Decorreu,
de 13 a 15 de fevereiro, a 62.ª edição da Conferência de Segurança de Munique
(MSC), com a presença confirmada de mais de 60 chefes de Estado e de Governo, de
uma centena de ministros e de cerca de um milhar de participantes de 120 países,
tendo o seu presidente, o diplomata alemão Wolfgang Ischinger, referido que esta
MSC decorria em contexto de instabilidade e de profunda incerteza, devido à
política norte-americana.
Intervindo na abertura da conferência, o chanceler alemão, Friedrich Merz, alertou que, “na era das grandes potências”, a liberdade da Europa “já não é adquirida, está ameaçada”, pelo que urge a necessidade de “firmeza e vontade para afirmar essa liberdade”, devendo a Europa estar pronta para “empreender novos começos, [para] assumir mudanças e [para] fazer sacrifícios”, “não um dia, mas agora”, à medida que os países europeus aumentem os seus gastos militares, ante a ameaça russa e o afastamento dos Estados Unidos da América (EUA).
Intervindo na abertura da conferência, o chanceler alemão, Friedrich Merz, alertou que, “na era das grandes potências”, a liberdade da Europa “já não é adquirida, está ameaçada”, pelo que urge a necessidade de “firmeza e vontade para afirmar essa liberdade”, devendo a Europa estar pronta para “empreender novos começos, [para] assumir mudanças e [para] fazer sacrifícios”, “não um dia, mas agora”, à medida que os países europeus aumentem os seus gastos militares, ante a ameaça russa e o afastamento dos Estados Unidos da América (EUA).
À
margem da MSC, o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, num encontro com o
homólogo ucraniano, anunciou que a China está pronta para prestar “nova ajuda
humanitária” à Ucrânia. “As relações entre a China e a Ucrânia devem manter-se
no caminho certo [...]. A China está pronta para prestar nova ajuda humanitária
à Ucrânia”, disse Wang Yi a Andrii Sybiga, segundo um comunicado divulgado pela
televisão estatal chinesa CCTV.
A
China, que nunca condenou a ofensiva russa e se diz neutra, tem apelado a
negociações de paz para pôr termo à guerra. Porém, os governos ocidentais e a
Ucrânia acusam-na de fornecer à Rússia apoio económico crucial para a guerra,
nomeadamente, componentes militares para a indústria de defesa. Ao invés, segundo
a agência chinesa Xinhua, Wang Yi afirmou que as trocas comerciais entre
Pequim e Kiev se desenvolveram em 2025, sendo a China o maior parceiro
comercial da Ucrânia e a maior fonte de importações, e que a China espera que o
lado ucraniano continue a garantir a segurança do pessoal e das instituições
chinesas na Ucrânia.
Wang
Yi falou em progressos recentes, no diálogo sobre o conflito, que julga
reconfortantes, e assegurou que a posição chinesa é constante, “defendendo a
objetividade e a equidade e promovendo, ativamente, as conversações de paz” e
revelando disposição para manter a comunicação com a Ucrânia e para trabalhar
com a comunidade internacional no desempenho de papel construtivo na obtenção
de uma solução política rápida para a crise.
No
final do encontro, Andrii Sybiga agradeceu a Wang Yi a decisão da China de “conceder
ajuda humanitária adicional, em matéria de energia, à Ucrânia”, face à
intensificação dos bombardeamentos russos contra a rede energética do país. E, nas
redes sociais, revelou que falou a Wang Yi sobre os desenvolvimentos da
guerra. “Informei o meu colega chinês da situação na linha da frente, dos
ataques russos ao nosso sistema energético e dos danos infligidos às empresas
chinesas como resultado dos ataques russos. Discutimos os esforços de paz e o
papel importante da China para facilitar o fim do conflito”, escreveu, citado
pela AFP.
Wang
Yi reuniu-se também com o homólogo norte-americano, Marco Rubio. Segundo a AFP,
o encontro, que durou uma hora, ocorreu poucos dias após o presidente dos EUA
ter afirmado que receberá Xi Jinping, em Washington, no fim do ano, para
discutirem, sobretudo, questões comerciais. Rubio e Wang reuniram-se num hotel
da capital bávara, onde trocaram um aperto de mão, mas sem declarações aos
jornalistas.
***
Por
seu turno, a presidente da Comissão
Europeia, defendeu, claramente, que a União Europeia (UE)
deve ativar a cláusula de defesa mútua e tomar decisões de segurança por
maioria qualificada, bem como apostar em estreitar laços com o Reino Unido e com
outros parceiros, num contexto de crescente volatilidade global. “A Europa deve
tornar-se mais independente, não há outra opção”, frisou, referindo ameaças,
que vão desde territórios a tarifas, passando por regulamentações tecnológicas
(alusão aos EUA e à agressão russa).
