terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O Mundo pode estar a caminhar para uma crise sistémica como a de 2008

 

Após o seu painel na Web Summit Qatar, Yanis Varoufakis, antigo ministro das finanças grego, em declarações à Euronews, afirmou que o Mundo pode estar a caminhar para uma crise como a de 2008, impulsionada pela ascensão das stablecoins e das poderosas plataformas tecnológicas, e alertou para o estado da economia global.
Na ótica do ex-governante grego, o capitalismo já acabou (“e nem sequer nos apercebemos disso”) e o Mundo entrou na era de “tecnofeudalismo”, em que as grandes empresas tecnológicas exercem inédito poder sobre o comportamento humano. Com efeito, o crescimento das stablecoins está a remodelar, discretamente e de formas arriscadas, o sistema financeiro. “Donald Trump, com a Lei Genius, privatizou o dólar americano, manteve a Reserva Federal em baixo e transfere poderes para empresas privadas, essencialmente, com uma licença para imprimir dólares”, disse Varoufakis, advertindo que a situação – “uma receita para o próximo 2008” – cria um perigoso ciclo de retorno entre a dívida pública e a moeda privada, com milhares de milhões de dólares a poderem migrar para stablecoins, nos próximos meses, aumentando o risco sistémico.
As plataformas modernas não produzem bens, mas moldam comportamentos e simulam mercados. “Qualquer pessoa que detenha esse poder pode dirigir-nos, para nos treinar, a fim de ganhar a nossa confiança e de nos incutir desejos. Isto já não é capitalismo. Bem-vindos ao tecnofeudalismo!”, enfatizou o economista, sublinhando a desigualdade, que é cada vez mais impulsionada pela posse do que chama capital de nuvem, de tal forma que a questão “é saber a quem pertencem as máquinas que podem modificar o nosso comportamento”. 
Para reequilibrar o poder económico, Yanis Varoufakis apela à democratização dos bancos centrais. “Os bancos centrais devem ser democratizados. O JP Morgan e o Bank of America têm de ter conta no banco central. O dinheiro devia ser um bem comum, não um privilégio”, sustenta o economista grego, vincando que, apesar de haver tecnologia para o fazer, a resistência política é grande, porque tais reformas reduziriam a influência das instituições financeiras e das grandes empresas tecnológicas.

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No seu livro mais recente “Tecnofeudalismo – Ou o fim do capitalismo” (2023), Varoufakis, sustenta que as gigantes da tecnologia derrubaram o capitalismo, isto é, empresas, como a Apple e a Meta, tratam os usuários como servos modernos. Essa é a tese do ex-ministro das Finanças grego, famoso por defender dos credores alemães a Grécia endividada, e que, não tendo recuperado a notoriedade de 2015, é proeminente voz da esquerda. Após uma campanha fracassada para o Parlamento Europeu (PE), em 2019, planeava candidatar-se, de novo, em junho de 2024, sendo o seu adversário, dessa vez, não Berlim, nem a banca, mas as empresas de tecnologia, que distorcem a economia e incitam a população contra as pessoas.
O seu 17.º livro, escrito em forma de carta ao pai, entusiasta da tecnologia, dá conta da evolução do capitalismo, desde o “boom” da publicidade, na década de 1960, passando por Wall Street, na década de 1980, até à crise financeira de 2008 e à pandemia de covid-19. E considera  que a Apple, o Facebook e a Amazon transformaram a economia a ponto de ela se assemelhar ao sistema feudal da Europa medieval. Os gigantes da tecnologia tornaram-se “os senhores” e todos os outros são “camponeses” que trabalham a terra, em troca de muito pouco.
Assim, ao postar no X, trabalha-se, como o servo medieval, para Elon Musk, que não paga. É o trabalho gratuito do usuário que paga e aumenta o valor da empresa. No X, quanto mais usuários ativos, mais anúncios são exibidos e mais assinaturas vendidas. No Google Maps, os usuários melhoram o produto, alertando o sistema para congestionamentos nas suas rotas.
É certo que a aproximação ao feudalismo não é nova, mas o livro pretende levar a ideia a um público mais amplo. O seu lançamento nos Estados Unidos da América (EUA), um mês antes de os órgãos reguladores dos EUA e da União Europeia (UE)  iniciarem ações antitrust contra a Apple, teve um timing favorável.
No livro, o autor demonstra que dinâmicas tradicionais do capitalismo não governam mais a economia. O que destituiu esse sistema foi o próprio capital e as mudanças tecnológicas aceleradas das últimas duas décadas, que destruíram, como um vírus, o hospedeiro.
Os dois pilares que sustentavam o capitalismo foram substituídos: os mercados deram lugar às plataformas digitais, que são verdadeiros feudos das grandes tecnologias, e o lucro foi substituído pela pura extração de rendas. Ante esse cenário, Yanis Varoufakis diz que o tecnofeudalismo é o novo poder que está a remodelar a nossa vida e o Mundo, sendo, atualmente, a maior ameaça ao indivíduo liberal, aos esforços para evitar a catástrofe climática e à democracia.
Com referências que partem da mitologia grega até a cultura pop, Varoufakis explica essa transformação revolucionária: como ela escraviza a nossa mente, como reescreve as regras do poder global e, por fim, o que será necessário para a derrubar.

