A
tempestade Kristin fustigou o país, sobretudo, a região Centro, de forma inédita,
pelo menos, desde que há registos. No entanto, a falta de comparência de
membros do governo no terreno, as declarações reticentes de governantes, o atraso
de socorro sustentável, a lentidão em o executivo proceder à declaração de calamidade
pública, a demora na tomada de medidas e o não acionamento do mecanismo europeu
de proteção civil (MEPC) deixaram, juntamente com o lastro de destruição,
desalojamento e morte, as populações afetadas e as suas autoridade locais em situação
de clamoroso abandono.
Foi necessária a pressão de inúmeros autarcas para o governo proceder à declaração de calamidade pública, a qual se mantém até 8 de fevereiro. O ministro da Presidência proferiu declarações tão infelizes que “apagou” o vídeo que as registava. Espalhou-se a ideia de que a aparição de governantes no terreno dificultava as operações de ajuda e de reconstrução, como se se tratasse de incêndios florestais (em que a mudança de direção dos ventos é repentina e imprevisível) ou do pico de um furacão em que as pessoas podem ser inexoravelmente envolvidas. O próprio chefe de Estado, tão rápido a assomar, em circunstâncias destas, se conteve inexplicavelmente e, quando apareceu, foi mais importante o beijo deixado na mão de velhinhas.
Foi necessária a pressão de inúmeros autarcas para o governo proceder à declaração de calamidade pública, a qual se mantém até 8 de fevereiro. O ministro da Presidência proferiu declarações tão infelizes que “apagou” o vídeo que as registava. Espalhou-se a ideia de que a aparição de governantes no terreno dificultava as operações de ajuda e de reconstrução, como se se tratasse de incêndios florestais (em que a mudança de direção dos ventos é repentina e imprevisível) ou do pico de um furacão em que as pessoas podem ser inexoravelmente envolvidas. O próprio chefe de Estado, tão rápido a assomar, em circunstâncias destas, se conteve inexplicavelmente e, quando apareceu, foi mais importante o beijo deixado na mão de velhinhas.
A
proteção civil, a princípio, requisitou apenas quatro militares das forças
armadas, a seguir 24 (que tentou separar por grupos de dois?!), estando o
número agora, em dois mil a três mil.
A
este respeito, foram publicadas imagens que exibem militares a montar a tenda
para receção ao ministro da Defesa Nacional, tenda que foi desmontada, logo que
ele foi embora, depois de ter proferido algumas asserções inócuas.
A
ministra da Administração Interna, que tardou em aparecer no terreno, fez
declarações descabidas, que mostram que o fulgor das competências académicas
nem sempre é suficiente carta de recomendação para a ação política e governativa.
Por exemplo, ignorar que há um plano de contingência num caso grave como este,
deslustra o desempenho político e a capacidade de liderança. Dizer e insistir, descabidamente,
que estamos perante uma situação de aprendizagem coletiva (tempo de aflição não
é propício à aprendizagem, mas exige ação e ação coordenada) faz-me lembrar o
que me aconteceu, no ano que estive em Vila Nova de Foz-Coa: Atordoado por
forte dor de dentes, a conselho de pessoas amigas, desloquei-me à cidade da Guarda
para consulta ao estomatologista Dr. Pedro Taumaturgo de Brito, o qual, apesar
da minha impaciência, perdeu cerca de um quarto de hora a ensinar-me a lavar os
dentes, servindo-se de dentadura, de escova e de dentífrico. É claro que,
naquele dia, não aprendi nada!
Depois,
a governante em causa proferiu asserções que não atrasam nem adiantam. Por exemplo,
disse que o governo não é responsável por não agir prontamente num facto
normal, mas num caso que nunca ocorrera. Porém, nem isso está certo. Ninguém
adivinhava a dimensão da tempestade, mas já se sabia da iminência da sua
chegada, que Portugal é vulnerável a estas ocorrências e que os fenómenos
extremos são cada vez mais frequentes e mais prolongados no tempo. E revelou o
que todos sabíamos: nos ministérios se faz muito trabalho na invisibilidade.
Aliá, esse trabalho não é invisível; pode não se ver, mas não é invisível. Os
crentes pensam que invisível só Deus. Até a acumulação de gases (supostamente invisíveis)
na atmosfera nos fazem ver o tom azulado do firmamento.
