Os
Inuítes da Gronelândia temem perder a sua cultura, pelo facto de as mudanças
climáticas, provocando o derretimento do gelo e da neve, afetarem os trenós usados
nas suas rotas e pontes.
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É
de lembrar que os primeiros habitantes da Gronelândia são os Inuítes, povo que foi,
durante muito tempo, chamado de “esquimó”. Porém, o termo deixou de ser usado
por ser considerado pejorativo, pois, historicamente, associado à ideia de
“comedor de carne crua”, representava uma visão de inferioridade criada por
colonizadores.
Este
grupo indígena, além da Gronelândia, habita as regiões árticas do Canadá, do
Alasca e da Sibéria. Com uma cultura rica e adaptada ao Ártico, as pessoas
construíam abrigos de neve (“iglus”, termo que significa “casas”) e usavam
roupas de pele de animais para sobreviverem a temperaturas de 45 graus Celsius negativos
(-45º C). Atualmente, os Inuítes incorporam tecnologias modernas no seu estilo
de vida, vivendo em comunidades estruturadas, embora mantenham forte ligação à Natureza
e à preservação de tradições ancestrais. E a sua tradicional espiritualidade envolve
o xamanismo e a crença em Inua, um ser espiritual presente em todos os
elementos da Natureza.
“Esquimó”
não é nome escolhido por este povo. Foi rótulo imposto por estrangeiros e
passou a carregar estereótipos do seu modo de vida e da sua cultura. Por isso, a
população prefere ser identificada como inuíte (termo que significa “povo”), a
designação que gosta de usar.
Durante
séculos, vivia-se, na grande ilha ártica, confecionando roupas com pele de urso
polar e alimentando-se de peixe recém-pescado. Porém, tal forma de vida mudou
com a chegada dos Vikings vindos da Islândia, os quais, para atraírem mais
pessoas ao território, lhe deram o nome de Gronelândia, que significa “terra
verde”, apesar de a ilha ser, maioritariamente, coberta de gelo. Depois, a Groenlândia
tornou-se colónia da Dinamarca, sem a população local ter sido consultada. Os
colonizadores criaram escolas onde apenas se ensinava o Dinamarquês e impuseram
a cristianização, sendo apagadas, ao longo do tempo, tradições inuítes.
Também
a exploração económica marcou esse
período. A Dinamarca passou a lucrar com a caça à baleia e com o comércio de
peles de foca, produtos que tinham alto valor no mercado internacional. Em contraponto,
houve pouco investimento na população local.
Hoje,
a Gronelândia, com cerca de 57 mil habitantes, acalenta planos de independência,
que têm dificuldade em alcançar êxito, devido à insuficiência financeira.
Metade do dinheiro do território ainda lhe vai da Dinamarca e a população tem
acesso gratuito à educação e à saúde, mas o país detém altas taxas de
alcoolismo e de suicídio.
Com
o aquecimento global, o degelo do Ártico avança rapidamente, o que abre novas
rotas marítimas e aumenta o interesse pelos recursos minerais escondidos sob a
camada de gelo da Gronelândia, essenciais para a produção de carros elétricos, de
turbinas eólicas, de equipamentos eletrónicos e de armamentos. E o Oceano
Ártico transformou-se em área estratégica para as grandes potências, passando a
região a ser vista como espaço de disputa militar, com a presença da Organização
do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e de bases russas.
As
autoridades locais rejeitam a ideia de que a Gronelândia seja tratada como território
à venda e reafirmam o sentimento de pertença: “Não somos uma coisa que se possa
comprar. Nós somos um povo. Esta é a nossa terra”, afirmam líderes do governo
local. E as populações, face à arremetida do presidente dos Estados Unidos da
América (EUA), Donald Trump, dizem preferir a proteção dinamarquesa.
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Os
caçadores de focas e pescadores inuítes têm sido puxados por cães em trenós
pelo Ártico, há mais de mil anos. Todavia, devido às alterações climáticas,
isso não tem sido possível, na cidade de Ilulissat (a terceira maior localidade
da ilha), sede do município de Avannaata, a cerca de 300 quilómetros a Norte do
Círculo Polar Ártico, na costa ocidental.
