terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

As alterações climáticas estão a mudar o estilo de vida dos Inuítes

 

Os Inuítes da Gronelândia temem perder a sua cultura, pelo facto de as mudanças climáticas, provocando o derretimento do gelo e da neve, afetarem os trenós usados nas suas rotas e pontes.

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É de lembrar que os primeiros habitantes da Gronelândia são os Inuítes, povo que foi, durante muito tempo, chamado de “esquimó”. Porém, o termo deixou de ser usado por ser considerado pejorativo, pois, historicamente, associado à ideia de “comedor de carne crua”, representava uma visão de inferioridade criada por colonizadores.
Este grupo indígena, além da Gronelândia, habita as regiões árticas do Canadá, do Alasca e da Sibéria. Com uma cultura rica e adaptada ao Ártico, as pessoas construíam abrigos de neve (“iglus”, termo que significa “casas”) e usavam roupas de pele de animais para sobreviverem a temperaturas de 45 graus Celsius negativos (-45º C). Atualmente, os Inuítes incorporam tecnologias modernas no seu estilo de vida, vivendo em comunidades estruturadas, embora mantenham forte ligação à Natureza e à preservação de tradições ancestrais. E a sua tradicional espiritualidade envolve o xamanismo e a crença em Inua, um ser espiritual presente em todos os elementos da Natureza. 
“Esquimó” não é nome escolhido por este povo. Foi rótulo imposto por estrangeiros e passou a carregar estereótipos do seu modo de vida e da sua cultura. Por isso, a população prefere ser identificada como inuíte (termo que significa “povo”), a designação que gosta de usar.
Durante séculos, vivia-se, na grande ilha ártica, confecionando roupas com pele de urso polar e alimentando-se de peixe recém-pescado. Porém, tal forma de vida mudou com a chegada dos Vikings vindos da Islândia, os quais, para atraírem mais pessoas ao território, lhe deram o nome de Gronelândia, que significa “terra verde”, apesar de a ilha ser, maioritariamente, coberta de gelo. Depois, a Groenlândia tornou-se colónia da Dinamarca, sem a população local ter sido consultada. Os colonizadores criaram escolas onde apenas se ensinava o Dinamarquês e impuseram a cristianização, sendo apagadas, ao longo do tempo, tradições inuítes.
Também  a exploração económica marcou esse período. A Dinamarca passou a lucrar com a caça à baleia e com o comércio de peles de foca, produtos que tinham alto valor no mercado internacional. Em contraponto, houve pouco investimento na população local.
Hoje, a Gronelândia, com cerca de 57 mil habitantes, acalenta planos de independência, que têm dificuldade em alcançar êxito, devido à insuficiência financeira. Metade do dinheiro do território ainda lhe vai da Dinamarca e a população tem acesso gratuito à educação e à saúde, mas o país detém altas taxas de alcoolismo e de suicídio.
Com o aquecimento global, o degelo do Ártico avança rapidamente, o que abre novas rotas marítimas e aumenta o interesse pelos recursos minerais escondidos sob a camada de gelo da Gronelândia, essenciais para a produção de carros elétricos, de turbinas eólicas, de equipamentos eletrónicos e de armamentos. E o Oceano Ártico transformou-se em área estratégica para as grandes potências, passando a região a ser vista como espaço de disputa militar, com a presença da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e de bases russas.
As autoridades locais rejeitam a ideia de que a Gronelândia seja tratada como território à venda e reafirmam o sentimento de pertença: “Não somos uma coisa que se possa comprar. Nós somos um povo. Esta é a nossa terra”, afirmam líderes do governo local. E as populações, face à arremetida do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, dizem preferir a proteção dinamarquesa.