A independência de que fala Ursula von der Leyen, que abrange a defesa, a energia, a economia, o comércio, as matérias-primas e a tecnologia digital, não enfraquece os laços transatlânticos, pois, nas suas palavras, “uma Europa independente é uma Europa forte e uma Europa forte torna a aliança transatlântica mais sólida”. Aliás, as despesas com a defesa apontam nessa direção. Desde o início da guerra na Ucrânia, o investimento europeu, nesta área, cresceu quase 80% e as projeções indicam que, em 2028, as despesas do continente em equipamento militar ultrapassarão as dos EUA em 2025. “Um verdadeiro despertar europeu”, disse a presidente da Comissão, para quem não é suficiente gastar, mas tomar decisões, mais rapidamente, o que pode implicar o recurso à maioria qualificada, em vez de exigir unanimidade.
A independência de que fala Ursula von der Leyen, que abrange a defesa, a energia, a economia, o comércio, as matérias-primas e a tecnologia digital, não enfraquece os laços transatlânticos, pois, nas suas palavras, “uma Europa independente é uma Europa forte e uma Europa forte torna a aliança transatlântica mais sólida”. Aliás, as despesas com a defesa apontam nessa direção. Desde o início da guerra na Ucrânia, o investimento europeu, nesta área, cresceu quase 80% e as projeções indicam que, em 2028, as despesas do continente em equipamento militar ultrapassarão as dos EUA em 2025. “Um verdadeiro despertar europeu”, disse a presidente da Comissão, para quem não é suficiente gastar, mas tomar decisões, mais rapidamente, o que pode implicar o recurso à maioria qualificada, em vez de exigir unanimidade.
A
líder do executivo europeu pede a aplicação do artigo 42.7 do Tratado da UE, a
cláusula de defesa mútua – o princípio “um por todos e todos por um” –,
sustentando que “não é opcional para a UE”, mas “obrigação”, ou compromisso que
só tem peso, “se for construído com base na confiança e na capacidade real”. E propôs
a formalização de colaborações em segurança, em economia e em defesa, até agora,
pontuais, como a Força Expedicionária Conjunta liderada pelo Reino Unido, a
Coligação de Voluntários para a Ucrânia, a Noruega, a Islândia e o Canadá.
***
Também
o secretário de Estado norte-americano, intervindo na MSC, afirmou que a
América e a Europa partilham raízes, mas alertou para a necessidade de inverter
o declínio económico e cultural. Assim, em tom mais suave do que o do vice-presidente
dos EUA, James David Vance, em 2025, Marco Rubio reiterou que o Ocidente está a
enfrentar um declínio civilizacional por opção, em resultado de políticas mal
concebidas, decorrentes de um “culto” ao clima e à migração em massa. Por
conseguinte, apelou aos Europeus para que se unam a uma causa comum com os EUA,
a fim de liderarem um novo século de prosperidade, já que as duas partes estão
histórica, cultural e economicamente interligadas, pelo que devem partilhar
princípios.
“Acreditamos que a Europa tem de sobreviver. […] Em última análise, o nosso destino está – e estará sempre – entrelaçado com o vosso”, afirmou Marco Rubio, num tom foi mais conciliador do que o do vice-presidente, que chocou os Europeus, ao defender que o continente corria o risco de se tornar terra de censura, sufocada por regulamentação excessiva e ameaçada pela abertura das fronteiras, e ao sugerir que a maior ameaça da Europa não vem da Rússia, mas do seu interior.
“Acreditamos que a Europa tem de sobreviver. […] Em última análise, o nosso destino está – e estará sempre – entrelaçado com o vosso”, afirmou Marco Rubio, num tom foi mais conciliador do que o do vice-presidente, que chocou os Europeus, ao defender que o continente corria o risco de se tornar terra de censura, sufocada por regulamentação excessiva e ameaçada pela abertura das fronteiras, e ao sugerir que a maior ameaça da Europa não vem da Rússia, mas do seu interior.
Marco
Rubio não utilizou a linguagem hiperbólica trumpiana, que refere os Europeus
como fracos e decadentes, mas a mensagem central manteve-se intacta, pois enquadrou
os desafios que se avizinham como uma missão para salvar toda uma civilização
do declínio.
O
chefe da diplomacia dos EUA criticou os políticos liberais por terem feito uma “escolha
consciente”, para desmantelarem, o Ocidente e a sua capacidade industrial, e
subcontratado cadeias de abastecimento críticas a rivais e concorrentes. “A
desindustrialização não era inevitável”, vincou, para explicitar: “Foi escolha
política consciente, empreendimento económico de décadas que despojou as nossas
nações da sua riqueza, da sua capacidade produtiva e da sua independência. A
perda da soberania da nossa cadeia de abastecimento foi uma transformação
insensata, mas voluntária.”