Esta cidade é o destino mais popular da Gronelândia, devido à sua proximidade do fiorde de gelo de Ilulissat, onde desagua um glaciar, que despeja milhões de toneladas de gelo, por dia. Porém, em vez de deslizarem sobre a neve e sobre o gelo, os habitantes locais, agora, enfrentam uma viagem acidentada sobre terra e sobre rochas, pois o aumento das temperaturas, em Ilulissat, está a provocar o derretimento do permafrost (tipo de solo, de rocha ou de sedimento que permanece congelado a 0º C ou a menos, durante dois ou mais anos consecutivos.
Esta cidade é o destino mais popular da Gronelândia, devido à sua proximidade do fiorde de gelo de Ilulissat, onde desagua um glaciar, que despeja milhões de toneladas de gelo, por dia. Porém, em vez de deslizarem sobre a neve e sobre o gelo, os habitantes locais, agora, enfrentam uma viagem acidentada sobre terra e sobre rochas, pois o aumento das temperaturas, em Ilulissat, está a provocar o derretimento do permafrost (tipo de solo, de rocha ou de sedimento que permanece congelado a 0º C ou a menos, durante dois ou mais anos consecutivos.
As
temperaturas, no inverno, costumavam cair para cerca de -25 ° C; no entanto,
agora. estão a ocorrer muitos dias acima de zero, com alguns dias chegando a
atingir até 10 °C.
Jørgen
Kristensen, cofundador da Dogsled and Ice Academy e cinco vezes campeão de
corridas de cães de trenó, diz ser a primeira vez que se lembra de não haver
neve ou gelo na baía, em janeiro. As camadas de gelo funcionam, geralmente, como
grandes pontes, ligando os Gronelandeses às áreas de caça e a outras
comunidades, em todo o Ártico, no Canadá, nos EUA e na Rússia. Quando o gelo
marinho costumava chegar, as pessoas sentiam-se completamente livres, ao longo
de toda a costa, podendo decidir para onde ir. Agora, nem sequer há neve
suficiente, ao longo do percurso, para os cães beberem.
O
trenó puxado por cães é uma parte importante da cultura gronelandesa, e é por
isso que Jørgen Kristensen teme que essa tradição se perca com o tempo. Com
efeito, para ele e para os outros amigos desta atividade lúdica, guiar um trenó
puxado por cães no gelo é estar “completamente sem limites, como na estrada
mais longa e larga do Mundo”; e não ter isso é “uma perda muito grande”.
A
este respeito, Sara Olsvig, presidente do Conselho Circumpolar Inuit, referiu
que, há anos, o governo da Gronelândia se sentiu obrigado a dar ajuda
financeira às comunidades que vivem no extremo Norte da ilha, devido à falta de
gelo, o que impedia os habitantes locais de caçar.
Na
verdade, a geleira Sermeq Kujalleq, nas proximidades, é uma das mais ativas e
de movimento mais rápido do Mundo, contribuindo, significativamente, para o
aumento do nível do mar, de acordo com a NASA. Porém, o derretimento do gelo pode
revelar minerais raros e essenciais ainda intocados, o que muitos Gronelandeses
acreditam ser a razão pela qual o presidente dos EUA, que chamou as alterações
climáticas de “a maior fraude de sempre”, se interessa pela ilha, com recentes
declarações de que tomaria posse dela, mesmo que fosse necessário utilizar a
força.
O
Icefjord Center, liderado por Karl Sandgreen e dedicado a documentar a geleira
Sermeq Kujalleq e os seus icebergs, revelou que 40 quilómetros da geleira já
derreteram, em menos de um século, por causa do carbono negro e de detritos de
erupções vulcânicas. E Karl Sandgreen acredita que a agenda de Donald Trump
“é obter os minerais”.
Nesta
sua convicção, tem plena razão. A questão da segurança do Ártico, embora seja
premente, é pretexto para o inquilino da Casa Branca levar riqueza para o seu
país e para si. Com efeito, formulou um conceito estratégico de segurança
nacional muito sui generis.
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Enquanto
os Gronelandeses temem a perda da cultura autóctone e a alteração do seu modo
de vida, um cientista inuíte empenhado na ação climática revela a disseminação
dos microplásticos.
Munido de um caiaque e de um filtro de microplásticos construído por si, Kristian Louis Jensen passou a última década a remar pelos lugares mais intocados do planeta.
