sábado, 7 de fevereiro de 2026

Répteis congelados caem do “céu” na Florida, neste inverno

 

Atualmente, em consequência de um dos invernos mais rigorosos, algumas regiões da Florida, um estado norte-americano da Florida normalmente ensolarado, apresentam temperaturas apenas um pouco acima de zero, descendo as temperaturas locais abaixo de zero, durante a noite. Situação tão excecional permitiu ver, em Tampa Bay, flocos de neve, pela primeira vez, em mais de uma década.
Efetivamente, a Florida está a passar por períodos de temperaturas muito baixas, tão frias que o “Sunshine State” (estado ensolarado) nem faz jus ao seu nome, o que tem forte impacto sobre as iguanas que migraram para lá, em especial, as numerosas iguanas verdes da Florida. Estes répteis tropicais, porque não geram o seu próprio calor corporal, dependem do calor do exterior. Logo que o termómetro desce abaixo dos dez graus Celsius (10º C), ficam letárgicos. Se a temperatura desce abaixo dos 5º C a 7º C, entram em estado de rigidez. Se ficarem neste estado sobre as árvores, perdem aderência e caem no chão. Vários meios de comunicação social exibiram animais caídos, imóveis, em ruas, em passeios e em jardins.
Houve pessoas feridas por iguanas caídas de árvores, mas a Florida não contabiliza números oficiais. Estes lagartos verdes crescem até dois metros de comprimento e pesam até nove quilos.
As iguanas verdes, originárias da América Central e do Sul, tornaram-se, desde os anos 60, espécie invasora nos subúrbios de Miami, de Fort Lauderdale e de Palm Beach, estimando-se que o tenha aumentado o número, até atingir um milhão de animais. Reconhecidas como um problema na Florida, constam na lista de espécies invasoras particularmente nocivas, ocupando barragens e margens de rios, destruindo jardins e infraestruturas e causando cortes de energia.
A Florida Fish and Wildlife Conservation Commission (FWC), autoridade de proteção ambiental, recomenda aos Texanos que, por segurança, removam as iguanas mortas das suas propriedades com equipamento de proteção adequado e que levem os animais em sacos respiráveis a pontos de recolha oficialmente estabelecidos, para serem abatidos, “com humanidade”, por especialistas. Contudo, há quem prefira comê-los ao almoço. De facto, nas Caraíbas, onde as iguanas também são nativas, chamam-lhes “pollos de los árboles”, isto é, “galinhas das árvores”.
Enfim, as iguanas não caem do céu, mas de árvores ou de estruturas aéreas.