Uma
presença a notar, que revela bom senso e experiência política foi a da ministra
do Ambiente e Energia, a garantir que a E-Redes está a fazer o que pode para restabelecer
a corrente elétrica.
***
Entretanto,
o governo anunciou um pacote de ajuda e o prolongamento do “estado de
calamidade”, visto que o país continua na rota das depressões e se temem
inundações.
Na verdade, depois de os candidatos à segunda volta das eleições presidenciais de 8 de fevereiro terem alterado a agenda da campanha eleitoral, para acorrerem aos concelhos assolados pela tempestade – um, de forma discreta, sem jornalistas e a pedir ao governo ação rápida e eficaz, porque o sofrimento não se compadece com demoras e com burocracias; o outro, de forma aparatosa, com profissionais de comunicação social e com agentes de partido, criticando o governo, mandando, explicitamente, às malvas as eleições e carregando, ostensivamente, materiais de ajuda – e depois das críticas dos partidos de oposição, com o Partido Socialista (PS) a acusar o executivo de silêncio e de falta de planeamento na resposta à intempérie, e com o Presidente da República a reconhecer a lentidão da resposta ao rasto de destruição, o governo anunciou, a 1 de fevereiro, que mantém em vigor a “situação de calamidade até 8 de fevereiro”.
Na verdade, depois de os candidatos à segunda volta das eleições presidenciais de 8 de fevereiro terem alterado a agenda da campanha eleitoral, para acorrerem aos concelhos assolados pela tempestade – um, de forma discreta, sem jornalistas e a pedir ao governo ação rápida e eficaz, porque o sofrimento não se compadece com demoras e com burocracias; o outro, de forma aparatosa, com profissionais de comunicação social e com agentes de partido, criticando o governo, mandando, explicitamente, às malvas as eleições e carregando, ostensivamente, materiais de ajuda – e depois das críticas dos partidos de oposição, com o Partido Socialista (PS) a acusar o executivo de silêncio e de falta de planeamento na resposta à intempérie, e com o Presidente da República a reconhecer a lentidão da resposta ao rasto de destruição, o governo anunciou, a 1 de fevereiro, que mantém em vigor a “situação de calamidade até 8 de fevereiro”.
Após
a reunião de emergência (cinco dias depois do pico da tempestade) do Conselho
de Ministros, o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro, numa declaração ao
país, em conferência de imprensa, no Palácio de S. Bento, em Lisboa, disse que “o
governo decidiu consagrar apoios à reconstrução de habitação própria e
permanente, com intervenções até 10 mil euros, para todas as famílias, sem
necessidade de documentação, e para todos os casos cujos seguros não serão
aplicáveis”. E esclareceu que “todas as situações relacionadas com a
agricultura e a floresta também se enquadram neste apoio, com o mesmo montante”.
O
chefe do governo pediu o respeito às indicações das autoridades, de modo a
facilitar os trabalhos de recuperação e de prevenção, e assegurou que ninguém
ficará sem meios e instrumentos para normalizar a sua situação, referindo-se à
colaboração com as seguradoras. E, para todas as famílias que estejam a perder
rendimentos, neste período, o PM anunciou a atribuição de apoios sociais de
entre 537 euros, por pessoa e até 1075 euros, por agregado familiar.
O
governo decidiu atribuir 400 milhões de euros, para recuperar a ferrovia e as
estradas, cerca de 500 milhões para empresas e 200 milhões para recuperar
estruturas públicas. No total, o pacote de recuperação anunciado será de 2,5
mil milhões de euros.
Os apoios às famílias afetadas pela Kristin incluem subsídios, apoio à
habitação, moratórias bancárias e alívio fiscal nos municípios em calamidade. O
pacote global aprovado para responder aos danos provocados pela tempestade
Kristin é de 2,5 mil milhões de
euros, com medidas dirigidas a famílias, a empresas, a Instituições
Particulares de Solidariedade Social (IPSS), a autarquias e a infraestruturas
públicas. Assim, existem apoios às
famílias e para a habitação própria e permanente, destinados a
situações de carência económica, de perda de rendimentos e de danos em
casas que ficaram parcial ou totalmente inabitáveis. As medidas
incluem apoios sociais diretos, apoio à reconstrução da habitação,
moratórias no crédito e adiamentos fiscais.