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Ianis Varoufakis, em entrevista a Morgan Meaker, da WIRED – revista  estadunidense, de publicação mensal, com sede em San Francisco, na Califórnia, que aborda questões de tecnologia, de ciência, de entretenimento, de design e de negócios, nos diferentes subtópicos, e da respetiva influência na sociedade, na cultura, na economia e na política – explicita a forma como as gigantes da tecnologia mudaram a economia e porque nos devemos importar com isso.
Começa por explicar o sentido do termo “tecnofeudalismo” e a relevância do sistema feudal nesse contexto. Enquanto o lucro impulsiona o capitalismo, a renda impulsionava o feudalismo. Agora, passou-se do capitalismo para o novo feudalismo, por via do capital superpoderoso, omnipresente e multifacetado, o capital da nuvem, ou algorítmico, a criar “novos feudos digitais”, como a Amazon.com e o Airbnb, em que a base da riqueza não é o lucro, mas a renda.
Ao criar um aplicativo da Apple Store, a Apple pode reter 30% dos lucros do usuário, através da taxa de comissão. É um arrendamento (ou aluguer), como se fosse de um terreno. A Apple Store é um “feudo na nuvem”, e a Apple extrai um aluguer, como no feudalismo. Nestes termos, não há regressão do capitalismo para o feudalismo, mas a progressão para um sistema novo com muitas das caraterísticas feudais, mas que está mais à frente do capitalismo. Por isso, Varoufakis adicionou a palavra “tecno” a “feudalismo”.
Ao falar-se de feudos digitais, a ideia entendível é a de plataformas, como a App Store da Apple ou a Amazon, que arrecadam uma percentagem das vendas. Porém, outras plataformas, como o Facebook, podem ser acusadas de operar tais feudos. Efetivamente, na perspetiva do economista grego, “o Facebook é um feudo na nuvem clássico”, pois cria capital na nuvem, atraente para as pessoas que se querem comunicar umas com as outras, para encontrar amigos, para publicar opiniões ou notícias sobre temas diversos. O usuário é atraído para esse feudo, e o próximo passo de Zuckerberg é atrair para ele editores e anunciantes, a fim de lhes vender a atenção dos usuários.
Em seguida, como Cory Doctorow descreve, através do conceito de “enshittificação”, o usuário é um editor, que se sente bem, porque as suas vendas aumentam por meio do Facebook, mas, de repente, descobre que foi rebaixado e que tem de pagar um aluguer mais alto na nuvem para ser atualizado, novamente, pagando por anúncios, por exemplo, para que os clientes encontrem o seu produto. Isso é típico capitalismo na nuvem, o tecnofeudalismo.
O tecnofeudalismo afeta três grupos de pessoas. Por exemplo, a empresa que produz as bicicletas elétricas vendidas no Alibaba ou na Amazon.com é uma capitalista vassala. A maior parte da sua margem de lucro é desviada por Jeff Bezos, fundador e presidente executivo da Amazon, na forma de aluguer de nuvem. Em segundo lugar, estão os proletários da nuvem, por exemplo, “os trabalhadores nos armazéns da Amazon, que são monitorados por algoritmos”. E o terceiro grupo somos nós, os servos da nuvem, que oferecemos “trabalho voluntário e gratuito”, não importando se gostamos  ou não.
Cada vez que alguém publica um vídeo no TikTok, no Facebook, no Instagram, aumenta o capital dessas empresas. Contribuímos, “diretamente, com o nosso trabalho, com o nosso movimento ou com a nossa existência”. Enfim, “somos servos, mas somos mais do que servos, somos servos da nuvem a produzir capital”, facto que “nunca aconteceu na História”. 
