De
acordo com um comunicado enviado às redações, a 17 de fevereiro, a ministra do
Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, determinou a realização de um
estudo técnico, económico e regulatório sobre a adaptação do Sistema Elétrico
Nacional às alterações climáticas.
O estudo, a contratar pela Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) e a concluir no prazo máximo de seis meses, segundo o referido comunicado, debruçar-se-á “sobre a identificação de áreas críticas com maior exposição a incêndios rurais ou [a] fenómenos meteorológicos extremos” e avaliará, “comparativamente, soluções técnicas que melhor se adequem a essas áreas, como o reforço estrutural de linhas aéreas, o enterramento total ou parcial, soluções híbridas e tecnologias de reforço de resiliência”, assim como avaliará “o custo-benefício de cada solução e impactos na continuidade de serviço e na tarifa”.
O estudo, a contratar pela Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) e a concluir no prazo máximo de seis meses, segundo o referido comunicado, debruçar-se-á “sobre a identificação de áreas críticas com maior exposição a incêndios rurais ou [a] fenómenos meteorológicos extremos” e avaliará, “comparativamente, soluções técnicas que melhor se adequem a essas áreas, como o reforço estrutural de linhas aéreas, o enterramento total ou parcial, soluções híbridas e tecnologias de reforço de resiliência”, assim como avaliará “o custo-benefício de cada solução e impactos na continuidade de serviço e na tarifa”.
O
ministério liderado por Graça Carvalho, determina que o estudo deverá apresentar
a estimativa dos investimentos necessários, a proposta de adaptação
metodológica dos instrumentos de planeamento (a ser incluída nos próximos
ciclos do Plano de Desenvolvimento e Investimento da Rede Nacional de
Transporte e do Plano de Desenvolvimento e Investimento da Rede Nacional de
Distribuição), bem como “um plano faseado de implementação, com definição
de prioridades, calendarização indicativa e fontes de financiamento”. E, lembrando
que a Comissão Europeia reforçou “o financiamento e a simplificação regulatória
para investimentos em infraestruturas resilientes e inteligentes, através do
recente Grids Package”, considera que “Portugal poderá captar investimento
europeu para a necessária transformação da sua rede”.
A
urgência na reavaliação dos critérios de planeamento, designadamente, quanto à
robustez das infraestruturas, à seletividade de enterramento de linhas em áreas
críticas e à incorporação de métricas de resiliência nos processos de decisão
ficou vincada nos efeitos da tempestade Kristin, que provocou perturbações
significativas no Sistema Elétrico Nacional.
Graça
Carvalho diz, citada no comunicado, que o planeamento e o desenvolvimento das
redes elétricas “têm de garantir a segurança, [a] fiabilidade e a qualidade do
serviço” e que “estamos obrigados a adaptar o sistema elétrico às
exigências do presente e necessidades do futuro para evitar disrupções de
serviço e assegurar a segurança no abastecimento”.
O
governo já concluiu a revisão da Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações
Climáticas (ENAAC 2030) que, tendo estado em consulta pública, seguirá o
processo de aprovação legislativa, “o que representa um avanço na forma como
devemos lidar com os impactos das alterações climáticas, inclusivamente, ao
nível das infraestruturas energéticas”.
Também
a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em conjunto com especialistas em
hidráulica, vai reavaliar os modelos de gestão, de vigilância e de governação
do risco de cheias na bacia do Mondego – uma decisão resultante de despacho aprovado, a 18
de fevereiro, pela ministra do Ambiente e Energia, que determina uma avaliação
urgente do sistema.
Após
uma reunião com o presidente da APA e vários técnicos, na sede da autoridade
ambiental, a governante recordou, em declarações aos jornalistas, que “o
projeto foi desenhado nos anos 70 e 80, por quem mais sabia de hidráulica”, mas
que, agora, temos de o revisitar e adaptá‑lo ao cenário das alterações
climáticas, garantindo a segurança de pessoas e bens”.
O
despacho prevê a revisão do projeto dos diques do Mondego, por motivos
óbvios, e a avaliação da gestão das restantes bacias hidrográficas, nomeadamente,
as do Tejo e do Sado, onde foram identificadas dificuldades na gestão
articulada de barragens hidroagrícolas.