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Os caçadores de focas e pescadores inuítes têm sido puxados por cães em trenós pelo Ártico, há mais de mil anos. Todavia, devido às alterações climáticas, isso não tem sido possível, na cidade de Ilulissat (a terceira maior localidade da ilha), sede do município de Avannaata, a cerca de 300 quilómetros a Norte do Círculo Polar Ártico, na costa ocidental.
Esta cidade é o destino mais popular da Gronelândia, devido à sua proximidade do fiorde de gelo de Ilulissat, onde desagua um glaciar, que despeja milhões de toneladas de gelo, por dia. Porém, em vez de deslizarem sobre a neve e sobre o gelo, os habitantes locais, agora, enfrentam uma viagem acidentada sobre terra e sobre rochas, pois o aumento das temperaturas, em Ilulissat, está a provocar o derretimento do permafrost (tipo de solo, de rocha ou de sedimento que permanece congelado a 0º C ou a menos, durante dois ou mais anos consecutivos.
As temperaturas, no inverno, costumavam cair para cerca de -25 ° C; no entanto, agora. estão a ocorrer muitos dias acima de zero, com alguns dias chegando a atingir até 10 °C.
Jørgen Kristensen, cofundador da Dogsled and Ice Academy e cinco vezes campeão de corridas de cães de trenó, diz ser a primeira vez que se lembra de não haver neve ou gelo na baía, em janeiro. As camadas de gelo funcionam, geralmente, como grandes pontes, ligando os Gronelandeses às áreas de caça e a outras comunidades, em todo o Ártico, no Canadá, nos EUA e na Rússia. Quando o gelo marinho costumava chegar, as pessoas sentiam-se completamente livres, ao longo de toda a costa, podendo decidir para onde ir. Agora, nem sequer há neve suficiente, ao longo do percurso, para os cães beberem.
O trenó puxado por cães é uma parte importante da cultura gronelandesa, e é por isso que Jørgen Kristensen teme que essa tradição se perca com o tempo. Com efeito, para ele e para os outros amigos desta atividade lúdica, guiar um trenó puxado por cães no gelo é estar “completamente sem limites, como na estrada mais longa e larga do Mundo”; e não ter isso é “uma perda muito grande”.
A este respeito, Sara Olsvig, presidente do Conselho Circumpolar Inuit, referiu que, há anos, o governo da Gronelândia se sentiu obrigado a dar ajuda financeira às comunidades que vivem no extremo Norte da ilha, devido à falta de gelo, o que impedia os habitantes locais de caçar.
Na verdade, a geleira Sermeq Kujalleq, nas proximidades, é uma das mais ativas e de movimento mais rápido do Mundo, contribuindo, significativamente, para o aumento do nível do mar, de acordo com a NASA. Porém, o derretimento do gelo pode revelar minerais raros e essenciais ainda intocados, o que muitos Gronelandeses acreditam ser a razão pela qual o presidente dos EUA, que chamou as alterações climáticas de “a maior fraude de sempre”, se interessa pela ilha, com recentes declarações de que tomaria posse dela, mesmo que fosse necessário utilizar a força.
O Icefjord Center, liderado por Karl Sandgreen e dedicado a documentar a geleira Sermeq Kujalleq e os seus icebergs, revelou que 40 quilómetros da geleira já derreteram, em menos de um século, por causa do carbono negro e de detritos de erupções vulcânicas. E Karl Sandgreen acredita que a agenda de Donald Trump “é obter os minerais”.
Nesta sua convicção, tem plena razão. A questão da segurança do Ártico, embora seja premente, é pretexto para o inquilino da Casa Branca levar riqueza para o seu país e para si. Com efeito, formulou um conceito estratégico de segurança nacional muito sui generis.   