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Já em junho de 2025, os especialistas viam a possibilidade de ondas de frio ártico, podendo um vórtice (movimento rápido, intenso e circular) polar mais fraco do que o normal trazer um inverno muito rigoroso para a Alemanha, com as temperaturas muito baixas, após o Natal.
A última vez que um padrão climático meridional levou a um inverno do século, na Alemanha, foi em 1978/79, com as pessoas a sofrerem fortes nevascas, tempestades de neve e temperaturas excecionalmente baixas. Os modelos meteorológicos indicavam um cenário, geralmente ameno, para os dias próximos ado Natal, mas com significativas exceções.
O modelo de longo prazo do Centro Meteorológico Europeu também indicava um arrefecimento, mas apenas após os feriados de inverno. Apenas o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos da América (NOAA) previa temperaturas médias bastante mais altas. Porém, essa média era fortemente influenciada pelas duas semanas subsequentes, o que não contradizia um possível arrefecimento.
A situação era indefinida. Para janeiro, os especialistas apontavam para tendências variáveis ​​e relativamente amenas, com pouco inverno e com muito cinza. O modelo da NOAA seguia a mesma trajetória, embora os seus cálculos oscilassem, nos últimos tempos. E os modelos do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS) previam um janeiro ligeiramente mais frio e seco do que as médias de longo prazo.
Efetivamente, o verão e o início do outono foram extremamente quentes e os incêndios assolaram a Europa do Sul, mas o inverno foi muito frio, ventoso, chuvoso, com neve e com granizo. Neste sentido, os meteorologistas parece terem-se enganado. Não obstante, como as condições meteorológicas observáveis indicavam alta pressão estável sobre a Europa Central, admitiam que a alta pressão, em janeiro, fosse enganosa: durante o dia, tudo tranquilo, mas o nevoeiro e o resfriamento levariam ao rápido congelamento do permafrost e à formação de geadas. E é de considerar o fator do vórtice polar, sobretudo, no auge do inverno, quando tende a causar perturbações que direcionam o ar frio do Ártico para a Europa. Embora nenhum modelo mostre colapso iminente do vórtice polar, as tendências de alta pressão concordam com esse cenário.
O Centro da NOAA também confirmou, para 2025 e para 2026, a presença do fenómeno La Niña, com previsão de persistência até dezembro de 2025 – fevereiro de 2026. Ora, La Niña, que provoca temperaturas mais baixas do que o normal, na Europa Ocidental, faz parte de um ciclo climático natural e ocorre quando as temperaturas da superfície do mar, no Pacífico central e oriental, caem abaixo da média. Porém, assim como El Niño, pode causar eventos climáticos extremos em todo o Mundo, mas é o oposto da fase quente do El Niño.
Tanto La Niña como El Niño podem ter efeitos de longo alcance nos padrões climáticos globais, inclusive na Europa, mas quanto mais distante um local estiver do Oceano Pacífico, mais fortes podem ser esses efeitos. E, em geral, La Niña também traz condições mais húmidas e frias para os Alpes, o que pode resultar em nevascas mais frequentes e intensas, o que seria uma boa notícia para os esquiadores.