O
trabalho da APA com os especialistas em hidráulica atualizará o modelo de
proteção e de controlo de cheias, avaliando tanto a capacidade e a adequação
das infraestruturas físicas como o modelo hidráulico e o sistema de governança
em contexto de crise, o que implica o reforço de “um sistema de cogestão em
tempo de crise, com presidentes de Câmara, agricultores e industriais, para que
as decisões sejam rápidas, como foi desta vez”.
No
balanço das sucessivas tempestades das últimas semanas, Graça Carvalho destacou “a
articulação” entre APA, autarquias, Proteção Civil e governo, que julgou
“decisiva para minimizar os impactos das cheias”. E recordou dois momento nevrálgicos:
a retirada de populações, quando o caudal se aproximava do limite de segurança
e o corte da A1, após o rompimento do dique – tudo na lógica de prevenção
e de união que levou ao salvamento de muitas vidas.
O
presidente da APA, José Pimenta Machado, lembrou que, durante um mês, a gestão
das barragens assentou na ideia de “provocar pequenas cheias controladas, para
evitar uma cheia descontrolada”. E, sobre críticas à manutenção dos
diques do Mondego, defendeu o trabalho feito, afirmando que estes “funcionaram,
exatamente, dentro das especificações” e que “o projeto respondeu melhor do que
estava previsto”, uma vez que houve monitorização permanente, incluindo com
drones.
O
governo está, agora, a preparar a agenda de pós‑crise que inclui o reforço da
resiliência da rede elétrica, um estudo da DGEG e o plano nacional para
robustecer infraestruturas, a apresentar, em breve, ao primeiro‑ministro. Entre
as medidas, destaca‑se a abertura, até final de março, do concurso para
a barragem de Girabolhos – obra que, embora não evite cheias desta
dimensão ajudará a controlar melhor o caudal do Mondego. Aliás, como Graça
Carvalho defende, a construção de barragens não é, por si só, resposta
suficiente, pois é preciso apostar em soluções baseadas na Natureza, como
bacias de retenção, e na gestão rigorosa do território.
Ante
a destruição de casas na Costa da Caparica, devido à derrocada de arribas, a
ministra do Ambiente e Energia admitiu que Portugal “cometeu muitos erros
urbanísticos, nas décadas de 70, 80 e 90”, deixando, hoje, centenas de famílias
em risco”. Ora, como indicou, não faz sentido reconstruir em zona de risco,
pelo que as pessoas terão de ser realojadas noutro sítio. Contudo, esclareceu
que, ao invés das zonas de arribas ou de domínio público marinho, onde não
deverá haver reconstrução de casas recentes, a situação será diferente em áreas
de leito de cheia habitadas há muitas décadas. E reiterou que “a adaptação às
alterações climáticas é uma linha de ação urgentíssima” e que deve ser
equacionado “todo o tipo de adaptação, incluindo o recuo”, em alguns casos,
como o que foi feito na ilha de Faro, em anos recentes.
O
governo tem em curso restrições de acesso e estudos urgentes sobre arribas, em
vários pontos do litoral algarvio. E Graça Carvalho admitiu que será necessário
reforçar o financiamento do Programa Sustentável 2030, dada a crescente
necessidade de intervenções. A reposição de areia realizada no último ano em
várias praias demonstrou eficácia: “As praias onde fizemos reposição ficaram
muito mais protegidas”, observou.
Para
Pimenta Machado, “o mais importante é a prevenção e o ordenamento do
território”.
***
Já
a depressão Cláudia, de meados de janeiro, nas regiões de Setúbal, do Porto e do
Algarve, expunha urbanismo mal planeado. Os impactos da depressão, com um tornado em Albufeira, não foram sentidos só em Portugal, mas também na
Espanha, na Irlanda, na Inglaterra e no País de Gales, tendo sido registadas
cheias em diferentes localidades.
Isto ocorreu, após terem sido noticiadas, cada vez mais, as consequências de fenómenos meteorológicos extremos, de que foi exemplo a DANA (Depressão Isolada a Níveis Altos), que assolou a Espanha e, em particular, a região de Valência, em outubro de 2024, que fez mais de 200 mortes. E, um ano depois, a ilha espanhola de Ibiza registou inundações severas e a França sentiu o impacto da tempestade Benjamin.
