A
24 de fevereiro de 2022, Moscovo, após ter anexado a Crimeia, em 2014, lançou
uma operação militar em grande escala contra o território ucraniano, com o
presidente russo, Vladimir Putin, a justificar o que considerou ser uma “operação
militar especial” com a necessidade de desnazificar e de desmilitarizar o país
vizinho.
Precisamente,
a 24 de fevereiro deste ano, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e
a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chegaram a Kiev, para
assinalarem a coragem ucraniana e o apoio da União Europeia (UE) à Ucrânia. “Quatro
anos de uma guerra de agressão injusta, quatro anos de coragem ucraniana
inabalável, quatro anos de apoio europeu incondicional. Uma determinação comum:
garantir uma paz justa e duradoura na Ucrânia. É por isso que estamos, hoje,
aqui, em Kiev”, escreveu António Costa, numa publicação na rede social X, ao
chegar à capital ucraniana.
Ursula
von der Leyen apontou, no X, que está em Kiev, “pela décima vez, desde o
início da guerra”, “para reafirmar que a Europa está firmemente ao lado da
Ucrânia, financeiramente, militarmente e durante este inverno rigoroso”, “para
sublinhar o compromisso duradouro com a luta justa da Ucrânia” e para “enviar
uma mensagem clara ao povo ucraniano e ao agressor”, de que a UE não desistirá,
“até que a paz seja restaurada”, mas uma “paz nos termos da Ucrânia”.
Por
sua vez, em Bruxelas, o Parlamento Europeu (PE) organizou uma sessão plenária
extraordinária. Nesse sentido, através do X, a presidente do PE, Roberta
Metsola, recordou os quatro anos de “coragem inquebrantável”, sob “imensa
pressão”, mas em que uma nação “se recusa a ceder”, no que tem o firme apoio da
Europa. E vincou: “A História lembrará a valentia e a solidariedade daqueles
que se mantiveram ao lado deles.”
As
interpretações e as expectativas em torno deste quadriénio são diferentes,
consoante o angulo de visão e o interesse.
O
presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que o líder da Rússia não
alcançou os objetivos de guerra, na Ucrânia. “Não quebrou o povo ucraniano. Não
ganhou esta guerra. […] Preservámos a Ucrânia e tudo faremos para alcançar a
paz e para que a justiça seja feita. Queremos paz, uma paz forte, digna e
duradoura”, disse Zelensky, em mensagem vídeo, gravada no “bunker” do gabinete
presidencial ucraniano, em que recordou a conversa telefónica que teve, a 24 de
fevereiro de 2022, com o então presidente dos Estados Unidos da América (EUA),
Joe Biden (que o aconselhara a sair do país), na qual lhe disse que não fugiria
da Ucrânia e que precisava de armas, não de um táxi.
Em
conferência de imprensa, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, considerou que
o apoio do Ocidente à Ucrânia transformou a “operação militar especial” num
conflito mais alargado e porfiou a Rússia continua com os “esforços para
alcançar a paz”, mas que tudo “depende das ações do regime de Kiev”. Assim, embora
esperando que “este trabalho continue”, não se comprometeu sobre quando e onde se
realizará a próxima ronda de negociações com representantes ucranianos. Porém,
como os objetivos da Rússia na Ucrânia não foram totalmente alcançados, disse
que a “operação militar especial” vai continuar.
Na
reunião anual do conselho do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), o
presidente russo acusou os serviços secretos ucranianos de serem os
responsáveis pelo que denominou de “ataques terroristas”, incluindo ameaças a
vários oleodutos, e apelou ao reforço na “luta contra o terrorismo”, incluindo a
defesa das infraestruturas energéticas do país. E, citado pela imprensa
internacional, diz que a Ucrânia apostou no “terrorismo”, porque não conseguiu “derrotar
a Rússia no campo de batalha”.