Aludindo
à “migração em massa”, como fonte de conflito, observou que não é preocupação
marginal de pouca importância, mas que “foi e continua a ser uma crise que está
a transformar e a desestabilizar as sociedades em todo o Ocidente”.
Tais
observações são eco da controversa análise da segurança nacional dos EUA,
publicada em dezembro de 2025, segundo a qual ou a UE a invertia o rumo de
políticas fundamentais ou enfrentaria o “apagamento civilizacional”, mas os EUA
promoveriam laços e trabalhariam com os partidos patrióticos da UE que lutam
contra o status quo a partir do seu interior.
Contudo,
Marco Rubio foi aplaudido de pé, ao garantir que os EUA se preocupam com o
futuro da Europa e ao sugerir que os desacordos provêm de um lugar de “profunda
preocupação” pelo continente, que referiu como o berço de uma civilização
comum. “Estamos ligados, não só a nível económico, não só a nível militar, [mas]
espiritualmente e culturalmente”, frisou, mencionando Mozart, Dante,
Shakespeare, os Beatles e os Rolling Stones.
Ursula
von der Leyen, questionada sobre a sua opinião acerca do discurso do secretário
de Estado norte-americano, respondeu que se sentia “muito tranquila e descreveu
Marco Rubio como “um bom amigo, um aliado forte”, mostrando que, em paralelo
com os que, na administração norte-americana, foi muito claro, ao referir: “Queremos
uma Europa forte na aliança e é por isso que estamos a trabalhar intensamente
na UE.”
Marco
Rubio criticou os “delírios pós-guerra” partilhados pela Europa e pelos EUA:
ceder soberania a instituições internacionais, criar estados de bem-estar
social, à custa da capacidade de defesa, abrir portas à imigração massiva que
ameaça a coesão social. E criticou organismos, como a Organização das Nações Unidas
(ONU), que se mostraram impotentes” em conflitos, como Gaza ou a Ucrânia e que precisam
de reformas urgentes. Porém, apesar da dureza da mensagem, tentou tranquilizar
os aliados europeus. Os EUA não querem “separar-se”, mas “revitalizar” a velha
amizade, pois “a nossa casa é no hemisfério ocidental, mas seremos sempre
filhos da Europa”. E insistiu que Washington não quer aliados fracos, mas capazes
de se defenderem por si próprios, orgulhosos da sua cultura e herança, e
dispostos a proteger a civilização que partilham.
Por
fim, disse que as diferenças entre a Rússia e a Ucrânia diminuíram, embora
permaneçam as questões mais difíceis de responder. Rejeitou a ideia de que
Moscovo não esteja interessada em negociar e insistiu que os EUA avançaram nas
conversações.
***
Por
sua vez, o presidente francês afirmou que a Europa terá de redesenhar a sua
arquitetura de segurança, nos seus próprios termos, porque enfrenta uma Rússia
agressiva. Assim, porque a atual estrutura de segurança não se manterá, os Europeus
têm de definir novos parâmetros, que podem incluir uma abordagem mais holística
da dissuasão nuclear.
Sustentando que os planos para “o dia seguinte”, que implicam futura coexistência com a Rússia, devem ser elaborados pelos Europeus, de forma independente, devido à realidade geográfica e a um exército russo “inchado”, com “alta de açúcar” beligerante, o líder francês afirmou: “Temos de ser nós a negociar a nova arquitetura de segurança para a Europa, no dia seguinte, porque a nossa geografia não vai mudar. […] Viveremos com a Rússia no mesmo lugar e com os Europeus no mesmo lugar, e não quero que esta negociação seja organizada por outra pessoa.”
Sustentando que os planos para “o dia seguinte”, que implicam futura coexistência com a Rússia, devem ser elaborados pelos Europeus, de forma independente, devido à realidade geográfica e a um exército russo “inchado”, com “alta de açúcar” beligerante, o líder francês afirmou: “Temos de ser nós a negociar a nova arquitetura de segurança para a Europa, no dia seguinte, porque a nossa geografia não vai mudar. […] Viveremos com a Rússia no mesmo lugar e com os Europeus no mesmo lugar, e não quero que esta negociação seja organizada por outra pessoa.”