Isto ocorreu, após terem sido noticiadas, cada vez mais, as consequências de fenómenos meteorológicos extremos, de que foi exemplo a DANA (Depressão Isolada a Níveis Altos), que assolou a Espanha e, em particular, a região de Valência, em outubro de 2024, que fez mais de 200 mortes. E, um ano depois, a ilha espanhola de Ibiza registou inundações severas e a França sentiu o impacto da tempestade Benjamin.
O
climatologista do Instituto Dom Luiz (IDL), da Universidade de Lisboa, referiu
que estes fenómenos não são inauditos em Portugal. “As depressões frias ocorrem,
com frequência, em Portugal, e, muitas vezes, são responsáveis por inundações, explicitou,
considerando que “há mais energia disponível para se converter em movimento” ou
“para alimentar ventos fortes”, tornando essas ocorrências mais prováveis. Por
outro lado, as alterações climáticas levam a um contraste mais baixo entre
o Norte frio, o Norte polar e o Sul equatorial quente.
Apesar
de todos os radares, da observação com satélite, das estações de superfície e dos
modelos numéricos existentes, ainda há observação insuficiente, ao nível de uma
camada na baixa troposfera. Assim, é possível indicar, com vários dias de
antecedência, que uma tempestade ou depressão impactará o território nacional, mas
isso não se aplica à ocorrência de tornados.
Cabe
às competentes autoridades, nomeadamente, à Proteção Civil, agir em
conformidade com os avisos meteorológicos do Instituto Português do Mar e da
Atmosfera (IPMA) e às populações acatar as recomendações das autoridades, num
apurado sentido cívico, evitando a corrida a zonas de risco, por motivos de
curiosidade ou de turismo.
Alguns
especialistas apontam o problema de literacia climática, sustentando que há falta
de cultura do risco. Neste sentido, consideram que tem de haver muito mais
progresso, no atinente às infraestruturas e à prevenção. Efetivamente,
abundam os exemplos: continuam a registar-se cheias, por deficiências na
limpeza de canais de escoamento e pela inexistência de melhores esgotos; não há
drenagens adequadas; há construções perto de linhas de água, sobre potenciais
leitos de rios e junto à linha de costa.
Segundo
a APA, Portugal continental apresenta 63 áreas de risco, potencialmente
significativo, de inundações, podendo afetar mais de 100 mil habitantes em
território.
***
Paulo
Fernandes, coordenador da Estrutura de Missão e Reconstrução da Região Centro
do País, sediada na Comunidade Intermunicipal (CIM) da Região de Leiria e criada
na sequência do mau tempo, a 18 de fevereiro, defendeu a criação do Livro
Branco do Dano, sustentando que o mínimo era deixar um planeamento a sério, para
a próxima década.
Aos jornalistas, em Leiria, em conferência de imprensa sobre o ponto de situação do levantamento de prejuízos e dos apoios atribuídos, até ao momento, Paulo Fernandes afirmou que, face aos fenómenos meteorológicos extremos, tem de se “olhar para isto de outra maneira”, incluindo a “governança destes processos”. E apontou a necessidade de tornar mais resiliente o cidadão, a empresa, a associação, o município, enfim, todas as entidades coletivas, assim como de pensar “como é que os princípios da nova sustentabilidade, das novas economias, dos novos modelos, dos serviços de ecossistema também podem ajudar as estruturas produtivas”.
Aos jornalistas, em Leiria, em conferência de imprensa sobre o ponto de situação do levantamento de prejuízos e dos apoios atribuídos, até ao momento, Paulo Fernandes afirmou que, face aos fenómenos meteorológicos extremos, tem de se “olhar para isto de outra maneira”, incluindo a “governança destes processos”. E apontou a necessidade de tornar mais resiliente o cidadão, a empresa, a associação, o município, enfim, todas as entidades coletivas, assim como de pensar “como é que os princípios da nova sustentabilidade, das novas economias, dos novos modelos, dos serviços de ecossistema também podem ajudar as estruturas produtivas”.
Paulo
Fernandes, advertindo que estas “são questões de nova geração de que estas
regiões têm de ser modelo”, declarou: “Temos de aproveitar essa possibilidade
de, neste momento, estarmos tão disponíveis para pensar, de outra maneira, o
futuro, perante o drama que estamos a viver, [que] temos de tornar isso,
obviamente, algo positivo e algo congregador, mas também algo que nos
transporte para as questões da inovação e da competitividade.”