Munido de um caiaque e de um filtro de microplásticos construído por si, Kristian Louis Jensen passou a última década a remar pelos lugares mais intocados do planeta.
No
mestrado em proteção ambiental, desenvolveu o “Plastaq”, ferramenta de ciência
cidadã que permite a praticantes de caiaque e a comunidades locais a recolha de
amostras de água à superfície com resíduos provenientes de garrafas
abandonadas, de embalagens e de outros plásticos. Todavia, com profunda preocupação
sobre a pegada invisível da Humanidade, decidiu empreender viagem até um
glaciar remoto, no Leste da Gronelândia, a centenas de quilómetros de qualquer
estrada. Esperava encontrar fibras e resíduos plásticos, em geral, como
aconteceu, mas deparou-se, nas amostras, com vestígios de partículas de pneus
automóveis.
A
este respeito, a Euronews publicou, a 14 de fevereiro, um artigo intitulado
“Cientista inuit percorre a Gronelândia de caiaque para expor os microplásticos”,
em que Liam Guilliver nos explica o que se passou, desde logo, vincando o
choque sofrido pelo cientista, ao encontrar vestígios de partículas de pneus
automóveis num glaciar praticamente intacto, no Leste da Gronelândia, o que o
levou a confirmar a tese de que “estas partículas deixaram de ser apenas um
problema urbano”. Efetivamente, transformando-se em pó, “ficam suspensas no ar
e viajaram milhares de quilómetros até ao Ártico”. Ou seja, “são combustíveis
fósseis em movimento” e mostram que o Ártico
funciona como um ‘sumidouro’ da poluição mundial.”
Cada
um dos mais de cinco mil milhões de pneus em circulação, no Mundo, perde cerca
de 10% a 30% da massa, ao longo da sua vida útil. “Essa massa não desaparece. Fragmenta-se
em poeiras tóxicas que se depositam logo no início da nossa cadeia alimentar”, observa
Kristian Jensen.
E
Liam Guilliver sublinha que “o trabalho de Jensen revelou até que ponto os
microplásticos se espalham, começando já a provocar uma verdadeira tríade
de problemas para as comunidades locais, na Gronelândia”.
A
nível de consequências, o cientista explicita que, “do ponto de vista
ecológico, começam a surgir indícios de que a toxicidade dos pneus é elevada,
para espécies árticas”. E exemplifica: “Por exemplo, substâncias, como o 6PPF [composto
orgânico quiral, especificamente, um ligante de fosfina utilizado em catálise metálica],
são letais para o salmão Coho.”
Por
seu turno, o articulista infere que “a poluição provocada pelos pneus também
pode causar deformações nos ovos de bacalhau-do-Atlântico, pondo em causa os
alicerces da indústria piscatória do país”. Assim, Liam Guilliver sustenta que,
“para as comunidades indígenas, a contaminação das águas da Gronelândia
tornou-se uma questão de justiça ambiental, com riscos sérios para a saúde”. E Kristian
Jensen verifica, lamentando: “Estamos no ‘fim do tubo’,
a respirar e a ingerir a poluição de veículos que circulam noutros continentes.”
A
exposição crónica a estas partículas, nas zonas urbanas, foi associada a problemas
de saúde, como o agravamento da asma e de doenças cardíacas. “No Ártico, essa
ameaça está, agora, a depositar-se nas nossas fontes de alimento, transformando
um ambiente quase intacto num reservatório de resíduos globais”, sustenta
Jensen, frisando que quem vive a altas latitudes é afetado, desproporcionadamente,
pela poluição global e pelas alterações climáticas.
Os
cientistas vêm alertando para o agravamento do problema dos microplásticos, tendo
vários estudos detetado concentrações mais elevadas de minúsculas partículas de
plástico no gelo marinho destas zonas remotas do que nas conhecidas manchas de
lixo dos oceanos. E Jensen alerta para um “ponto cego crítico” nas políticas
climáticas que procuram enfrentar este problema generalizado. “Atualmente,
regulamos o que sai do tubo de escape, mas ignoramos o que se solta dos pneus. Isto
é perigoso, tendo em conta que as partículas de pneus são, hoje, reconhecidas
como uma das principais fontes de microplásticos que entram nos ecossistemas em
todo o mundo”, explica.