O
SVR acusou o Reino Unido e a França de estarem a “trabalhar ativamente” para
fornecer uma “arma nuclear ou, pelo menos, uma bomba suja” a Kiev, para
favorecer a posição do país liderado por Volodymyr Zelensky nas negociações de
paz. Sem apresentar provas, o SVR, citado pela imprensa internacional,
considerou que “as elites britânicas e francesas não estão preparadas para
aceitar a derrota”, sendo os seus planos extremamente perigosos e demonstrando
que Londres e Paris “perderam completamente o contacto com a realidade”. E o
porta-voz do Kremlin afirmou que os planos dos dois países são “extremamente
perigosos” e representam “violação flagrante de todas as normas e princípios
das leis internacionais”.
Portugal
está ao lado da Ucrânia e espera que, neste ano, seja possível um acordo para
cessar a guerra. “São quatro anos de sofrimento para todo o povo da Ucrânia, os
seus militares, mas também para imensos alvos civis”, afirmou Paulo Rangel, ministro
de Estado e dos Negócios Estrangeiros, em mensagem publicada nas redes sociais,
destacando a enormidade do grau de destruição causado pela guerra.
“A
violação do direito internacional, da soberania, da integridade territorial e
da Carta das Nações Unidas, de valores em que todos acreditamos é
verdadeiramente dramática”, frisou o governante, sustentando que a invasão
russa da Ucrânia criou “uma nova etapa na vida internacional” e vincando que Portugal
tem uma grande comunidade ucraniana e que tem estado ao lado do país, com apoio
humanitário, financeiro e militar. “Acreditamos no futuro europeu da Ucrânia […]
Celebramos estes quatro anos com tristeza, com preocupação, mas também
acreditando que, em 2026, seja possível um acordo de paz, sustentável,
duradouro, justo”, porfiou o chefe da nossa diplomacia.
Tais
asserções do governante foram acompanhadas das similares do Presidente da
República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do presidente do Parlamento, José Pedro
Aguiar-Branco.
***
A
Rússia conquistou mais território na Ucrânia, no quarto ano do conflito, do que
nos 24 meses anteriores, de acordo com dados do Instituto para os Estudos da
Guerra (ISW).
Desde
o terceiro aniversário do início da ofensiva russa, a 24 de fevereiro de 2025,
as tropas russas avançaram 4524 quilómetros quadrados (km²), mais do que no
segundo e terceiro anos da guerra juntos. A isto juntam-se 731 km² reivindicados
pela Rússia, mas não confirmados pelo ISW, que trabalha com o Critical Threats
Project (parte do American Enterprise Institute), outro centro de análises
norte-americano especializado no estudo de conflitos.
O
segundo ano do conflito, até fevereiro de 2024, terminou com situação
relativamente estável, enquanto o ano seguinte registou a conquista de 4143 km²
(mais 347 km²), reclamados, mas não confirmados). Dos 4524 km² conquistados no
quarto ano do conflito, 2701 km² correspondem a territórios totalmente sob
controlo de Moscovo. Os restantes 1823 km² são territórios onde o exército
russo avançou, mas sem lograr o controlo total. Estas conquistas territoriais
representam 0,8% do território da Ucrânia. Moscovo ocupa, no total, pouco mais
de 19%, a maior parte dos quais foi adquirida nas primeiras semanas do
conflito. E é de referir que aproximadamente 7%, incluindo a Crimeia e áreas de
Donbass, já estavam sob controlo russo ou de separatistas pró-Rússia, antes da
invasão de fevereiro de 2022.
O
quarto ano do conflito foi marcado por rondas de negociações entre as partes
beligerantes e os EUA, com o presidente Donald Trump, a pressionar para uma solução
diplomática, mas o presidente ucraniano indicou que as posições russa e
ucraniana “ainda diferem”, após a última ronda de negociações em Genebra, a 18
de fevereiro.