O
coordenador da Estrutura de Missão vincou a importância da inovação, da diversificação
e da competitividade, bem como da sustentabilidade e daquilo que são “as
abordagens de interligação entre territórios, comunidade científica [e]
empresas”. “Esse triângulo virtuoso tem de aqui funcionar mesmo e daquilo que
vi, da capacidade instalada, é preciso juntar mais as peças e pôr o guião a
funcionar”, declarou, chamando-lhe “Visão Estratégica 2035”.
Para
Paulo Fernandes, é preciso fazer a leitura dos danos e promover a sustentabilidade
e a resiliência, bem como a inovação e a competitividade e uma “economia
socialmente mais justa”.
Na
sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta Morreram, em
Portugal, 18 pessoas, a que se juntam muitas centenas de feridos e de desalojados,
bem como destruição total ou parcial de casas, de empresas e de equipamentos, a
queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, de escolas e dos serviços
de transporte, e o corte de energia, de água e de comunicações, as inundações e
as cheias. E estas são as principais consequências do temporal que afetou, sobretudo,
as regiões do Centro, de Lisboa e Vale do Tejo e do Alentejo.
***
Claro
está que as alterações climáticas e os riscos de sismo postulam a prevenção e
um novo paradigma no ordenamento do território, no âmbito das infraestruturas e
da localização e da construção das casas. E não deve ser descurado o sentido
cívico das pessoas, bem como a promoção da literacia climática. Porém, há outro
fator a equacionar: o seguro anticatástrofe.
Neste sentido, é de recordar que o governo, ao anunciar a criação de um fundo para catástrofes naturais e sismos, referiu o exemplo da Espanha. E, a esse respeito, um périplo pela União Europeia (UE) dá a dimensão do panorama.
Neste sentido, é de recordar que o governo, ao anunciar a criação de um fundo para catástrofes naturais e sismos, referiu o exemplo da Espanha. E, a esse respeito, um périplo pela União Europeia (UE) dá a dimensão do panorama.
Um inquérito
realizado pela Agência Europeia do Ambiente (AEA) revela que 40% dos cidadãos tem
apólice que cobre os riscos climáticos. Além dos microestados, os países com as
taxas mais elevadas de agregados familiares segurados são a Eslovénia (66%), a
Hungria (58%), a Chéquia (53%) e a França (51%). No extremo oposto, estão a
Bulgária (27%) a Grécia (23%), a Croácia (25%) e a Suécia (18%). Porém, se os Europeus
estão a garantir a sua riqueza, o mesmo não se pode dizer das medidas de
proteção física das suas propriedades contra as inundações. Segundo a AEA, 87%
dos agregados familiares não dispõe de medidas de proteção contra as
inundações, tais como sistemas de drenagem ou barreiras contra as inundações.
E, no Sul da Europa, talvez a zona de maior risco no continente, o número sobe
para 89%, com percentagens mais elevadas de propriedades desprotegidas na
Itália (90%) e na Espanha (93%), países reiteradamente atingidos por fenómenos
meteorológicos extremos, nas últimas décadas.
Além
da preparação pessoal, os níveis de preocupação são elevados, sobretudo, no Sul
e no Centro. Os Gregos são os mais preocupados, na UE, com inundações graves
(94%), seguidos dos Portugueses (91%) e dos búlgaros (90%). Porém, 17,5% dos Espanhóis
diz que não se preocupa com os riscos de inundações e 14% dos Italianos diz o
mesmo.
Na
maior parte da Europa, a fraca perceção das medidas preventivas, da parte das
autoridades, aumenta a preocupação. Na UE, 76% dos inquiridos diz não ter visto
quaisquer sistemas de atenuação das inundações perto das suas casas, como diques
ou lagoas de retenção de águas pluviais. A perceção é mais elevada, no atinente
aos avisos ou alertas de condições meteorológicas extremas, como mensagens de
texto, chamadas ou cobertura mediática, com 43% dos cidadãos da UE a não terem
reparado neles, na sua área local. A Polónia (93%) tem a taxa mais elevada de
perceção de alertas públicos, seguida de Portugal (90%), da Roménia e do
Luxemburgo (ambos com 86%) e da Grécia (85%).
***
Ora,
apólices de seguros, proteção física das propriedades (privadas e públicas), preocupação
moderada e avisos das autoridades são também formas de prevenção e facilitam o ordenamento
do território.
2026.02.18
– Louro de Carvalho
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