O
impulso para abandonar os combustíveis fósseis ganhou força na cimeira COP30 de
Belém do Pará, em 2025, com mais de 90 países a apoiarem a criação de um
roteiro, mas, após a resistência de vários petroestados, as referências à
eliminação gradual desses combustíveis foram retiradas do acordo final. A
esperança num futuro sem combustíveis fósseis está, assim, fora do âmbito da Organização
das Nações Unidas (ONU). E, em abril, mais de 85 países reunir-se-ão na
Colômbia, na conferência Global Fossil Fuel Phaseout, coorganizada com os
Países Baixos.
No
entanto, Kristian Jensen adverte que a transição dos combustíveis fósseis se
centra, sobretudo, no carbono negro (“black carbon”) – emissões resultantes da
queima de combustíveis –, pois, na ótica do cientista, “não podemos afirmar que
estamos a enfrentar a crise dos combustíveis fósseis, enquanto ignorarmos os
petroquímicos sólidos que rolam sob os nossos veículos”.
Também
cresce o apoio a maior transparência da parte dos fabricantes, com Jensen a defender
a criação de um “ecossistema colaborativo”, em que os ecotoxicologistas tenham
acesso total aos ‘cocktails’ químicos que compõem os pneus modernos. E, como enfrentar
os gigantes dos combustíveis fósseis e as grandes empresas não é tarefa fácil,
nem algo que alguém consiga fazer sozinho, Jensen está a lançar, neste mês, na
conferência Arctic Frontiers, a coligação científica Black Carbon, visando a criação
de uma coligação científica intersetorial para monitorizar o black carbon no Ártico
e os seus efeitos na saúde da região. Para tanto, vão reunir-se toxicologistas,
líderes indígenas e decisores políticos para estudarem os impactos específicos
das partículas de pneus na saúde no Ártico, sendo a ideia levar tais provas ao
Parlamento Europeu (PE) e à COP31, ainda em 2026.
Além
disso, como refere o articulista, o trabalho de Jensen chegará, em breve, ao
grande ecrã, num documentário do realizador alemão Steffen Krones, sob o título
“Black Carbon”, com vista a revelar os impactos devastadores dos microplásticos,
no Ártico e nas comunidades que vivem em harmonia com estes ecossistemas
frágeis. O filme está em rodagem, acompanhando Jensen, a investigação e o
trabalho de sensibilização que desenvolve.
***
Entretanto,
enquanto a subida das temperaturas faz aumentar o nível do mar, em todo o Mundo,
pondo milhões em risco de graves inundações e de erosão costeira, na
Gronelândia, acontece o contrário. Um
estudo publicado na revista “Science Communications”, prevê que, em
cenário de baixas emissões, a queda do nível do mar rondará 0,9 metros, até
2100; e em cenário de elevadas emissões, pode atingir 2,5 metros.
Trata-se do efeito de descompressão, segundo o qual, à medida que a camada de gelo perde massa, o nível do mar desce, ainda mais, devido à gravidade.
Trata-se do efeito de descompressão, segundo o qual, à medida que a camada de gelo perde massa, o nível do mar desce, ainda mais, devido à gravidade.
“Quando
a camada de gelo é muito grande, tem muita massa”, diz Lauren Lewright, a
autora principal do estudo, explicando: “A superfície do mar é atraída para a
camada de gelo por essa força gravítica. À medida que a camada perde massa, a
sua atração sobre a superfície do mar diminui, o que se traduz numa descida do
nível do mar.”
Estes
efeitos, que podem representar até 30% da futura queda do nível do mar, na
Gronelândia, deixando as comunidades costeiras em seco, são conhecidos,
tecnicamente, como “ajuste isostático glacial”.
***
Enfim,
a crise climática é muito grave e a sua resolução ou minoração enfrenta muitas
resistências, no quadro do lucro e do negacionismo. Porém, a Gronelândia é um
caso complexo que faz lembrar o ditado: “Preso por ter cão, preso por o não ter”. E não é demandada pelos melhores motivos, mas
pela sua riqueza e pela sua colocação geoestratégica, que suscitam a ambição de
muitos e a hegemonia das grandes potências. Contudo, a crise climática convoca
à ação.
2026.02.17
– Louro de Carvalho
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