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Enquanto os Gronelandeses temem a perda da cultura autóctone e a alteração do seu modo de vida, um cientista inuíte empenhado na ação climática revela a disseminação dos microplásticos.
Munido de um caiaque e de um filtro de microplásticos construído por si, Kristian Louis Jensen passou a última década a remar pelos lugares mais intocados do planeta.
No mestrado em proteção ambiental, desenvolveu o “Plastaq”, ferramenta de ciência cidadã que permite a praticantes de caiaque e a comunidades locais a recolha de amostras de água à superfície com resíduos provenientes de garrafas abandonadas, de embalagens e de outros plásticos. Todavia, com profunda preocupação sobre a pegada invisível da Humanidade, decidiu empreender viagem até um glaciar remoto, no Leste da Gronelândia, a centenas de quilómetros de qualquer estrada. Esperava encontrar fibras e resíduos plásticos, em geral, como aconteceu, mas deparou-se, nas amostras, com vestígios de partículas de pneus automóveis.
A este respeito, a Euronews publicou, a 14 de fevereiro, um artigo intitulado “Cientista inuit percorre a Gronelândia de caiaque para expor os microplásticos”, em que Liam Guilliver nos explica o que se passou, desde logo, vincando o choque sofrido pelo cientista, ao encontrar vestígios de partículas de pneus automóveis num glaciar praticamente intacto, no Leste da Gronelândia, o que o levou a confirmar a tese de que “estas partículas deixaram de ser apenas um problema urbano”. Efetivamente, transformando-se em pó, “ficam suspensas no ar e viajaram milhares de quilómetros até ao Ártico”. Ou seja, “são combustíveis fósseis em movimento” e mostram que  o Ártico funciona como um ‘sumidouro’ da poluição mundial.” 
Cada um dos mais de cinco mil milhões de pneus em circulação, no Mundo, perde cerca de 10% a 30% da massa, ao longo da sua vida útil. “Essa massa não desaparece. Fragmenta-se em poeiras tóxicas que se depositam logo no início da nossa cadeia alimentar”, observa Kristian Jensen.
E Liam Guilliver sublinha que “o trabalho de Jensen revelou até que ponto os microplásticos se espalham, começando já a provocar uma verdadeira tríade de problemas para as comunidades locais, na Gronelândia”. 
A nível de consequências, o cientista explicita que, “do ponto de vista ecológico, começam a surgir indícios de que a toxicidade dos pneus é elevada, para espécies árticas”. E exemplifica: “Por exemplo, substâncias, como o 6PPF [composto orgânico quiral, especificamente, um ligante de fosfina utilizado em catálise metálica], são letais para o salmão Coho.”
Por seu turno, o articulista infere que “a poluição provocada pelos pneus também pode causar deformações nos ovos de bacalhau-do-Atlântico, pondo em causa os alicerces da indústria piscatória do país”. Assim, Liam Guilliver sustenta que, “para as comunidades indígenas, a contaminação das águas da Gronelândia tornou-se uma questão de justiça ambiental, com riscos sérios para a saúde”. E Kristian Jensen verifica, lamentando: “Estamos no ‘fim do tubo’, a respirar e a ingerir a poluição de veículos que circulam noutros continentes.” 
A exposição crónica a estas partículas, nas zonas urbanas, foi associada a problemas de saúde, como o agravamento da asma e de doenças cardíacas. “No Ártico, essa ameaça está, agora, a depositar-se nas nossas fontes de alimento, transformando um ambiente quase intacto num reservatório de resíduos globais”, sustenta Jensen, frisando que quem vive a altas latitudes é afetado, desproporcionadamente, pela poluição global e pelas alterações climáticas.
Os cientistas vêm alertando para o agravamento do problema dos microplásticos, tendo vários estudos detetado concentrações mais elevadas de minúsculas partículas de plástico no gelo marinho destas zonas remotas do que nas conhecidas manchas de lixo dos oceanos. E Jensen alerta para  um “ponto cego crítico” nas políticas climáticas que procuram enfrentar este problema generalizado. “Atualmente, regulamos o que sai do tubo de escape, mas ignoramos o que se solta dos pneus. Isto é perigoso, tendo em conta que as partículas de pneus são, hoje, reconhecidas como uma das principais fontes de microplásticos que entram nos ecossistemas em todo o mundo”, explica.
O impulso para abandonar os combustíveis fósseis ganhou força na cimeira COP30 de Belém do Pará, em 2025, com mais de 90 países a apoiarem a criação de um roteiro, mas, após a resistência de vários petroestados, as referências à eliminação gradual desses combustíveis foram retiradas do acordo final. A esperança num futuro sem combustíveis fósseis está, assim, fora do âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). E, em abril, mais de 85 países reunir-se-ão na Colômbia, na conferência Global Fossil Fuel Phaseout, coorganizada com os Países Baixos.
No entanto, Kristian Jensen adverte que a transição dos combustíveis fósseis se centra, sobretudo, no carbono negro (“black carbon”) – emissões resultantes da queima de combustíveis –, pois, na ótica do cientista, “não podemos afirmar que estamos a enfrentar a crise dos combustíveis fósseis, enquanto ignorarmos os petroquímicos sólidos que rolam sob os nossos veículos”.
Também cresce o apoio a maior transparência da parte dos fabricantes, com Jensen a defender a criação de um “ecossistema colaborativo”, em que os ecotoxicologistas tenham acesso total aos ‘cocktails’ químicos que compõem os pneus modernos. E, como enfrentar os gigantes dos combustíveis fósseis e as grandes empresas não é tarefa fácil, nem algo que alguém consiga fazer sozinho, Jensen está a lançar, neste mês, na conferência Arctic Frontiers, a coligação científica Black Carbon, visando a criação de uma coligação científica intersetorial para monitorizar o black carbon no Ártico e os seus efeitos na saúde da região. Para tanto, vão reunir-se toxicologistas, líderes indígenas e decisores políticos para estudarem os impactos específicos das partículas de pneus na saúde no Ártico, sendo a ideia levar tais provas ao Parlamento Europeu (PE) e à COP31, ainda em 2026.
Além disso, como refere o articulista, o trabalho de Jensen chegará, em breve, ao grande ecrã, num documentário do realizador alemão Steffen Krones, sob o título “Black Carbon”, com vista a revelar os impactos devastadores dos microplásticos, no Ártico e nas comunidades que vivem em harmonia com estes ecossistemas frágeis. O filme está em rodagem, acompanhando Jensen, a investigação e o trabalho de sensibilização que desenvolve.