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Em três dias da primeira semana inteira de janeiro, milhares de turistas ficaram retidos no Norte da Finlândia, após os voos, no aeroporto de Kittilä, terem sido cancelados, devido ao frio extremo.
Ora, este país nórdico, muito conhecido pela experiência a lidar com o clima de inverno, regista perturbações no tráfego aéreo muito menos frequentes do que outras nações europeias mais a Sul, sustentando os seus especialistas em aviação que deixar aviões em terra é mais complexo do que limpar uma pista coberta de neve e gelo. Assim, na Finlândia, as quedas de temperatura e a neve intensa são rotina, no inverno, pelo que os seus aeroportos têm programas de manutenção bem definidos. Por exemplo, o aeroporto de Helsínquia faz manutenção diária e remoção direcionada de neve.
De acordo com Anssi Väisänen, gestor de operações de plataforma da Finavia, no aeroporto da capital finlandesa, a expressão “remoção direcionada de neve” refere-se ao modelo operacional para dias de queda anormal de neve nas plataformas de estacionamento das aeronaves. O plano de estacionamento é elaborado, cerca de 12 horas antes, de modo a haver várias posições de estacionamento vagas na plataforma, lado a lado, o que, na perspetiva do referido gestor, permite às equipas de manutenção concentrarem recursos e limparem a área com as máquinas, podendo, a seguir, iniciar-se o processo de escala das aeronaves.
As posições de estacionamento de aeronaves são libertadas por secções para as equipas de manutenção varrerem e limparem, de uma só vez, a maior área possível.
Também têm de ficar livres de neve as pistas e as vias de circulação. No aeroporto de Helsínquia, está pronta para limpar as três pistas uma frota de 200 veículos e máquinas, dos limpa-neves aos pulverizadores de químicos. Os gigantes desta frota são os varredores-sopradores Vammas PSB 5500, máquinas de 31 toneladas que limpam uma faixa de 5,5 metros de pista em 11 minutos, graças à combinação de funcionalidades de remoção de neve.
Os varredores-sopradores limpam neve, até durante 800 horas, no inverno, segundo Pyry Pennanen, responsável pela manutenção do aeródromo da Finavia no aeroporto de Helsínquia. A maquinaria é operada por 135 técnicos de manutenção qualificados e formados, dos quais 75 são recrutados apenas para trabalharem na época de inverno.
Em Helsínquia, a janela para limpar as pistas, de 3500 metros de comprimento por 60 de largura, é de 13 minutos. Porém, o tempo de limpeza das pistas pode ser reduzido para 11 minutos, com a ajuda de agentes anticongelantes e de padrões de varrimento cuidadosamente planeados e ensaiados para a remoção de neve. E, enquanto uma das três pistas é limpa, as outras duas mantêm-se operacionais.
Também aeroportos mais a Norte, para lá do Círculo Polar Ártico, raramente fecham, por causa do tempo de inverno. No aeroporto de Ivalo, o episódio mais recente de temperaturas extremas, em 2023, levou o termómetro aos 35º C negativos. Mesmo assim, o aeroporto cancelou apenas um voo, mantendo todas as restantes operações normais. E, no aeroporto de Kittilä, a temperatura desceu aos 37 º C negativos, a 11 de janeiro, após vários dias de frio semelhante. Todavia, as operações ficaram muito mais gravemente afetadas do que em Ivalo.
Efetivamente, quando neve e gelo chegam em simultâneo, os recursos são levados ao limite. O maior problema, no dia do cancelamento, foi a camada de gelo no exterior das aeronaves, capaz de congelar componentes mecânicos e os flaps das asas.
Os flaps são dispositivos de alta sustentação usados para reduzirem a velocidade de estol da asa da aeronave (aumento excessivo do ângulo de ataque, ou seja, inclinação da asa, em relação ao vento relativo) para um determinado peso. São, geralmente, montados nas bordas de fuga das asas de aeronaves de asa fixa e são usados ​​para reduzirem a distância de descolagem da distância de pouso. Todavia, como causam aumento no arrasto, são recolhidos, quando não são necessários.
Ora, como referiu ao jornal neerlandês “De Telegraaf” Joris Melkert, docente de engenharia aeroespacial na Universidade de Tecnologia de Delft, “é extremamente perigoso voar com gelo nas asas”, pois o fluxo de ar em redor da asa é perturbado” e leva o avião a entrar em perda e a cair. Para evitar isto, primeiro, é necessário removido o gelo com água quente e, depois, a aeronave tem de ser pulverizada com uma camada de anticongelante, o que demora entre 10 e 30 minutos. Contudo, em geadas severas, mas secas, pode não ser necessário o degelo, pois, quando há humidade no ar, é que a necessidade de degelo aumenta, disse um porta-voz da Finavia, que gere a rede de aeroportos da Finlândia.
Assim, de acordo com a mesma fonte, “devido às condições extremamente desafiantes, as companhias foram obrigadas a cancelar voos para Kittilä na sexta-feira, no sábado e no domingo”. E a Finavia disse à emissora pública Yle que conectores de equipamento de apoio em terra e portinholas de veículos congelaram durante o abastecimento, impossibilitando o degelo.
Em contraponto com Helsínquia, no início de janeiro, o aeroporto de Schiphol, em Amesterdão, nos Países Baixos, cancelou mais de três mil voos, com a chegada do frio extremo. Nevascas intensas, temperaturas negativas e ventos fortes provocaram a interrupção de operações, naquele aeroporto internacional, mas foi o degelo das aeronaves que bloqueou as operações.
O fator do cancelamento de voos foi a drástica redução dos estoques de anticongelante utilizado no degelo de asas e nas fuselagens antes da descolagem. O produto, composto por água aquecida e glicol, é essencial para operações seguras em condições de neve de gelo. Segundo o “De Telegraaf”, Schiphol não procedeu a instalações de degelo, em todas as pistas, devido ao custo, obrigando os aviões a taxiar por mais tempo e criando estrangulamentos, em caso de mau tempo.
Não é, pois, só Portugal a poupar na farinha para gastar no farelo.
Por outro lado, as prolongadas condições de gelo pressionaram a operadora KLM Royal Dutch Airlines, a companhia aérea nacional dos Países Baixos, com sede na cidade de Amstelveen. Cem funcionários e 25 camiões estão dedicados às operações de degelo, e todos foram mobilizados, durante a semana de temperaturas extremas.
Ao fim de alguns dias de uso contínuo, o stock de fluido de degelo começou a escassear, disse a companhia neerlandesa, obrigando ao cancelamento de mais voos.
A KLM enviou funcionários à Alemanha para recolher stock adicional (mais de cem mil litros de fluido), o que permitiu retomar gradualmente as operações após alguns dias. “Este efeito dominó faz Schipol parar, por completo, em dias como estes, com neve. Somos alvo de gozo na Europa”, disse ao “De Telegraaf” um funcionário da KLM, sob anonimato.