No
âmbito das medidas sociais, estão previstos apoios diretos da Segurança
Social às famílias em situação de carência económica ou
que tenham sofrido perda de rendimentos na sequência da Kristin. Tais
apoios destinam-se a cobrir despesas essenciais e imediatas, necessárias à
subsistência do agregado familiar ou à aquisição de bens urgentes e
inadiáveis. Podem assumir a forma de apoio pecuniário ou em espécie,
sendo atribuídos após avaliação individual da situação concreta de
cada agregado.
De
acordo com o comunicado oficial, “o valor do subsídio é de montante variável, a
determinar, casuisticamente, em função da avaliação dos serviços
competentes da segurança social, com o limite de 1074,26 euros (2 x IAS), por
elemento do agregado familiar, e pago no máximo em 12 prestações mensais”. Porém,
o chefe do governo explicou, na conferência de imprensa, que o apoio será
de até 537 euros, individualmente, ou 1075 euros, por agregado familiar.
Um
dos eixos centrais do pacote é o apoio à habitação própria e
permanente. Assim, foi criado um apoio até 10 mil
euros para encargos com obras e intervenções necessárias
à reparação, reabilitação ou reconstrução de casas danificadas pela
tempestade. Este apoio aplica-se a habitações situadas em concelhos
abrangidos pela situação de calamidade e utilizadas como residência
habitual do agregado familiar. O regime é semelhante ao aplicado em
situações de incêndios, privilegiando a rapidez na resposta. O custo
elegível é determinado com base em orçamento ou orçamentos do
beneficiário, validados pela autarquia local e pela Comissão de
Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), podendo ser utilizados
referenciais de custos unitários por tipologia de obra, para acelerar o
processo de validação.
Se
os danos impedem a utilização da habitação, as despesas de realojamento
temporário serão consideradas elegíveis, desde que justificadas. Esta medida destina-se
a famílias que, por razões de segurança ou falta de condições mínimas, não
conseguem permanecer na habitação afetada. O apoio cobre situações
transitórias, enquanto decorrem as obras de recuperação ou reconstrução. A
elegibilidade das despesas é avaliada pelas entidades competentes, no
mesmo enquadramento dos restantes apoios à habitação própria e permanente.
O
pacote inclui moratórias aos empréstimos bancários relativos
à habitação própria e permanente, aplicáveis nos territórios abrangidos
pela situação de calamidade. A moratória tem a duração de 90 dias, com
início a 28 de janeiro de 2026. Durante este período, as famílias
podem suspender o pagamento das prestações do crédito, tratando-se de medida
temporária e de aplicação geral, justificada pela emergência. Contudo, o governo
admite trabalhar, em fase posterior, um regime seletivo de moratórias até
12 meses para situações de danos mais profundos, em
articulação com o Banco de Portugal (BdP) e com a Associação Portuguesa de
Bancos (APB).
No âmbito das medidas fiscais, foi aprovada uma moratória no cumprimento de
obrigações fiscais para contribuintes com sede ou residência nos
municípios afetados. As obrigações cujo prazo decorra entre 28 de janeiro
e 31 de março podem ser cumpridas até 30 de abril, sem
penalizações. Este alargamento do prazo aplica-se também a contabilistas
com sede nos municípios abrangidos. A medida visa aliviar a pressão financeira
quando muitas famílias enfrentam despesas inesperadas associadas à recuperação
de bens e habitação.
Para
acelerar a recuperação, o governo aprovou o regime excecional de dispensa
de controlos administrativos prévios nas obras públicas e privadas de
reconstrução de infraestruturas, de equipamentos e de edifícios afetados. Tal
regime abrange domínios urbanísticos, ambientais, de contratação pública e
regras orçamentais, vigorando um modelo de controlo e responsabilização
sucessivos. Na prática, esta simplificação permite avançar, rapidamente,
com obras urgentes, incluindo intervenções em habitações, sem bloqueios
administrativos iniciais.
O
pacote é transversal e, além dos apoios para as famílias, inclui um
conjunto alargado de medidas dirigidas a empresas, a IPSS, a autarquias e a
infraestruturas públicas, para garantir a recuperação económica e social
dos territórios afetados. Estas medidas complementam os apoios às pessoas
singulares e visam assegurar a continuidade da atividade económica, a
manutenção do emprego e a reposição de serviços essenciais.