À objeção de que a Apple pode argumentar que, em vez de ser feudo, a App Store da Apple talvez se assemelhe a um shopping center, onde as empresas precisam de alugar espaços ao proprietário do prédio, o entrevistado assegura que a diferença é enorme. De facto, o aluguer de loja no shopping é fixo e proporcional às nossas vendas. Quanto mais dinheiro ganharmos, maior será a nossa margem de lucro, em relação ao aluguer. Ao invés, a Apple Store, fica com 30% de todas as vendas. É o equivalente ao arrendamento da terra que o senhor feudal cobrava aos vassalos.
Relativamente ao que torna o capitalismo em nuvem um sistema económico pior do que o capitalismo tradicional, Varoufakis observa que, primeiro, temos “a perspetiva macroeconómica”. Assim, na sua ótica, “quando uma quantia tão grande de dinheiro é extraída na forma de renda da nuvem, esse dinheiro desaparece do fluxo circular de renda”. Segundo os seus cálculos, entre 35% e 40% do produto interno bruto (PIB) é “desviado do fluxo circular de renda pela renda da nuvem, o que significa menos dinheiro na economia”. Por isso, sendo baixo o investimento, há “menos empregos bons e de qualidade”, na restante economia.
Depois, é de ter em conta que “esse capital virtual é projetado para se reproduzir por meio da nossa atenção e do nosso trabalho gratuito”. E, porque as plataformas descobriram que passamos mais tempo a produzir capital virtual gratuito para os donos desse capital, se estivermos com raiva, “os algoritmos estão programados para envenenarem as nossas conversas”, o que “é extremamente prejudicial às nossas democracias, porque o consenso é muito ruim para o capital virtual, que pretende que “estejamos com raiva e a gritar uns com os outros”.
Como professor, Varoufakis diz observar o efeito nos jovens universitários. Hoje, os estudantes, como “têm muito medo de conversas presenciais”, preferem espaços seguros. Não querem que sejam apresentadas, em sala de aula, ideias desafiadoras e protestam. Todavia, se lhes derem um telefone, tornam-se tóxicos e agressivos. Ora, não é essa a forma de se conduzir “uma democracia ou uma sociedade civilizada”, diz o economista grego.
O facto de as pessoas já terem expressado a sua insatisfação com o capitalismo em diversos movimentos de protesto leva Morgan Meaker a questionar o entrevistado por que motivo deveriam as pessoas importar-se  com a transição para um sistema algo diferente, dominado por um tipo de empresa um pouco diferente.
A este respeito, Varoufakis diz que as pessoas precisam de saber o que subjaz ao descontentamento. Dar-lhes explicação que faça sentido para elas, “é extremamente empoderador” e é “a base de qualquer possibilidade de democracia”. Com efeito, “para haver democracia, não basta poder votar, a cada quatro ou cinco anos”, mas “é preciso que as pessoas entendam o que está a acontecer, que estejam informadas das causas do seu descontentamento”. Na verdade, se não as entendem, facilmente se tornam vítimas da xenofobia, da misoginia ou do racismo, apegando-se  “a soluções simplistas, o que é o início do fascismo”.