Emmanuel
Macron sugeriu que os futuros parâmetros de segurança podem incluir nova
dissuasão nuclear, mais holística, entre os aliados europeus, ao invés de um
domínio estritamente nacional, o que levanta uma questão delicada, devido às implicações
na soberania, mas resolúvel com “novo diálogo estratégico” sobre armas
nucleares. “Encetámos um diálogo estratégico com o chanceler Merz e [com] outros
líderes europeus, para ver como podemos articular a nossa doutrina nacional com
a cooperação especial e com os interesses de segurança comuns em alguns
países-chave, afirmou, enfatizando a importância deste diálogo como forma de
articular a dissuasão nuclear, numa abordagem holística da defesa e da
segurança.
O
líder francês procurou reunir apoio para uma Europa mais forte e
orgulhosa, que, muitas vezes, carece de autoconfiança, apesar dos seus muitos
pontos fortes, não podendo continuar a ser vilipendiada com falsas alegações
amplificadas nas redes sociais, como economia excessivamente
regulamentada que fecha a inovação, como sociedade presa da migração que
corrompe as suas preciosas tradições, e “como um continente repressivo”, em
alguns setores.
Emmanuel
Macron pareceu reagir à administração dos EUA, que instam a Europa a inverter o
rumo ou a enfrentar o apagamento civilizacional, citando a regulamentação
excessiva, a migração ilegal e as políticas repressivas nas redes sociais que
restringem a liberdade de expressão. “Todos deviam inspirar-se em nós, em vez
de tentarem dividir-nos”, afirmou.
***
O
chanceler alemão observou que a ordem mundial, como existe, há décadas, “já não
existe” e avisou os EUA de que não serão suficientemente poderosos para “avançarem
sozinhos”, na nova era da política das grandes potências. E, aludindo ao título
do encontro, “Um Mundo em destruição”, sugeriu que a ordem baseada em regras desapareceu
e que países, como a Alemanha, têm de repensar a sua abordagem à segurança e à
autodefesa.
Declarando que o “momento unipolar” que existiu após a queda do Muro de Berlim e após a ascensão dos EUA como superpotência mundial passou, Friedrich Merz alertou para o facto de a nova ordem global de política poder colocar em maior perigo mesmo as nações mais fortes. “O regresso à política de poder não tem apenas origem na rivalidade entre grandes potências”, frisou, sugerindo que reflete a inquietação e a agitação dos tempos pré-revolucionários.
Declarando que o “momento unipolar” que existiu após a queda do Muro de Berlim e após a ascensão dos EUA como superpotência mundial passou, Friedrich Merz alertou para o facto de a nova ordem global de política poder colocar em maior perigo mesmo as nações mais fortes. “O regresso à política de poder não tem apenas origem na rivalidade entre grandes potências”, frisou, sugerindo que reflete a inquietação e a agitação dos tempos pré-revolucionários.
Este
novo contexto, aduziu, marca o fim da “ordem baseada em regras” que as
potências democráticas utilizaram para prevenir ou para mediar conflitos, desde
o final da Segunda Guerra Mundial. “A política das grandes potências parece
oferecer respostas fortes e fáceis, pelo menos, aos grandes atores e, pelo
menos, à primeira vista”, afirmou, sustentando que, “sob esta ilusão, a
política das grandes potências afasta-se de um Mundo em que a crescente
conetividade se traduz no Estado de direito e em relações pacíficas entre
Estados” e que “a política das grandes potências tem as suas próprias regras: é
rápida, dura e, muitas vezes, imprevisível”.
O
chanceler abordou uma “verdade inconveniente”: a relação transatlântica entre
os EUA e a Europa, que sustentou a segurança ocidental, durante décadas, e em
dúvida, agora. “Abriu-se um fosso entre a Europa e os EUA”, disse Merz, dando
razão a James David Vance, mas não aceitando o seu diagnóstico, antes
enfatizando os valores europeus e considerando que “as guerras culturais do
MAGA [Make America Great Again], nos EUA, não são as nossas”.
“A
liberdade de expressão, aqui, termina, quando as palavras proferidas são
dirigidas contra a dignidade humana, nossa lei básica. Não acreditamos em
tarifas e em protecionismo, mas no comércio livre. Aderimos aos acordos
climáticos e à Organização Mundial de Saúde [OMS], convictos de que os desafios
globais só podem ser resolvidos em conjunto”, observou.
***
Em
suma, a UE sabe que o Mundo está dividido e em crescente volatilidade, que os conflitos
eclodem, a cada passo, e que o continente europeu está fragilizado. Por isso,
tem de organizar a sua defesa e a sua segurança, de fortalecer a sua economia,
mas não pode descurar a diplomacia, pois é o diálogo estratégico, aliado à dissuasão,
que pode garantir a segurança comum.
2026.02.15
– Louro de Carvalho
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