No
domínio do emprego, estão previstos apoios a conceder pelo Instituto
do Emprego e da Formação Profissional IEFP, dirigidos a trabalhadores
dependentes e independentes afetados. Entre essas medidas, contam-se
incentivos financeiros extraordinários à manutenção dos postos de
trabalho, apoios específicos aos trabalhadores independentes, prioridade no
acesso a medidas ativas de emprego e um plano extraordinário de
qualificação e formação profissional, para evitar despedimentos e apoiar a
retoma da atividade nos territórios em calamidade.
As
empresas afetadas podem beneficiar de isenções temporárias do pagamento de
contribuições para a Segurança Social, totais ou
parciais. A isenção total pode vigorar até seis meses, com
possibilidade de prorrogação por igual período. No caso de isenção
parcial, a redução pode atingir 50% da taxa contributiva, durante até um ano.
Está
previsto um regime simplificado de redução ou de suspensão da atividade em
situação de crise empresarial, permitindo às empresas recorrer
a mecanismos semelhantes ao lay-off, com dispensa de
obrigações legais, mediante validação pelas entidades competentes.
O
pacote inclui a criação de linhas de crédito através do Banco
Português de Fomento (BPF), destinadas a apoiar empresas e outras
entidades afetadas. Assim, está prevista uma linha de crédito à tesouraria
no valor de 500 milhões de euros, com maturidade de cinco anos e um
período de carência de 12 meses, para responder a necessidades imediatas de
liquidez. E existe uma linha de crédito ao investimento, no montante de
mil milhões de euros, destinada à recuperação e à reconstrução,
com maturidade de 10 anos e carência de 36 meses.
As
IPSS e entidades equiparadas que atuam nos municípios afetados passam a
dispor de apoios financeiros específicos, definidos após avaliação individual
de cada caso. Estes apoios destinam-se a reforçar respostas sociais
essenciais, nomeadamente junto de pessoas idosas, crianças, jovens, pessoas com
deficiência, pessoas em situação de sem-abrigo e vítimas de violência
doméstica, garantindo a continuidade dos serviços num contexto de
emergência.
O
pacote inclui uma transferência extraordinária de 200 milhões de
euros para apoio financeiro às autarquias, através das CCDR, destinada
à recuperação de equipamentos e infraestruturas municipais, com prioridade
para escolas. Estão previstos 400 milhões de euros para
a recuperação de estradas e de ferrovia e uma dotação de 20
milhões de euros para a recuperação de património cultural afetado.
E, no setor agrícola e florestal, foi criado um apoio até 10 mil
euros para reposição da capacidade produtiva das explorações atingidas.
Para
garantir a articulação entre todas estas medidas, foi criada uma Estrutura
de Missão para a Reconstrução, com sede em Leiria, responsável
pelo acompanhamento, coordenação e apoio à execução das respostas nos
territórios afetados, a qual trabalha em ligação com ministérios, autarquias,
CCDR, setor social e empresas, assegurando que os apoios chegam ao terreno de
forma mais rápida e coordenada.
***
Após
o pico da tempestade, os autarcas dos municípios afetados criticaram os políticos
e as forças armadas, pela inação. Agora, políticos (há aproveitamento político)
aparecem e forças armadas auxiliam na recuperação das infraestruturas. Porém, o
centro do país continua com dificuldades nas comunicações e cerca de 167 mil
habitações permaneciam sem energia, até às 12h00 do dia 1. A E-redes envia
geradores para as zonas mais afetadas. Nas operações de limpeza e de recuperação
de casas, houve feridos e mortos, tal como houve pessoas intoxicadas com o
monóxido de carbono libertado por geradores e por lareiras. O candidato presidencial
António José Seguro aplaude as medidas do governo, esperando que cheguem às pessoas,
e critica a União Europeia (UE), por não alargar o prazo do Plano de Recuperação
e Resiliência (PRR) e o PS insiste com o governo no MEPC.
Todavia, prevê-se a continuação das chuvas, mas sem a intensidade da Kristin.
Todavia, prevê-se a continuação das chuvas, mas sem a intensidade da Kristin.
2026.02.02
– Louro de Carvalho
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