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Devido ao Ártico em aquecimento, os EUA e a Europa de Leste enfrentaram, em janeiro, frio excecional. Os meteorologistas atribuem essa perigosa onda de frio invernal a um vórtice polar alongado, à humidade e à falta de gelo marinho.
Águas quentes do Ártico e a terra continental fria conjugam-se a alongar o vórtice polar, de modo a trazer a grande parte dos EUA uma dose devastadora de tempo invernal. O país sofreu faixas de temperaturas muito abaixo de zero, neve intensa e gelo que derrubou linhas elétricas. Com efeito, os dois terços orientais do país estão ameaçados por uma tempestade de inverno que pode rivalizar, em danos, com um grande furacão e tem parte da sua origem num Ártico a aquecer, devido às alterações climáticas. Os meteorologistas alertavam que o frio extremo se prolongaria pelo resto de janeiro e pelo início de fevereiro, demorando a derreter a neve e o gelo acumulados. “Creio que as pessoas estão a subestimar o quão grave isto vai ser”, disse Ryan Maue, ex-cientista-chefe da NOAA e, agora, meteorologista independente.
O vórtice polar, bolsa de ar muito frio que fica, muitas vezes, retida no Norte do Canadá e no Alasca, é alongado por uma ondulação na alta atmosfera que remonta a uma zona  ártica, relativamente sem gelo. Quando as temperaturas gélidas atravessam os EUA, encontram humidade ao largo da Califórnia e do Golfo do México, criando gelo e neve paralisantes, em muitas zonas. A origem do sistema está no Ártico, onde temperaturas mais quentes acrescentam energia ao vórtice polar e empurram o ar frio para Sul. Da Europa de Leste à Sibéria, a massa terrestre está muito fria. Todo o hemisfério entrou numa vaga de frio extremo.
Já em outubro de 2025, alterações no Ártico e a baixa extensão de gelo marinho criavam condições para o tipo de vórtice polar alongado que inverno severo aos EUA e à Europa do Norte e à Europa de Leste. E quedas de neve intensas, na Sibéria, acrescentaram-se ao jogo de forças meteorológicas que deforma a forma do padrão de ar normalmente quase circular. Tais condições viciaram o jogo a favor do alongamento do vórtice polar. Ora, a muito baixa cobertura de gelo marinho, nos mares de Barents e de Kara, no Ártico, ajuda a configurar um padrão de ondas que provoca surtos de frio nos EUA. Um Ártico mais quente está a fazer o gelo marinho nessa região encolher mais depressa do que noutras.

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Há potencial para acumulações de gelo com impacto, que pode provocar cortes significativos ou generalizados de eletricidade e danos relevantes em árvores. Não havendo gelo, pode haver outra faixa significativa de neve intensa. Na Península Ibérica, além de fortes e prolongados nevões, os ventos, as chuvas fortes e o granizo deixam um generalizado lastro de destruição, panorama que se espera que cesse e que seja remediado.

2026.02.06 – Louro de Carvalho


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