Na
linha da frente, a principal conquista da Rússia nos últimos 12 meses foi
Pokrovsk, um importante centro logístico no leste do país. Depois de cercar a
cidade, durante mais de um ano, o exército russo reivindicou a sua captura, a 1
de dezembro. E foi nesta parte da linha da frente, na região de Donetsk, que o
exército russo realizou a maior parte dos avanços, totalizando 2787 km², dos
quais 2020 km² foram totalmente conquistados. Em alguns troços, os soldados
russos chegaram até às fronteiras da região de Donetsk, e as suas operações
estenderam-se às regiões vizinhas de Zaporijia e Dnipropetrovsk.
O
exército russo entrou em Dnipropetrovsk em junho de 2025, pela primeira vez,
desde o início do conflito e as suas operações abrangem, agora, pelo menos, 230
km².
Esta
guerra, que se tornou o conflito mais sangrento, em solo europeu, desde a II
Guerra Mundial, entrou no seu quinto ano. Após anos de combates e de bombardeamentos
mortíferos, o número de vítimas continua incerto. De acordo com a última
contagem da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2025, em território
ucraniano, foram mortos quase 15 mil civis e ficaram feridos 40600, mas o
número real de vítimas é “provavelmente muito maior”, sobretudo, devido à
dificuldade de acesso às áreas ocupadas. E os ataques da Ucrânia, em resposta, contra
as regiões fronteiriças russas resultaram em centenas de mortes.
Na
frente militar ucraniana, Zelensky reconheceu, no início deste mês, a morte de
55 mil soldados ucranianos, desde 2022, número considerado subestimado, devido
às dezenas de milhares de desaparecidos. E o exército russo mantém silêncio quanto
às suas perdas, mas, de acordo com o serviço russo da BBC e com o órgão
de comunicação social russo Mediazona, que citam dados de fontes
abertas, sofreu mais de 177 mil mortes.
***
Após
uma reunião da Coligação dos Dispostos que assinalou os quatros anos da invasão
russa, os líderes do Reino Unido, da França e da Alemanha reafirmaram o “compromisso
inabalável” para uma paz duradoura na Ucrânia. Em declaração conjunta, reforçam
que “as fronteiras internacionais não devem ser alteradas pela força”, saúdam
os esforços dos EUA nas negociações de paz, que “devem envolver todas as partes
relevantes, e instam a Rússia a “concordar com um cessar-fogo total e
incondicional”. Além disso, consideram que a Coligação dos Dispostos deve
desempenhar um papel nas “garantias de segurança em vários níveis”, que incluem
uma “força multinacional para a Ucrânia”, com o apoio dos EUA.
O
governo britânico anunciou quase 300 novas sanções contra a Rússia e mais ajuda
financeira, à Ucrânia, num esforço para intensificar a pressão sobre o regime
de Vladimir Putin. Estas medidas visam o setor energético russo, redes
internacionais de comércio ilícito de crude e empresas fornecedoras de
equipamentos militares ao exército russo, nomeadamente, a empresa PJSC
Transneft, responsável pelo transporte de mais de 80% das exportações de
petróleo. E também sancionou também 48 navios petroleiros e 175 empresas
ligadas à rede “2Rivers”, uma das maiores operadoras da “frota sombra” de
Moscovo.
Estas
restrições enquadram-se num esforço coordenado com aliados internacionais e já
privaram o Kremlin de mais de 450 mil milhões de dólares, desde o início da
guerra, o equivalente a dois anos de financiamento do esforço militar
russo. As receitas petrolíferas russas estão no nível mais baixo, desde
2020. E o número total de pessoas, de empresas e de embarcações sancionadas
pelo Reino Unido, no regime de sanções à Rússia, ultrapassa as três mil.
O
pacote anunciado inclui sanções contra nove bancos russos, contra três empresas
do setor da energia nuclear e contra seis operadores de gás natural liquefeito,
entre os quais os terminais de Portovaya e Vysotsk.
