reforçar e para celebrar o caminho que o município de Castro Daire tem vindo a trilhar, ao longo dos últimos anos, na valorização da transumância, das pastagens serranas e do modo de vida pastoril. E, para tanto, foi gizado um vasto programa de atividades culturais, turísticas, gastronómicas e educativas alusivas ao tema, que unem o passado e o presente, a tradição e a inovação, a comunidade e o visitante.
Esta celebração, nos termos do referido comunicado, pretende dar voz aos protagonistas da serra, os pastores, valorizar os produtos locais, estimular o turismo sustentável e preservar o património imaterial que faz de Castro Daire um território autêntico e inspirador. Assim, o Montemuro será, novamente, “palco de histórias, [de] caminhos e [de encontros], num tributo vivo à identidade serrana e à força das suas gentes”.

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O PASTONATUR participou no primeiro evento realizado em Portugal  no âmbito do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, que reuniu, no dia 24 de janeiro, pastores de todo o Norte do país no Instituto Politécnico de Bragança (IPB).
O IPB é entidade de referência na investigação sobre o pastoreio e membro fundador do Centro de Competências do Pastoreio Extensivo (CCPE), o qual esteve representado, no encontro, pela Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM) – que tem desenvolvido projetos em Trás-os-Montes, em articulação com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) –, membro do conselho executivo e uma das entidades parceiras do projeto internacional PASTONATUR.
O evento contou com a participação do Ministro da Agricultura e do Mar, José Manuel Fernandes, que reforçou o reconhecimento do governo pelo papel fundamental desempenhado  pelos pastores e a importância do seu trabalho para a coesão territorial. Na sua intervenção, anunciou um pacote de apoio de 30 milhões de euros destinado à pastorícia, com potencial para aumentar a atratividade da atividade e para promover a renovação geracional do setor.
O projeto PASTONATUR, financiado pelo programa Interreg Sudoe, foi apresentado, juntamente com outras iniciativas relevantes para a pastorícia, aos cerca de 130 pastores presentes no evento. A iniciativa pretendeu assinalar o início do AIP 2026, cujo objetivo é unir e valorizar o setor da pastorícia, bem como promover políticas públicas que assegurem a sustentabilidade das pastagens e dos pastores.
O objetivo PASTONATUR é conservar e restaurar a biodiversidade e mitigar as alterações climáticas, em sistemas agroflorestais de áreas protegidas do meio rural. Para tal, trabalha com a pecuária extensiva, tornando-a mais sustentável, bem como mais competitiva e rentável, através da valorização dos seus produtos e do apoio às suas empresas, para que possa perdurar e continuar a contribuir para a conservação dinâmica das áreas protegidas.
O IPB assinalou o arranque do AIP 2026) com a realização do “Jantar dos Pastores”, uma iniciativa de reconhecimento público da pastorícia e dos pastores do território transmontano. O evento, que decorreu na Escola Superior Agrária do IPB, em coorganização com CCPE, reuniu mais de 150 participantes, entre pastores, familiares, representantes institucionais e entidades regionais e nacionais, evidenciando o papel da pastorícia extensiva na identidade, na sustentabilidade e na coesão do território. 
Durante a sessão foram abordados temas centrais para o futuro da pastorícia, desde os desafios do exercício da atividade em territórios de montanha à renovação geracional e ao papel da investigação na valorização e sustentabilidade dos sistemas silvo-pastoris. José Manuel Fernandes felicitou o IPB pela organização do evento, ouviu as preocupações dos pastores e respondeu às questões colocadas pelos jornalistas. E, no final da sessão, juntou-se aos participantes no jantar, que decorreu na cantina dos Serviços de Ação Social do IPB. 
Satisfeito com a organização do evento que juntou, pela primeira vez em Bragança, pastores de vários pontos do país, Orlando Rodrigues, presidente do IPB realçou a importância simbólica de esta iniciativa decorrer na instituição que dirige e que, ao longo de décadas, tem desenvolvido trabalho científico próximo do território, em permanente diálogo com os pastores e atento às especificidades da sua atividade. 
A dimensão intergeracional da pastorícia e a necessidade de criar condições para o seu futuro ficaram patentes nas palavras de um jovem pastor de ovelhas do concelho de Vinhais, que partilhou as razões que o levaram a esta atividade, concilia a pastorícia com os estudos. Luís Miguel começou com o avô e gostou; teve sempre “amor” pelos animais; e, agora, sublinha a importância dos apoios públicos, como incentivo para que os jovens abracem esta profissão. 
Para o IPB, o momento reforçou o compromisso da instituição com o desenvolvimento sustentável das regiões de montanha, com a valorização do conhecimento tradicional, com a articulação entre ciência e prática e com o reconhecimento das comunidades que moldam o território. Integrado nas iniciativas nacionais que assinalaram o início do IYRP 2026, o “Jantar dos Pastores” – tradição entre os membros de um grupo privado na rede social Facebook, que conta com mais de sete mil inscritos – afirma Bragança e o IPB como espaços de referência na reflexão, na valorização e no futuro da pastorícia extensiva.

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A associação “Terra Maronesa” em parceria com outras entidades, nomeadamente o LIFE Maronesa, vai organizar um conjunto de atividades alusivas ao lançamento do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores.

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Também a 17.ª edição das Jornadas Internacionais  Hospital Veterinário Muralha de Évora destaca como tema central, no âmbito da agropecuária, o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, efeméride proclamada pela ONU que reconhece o papel essencial dos ecossistemas de pastagem e dos sistemas de produção pastoril na segurança alimentar, na conservação da biodiversidade e na sustentabilidade dos recursos naturais. 

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Há pastores em todo o país. Contudo, há enormes extensões de território que estão, pura e simplesmente, abandonadas. O despovoamento do interior – acompanhado da área florestal ardida, da ausência de exploração agrícola e agropecuária, do encerramento de serviços públicos (ou que servem público) e da utilização, quase em exclusivo, de quintas para festas, nomeadamente, de casamento – oferece o panorama de um povo que vive, maioritariamente, da importação. Os dados do INE não traduzem uma percentagem sobre o território, mas apenas sobre a superfície agrícola utilizada (SAU), que é diminuta e mostra a crise agrícola.
Por isso, é urgente que os poderes públicos incentivem a pastorícia, a agricultura mecanizada, a produção agropecuária e a florestação ordenada, com a predominância de folhosas (por exemplo, castanheiros, carvalhos, sobreiros e azinheiras). A ocupação ativa do território é a melhor forma de defesa!

2026.02.04 – Louro de Carvalho

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