À dupla questão se estamos no início do fascismo e, se em caso afirmativo, a culpa é do tecnofeudalismo, o economista opina que “o fascismo já está em ascensão” pois, na França, quase 45% da população apoia a neofascista Marine Le Pen, e a Itália tem uma primeira-ministra neofascista, Giorgia Meloni. Porém, isso não é obra do tecnofeudalismo, que veio depois. O que sucedeu foi que o descontentamento das pessoas aumentou, por causa da ascensão do capital em nuvem, da drenagem de dinheiro do fluxo circular de renda e dos “algoritmos que geram dinheiro e acumulam capital em nuvem, a tal ponto que nos odiamos uns aos outros”. Ora, na perspetiva de Varoufakis, “o ódio é o combustível do fascismo” (por isso é que o discurso do ódio campeia). Assim, misturando descontentamento, impossibilidade de a maioria das pessoas não conseguir pagar as contas e ódio reforçado pelos algoritmos, temos o fascismo.
Quanto ao que se deve fazer, em relação ao novo sistema, que alimenta o novo fascismo, o entrevistado, sugere “muitas coisas”. Desde logo, é preciso entender onde estamos, para não culparmos os estrangeiros, nem as mulheres, nem as pessoas trans.
Em termos económicos, urge a introdução imediata introdução de um imposto sobre a nuvem, por  exemplo, taxar a Amazon em 5%, por cada transação na sua plataforma. Em seguida, criar a possibilidade de cada um de possuir uma identidade digital, para não precisarmos do Google ou do Facebook para comprovar a nossa identidade na Internet. “Ter uma identidade digital emitida pelo Estado contribuirá para restaurar ou para garantir os direitos de propriedade sobre os nossos dados, pois, no momento, não somos donos deles”, observa Varoufakis.
Depois, há que introduzir interoperabilidade. E explica: “Estou na plataforma X. Não posso migrar para a Bluesky. Se Elon Musk decidir bloquear-me, porque disse algo de que ele não gostou, […] tenho mais de um milhão de seguidores na plataforma X e não posso sair, sem os perder. Se eu for para a Bluesky, tenho 10 seguidores. [Ora,]  interoperabilidade significará que, se eu migrar para outra plataforma, como a Bluesky, quando eu publicar algo na Bluesky, o meu milhão de seguidores na plataforma X poderá ver a publicação.
Apesar de a interoperabilidade ser uma das propostas da Lei dos Mercados Digitais da UE, que está, pelo menos, a tentar abordar alguns dos problemas descritos por Varoufakis, este pensa que “não vai longe o suficiente”. Há, ali, “algumas ideias interessantes”, como a interoperabilidade, mas ninguém, no governo, está a trabalhar nisso (esse é o problema), não por ser tarefa difícil, mas porque não se importam, pois estão a serviço dos grandes “tecnofeudas”. 
Por fim, à questão se crê que ninguém, no governo, faz nada, como é que avança, a partir dessa verificação, diz que a pergunta é oportuna e não sabe responder, mas é por isso que, ao arrepio das suas preferências, continua na política, “porque não há alternativa à política”.

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Gradualmente, o capital, que se globalizou, e as mudanças tecnológicas das últimas décadas produziram um capitalismo financeiro sem rosto, que redundou no esboroamento do capitalismo. Os mercados tradicionais deram lugar às plataformas digitais e o lucro vem da renda por espaço na nuvem. Com os nossos scrolls (rolagens) e cliques, este sistema económico consolida o poder das grandes tecnológicas e redesenha o mapa geopolítico. O clique postula seleção mental e ação direta, mas o scroll tornou-se o padrão de compromisso em dispositivo móvel e em rede social, gerando consumo de conteúdo fluido, sem interrupção, e aumentando o tempo de utilização. 

2026.02.02 – Louro de Carvalho

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