Desde
2022, o apoio britânico total à Ucrânia ascende a 21,8 mil milhões de libras. A
nova ajuda corresponde a 20 milhões de libras, para reparação de
infraestruturas energéticas, a 5,7 milhões de libras, para assistência
humanitária a civis em zonas de combate. E o restante financiará programas de mentoria médica e de treino de
pilotos de helicóptero ucranianos no Reino Unido.
Durante
o discurso no PE, por videoconferência, Volodymyr Zelensky desafiou a UE a
definir uma data clara para a adesão da Ucrânia ao bloco comunitário. “Se não
existir essa garantia, [o presidente russo], encontrará uma forma de bloquear a
Ucrânia, durante décadas, dividindo-a e dividindo a Europa”, argumentou, não
sem agradecer à UE a “posição firme” contra a “agressão russa”, durante “todos
esses anos”, e reforçou a importância da aplicação de sanções contra Moscovo e
das garantias de segurança.
A
Ucrânia nunca escolheu esta guerra”, disse Zelensky, referindo que tentou tudo
para a impedir.
***
Durante
uma cerimónia na sede da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), que
assinalou o quadriénio da invasão russa, o secretário-geral afirmou que “é
imperativo que a Ucrânia continue a receber a ajuda militar, financeira e
humanitária de que necessita”, para que “se possa defender do terror russo
vindo dos céus e manter as suas linhas da frente”. Para Mark Rutte, “a Ucrânia
precisa de munições, hoje e todos os dias, até que o derramamento de sangue” termine;
e o presidente russo “precisa de mostrar se está a falar a sério sobre a paz”, visto
que “o povo ucraniano merece uma paz justa e duradoura” e “não pode haver
verdadeira paz na Europa sem verdadeira paz na Ucrânia”.
Para
o presidente francês, a invasão da Ucrânia é “triplo fracasso para a Rússia” a
nível “militar, económico e estratégico”. Numa longa mensagem divulgada nas
redes sociais, Emmanuel Macron referiu-se a “quatro anos de uma guerra de
agressão”, em “flagrante desafio ao direito internacional, à soberania de um
povo e à vida humana”, elogiou a firmeza e a resistência da Ucrânia à guerra e ao
frio e prometeu: “Aqueles que pensam que podem contar com o nosso cansaço:
estão enganados. Estamos, e vamos manter-nos, ao lado da Ucrânia.”
No
atinente à assistência financeira, militar, humanitária e energética, Macron disse
que “a Europa já mobilizou 170 mil milhões de euros”, recordou que, em
dezembro, no Conselho Europeu, foi acordado “um empréstimo de 90 mil milhões de
euros, para fornecer à Ucrânia um financiamento previsível nos próximos dois
anos”, e que o acordo vai ser cumprido.
***
Portugal
também sentiu, duramente, os efeitos do conflito. O corte do fornecimento
de gás e de cereais do Leste pressionou os preços da energia e levou o
Banco Central Europeu (BCE) à mais rápida subida de taxas de juro da
sua História. O custo de vida disparou e os Portugueses sentiram-no como
nunca tinha acontecido, em três décadas. E tragédia humana da guerra também cá chegou:
em seis semanas após a invasão, mais de 27 mil cidadãos ucranianos tinham
pedido e obtido proteção temporária em Portugal.
Quatro
anos depois, a inflação média anual, que chegou a 7,8% do produto interno bruto
(PIB), voltou a perto da meta do BCE, de 2% do PIB, os juros do crédito à
habitação desceram e o país aproveitou o crescimento para reduzir a dívida
pública a mínimos de décadas. Em 2025, o Banco de Portugal confirmou que
a dívida pública caiu para 89,7% do PIB, superando a meta do governo, que
apontava para 90,2%. E o número de Ucranianos residentes decresceu. Porém,
o cabaz alimentar custa 35% mais do que antes da guerra, e os juros, embora
mais baixos, continuam longe dos valores negativos que tornaram o crédito
barato, durante anos.
Enfim,
a guerra destrói, desloca, fere e mata; os bens escasseiam; e a resiliência impõe-se.
2026.02.24
– Louro de Carvalho
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