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Entretanto, enquanto a subida das temperaturas faz aumentar o nível do mar, em todo o Mundo, pondo milhões em risco de graves inundações e de erosão costeira, na Gronelândia, acontece o contrário. Um estudo publicado na revista “Science Communications”, prevê que, em cenário de baixas emissões, a queda do nível do mar rondará 0,9 metros, até 2100; e em cenário de elevadas emissões, pode atingir 2,5 metros.
Trata-se do efeito de descompressão, segundo o qual, à medida que a camada de gelo perde massa, o nível do mar desce, ainda mais, devido à gravidade.
“Quando a camada de gelo é muito grande, tem muita massa”, diz Lauren Lewright, a autora principal do estudo, explicando: “A superfície do mar é atraída para a camada de gelo por essa força gravítica. À medida que a camada perde massa, a sua atração sobre a superfície do mar diminui, o que se traduz numa descida do nível do mar.” 
Estes efeitos, que podem representar até 30% da futura queda do nível do mar, na Gronelândia, deixando as comunidades costeiras em seco, são conhecidos, tecnicamente, como “ajuste isostático glacial”.

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Enfim, a crise climática é muito grave e a sua resolução ou minoração enfrenta muitas resistências, no quadro do lucro e do negacionismo. Porém, a Gronelândia é um caso complexo que faz lembrar o ditado: “Preso por ter cão, preso por o não ter”.  E não é demandada pelos melhores motivos, mas pela sua riqueza e pela sua colocação geoestratégica, que suscitam a ambição de muitos e a hegemonia das grandes potências. Contudo, a crise climática convoca à ação.

2026.02.17 – Louro de Carvalho

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